terça-feira, 13 de setembro de 2005

Abracadabra

O Miguel Vale de Almeida no seu blog escreveu um comentário curioso acerca do programa Esquadrão G.
Cito:

"o mais curioso da noite foi isto: nem no programa propriamente dito, nem no stunt publicitário com a presença do Esquadrão no programa de Herman José, logo a seguir, alguma vez se referiu sequer que os rapazes são gay. Isto é, a sua gayness desapareceu depois do anúncio do programa nas últimas semanas. A sua gayness surge apenas confirmada nos sinais exteriores de... gayness - coisa que só pode acontecer se esses sinais forem os de um estereótipo*. Circularidade absoluta. O silêncio foi tal que quase suspeito que fosse combinado."

Essa do silêncio é de facto curiosa. Começa pelo nome do programa que prefere "G" a "Gay" com as letras todas.
Faz-me lembrar o You-know-who, o Voldemort dos livros do Harry Potter. Parece que não chamar as coisas pelos nomes nos protege do mal.

Isto recorda-me também um dos momentos mais divertidos da minha vida, quando fui pela primeira vez aos escritórios da minha editora para falar sobre o livro "Olhos de cão" e discutir o contrato. Em quase duas horas a conversar sobre o que eu tinha escrito nunca ninguém se atreveu a dizer as palavras "gay" ou "homossexual". Falava-se em "público específico", "tema invulgar na literatura portuguesa" mas andava-se ali à volta da coisa como se ao chamá-la pelo nome se conjurasse o diabo.

O mesmo na apresentação dos livros da Ana Zanatti. Falava-se na coragem dela escrever aquele livro mas não se explicava porque é que a coisa implicava coragem. Parece que se prefere viver num mundo de subentendidos...

Curiosamente, na contracapa do meu livro ninguém se atreveu a censurar a palavra "homossexualidade" que eu escarrapachei propositadamente na sinopse. Motivo porque alguns potenciais leitores que pegam no livro nas livrarias acabam depois por o largar apressadamente como se tivesse pegado na peste...

4 comentários:

João M disse...

Comentário de um colega de trabalho: "o G é de gay?". :-)

Olha que nas entrevistas que tenho lido nas revistas do social, os rapazes são bastante assumidos e chamam as coisas pelos nomes. Eu só vi um bocadinho do programa, e acho que mais facilmente me aparecia a nossa senhora do que aquilo não ser feito à base de estereotipos. Nestas coisas sinto-me sempre diferente por não ficar indignado.

Daniel J. Skråmestø disse...

Eu não estou indignado (talvez porque só vi 3 segundos do programa e não leio as revistas do social?).
Estou num estado que talvez se defina melhor como "ironicamente divertido".

PA disse...

Assumidos são, mas nao concordo com este tipo de programas. Mais uma vez passamos a ideia aos portugueses que ser gay é ser muito feminino, entender muito de etiqueta, mais uma vez, os 'Castelos Brancos' é que são gays. Nada disso, qualquer pai pode ter em casa um gay e nunca o saber. Concordo contigo quando dizes que ainda ha demasiado pudor em se expor a palavra 'gay' ou 'homosexual'... As pessoas gostam de tapar os assuntos que lhe incomodam. Ha que ser frontal, ser gay é tão natural como a sua sede... a frase é 'feita', mas exprime bem aquilo que sinto. Não gosto de ser homosexual, mas se o sou, tenho que me amar com sou. Sê feliz... e conto contigo no meu blog http://duvidasgay.blogspot.com
Um abraço enorme

Daniel J. Skråmestø disse...

algumas coisas que me ocorrem quanto ao teu comentário:

1- o Castelo branco sempre negou ser gay

2- os pais nunca sabem que os filhos são gays a menos que estes lhes digam

3- o programa é feito para entreter uma maioria hetero e não para defender a imagem que os gays entendem ser a politicamente correcta

4- continuo a preferir esta imagem do gay efeminado do que revelar ao mundo a triste realidade que é a de que 90% dos gays são feios, broncos e desinteressantes. Deixem viver o mito.