terça-feira, 25 de abril de 2006

cliche x2

Má sorte é apanhar com o mesmo cliché 2 dias de seguida:

"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)

Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.

No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.

Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.

O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).

É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!

Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.

Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)

Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)

4 comentários:

Mister Agá disse...

oh...

tb tenho uma maquineta dessas!´
e tb gostei bastante do joana d'arc.

vou ali e já venho.
Mister Agá

João M disse...

eu também tenho entradas qb, e tenho por vezes a tentação de cortar o cabelo muito muito curto, só para saber se vou ser giro quando for careca. acabo por nunca o fazer porque tenho medo ser feio quando for careca. na cena em que o Melvil Poupaud rapa o cabelo, pensei isto: se eu rapar o cabelo, serei bonito como o Melvil Poupaud.
<3

Daniel J. Skråmestø disse...

Eu fiquei muito contente uma vez que vi o Keanu Reeves com barba e constatei que a dele é tão mal semeada e assimétrica como a minha.

Anónimo disse...

Foi das coisas que me escapou à atenção. Afinal ele rapa o cabelo já na fase de degradação física e não me lembro se por acabar por aceitar fazer a quimioterapia. De qualquer forma ele não se auto sacrifica, pois nessa altura já resolveu o que o atormenta. Mais um ritual de um condenado que é o que ele é. Aceitação da morte,sim.