domingo, 2 de julho de 2006

o interruptor

Na sexta-feira saí à noite em Lisboa.
Um verdadeiro evento, tendo em conta que a minha frequeencia de bares e discotecas poder-se-ia dizer limitada aos aniversários do rei. Mas, como estava com antigos colegas de faculdade e extremamente bem disposto (e convenientemente perto de casa), lá estava eu, ainda acordado à 3 da manhã, a dar um (minusculo) pézinho de dança.

Depois de restaurante e bar, o nosso heterogéneo grupo foi acabar a noite numa festarola que decorria num bar/sítio que nunca associei a nada gay, mas, assim que lá entrámos, o meu gaydar disparou e desatou a apitar em todas as direcções. A princípio, julguei que era o sistema avariado, resultado de muito tempo passado dentro casa e falta de exposição a menores de 30 anos. Mas, uma avaliação fria e racional acabou por me confirmar que o gaydar raramente falha ou avaria.

Quando chegámos abanava-se a anca com umas "inofensivas" Bangles e Katrina and the Waves, mas o que parecia um ocasional êxito dos Wham ou um toque portuga com António Variações, encarreirou com os Communards, meteu-se pela Donna Summer e para o resto da noite já não conseguiu sair de uma areia movediça de Chic, BonneyM e semelhantes lantejoulas musicas do anos 70. Suava-se em bica, e quem não dançava era maricas. Ou seja, a noite foi peneirando os heteros para fora da pista de dança e rapazitos e rapazitas, que inicialmente pareciam apenas felizes, às tantas não hesitavam em demonstrar publicamente o seu afecto. Era bonito. Era simples e táva-se bem. E eu nunca tinha estado num bar ou discoteca gay português que fosse assim, tão à vontade, tão descomprometido.

E hoje pus-me a pensar. Será que aquele evento se tornou “gay” precisamente porque não era suposto ser gay? E, se fosse suposto ser, teria alguma vez conseguido atingir com tanta facilidade aquele saudável nível de bem estar e convívio social entre heteros e homos? (E alguém consegue ler esta frase anterior sem se sentir com prisão de ventre?)

Num post que li recentemente no blog do Miguel Vale de Almeida, ele comentava a fraca adesão à marcha e arraial gay (aos quais eu não fui com uma muito boa desculpa (possivel variante do mesmo alibi de todos os que não foram mas acham que deveriam ter ido)). Dizia ele algo que digeri assim: Se calhar estes modelos de marcha e festa de orgulho gay têm pouca adesão porque são um modelo importado que não se aplica bem ao nosso tecido social.

Parece-me que isto aponta numa boa direcção. Nós somos um povo que se caracteriza pela fraca adesão, passividade (no sentido normal da palavra) e falta de espontâniedade.
Veja-se as taxas de abstenção nas eleições.
Veja-se a duração da nossa ditadura.
Veja-se a mínima quantidade de tiros e sangue na revolução de 25 de Abril.
Veja-se os nossos desfiles de carnaval

E no entanto...
Veja-se o que acontece quando a selecção ou um dos três principais clubes de futebol ganham um jogo/campeonato.
Veja-se o funeral da Amália, do Àlvaro Cunhal e daquele miúdo dos Morangos com Açúcar
Veja-se o Coliseu a esgotar com o Tony Carreira e as longas temporadas dos musicais do LaFéria.

Hummm...

Faz de facto falta animar a malta, nisto do activismo, solidariedade e visibilidade gay em Portugal. Mas a malta não se anima apenas gritando "animem-se!". É preciso descobrir o interruptor que ligue a espontãniedade de todos os rabetas, fufas e travecas portugueses. Principalmente o interruptor daqueles que permanecem ainda mais desligados quando acham que esse interruptor vai mostrar apenas rabetas, fufas e travecas e não a simples verdade: pessoas. Um grupo socialmente muito diversificado de pessoas.

Estas comemorações do orgulho gay junino têm origem na carga de porrada que rabetas, fufas e travecas americanos deram aos polícias que faziam uma rusga num bar na noite da morte da Judy Garland. Fizeram muito bem e pessoalmente não tenho o menor problema em acenar uma bandeirola multicolorida nesse dia para o comemorar, mas, pensando bem, que grande estímulo é afinal esse para um simples portuguesinho?

Na sexta-feira à noite, a malta à minha volta estava de facto animada. Espontâneamente. Sem precisar de bandeirola para demarcar território ou de uma data especial para socializar e se misturar no mundo. E se alguém tivesse ido lá chatear tinha de certeza apanhado uma carga de porrada. E tenho a certeza de que se isto aconteceu à minha frente na sexta-feira pode acontecer noutros dias.

Agora, onde raio fica este interruptor da naturalidade e espontâniedade dos homossexuais portugueses? E como se liga?

Alguém vá lá saber, sff.

2 comentários:

Anónimo disse...

Daniel:
Gostei do que li e gostei que fosses tu o escrevê-lo. É bom que assim seja, pois certamente torna bem mais interessante a consulta e a participação neste teu blogue. Parabéns! Espero mais...

Um amigo

duarte disse...

Olá!
Li o Olhos de Cão há dois,três anos. Muito fixe. Fui pegar-lhe e em relação a este post "E depois tem tudo o gostinho extra de ser proibido" dá que pensar. A demonstração pública e espontânea e em pleno dia, na rua ou qualquer espaço público, é que é capaz de ser um interruptor mais complicado.