segunda-feira, 11 de setembro de 2006

O que é que nao fica BEM aqui?


Concedo que o pessoal dos jornais não deva ter muito tempo para pensar no que faz, mas há coisas que são de um mau gosto flagrante.
Ninguém na redacção repara que a fotografia de um homem a cair de um prédio não bate bem com a manchete "Rendas só podem subir"?
E que qualquer caricatura torna o assunto que retrata risível? Mesmo que seja o Bin Laden vestido de morte ceifadora?
E que aquela caricatura interfere da pior maneira com aquela foto, tirando-lhe toda a dignidade que tem?

O bom gosto pode ser uma arma. O mau gosto é quase sempre um tiro no pé. Eis uma prova.

Regresso a Deadwood


Confesso: Cowboys não são a minha coisa. No entanto, para além da Montanha do Quebra-Costas, há outro sítio no Oeste que me assobra o imaginário: a cidadezinha de Madeira Morta, ou Deadwood.

Comecei finalmente a ver a terceira temporada desta magnífica série da HBO e fico contente de confirmar que continuam a colocar a fasquia na marca mais alta a que uma série de televisão alguma vez se atreveu e a saltar graciosamente por cima dela em cada episódio.

Para além dos inenarráveis diálogos, cravejados dos maiores palavrões jamais ouvidos em televisão, envoltos em arabescos gramaticais do séc. XIX, para além dos desempenhos milagrosos da maioria dos actores. para além de uma direcção de arte impressionante e irrepreensível, há também uma notável mestria de iluminação e fotografia.
Episódios como "Unauthorized cinammom" passado quase exclusivamente à noite em interiores iluminados a vela e candeeiros a petróleo dão vontade de bater palmas. Apenas para termos de reconhecer a obra prima de captação de luz no episódio seguinte que começa com a luz fria da madrugada e nos vai guiando ao longo das faces de um dia que termina nos tons de fogo e sangue que prenunciam tempos violentos para a cidade.

Mais do que uma simples série de televisão, é uma apaixonante experiencia audiovisual. Mais do que uma lição sobre civilização e progresso, Deadwood é o sítio mais desagradável do mundo que não queremos deixar de habitar.

http://www.hbo.com/deadwood/

Policia

A semana passada tive de voltar a uma esquadra da PSP para fazer mais uma queixa contra os meus vizinhos psico-sociopatas.

Como fui para lá directamente depois de ter sido agredido, tinha os joelhos esfolados e a sangrar. Enquanto dava os meus dados e depoimento, pedi ao polícia que dactilografava com um dedo para me arranjar um algodão e alcool para limpar as feridas. Ele pediu imensa desculpa mas a esquadra não tinha qualquer material de primeiros socorros. Nem um simples algodãzito, nem um penso, nem uma garrafita de água oxigenada.
Perguntei-lhe o que é faziam quando na esquadra se cortavam com o papel. Ele riu-se e disse que chupavam no dedo.

Mas não é mau de todo passar uma hora numa esquadra de polícia. Não sei porquê, nas esquadras nunca encontrei aqueles polícias gordos e mal dispostos que se vêm na rua. Cada vez que vou a uma (graças aos vizinhos psico-sociopatas) está sempre cheia de gajos giros que vestem bem o uniforme e são simpáticos e atenciosos. Do mal o menos.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Colina abaixo... e acelerando!

Hoje ja posso por a cruz em mais um item que garante que estou na curva descendente:

- fui a uma consulta em que o médico era mais novo do que eu

Alguns dos items anteriores:
- queda de cabelo/cabelos brancos
- achar que alguns políticos são sexy
- Ser batido pelos sobrinhos em jogos da playstation
- antigos colegas de escola divorciados ou com mais de dois filhos

terça-feira, 5 de setembro de 2006

no DVD - V de Vendetta


Ontem aluguei o filme "V de Vingança" pelo simples motivo de que havia pouco por onde escolher no meu clube de video. Confesso que esperava muito pior, tendo em conta as criticas que li na altura em que estreou. Afinal não achei o filme nada mau. Antes pelo contrário.

Reduzindo o argumento a números, pode-se dizer que é uma espécie de 1984 pós 9-11. ( Com a curiosidade de ter o John Hurt a fazer de "Big Brother", ele que no 1984 era a vítima do sistema. Coincidência? Não me parece...)

Convenhamos, o filme é demagógico, falacioso, retórico e tenta desesperadamente ser politicamente interventivo. E parece provocadoramente pro-violência e pro-terrorismo. Mas embora ande a brincar com o fogo ideológico, curiosamente só se chamusca ligeiramente.

Passeia-se airosamente entre o género de acção e o triller de conspiração política com um toquezinho de romance e nunca se deixa cair em nenhum género cinematográfico. Pisca o olho a mil e uma referências cinematográficas, pictóricas, históricas, musicais e no entanto mantém uma personalidade própria. Tem tudo para não gostarmos dele e no entanto... não se desgosta.

Provavelmente o filme acaba por convencer por beber da personalidade da personagem do terrorista V. Tem a plena convicção de não é perfeito, mas não pede desculpas a ninguém.

Para mim isso já é muito bom.
E qualquer coisa que me consiga fazer pensar ou que me force a tentar tecer um juízo moral por me ter deixado num terreno pantanoso, vale o tempo investido.
Vejam.
V.

domingo, 3 de setembro de 2006

Matemática a la TAP

momento lindo no site da tap

voo de ida: 210 euros
voo de regresso: 210 euros

Encomendar?

Sim

total: 550 euros
+ taxa de aeroportos: 94 euros
total geral: 644 euros

Encomendar?

procurei pelo botão "prá puta que os pariu" mas não achei

Rocky horror


Ontem, graças à campanhas de desconto que conseguem pôr um DVD a custar 3,5 euros, revi The Rocky Horror Picture show.
Tinha-o visto na cinemateca há mais de 10 anos por isso pareceu-me boa altura para recordar um dos piores filmes de sempre. Além disso, o verdadeiro Skråmestø nunca o tinha visto e este filme ganha muito com incrédulos olhos virgens.

A verdade é que The Rocky Horror Picture Show é paradigma daquelas coisas que são tão más que são boas e, neste caso, chega a raiar o genial. Não admira que seja o fenómeno de culto que é e que se tenha tornado uma peça chave da cultura pop americana do séc. XX. E é precisamente isso que é preciso ter em conta, que aquilo é um fenómeno, não um filme. (daí que seja muito mais interessante vê-lo no cinema com pessoal a cantar e a gritar do que refastelado no sofá da sala)

Curiosamente, mais de 25 anos passados sobre a sua realização, parece haver algo surpreendentemente contemporâneo e fresco naquele objecto audiovisual, como se pudesse ter sido feito ontem. E, visto agora, é impossível deixar de notar a influência que o filme obviamente teve sobre realizadores como David Lynch e Tim Burton.

Se nunca viram, vejam. Mas aviso-vos que nunca mais serão os mesmos. Ninguém fica indiferente aos travestis transsexuais da transilvania.
Bute lá fazer o Time Warp outra vez!

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

gajos vs gajas



É curioso como há coisas das quais gostamos e nem conseguimos perceber bem porquê. Por exemplo, eu e a série Entourage.

Entourage é um termo que anda próximo de “comitiva”. Neste caso é uma série sobre um jovem actor em hollywood e a sua “comitiva”, ou mais exactamente os “colas” que vivem à custa da fama alheia.

Neste momento vejo a terceira temporada e, depois de quase 30 episódios, nem o enredo avançou grande coisa, nem as personagens se aprofundaram minimamente. E no entanto continua a fascinar-me.

O mais notável nesta série é provavelmente o facto de ser o exacto oposto de “O sexo e a cidade”. Como se a HBO tivesse resolvido exorcizar essa falecida série fazendo outra que, para compensar, coçasse a outra nádega.

Vejamos: uma é sobre quatro mulheres em Nova York, a outra sobre quatro homens em Los Angeles.

Em “O sexo e cidade”, as mulheres preocupam-se com a construção da sua carreira, o seu futuro sentimental e tentam achar o sentido da vida.
Em “Entourage” os homens são irresponsáveis profissionalmente, só se preocupam em arranjar uma queca para o próprio dia (mas se virem umas boas mamas ou uns belos rabos, também chega) e vivem sem se lembrar que o amanhã existe.

Elas deliram com vestidos, malas e sapatos.
Eles deliram com carros, relógios e jogos de vídeo.

Elas tentam sempre ter um comportamento adulto.
Eles têm sempre um comportamento infantil.

Elas falam da vida e das relações como se houvesse um final redentor, uma “moral” capaz de dirigir as acções humanas com sentido.
Eles falam de tudo para evitar falar de qualquer coisa em específico e nada se leva a sério.

Provavelmente o que me atrai nesta série é a profunda compreensão do universo masculino. É isso que me fica no final de cada irrelevante e inconsequente episódio. É extremamente refrescante ver uma série que não pretende achar o sentido da vida no final de cada episódio, onde nenhum ciclo se fecha, onde as coisas seguem totalmente à deriva sem que ninguém pare para se preocupar. Onde ninguém tenta sequer ser politicamente correcto porque ninguém sequer tem a noção do que é ser político (veja-se a escabrosa e despreocupada misoginia).

Como disse, depois de quase 30 episódios, nem o enredo desta série avançou nalguma direcção, nem as personagens ganharam a mínima profundidade. E eu não me sinto minimamente defraudado. Pelo contrário, é uma delícia. É como comer algodão doce, não alimenta nada, mas sabe bem. E faz bem a um ego masculino (mesmo se gay!)

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

sábado, 19 de agosto de 2006

Mata e Esfola em: "Um Bom Restaurante"

19 de Agosto

Eu sabia que a prenda ideal para um homem que faz 42 anos era o novo jogo do Super Mário para a Nintendo DS!!!

Total Eclipse of the Heart

Descobri os Hurra Torpedo, uma banda norueguesa que utiliza electrodomésticos como instrumentos de percursão. São melhores vistos do que ouvidos, no entanto não posso deixar de achar que é uma soberba re-interpretação de um grande clássico...

terça-feira, 15 de agosto de 2006

No DVD - Up in Town

Up in Town é uma pequena série de 6 episódios de 15 minutos cada, com monólogos interpretados por Joanna Lumley (a Patsy de Absolutely Fabulous). A camara está fixa por trás de um espelho e a personagem vai-nos contando pormenores da sua vida enquanto põe e tira a pintura da cara. Parece pouco mas é muito.
Escrita inteligente, filmagem esperta e representação soberba.
Recomenda-se vivamente.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Vizinhos

É um casal de velhotes, na recta final dos sessenta.

Ela passa o dia na lida da casa e a tomar conta do netinho. É das beiras e tem uma voz que não precisaria das janelas abertas para me entrar em casa como entra. Está sempre a queixar-se do preço das coisas, a ralhar com o marido que lhe suja o chão da casa e a chamar o nétinho para ir comer o "Ióiurte".
Quase todos os dias faz uma panela de arroz, ou embebe os restos do pão em banha e vem deitar isso na rua, frente à minha porta para dar de comer ao pombos, os "coitadinhos", como ela lhes chama.

Ele passa o dia debruçado dmuro do quintal a rezar em voz baixa. Costuma por o rádio em altos berros quando dá missa. Só sabe falar alto e há sempre um palavrão no meio da frase- É normalmente a única palavra que se percebe.
Quando os turistas incautos lhe perguntam o caminho para o castelo ou para a Sé fica muito excitado e repete as mesmas direcções confusas vinte vezes. Quando não há ninguém na rua atira pedras aos pombos que comem a porcaria que a mulher dele lhes serve.

Braga by night



sábado, 12 de agosto de 2006

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Braga

O que nos faz gostar ou não de uma cidade?
Porque gosto eu de Glasgow e detesto Manchester?
Porque é que não vejo razão nenhuma para voltar a Viana do Castelo mas não me importava nada de me mudar para Braga?

Quando disse que ia passar as férias a Braga, alguns amigos meus olharam para mim sem perceber. Estaria eu a gozar? Teria batido com a cabeça?

Mas eu gosto de Braga. Tem um provincianismo tocante e um leve toque cosmopolita. Tão leve que nem consegue ser pretencioso. Tem espaço e as pessoas são simpáticas. Vêem-se montes verdes ao fundo das ruas. Tem padres e freiras. E tem tantos gays como qualquer outra cidade com a única diferença de que estes são quase todos casados (embora não uns com os outros).

Para além de em geral me sentir bem nas ruas de Braga, há também dois estabelecimentos comerciais que me dão vontade de morar perto deles.
A livraria Centésima página e o restaurante Cozinha da Sé.

Curiosamente, já tinha estado em ambos o ano passado. A livraria tinha organizado uma dramatização do meu livro infantil com fantoches (!) e o vendedor da minha editora levou-nos a almoçar nesse restaurante. Já na altura foi uma excelente introdução a Braga. Mas agora que cá estou há 5 dias consigo ver melhor como é importante para uma cidade ter sítios com gente que faz bem feito o que gosta de fazer e onde se é invariavelmente bem vindo.


A livraria Centésima página mudou-se recentemente para o centro da cidade. É um espaço muito agradável, com uma optima selecção de livros, uma luz sedutora e tem ainda um cafézinho com uns bolos caseiros fabulosos. Porque é que em Lisboa ninguém consegue fazer uma livraria assim? Uma livraria onde dá gosto ESTAR. Se eu vivesse em Braga passava lá as tardes e tinham de me enxotar ao fim do dia.

O restaurante Cozinha da Sé também tem uma magia qualquer. Apesar dos quadros aterradores e dos candeeiros intimidantes está-se lá muito bem. O menu, à primeira vista parece modesto mas quando as doses chegam à mesa percebe-se logo que vai ser preciso voltar. E com serviço atento e genuinamente simpático como aquele eu seria capaz de lá ir todas as semanas. No mínimo. É que, ainda por cima, nem é caro.

Braga tem qualquer coisa. E nem as hordes de emigrantes em vacances, nem os incêndios, nem o calor infernal de Agosto me tiram o prazer de estar aqui, num Portugal que é autêntico mas não deprimente. Ou seja, como devia e podia ser em todo o lado.

PS – A juntar à lista de establecimentos recomendados: O Hotel Quinta de Infias e o Restaurante vegetariano Anjo Verde (que compensa os empregados de trombas com a excelente comida).

Paisagem minhota



Estou no minho há 5 dias e, mesmo sem quase sair das cidades já vi as colunas de fumo de 11 incêndios. É assustador. E triste.

Em Viana do Castelo

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

De férias

Coisas boas:

- Poupar 33 euros no preço diário do hotel só porque fizémos a reserva via net - Cada vez que vejo o preço marcado na placa informativa da porta do quarto, o pechincheiro que há em mim sorri.

- Ar condicionado - é tão fresquinho que até dá para ouvir Chet Baker à noite e imaginar que já é inverno e que lá fora está a chover.

- Braga tem excelentes restaurantes - Serviço simpático, boa comida, preços baratos. Que mais se pode pedir?

Coisas más:

- Há tantos fogos à volta de Braga que o ar se enche de cinzas. A piscina do hotel está uma miséria com as cinzas que aterram lá. No dia em que subimos ao Bom Jesus contei 5 incêndios nos montes à volta.

- Trouxe o computador e hoje trabalhei 3 horas quase sem dar por isso. Eu devia ter juízo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Blogando a preto e branco

Avisam-se os interessados que criei um novo blog só para o folhetim "Os herdeiros" que estava em coma há demasiado tempo.
Recomeça então do principio, mas incrementado com comentários a cada um dos episódios.

http://omaldoslivros.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Novo Look

Como é verão, não é preciso dizer nada. Basta mudar de roupa :-D

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Desencravanço

Hoje passei mais de metade do dia a encontrar desculpas para não trabalhar. Foi um ataque de perguiça tão grave que até me pus a ler coisas antigas que tinha escrito. E foi assim que uma história que estava encravada vai para dois anos, de repente, desencravou.
Sejam bem vindos de volta, Zé e Jaquim.


Foi ali mesmo, há muito tempo, que se conheceram. Ali nos baloiços do recreio, primeiro dia de aulas, os dois à espera de vez.
Não gosto da escola. Saltara-lhe isto da boca de repente, irritado também com a comichão que lhe davam as calças de lã que a mãe o obrigara a usar nessa manhã.
Não gostas porquê?
Porque não.
Isso não é resposta.
Diz quem?
Diz a minha mãe.
E quem é a tua mãe?
É a professora.
Isto calou o Zé Manel que já estava pronto para empurrar o menino da mamã para cima das miúdas que saltavam ao elástico.
A tua mãe dá réguadas?
A mim não.
Zé Manel mediu o miúdo de cima a baixo. Só parecia menino da mamã por causa do colete e dos sapatos engraxados.
Como é que te chamas?
Joaquim Manuel dos Santos Ferreira, disse o outro, suspenso na dúvida se deveria acrescentar que já sabia escrever o nome todo. Mas Zé Manel não o deixou dizer mais nada.
Tenho berlindes. Queres jogar?

Pure Listening Pleasure

Andava pela FNAC avec Nú-nô quando ele aponta para este CD
(Camille - "Le fil")
e diz: Este é o melhor disco francês deste ano (ou algo parecido). E eu comprei-o sem pensar duas vezes.
Ele tinha razão. É certo que eu não ouvi mais nenhum disco francês este ano mas isto podia ser um dos melhores discos do ano em qualquer ano em qualquer país. É um daqueles albuns-OVNI que são perfeitos do princípio ao fim e parecem existir só porque alguém gosta MESMO de fazer A SUA música. Vem da mesma solitária dimensão fora do tempo e espaço que "Spirit of Eden" dos Talk Talk ou "Dinamyte" de Stina Nordenstam.
O album chama-se "Le fil" e é claro que o fio condutor de todas as canções (que se estão um bocado nas tintas para encaixarem num formato que se possa chamar mesmo "canção") é a voz de Camille, no sentido literal em que uma nota é mantida do princípio ao fim do disco, como um fio onde as canções se vão enfiando como contas num colar. Mas também os ritmos, os ambientes são quase todos criados com a própria voz e só de vez em quando aparece um intrumento convidado. Um tambor ou um trompete. E quando apetece batem-se palmas. É uma maravilhosa espontâniedade. É claro que se pode referir as influências de Bobby Mcferrin, Laurie Anderson ou a Bjork do último album. Ou da Soul e da música africana. Mas não vale a pena. Camille vale por si mesma como alguém que lhe canta (e fala, e grita e discute, e pensa em voz alta) porque lhe apetece. E é por isso que apetece ouvi-la, uma, duas, três, trezentas vezes. Ouçam-na também assim que puderem.

PS- Merci Nú-nô

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Smogada

Hoje passei o dia a ouvir Smog enquanto trabalhava. Depois resolvi ser mais indolente e procurar as letras das minhas canções favoritas para incrementar o iPod.

Aqui se recolhem algumas pérolas:

de "Drinking at the dam":
For the first part of my life
I thought women had orange skin
It was the first part of my life
Second is the rest

de "Running the loping":
Oh to live in the country
With a chicken and those other things

de "to be of use":
Most of my fantasies are of
Making someone else come
Most of my fantasies are of
To be of use

de "Strayed":
Well I never thought I'd be
One of those men
With pin-ups on their wall
For all to see
I thought that was just mechanics

de "dress sexy at my funeral":
Dress sexy at my funeral my good wife
And when it comes your turn to speak before the crowd
Tell them about the time we did it
On the beach with fireworks above us

segunda-feira, 24 de julho de 2006

O millet

Hoje fiz um desvio no caminho para o supermercado e entrei no Celeiro para comprar pão. Já eram 6 horas e nas padarias já só havia carcaças (o pão com o nome mais correcto do mundo porque de facto sabe a pão morto mesmo quando acabadinho de sair do forno). Aproveitei para me aventurar numas coisas novas e comprei manteiga de sésamo (ainda não sei se gosto) e comprei millet (O cereal. Eu só conhecia o pintor).

Segundo a internet "Millet is one of the oldest foods known to humans and possibly the first cereal grain to be used for domestic purposes". Curiosamente, eu vivi os meus 32 anos sem saber isto.

Segui as instruções da embalagem, lavei os grãozinhos, dei uma leve fritura e cozi durante 20 minutos. Sabia um pouco a papas de milho e embora a água já tivesse sido toda chupada, achei que aquilo podia ter cozido mais tempo. Para salvar a refeição que aquilo ia acompanhar (uns lombinhos de porco com molho de maçã e rábano) resolvi juntar queijo roquefort às papas de millet. Foi bem pensado e funcionou mas de certeza que tripliquei o nível de colesterol da refeição.

Mais uma vez, segundo a internet, "The Hunzas, a people who live in a remote area of the Himalayan foothills and are known for their excellent health and longevity also enjoy millet as a staple in their diet." Acredito que sim, porque aquilo em estado puro tinha um sabor atrozmente saudável. Por outro lado, suponho que os Hunzas não afogam o seu millet em roquefort...

"research on millet and its food value is in its infancy and its potential vastly untapped." Digo o mesmo porque ainda tenho meio quilo de produto para usar em experiencias... até lá, decididamente gosto mais de roquefort do que de millet.

mulheres a beira

Ontem aluguei o filme "Flightplan" só porque me estava a apetecer ver a Jodie Foster. Valeu a pena. A senhora tem mais uma excelente variação de actuação no modelo "estou-aqui-à-beira-do-colapso-nervoso-mas-estou-me-a-aguentar-dentro-do-possível".

(A propósito, quem também é muito boa nisso é a Mary McDonnell, se bem que se especializa mais no "se-me-tocares-com-um-dedo-desato-a-chorar" (ver Donnie Darko e Battlestar Galactica) enquanto que a Jodie é melhor no "se-me-tocares-com-um-dedo-eu-mordo" (ver Contacto e Panic Room))

Ainda me dei ao trabalho de ver os extras do DVD só para concluir que há muita gente a trabalhar (e bem!) em filmes que são uma grande pepinada. Mas recomenda-se, apesar de tudo. Só na ultima meia-hora é que o filme, que se estava a aguentar muito bem, se rende e admite que não sabe descalçar a bota onde enfiou (com bastante convicção e graciosidade) o pé. O final roça o patético.
O que, curiosamente, é o total oposto de outra boa pepinada da Jodie que é o "Nell". Que é patético desde o início mas que depois se sai com um grande final capaz de redimir duas horas de sentimentalismo barato.

Eu gosto da Jodie e da Mary.

domingo, 23 de julho de 2006

adulto

Já sou um homenzinho. De agora em diante passo a ter barba. Comprei finalmente uma daquelas maquinetas de cortar cabelo. Há mais de uma década que sofria com uma barba miserável e mal semeada que não se podia mostrar crescida e que quando usava a gillette me dava borbulhas para vários dias. Mas finalmente posso ter a barba sempre com este aspecto másculo (I want to believe) dos pelinhos uniformemente aparados a 3mm. O meu bigode quase se une ao resto da barba e quase consigo ter patilhas. Isto vai no bom caminho. Já era tempo de deixar de invejar o meu primo que começou logo a fazer a barba aos 11 anos e que, embora a faça todas as manhãs, ao meio-dia já consegue lixar a tinta das paredes.

São curiosas estas mudanças fisiológicas no corpo que envelhece. Felizmente, por enquanto só as vou notando ao nível piloso (de pêlo). As minhas entradas, que se começaram a manifestar logo aos 30, já vão por aqui adentro, criando uma linda península de cabelo ao cimo da testa que se ameaça tornar numa ilhota. É o meu maior terror. Eu não me importava de ser careca. Não tenho nada contra. Até acho sexy nos outros. Mas estes tufos que vão ficando para nos lembrar que a maré está irremediavelmente a descer são ridículos. Daí eu achar que a compra da maquineta de cortar cabelo foi um investimento para o futuro. As ilhotas só se safam com as palmeiras cortadas. No futuro, vejo-me com a barba a ligar ao cabelo nuns uniformes 3mm. A orla marítima é que é capaz de ter um desenho complexo.

Entretanto, parece que a falta de cabelo nas têmporas se deve à sua emigração para outro lado. Nomeadamente para as narinas, orelhas, peito, ombros e costas. Exacto! Aí mesmo onde faz imensa falta. Mas tudo bem, pinça eu já tinha para impedir as sobrancelhas de andarem de mãos dadas.

E depois... os cabelos brancos! São fascinantes e cheios de personalidade. Não lhes basta terem uma cor diferente do outros. Mesmo depois de dois esfreganços com gel na cabeleira, continuam em pé só para chamarem a atenção. Coitadinhos. Por enquanto ainda se sentem muito isolados. Um aqui, outro ali. É por isso que ainda faço uns desvios com a pinça no caminho entre a sobrancelha e a orelha.

É muito cansativo, isto de ser adulto.
Mas podia ser pior. Eu podia ser um wookie.


Moral da história: Olhar sempre para o lado luminoso da vida e continuar a brilhar como um diamante maluco.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

123456789

Hoje fiz o meu primeiro sudoku.
Finalmente percebo o fascínio da coisa.

Eu tenho um problema com números. Até hoje continuo sem saber a tabuada de cor (claro que sei a dos 2 e dos 5, mas dos 6 prá frente só contando pelos dedos e fazendo umas adições complicadas.)

Tenho uma amiga minha que durante anos sonhou com uma espiral de números e acordava sempre aterrorizada por se ir aproximando do número no centro da espiral. Curou-se com sessões intensas de psicoterapia e um bocadito de hipnose, mas nunca chegou a saber qual era o número que a aterrorizava.

Eu da minha parte também tenho um sonho recorrente. Sempre que estou nervoso com um prazo de entrega, ou me sinto ansioso em relação á minha competência com qualquer coisa, sonho que alguém descobriu que durante o liceu faltei a todas as aulas de matemática, ou que passei a faculdade toda sem saber que o curso de belas-artes afinal tinha aulas de matemática e que tenho de as fazer para não me invalidarem o diploma.
Isto é tão comum e tão patético que até enquanto estou a ter estes sonhos já estou consciente do que querem dizer.

Foi por isso que demorei tanto tempo até me decidir a experimentar o sudoku. Mas hoje na casa de banho havia um jornal e uma caneta e acabei por ficar lá mais tempo do que o estritamente necessário. Aquilo dá mesmo pica. Há um momento mágico em que os numeros começam todos a encaixar e vai tudo a bater certo de enfiada. Melhor só rebentar bolhinhas nos plásticos das mudanças.
Ou borbulhas.
Com muito pus.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

os nomes dos bois

Uma das coisas mais tristes e divertidas que me foi acontecendo no ano em que o livro "Olhos de cão" foi editado, foi o modo como muita gente se sentiu à vontade para me falar sobre os escritores homossexuais portugueses.
É claro que isto aconteceu porque eu pus a palavra "homossexual" no texto da contracapa e não fiz mistério nenhum a explicar que Skråmestø é o sobrenome do meu namorado. Ou seja, como se costuma dizer, chamei os bois pelos nomes. Não sei se fui corajoso ou ingénuo. Ao que parece, é uma coisa que "não se faz". Na editora, nas primeiras reuniões, só vagamente se aludia à "temática especial" do livro. Depois lá acabaram por perceber que eu não sou exactamente um "jovem sensível" e passou a haver conversas mais "normais".
Entre 2003 e 2004 andei divertido a dar alguns autógrafos e entrevistas e a tomar pela primeira vez contacto com distribuidores, livreiros, jornalistas e até outros escritores. E o que acontecia invariavelmente era estes aproveitarem-se dos meus pacientes ouvidos para me porem a par do "quem é o quê" no panorama literário português. E, de repente, apercebi-me de que afinal Portugal tem uma data de escritores homossexuais. Até mesmo daqueles bons e famosos.
Mas, sem grande surpresa, no meio literário português acontece o mesmo que entre actores, cantores, políticos, desportistas e figuras públicas em geral. Estão todos no armário. Ou melhor, vão estando. Aparentemente toda a gente sabe que eles são mas como eles não dizem que são, então "oficialmente" não são.
Eu compreendo que, por exemplo, um ministro da defesa ou um primeiro ministro, tenham medo de não serem levados a sério por admitirem que preferem carinho masculino. Mas no caso de artistas criadores, isso deixa-me um bocadinho triste.
É claro que lá por um escritor ser homossexual não tem obrigatoriamente que escrever sobre isso, mas, acreditem, estar dentro do armário literário é o mesmo que estar no armário da vida. Quem não consegue viver a 100% também não consegue escrever a 100%. É escrever sempre à defesa.
Assim de repente, lembro-me de pelo menos dois livros de dois escritores desta ceifa que tinham tudo para serem excelentes livros e não são. Precisamente porque aludem vagamente a tendencias homossexuais nas suas personagens principais e depois acabam por sacudir a coisa como se fosse irrelevante. No final, a sensação que fica é que o escritor não é honesto nem para com o leitor nem para com as suas personagens (o que é mais grave!).
Se isto ficasse por aqui, seriam apenas histórias tristes de pessoas tristes (mesmo que satisfeitas com prémios da APE). É mais chato quando aparecem nos jornais a dizer que "literatura gay e lésbica" não existe ou que é um rótulo e todos os rótulos são maus (embora este seja pior que os outros, claro).

terça-feira, 18 de julho de 2006

o meu top series de televisao

Alguem que leia este blog já deve ter reparado que eu sou um bocadinho (eufemismo) viciado em séries de televisão.
Hoje fica aqui a lista de séries que vejo (ou vi recentemente), por ordem de preferência e divididas em Drama, Comédia e Mini Séries.

DRAMA
Deadwood
Battlestar Galactica
The Wire
Weeds
Lost
Huff
Rescue Me
Entourage
Carnivale
Nip/Tuck (a primeira temporada sozinha poderia por a série mais acima na tabela, mas as seguintes mandaram-na cá para o fundo)
Queer as Folk (americana)

COMEDIA
Will & Grace
The Office (inglesa e americana)
Scrubs

MINI SERIES
Bleak House
Tales of the city
North and South (BBC)
Band of Brothers

segunda-feira, 17 de julho de 2006

projecto para esta semana



Fazer isto com 1m de diâmetro.

Entrei numa fase megalómana. Não mais quadrinhos de 30 cm. Agora é ao metro!

sábado, 15 de julho de 2006

A minha cançao do ano

Achei a minha canção do ano: "Province" dos Tv on the Radio.
Hoje já a ouvi umas 20 vezes.
E depois rezei para que o David Bowie (que canta no coro!) convoque esta gente para lhe produzir o próximo album...

Lema para os próximos meses 4AD IS NOT DEAD!



Artist: TV On The Radio
Album: Return To Cookie Mountain
Year: 2006
Title: Province

Suddenly, all your history's ablaze
Try to breath, as the world desintegrates
Just like autumn leaves, we're in for change
Holding tenderly to what remains
And all your memories, are as precious as gold
And all the honey, and the fire which you stole
Have you running through all your red cheeked days
Shaking loose these songs from their sacred hiding space

Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave

Push under this expanse of bursting stars
Let this burning brightly illumintate where we are
Build this hallow that lovers voices occupy
Let it follow That we let it free, let it fly

Breaking open the walls of this cage
Intoxicated, oh so amazed
Much like falcons tumbling from the heights ablaze
conjoined, talons engaged

Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Quase Nada

Há uma coisa que irrita: as embalagens do fiambre.

Que raio quer dizer "Fiambre da perna extra"? Eu já nem me preocupo em saber de que animal vem o fiambre mas é perturbante o desplante com que eles nos dizem que é tirado de uma perna extra, que talvez o animal não tivesse em circunstâncias normais.

Também não percebo como é que tiveram a idéia das "Fatias finíssimas". Não era mais honesto chamar áquilo "Aglomerado de fiambre desfeito em fanicos"? Já alguém alguma vez consegui descolar uma daquelas "fatias" inteira e intacta? Não vejo onde está o suposto glamour da coisa quando se tem de chafurdar com as dedongas para sacar uma lasca de aglomerado.

Isto para não falar no grande eufemismo da embalagens que se orgulham de ter uma "Abertura fácil". Não há cola mais forte que aquela. E é melhor afiar a faca antes de atacar aquele fabuloso plástico super resistente.

A minha desculpa para este post? Passa da meia-noite, está um calor do caraças e estive a beber sangria.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

no DVD

Depois dos advogados, dos médicos, dos polícias, dos cowboys e dos agentes funerários, eis que chega a vez dos Psiquiatras e dos Bombeiros terem direito a duas excelentes séries dramáticas (com uma pitada de comédia). Ambas são bastante recomendáveis, ambas têm actores (muito justamente) nomeados para os Emmys, ambas têm uma pontinha gay (parece que é moderno). Foram duas semanas bem passadas a aumentar a mossa no sofá. Encomendando as duas juntas na amazon.uk dá um desconto simpático.

Huff


Rescue Me


Descobri ontem que o "Rescue Me" estreia sexta-feira na SIC. Em português chama-se "Socorro"

Entretanto, Battlestar Galactica Season 2 só sai no fim de Agosto. Mas eu quero! Agora! Já!

domingo, 2 de julho de 2006

o interruptor

Na sexta-feira saí à noite em Lisboa.
Um verdadeiro evento, tendo em conta que a minha frequeencia de bares e discotecas poder-se-ia dizer limitada aos aniversários do rei. Mas, como estava com antigos colegas de faculdade e extremamente bem disposto (e convenientemente perto de casa), lá estava eu, ainda acordado à 3 da manhã, a dar um (minusculo) pézinho de dança.

Depois de restaurante e bar, o nosso heterogéneo grupo foi acabar a noite numa festarola que decorria num bar/sítio que nunca associei a nada gay, mas, assim que lá entrámos, o meu gaydar disparou e desatou a apitar em todas as direcções. A princípio, julguei que era o sistema avariado, resultado de muito tempo passado dentro casa e falta de exposição a menores de 30 anos. Mas, uma avaliação fria e racional acabou por me confirmar que o gaydar raramente falha ou avaria.

Quando chegámos abanava-se a anca com umas "inofensivas" Bangles e Katrina and the Waves, mas o que parecia um ocasional êxito dos Wham ou um toque portuga com António Variações, encarreirou com os Communards, meteu-se pela Donna Summer e para o resto da noite já não conseguiu sair de uma areia movediça de Chic, BonneyM e semelhantes lantejoulas musicas do anos 70. Suava-se em bica, e quem não dançava era maricas. Ou seja, a noite foi peneirando os heteros para fora da pista de dança e rapazitos e rapazitas, que inicialmente pareciam apenas felizes, às tantas não hesitavam em demonstrar publicamente o seu afecto. Era bonito. Era simples e táva-se bem. E eu nunca tinha estado num bar ou discoteca gay português que fosse assim, tão à vontade, tão descomprometido.

E hoje pus-me a pensar. Será que aquele evento se tornou “gay” precisamente porque não era suposto ser gay? E, se fosse suposto ser, teria alguma vez conseguido atingir com tanta facilidade aquele saudável nível de bem estar e convívio social entre heteros e homos? (E alguém consegue ler esta frase anterior sem se sentir com prisão de ventre?)

Num post que li recentemente no blog do Miguel Vale de Almeida, ele comentava a fraca adesão à marcha e arraial gay (aos quais eu não fui com uma muito boa desculpa (possivel variante do mesmo alibi de todos os que não foram mas acham que deveriam ter ido)). Dizia ele algo que digeri assim: Se calhar estes modelos de marcha e festa de orgulho gay têm pouca adesão porque são um modelo importado que não se aplica bem ao nosso tecido social.

Parece-me que isto aponta numa boa direcção. Nós somos um povo que se caracteriza pela fraca adesão, passividade (no sentido normal da palavra) e falta de espontâniedade.
Veja-se as taxas de abstenção nas eleições.
Veja-se a duração da nossa ditadura.
Veja-se a mínima quantidade de tiros e sangue na revolução de 25 de Abril.
Veja-se os nossos desfiles de carnaval

E no entanto...
Veja-se o que acontece quando a selecção ou um dos três principais clubes de futebol ganham um jogo/campeonato.
Veja-se o funeral da Amália, do Àlvaro Cunhal e daquele miúdo dos Morangos com Açúcar
Veja-se o Coliseu a esgotar com o Tony Carreira e as longas temporadas dos musicais do LaFéria.

Hummm...

Faz de facto falta animar a malta, nisto do activismo, solidariedade e visibilidade gay em Portugal. Mas a malta não se anima apenas gritando "animem-se!". É preciso descobrir o interruptor que ligue a espontãniedade de todos os rabetas, fufas e travecas portugueses. Principalmente o interruptor daqueles que permanecem ainda mais desligados quando acham que esse interruptor vai mostrar apenas rabetas, fufas e travecas e não a simples verdade: pessoas. Um grupo socialmente muito diversificado de pessoas.

Estas comemorações do orgulho gay junino têm origem na carga de porrada que rabetas, fufas e travecas americanos deram aos polícias que faziam uma rusga num bar na noite da morte da Judy Garland. Fizeram muito bem e pessoalmente não tenho o menor problema em acenar uma bandeirola multicolorida nesse dia para o comemorar, mas, pensando bem, que grande estímulo é afinal esse para um simples portuguesinho?

Na sexta-feira à noite, a malta à minha volta estava de facto animada. Espontâneamente. Sem precisar de bandeirola para demarcar território ou de uma data especial para socializar e se misturar no mundo. E se alguém tivesse ido lá chatear tinha de certeza apanhado uma carga de porrada. E tenho a certeza de que se isto aconteceu à minha frente na sexta-feira pode acontecer noutros dias.

Agora, onde raio fica este interruptor da naturalidade e espontâniedade dos homossexuais portugueses? E como se liga?

Alguém vá lá saber, sff.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

A discriminaçao

As palavras que nos saem da boca têm tendencia a surpreender-nos. Outro dia dei por mim a dizer a alguém que nunca me tinha sentido discriminado enquanto homossexual.
Mas que grande eufemismo!
Passado uns minutos de ter dito esta barbaridade dei por mim a pensar se de facto tinha motivos para poder dizer isto.

A verdade é que a minha vida é muito sossegada, confortável e feliz e tem dias deliciosamente burgueses (que incluem férias em países estrangeiros e compras despreocupadas em sites de internet). Tenho a grande sorte de estar bem acasalado (amantizado também é uma palavra que me agrada) há uma data de anos. Quase desde a altura em que pus o pé fora do armário. Aos 24 anos... !!!!!
Ou seja, sou homossexual oficial, muito feliz e com muito orgulho há menos de uma década. A estupidez alheia passa-me ao lado ou faz ricochete na carapaça da minha felicidade. Como naquela vez em que o meu vizinho "beato" disse aos pedreiros que trabalhavam em minha casa que era uma vergonha estarem a trabalhar para paneleiros. Graças ao Deus dele, isto deu-me mais vontade de rir do que de lhe partir as trombas. Porque felizmente, vivo numa época, num país e numa sociedade onde tal comentário pode ganhar toda a irrelevância que merece. Não só os pedreiros não se foram embora horrorizados, como ficaram mais tempo que o previsto (ou seja, tudo normal).
Olhando para a minha vidinha em perspectiva, há de facto um ponto charneira nesta coisa da discriminação. Foi aquela altura em que resolvi sair do armário e percebi que ser um grande panilas não era uma coisa que me metia medo e que até tinha bastante piada. Claro que podia ter acontecido mais cedo mas, je ne regrette rien.
Daí que a minha conclusão simplista poderia ser: só somos afectados por aquilo que deixamos que nos afecte. Os cães ladram e a caravana passa, etc..

A minha tirada eufemistica sobre a discriminação saiu naquele contexto de "conselhos aos gays mais jovens" (mesmo quando os mais jovens têm 45 anos e são casados com 2 filhos). Mas, pensando bem, quem sou eu para dar conselhos a alguém sobre discriminação? Sou um jovem homem branco, não sou gordo, não sou feio e, se estiver calado, até passo por hetero. Ou seja, não fosse este pequeno acidente da (des)orientação sexual se calhar não tinha motivos para me queixar de nada, o mundo seria a minha ostra e minha vida um tédio. De todos os "males" de que poderia padecer, sou suficientemente sortudo para me ter calhado este d' "o amor que não se atreve a dizer o seu nome", que se pode mostrar ou esconder à sociedade, nutrir em casulo o tempo que se quiser até a borboleta estar pronta para abrir as asas.

No meu voo de borboleta, nos meus 9 anos de paneleirice aberta ao mundo, tenho de facto tido a sorte de nunca me ter sentido verdadeiramente discriminado enquanto homossexual. Não perdi amigos, não me recusaram empregos, não me deserdaram, não me cuspiram em cima, não me apedrejaram, não me atiraram para dentro de um poço, não me enforcaram numa ponte.
Claro que há pessoas que sentem mais aquela coisa inglesa do “paus e pedras podem partir-me os ossos, mas só as palavras me magoam” mas ainda por cima, eu nem sou uma delas. Estou-me um bocado nas tintas para conversas de taxistas, vizinhas beatas e treinadores de futebol.
Por várias vezes me têm chegado às mãos alguns inquéritos sobre a vida dos homossexuais que, depois de preenchidos eu acabo por não entregar para não estragar as estatísticas. É deprimente olhar para eles e constatar que nunca tive nenhum problema sério por ser gay.

Que fazer então com esta minha vida aparentemente atípica? Se calhar o melhor é mesmo reduzi-la a um eufemismo. Aproveitar para dizer, sem mentir por aí além, que “nunca me senti discriminado enquanto homossexual” e incitar algumas almas atromentadas a procurar um pouco de verdade nas suas vidas.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

citaçao para o fim de semana

"I may love Judy Garland, but ultimately what makes me a gay man is that I want a big one down my hunger chute"
Marcus O'Donnell
em "the little book of gay love", Penguin

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Jesus Cristo e' o senhor



Confesso que estava muito céptico. Sendo um fã dos livros de vampiros e bruxas da Anne Rice, quando soube que o próximo livro dela seria uma "auto-biografia" de Jesus, fiquei de pé atrás. Aliás, com os dois pés bem lá para trás. Os últimos livros da senhora já se podiam definir como "derrapanço literário" por isso tudo levava a crer que agora é que era o bater no fundo do poço.
Afinal não.
É certo que os vampiros e as bruxas já tinham dado o que tinham para dar (e os fantasmas e as múmias também) e que a viragem é um bocadito para o inesperado, mas se calhar faz bastante sentido. Jesus é daquelas coisas em que, tal como os vampiros e as bruxas, há quem acredite neles, mas nunca nos afectam directamente no dia a dia.
Como sempre achei Jesus uma personagem interessante, embora mal compreendida (principalmente pela igreja católica), dei o benefício da dúvida e lá comecei a ler o livro.
Tiro o chapéu à senhora Rice. Um livro escrito do ponto de vista de Jesus aos 7 anos de Idade não era um desafio fácil e ela sai-se airosamente e com direito a medalhas. Fico ansiosamente à espera dos próximos volumes. E isto sim é um feito, tendo em conta que é um história em que toda a gente sabe que o herói morre no fim (e ressuscita para a sequela).
Mas por enquanto: Viva o menino Jesus!

PS - Entretanto fiquei contente de saber que "Cry to heaven", o livro de Anne Rice sobre cantores castrados na Itália do séc. XVIII com um gosto particular em entupir a garganta com o instrumento do parceiro, vai ser finalmente adaptado ao cinema.
Depois de "Entrevista com o vampiro" no ter proporcionado umas beijocas Brad Pitt - Tom Cruise e Brad Pitt - António Banderas, aguarda-se com espectativa o anúncio do elenco para mais um devaneio apaneleirado com muita renda, cetim e ópera.

terça-feira, 20 de junho de 2006

segunda-feira, 19 de junho de 2006

directamente da gaveta

Sei que ela gosta de gatos, de flores, de coisas bonitas.
Sei que tem os caracóis de um anjo de Botticelli que brilham especialmente ao sol.
Sei que tem uma inocência limpa nos olhos e que um dia será capaz de amar para lá do razoável.
Soube que me tinha amado quando, sentados no miradouro, eu lhe disse que te amava. Vi-lhe nos olhos.
Sei também que antes de ela nascer, a mãe dela, doente, tinha decidido nunca mais ter filhos. E que uma cigana a tinha parado na rua e dito, estás grávida. E que ela se assustou porque não sabia. E que a cigana acrescentou, não temas porque tudo vai correr bem, para além do filho que já tens vai-te nascer uma filha que será como tua mãe, que vai cuidar de ti e que te vai dar amor quando precisares e que crescerá para além da sombra da tua vida e desabrochará quando o sol dela vier.
E sei que assim foi.
É isto que sei. Que mais queres saber?

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Na realidade

Foi divertido assistir à trovoada de ontem à noite em Lisboa (e que hoje está de regresso). Sempre julgara que tempestades dessas, com relâmpagos à frequencia de luzes estroboscópicas só existiam em filmes de terror de série B. Afinal podem ser verdade.

Por muito tempo também julguei que o sabor a morango extremamente intenso das pastilhas elásticas era uma coisa exclusivamente artificial, até ao dia em que provei morangos silvestres numa floresta norueguesa.

Para além disso...

Ontem, depois de ver 5 episódios de Queer as folk (versão americana) e rever um de O sexo e a cidade (sim, dia de ronha e coma cerebral) também concluí que provavelmente os argumentistas da maior parte das séries e filmes americanos nunca amaram ninguém (porque dá muito trabalho!).

Entretanto...

Estou a trabalhar como designer num projecto intitulado "Os grandes amores da história de Portugal". Ao que parece, para o mundo da arte e da ficção, um amor só é verdadeiramente "grande" quando é breve, difícil e/ou impossível. Isto aparentemente dá logo à partida uma grande vantagem artística a qualquer relação homosexual.

Entretanto...

O "Brokeback mountain" saiu em DVD. Não vou comprar. Basta-me ouvir a musiquita do filme para os meus sacos lacrimais entrarem em actividade.

domingo, 11 de junho de 2006

A Noruega no seu melhor - a Kira e o Jack

As manchetes dos Jornais noruegueses por vezes ultrapassam-se a si mesmas.

A minha favorita de sempre, e um clássico frequeentemente recordado cá em casa, foi o "Kira jaget Bjørnen" (Kira ladrou ao urso).
Em 2004, a cadela Kira (7 anos) , ladrando, conseguiu enxotar um urso que aparecera no quintal do dono. Este, fotografou e filmou a sua cadelinha (video disponível em http://www.aftenposten.no/dyr/article783657.ece), o que permitiu ao jornal publicar esta linda foto do anus da Kira na primeira página:


Este fim de semana, o jornal Dagbladet retoma finalmente um tema capaz de ofuscar a situação no Iraque ou o mundial de futebol.
Desta vez foi o gato Jack (americano, idade desconhecida mas pesa 7 quilos) que bufou a um urso:

Infelizmente, por o caso se ter passado nos Estados Unidos e não na Noruega, embora tenha tido direito a página inteira, não foi o destaque da capa.

...as saudades que eu tenho da Noruega!

sexta-feira, 9 de junho de 2006

balanço primeiro semestre

A pedido de várias famílias (isto é para ti, Celso!) aqui fica a minha lista de músicas mais ouvidas nos ultimos seis meses.
Olhando para ela concluí que este ano, so far, tem sido um bocadito xocho. Nesta lista ninguém apanhou 5 estrelitas. A Marisa Monte tem 3 entradas!! Ou eu ando a ouvir as coisas erradas ou isto anda mesmo por baixo.

The First Song-Band of Horses
The Funeral -Band of Horses
Pink Love -Blonde redhead
Newsweek -Bombay 1
Superafim -Cansei de Ser Sexy
Home On Ice -Clap Your Hands Say Yeah!
Over and Over Again (Lost & Found) -Clap Your Hands Say Yeah!
True Skool -Coldcut
Where Is The Time -Constantin Veis
Heart Like A Demon -DK7
A Love That Will Never Grow Old -Emmylou Harris
Crazy -Gnarls Barkley
Boomerang 2005 [Comme Un Boomerang] -Gonzales, Feist & Dani
Miss Pilling -Half Cousin
Marble House -The Knife
Super Zero -Linda Draper
A Thousand Roads -Lisa Gerrard And Jeff Rona
Infinito Particular -Marisa Monte
Vilarejo -Marisa Monte
Universo Ao Meu Redor -Marisa Monte
An Envoy To The Open Fields -Mew
Beneath The Rose -Micah P. Hinson
Off the Record My Morning Jacket
Track 04(do album mish maoul) -natacha atlas
Track 06(do album mish maoul) -natacha atlas
No Yes No -PET
Whip my blue chips -PET
Lígia -Ramón Leal
Beautifulheart -Richard Swift
World Citizen -Ryuichi Sakamoto
Sweetmeat -Scarlet´s Well
These Things -She Wants Revenge
She Falls In Love With Machines -Spleen United
Tiny Cities Made of Ashes -Sun Kil Moon
Jesus Christ Was An Only Child -Sun Kil Moon
Good To Be Free -Swan Dive
Cymbal Rush -Thom Yorke
All Over This Town -The Upper Room
Combination -The Upper Room

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Quando se está profundamente feliz não nos exprimimos por palavras.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Como una Ola

Morreu Rocio Jurado, a espanha cobre-se de luto.
Telefonei ao meu amigo Juan Pedro a dar-lhe os pêsames. Foi ele quem em 2005 me levou ao inolvidável clube "Madrid La Nuit" para ver este pindérico show:



Ele não estava triste porque, como eu, sabe muito bem que a Rocio Jurado vai continuar viva nos coração de todos os artistas de transformismo espanhóis por muito anos... Rocio is dead, long live Rocio!!

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Era cego e agora vejo - ou - Nao sabia e agora sei

Descobri a maravilha que é ter as letras das canções no iPod!

PS- ouvi o album novo do vocalista dos Radiohead: Gosto da última canção porque me faz lembrar o "Remar remar" dos Xutos e Pontapés.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Momentos de alta cultura

Aos desatentos e inicialmente desinteressados informo que já abriu no Museu de Arte Antiga de Lisboa, a exposição Grandes Mestres da Pintura Europeia: de Fra Angelico a Bonnard. Colecção Rau (18 de Maio a 17 de Setembro)

Porque vale a pena ir ver a exposição?

Primeiro porque não é todos os dias que se vê um conjunto de quadros desta excelente qualidade e bom gosto, capazes de fazer uma boa retrospectiva da história da arte, da idade média a metade do séc.XX

Segundo porque se vê em meia horita. Não é demais e não é de menos.

Terceiro porque é uma oportunidade única para ver um dos melhores nus masculinos pintados no séc. XIX:
"Pescador com rede" de Frederic Bazille.
É uma imagem que, ao vivo, tem um magnetismo poderoso. Rede? Qual rede?
Dito gentilmente: este quadro retrata o rabo mais impressionante do impressionismo.



Esta foto não lhe faz justiça nenhuma. Vão lá ver a coisa ao vivo.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Bichos esquisitos que ja comi

- Caracoletas
(Mais conhecidas por escargots - que até é um nome que lhes fica melhor porque faz lembrar escarreta. São grandes, são nojentas. Comi por dever social. Felizmente os bichos tinham morrido afogados em manteiga de alho. Foi como comer um grande macaco do nariz com um saborzito a alho.)

- Gafanhotos
(Sabem a palha. Comi-os fritos, enrolados numa tortilha e com guacamole. Não era mau (graças ao excelente guacamole) mas não vejo razões para repetir. Tem um factor divertido que é o facto de as patinhas dos bichos terem tendencia a ficar presas entre os dentes)

- Crocodilo (ou era jacaré?)
(Provei em versão bife grelhado. Fez-me lembrar uma galinha muito rija e borrachenta. Ao que parece, é preciso marinar a carne por muito tempo para que fique mole. A minha pergunta é: porquê a trabalheira? A menos que o crocodilo tenha comido as suas galinhas e não haja um talho decente num raio de 500km (às vezes acontece).

- Capivara
( bife grelhado. Delicioso! Carne tenra, suculenta e com um sabor próprio que nos tira logo os remorsos de estarmos a comer um bicho tão simpático)

- Baleia
(É uma coisa estranhíssima. Parece carne de mamífero (e é!) mas sabe a peixe. Cozinhar um bife de vaca com caldo de peixe deve dar o mesmo resultado. Para esquecer.)

- Rãs
(Eram as perninhas. Dispostas numa travessa, tinham um ar muito triste. É comum dizer que faz lembrar galinha, mas a mim lembrou-me mais coelho. Não foi bom nem mau. Se calhar um bom cozinheiro consegue dar a volta à coisa. Pareceu-me que tinham potencial para serem melhores.)

Na lista para experimentar:
Ovos de formiga - (num restaurante fabuloso da Cidade do México onde fui duas vezes e onde quero voltar. Constavam do menu mas infelizmente não estava na estação deles.)
Canguru - (dizem-me que é bom. Fica para quando for à Australia que deve ser mais fresco.)

Portanto, o prémio Bicho Exótico Gostoso vai para:
A Capivara

sexta-feira, 26 de maio de 2006

E eu ate gosto de favas

Uma pessoa tem sempre mais que fazer, mas não há quem consiga resistir ao quizz do ano: "Se eu fosse uma música do José Cid qual seria?"


Você é A Pouco e Pouco :
aparentemente, você é um cidadão pacato e respeitável, com uma vida banal dividida entre o seu lar e o seu emprego. Porém, e apesar do seu assumido gosto pelas coisas simples e quotidianas da vida e da realidade portuguesa, esconde manias bizarras.


O mais curioso é que isto bate certo...

Discos pedidos

- Boa tarde, gostava de dedicar a canção "No one has ever looked so dead" dos The Organ às empregadas do supermercado do meu bairro.

olhos rolando para o ceu

Um dos meus endereços de email (o que uso para me registar em qualquer serviço online) é constantemente bombardeado por spam mail, numa média de 700 por semana. Apesar da banalidade irritante da coisa, de certo modo admiro os criadores dos títulos dos emails pela sua capacidade de se saírem com frases capazes de nos saltar aos olhos e criar vontade de os mandar vocês sabem para onde. Hoje havia um intitulado: "Mude de mulher com a frequência com que muda de roupa interior".
Depois de muito pensar, achei que o lado positivo da coisa era o facto de eu não conhecer ninguém que possa ser considerado o público alvo desse email.

Algumas novidades

Acrescentei algumas imagens novas ao meu site.


Os interessados em ver mais disto podem visitar:
http://home.no.net/danielba/galeria

Ensopado

Estive a ver o trailer para o "World Trade Center", o novo filme do Oliver Stone.
É claro que um trailer não é um filme, mas enjoei-me logo nos primeiros segundos com o pianinho sentimental que depois se transforma numa sopa de violinos tristes-mas-esperançosos. Duvido que vá ver. (embora o Nicholas Cage esteja com óptimo (péssimo) aspecto.)
Deixou-me a impressão de pílula dourada.
É claro que pílulas douradas há muitas, mas há algumas que me apetece tomar (Brokeback Mountain por ex.) e outras que dispenso.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

O mundo esta cheio de surpresas

E quando se julgava que obras primas da superficialidade musical eram inultrapassáveis...

Ouvir a versão que Patrick & Eugéne fizeram de "Can´t get you out of my head" da Kylie Minogue é a prova de que o glacé do bolo pode sempre levar mais açúcar. Tentem ouvir isto e manter uma cara séria - Impossível.

"Postcard From Summerisle" é o album que anda a contribuir para o meu bom humor primaveril.

terça-feira, 23 de maio de 2006

O Charlie e a Lassie

Hoje, enquanto pesquisava por imagens para fazer a capa de um livro achei uma foto do John Steinbeck com o seu cão Charlie

Provavelmente, so alguém que tenha lido o livro "Viagens com o Charlie" consegue perceber porque é que esta foto me comoveu...

Eu não gosto de caniches (em teoria). O Steinbeck também não tem cara de quem gosta de caniches. Mas o Charlie é o cão que nos resgata dos nossos preconceitos racistas.

Outro dia também me apaixonei por uma Lassie (um collie), que é cão com uma mítica que me irrita. Ia eu na rua quando passo por um jipe mal estacionado, que tinha sido deixado com o motor ligado. A Lassie estava sentada no lugar do condutor, com as patas da frente no volante e abanava-se para a frente e para trás como quem pensa: porque é que esta coisa não anda?.

É por coisas destas que eu devia arranjar um telemovel da nova geração, com câmara de filmar e lindos toques polifónicos...

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Summer of love

http://www.tate.org.uk/liverpool/exhibitions/summeroflove/

Um dos melhores momentos das férias foi ver em Viena a exposição "Summer of love". Uma excelente retrospectiva do psicadelismo dos anos 60 a caminho dos 70. Suponho que até foi melhor vê-la em Viena do que na Tate modern em Londres o ano passado, porque tinha um interessantíssimo apêndice dedicado exclusivamente à Austria que de certeza não constava na versão anglocêntrica da Tate.

Também descobri que afinal o Summer of Love foi em 1967 e não em 1969, como sempre julguei. 69 fica-se por ser o "Anné Erotique", suponho... :-)

O meu Summer of Love foi em 1998. E o vosso?

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Sir Ian

Numa entrevista recente, Ian McKellen (vulgo Gandalf) diz que não percebe porque é que a Igreja Católica pode ter alguma coisa contra O Código DaVinci porque esta teoria de que Jesus se casou com Maria Madalena e teve filhos é a unica com alguma solidez para provar que Jesus não era homosexual. (Eu adoro o Sir Ian!)



Da minha parte, só tenho a dizer que sempre tive muita dificuldade em perceber um Deus que manda o filho encarnar como homem e só lhe dá a experimentar parte da humanidade. Que nasça numa manjedoura, ok. Que faça milagres que permitem a toda a gente beber vinho e embebedar-se, ok. Que apanhe porrada e morra, ok. Mas e sexo? Nada?! E se sim, com quem? (consigo mesmo não vale!)

Save Deadwood

Hoje enviei este email à HBO:

Dear People of HBO:
Your channel has created some of the best fiction series in the history of television. However, in my opinion, Deadwood outshines all of them for it´s amazing quality in all fields: script, photography, acting, wardrobe, etc... it is an absolute masterpiece. This series is what I would like television to be in general.
It made me very sad to hear that your channel plans to cancel this series.
I am a Portuguese living in Portugal and although I don´t watch your channel, I follow your series like Deadwood, The Wire, Carnivale and Entourage by buying the DVD boxes.
I guess that I don´t enter the count of your ratings but still, I am a willing payer of your high quality product.
It is sad to think that an outstanding piece of work such as Deadwood is might end just because of low number of tv viewers. But do remember that your program can still be profitable in other markets and supports.
Please put your marketing people to work and let the artists that make Deadwood continue to contribute to the world with a piece of art that enriches our contemporary civilization.
thank you for your kind attention,
Daniel

Mais informação em
www.savedeadwood.net

quarta-feira, 17 de maio de 2006

os mandamentos do cliente

10 anos como designer e continua-se a esbarrar com estes dogmas:

- Espaço é vazio que deve ser preenchido
- o branco não é uma cor

há gente que enlouquece por menos

aaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrggggggggggggghhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!

sexta-feira, 5 de maio de 2006

A escuta

Depois da BBC, o regresso à HBO.

Esta série é mais uma que se junta a Deadwood, Weeds, Battlestar Galactica e Lost, para me fazer acreditar que ainda vale a pena ver televisão, e que o formato série tem grandes vantagens sobre o formato filme. Há tempo para desenvolver enredos e para definir personagens complexos e realistas. Nesta, destaque para os marginais negros e gays com um erotismo à la Bonnie & Clyde.

Na pista do Jaime

A partir de segunda feira estarei aqui:


Mas é claro que vou ter de imaginar o sitio assim:


Vou ficar no hotel Mozart. O nome parece-me super original. Suponho que é o mesmo onde o António ficou... :-D

terça-feira, 2 de maio de 2006

Bleak House

http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/
É absolutamente extraordinária a adaptação para televisão que a BBC fez deste livro de Charles Dickens. Recomenda-se vivamente o DVD.
Gillian Anderson (a dos Ficheiros Secretos) numa interpretação fabulosa junto a um elenco escolhido a dedo.


Imperdível é também esta deliciosa animação em flash sobre a vida de Charles Dickens:

http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/animation.shtml

domingo, 30 de abril de 2006

os reis reinaram

Foi muito bonito o concerto dos Kings of Convenience ontem à noite na Aula Magna.
Se nós portugueses temos a patente mundial para a "saudade" então os noruegueses têm a patente do "Kos" (verbo: å kose; adjectivo: koselig)
Kos é algo aconchegante, que nos faz sentir bem, felizes, protegidos. É saber que o mundo é mau, agreste e cruel mas que as pessoas podem criar para si mesmas momentos de calma, descontração e felicidade. Os noruegueses são peritos nisso e o concerto de ontem à noite foi prova disso. Foi muito koselig.
Começou com os dois rapazitos a cantar com as suas guitarrinhas como se estivessem na sala lá de casa e acabou com o público a dançar no palco. Pelo meio trocaram-se declarações de amor e eles provaram como se podem fazer revoluções pacíficas e que não é preciso fazer muito barulho para se exprimir a alegria. Basta estalar os dedos e cantarolar uma canção, mesmo quando não se sabe a letra.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

gudbrandsdalsost

Ó alegria!
Chegou um quilo disto lá a casa.



"Isto" é o famoso queijo castanho da noruega, vulgo "brunost", ou, mais exactamente, "gudbrandsdalsost" (em tradução literal: queijo do vale do fogo de deus). Quem nunca o provou pode tomar nota na rubrica "coisas para fazer antes de morrer".

Mirrormask

Lá fui ao IndieLisboa ver o "Mirrormask" do Dave McKean e Neil Gaiman.

Começou por ser giro ver que a audiência era quase toda composta por pessoal da faculdade de Belas Artes. Senti-me um bocadito velho ao pensar que foi há exactamente 10 anos que saí de lá.

Quanto ao filme, a sensação foi um bocado parecida. É um filme datado. Embora tenha saído o ano passado teria tido muito mais impacto há 10 anos quando o Dave McKean era o rei do mundo da ilustração. Mas é claro, estas coisas levam muito tempo a fazer.

No geral, o filme é bom. Bastante melhor do que eu esperava.Há uma enorme consistência entre a história e o universo visual mas isso é porque o Dave e o Neil são almas gémeas que se auto-estimulam para terem orgasmos sincronizados.
O único problema da coisa é a música, com um saxofone armado em étnico ajudado por umas tablas armadas em jazzy cool que saltaram directamente de 1992 e tentam puxar o filme para o infantil quando é mais que sabido que as crianças que gostam de Dave McKean têm todas mais de 16 anos.

É curioso ver como há coisas que são tão o seu tempo e como o tempo dura cada vez menos. Este filme teria sido genial há 10 anos, mas chegou tarde. De qualquer maneira, ainda bem que chegou. São 2 horas visualmente inspiradas e inspiradoras. Daqui a uns 10 ou 20 anos, quando os anos 90 já estiverem com as fronteiras cronológicas mais diluídas, este filme provavelmente vai ser uma referencia incontornável e já deve ser possível disfrutar dele sem este saborzinho decepcionante de coisa fresca com prazo de validade expirado.

terça-feira, 25 de abril de 2006

cliche x2

Má sorte é apanhar com o mesmo cliché 2 dias de seguida:

"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)

Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.

No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.

Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.

O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).

É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!

Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.

Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)

Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)

sexta-feira, 21 de abril de 2006

cliche

Ontem a propósito do filme "Me and You and everyone we know" (muito recomendável, diga-se de passagem) lembrei-me de um pequeno momento da minha vida, de um dia em que me levantei cedíssimo em casa dos meus pais para apanhar um comboio. Enquanto comia o pequeno almoço, o sol levantava-se e pela janela da cozinha entrava uma bonita luz dourada. Nisto, lá fora, um passarinho vem pousar nas roseiras em flor da minha mãe e põe-se a pipilar muito feliz.
Foi a primeira e única vez que assisti a uma cena imortalizada em vários padrões de cortinados, serviços de chá e leques chineses. Ou seja, era um cliché da pirosada ao vivo e a cores.
Serviu esse momento para eu perceber como a representação artistica da realidade pode conspurcar a nossa percepção dessa mesma realidade. Porque, embora eu estivesse consciente da profunda e comovente beleza do passarinho cantor pousado na roseira estava também consciente de que toda uma cultura visual da humanidade me tinha condicionado para achar aquilo uma grande e ridícula pirosada.
Suponho que seja esse um dos grandes males da sociedade moderna, o facto de não se conseguir ter um experiência pura da realidade. Tudo nos chega revisto, reciclado, representado e eu tenho a impressão de que é preciso mais inocência para se enfrentar o mundo e viver como deve ser, caso contrário passa-se a vida prisioneiro do cinismo e da ironia.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Divida de Imaginario

Esta noite sonhei com uma planície e, quando acordei, tentei lembrar-me de onde é que aquela paisagem me era familiar. Só depois de espremer muito o cérebro é que me lembrei que era uma paisagem imaginada por mim num livro dos cinco, mais exactamente, "Os cinco e o comboio fantasma".

Fiquei um bocadito na cama a apreciar o quentinho do édredon, o quentinho do namorado e a desabitual falta de pressa de ir trabalhar e pensei na Enid Blyton. É sem dúvida a escritora de quem li mais livros. Vejamos:

Colecção Os cinco: 21 volumes
Colecção Os sete: 15 (?) volumes
Colecção Mistério: 17 (?) volumes
Colecção A aventura: 7 (?) volumes
Colecção O segredo: 7(?) volumes
Colecção O Mistério (esta é aquela em que um dos meninos tinha uma macaca chamada Miranda): 5 (?) volumes
Colecção o Colégio de Santa Clara: 6 volumes
Colecção o Colégio das 4 torres: 6 volumes
Mais alguns títulos avulso.
Mais os livros do Nodi.

Dá à volta de 70 livros, mais coisa menos coisa. Isto os que eu li.
Acho que devo muito à senhora Enid Blyton. Devia-me lembrar mais vezes dela.
De qualquer maneira, tem o meu respeito e veneração eterna.

PS: Depois de escrever isto fiz o meu Enid Blyton top 5

1- A aventura no Circo
2- O segredo das grutas de Spiggy
3- Os cinco e a Ciganita
4- O segredo do Castelo de Lua
5- O mistério da torre assombrada

...e olhando para este top cinco facilmente concluo que o que me fascina são livros com castelos e/ou passagens secretas. Hummm.....

segunda-feira, 17 de abril de 2006

De volta a vida

Hoje acordei e parecia que era eu de novo.
Durante a manhã até ouvi música
Durante a tarde até me apercebi que vai haver um concerto dos Piano Magic no Santiago Alquimista dia 28 de Abril.
O mundo desabrocha novamente à minha volta e já não estou imerso em formatação de textos.
Outro dia um amigo meu disse-me que estava feliz por já não ser designer. Eu percebi-o perfeitamente.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Dave Mckean no IndieLisboa

A primeira coisa que me saltou aos olhos da programação do IndieLisboa - festival de cinema independente de lisboa foi o filme do Dave McKean (Sandman - Mr. Punch - Mirrors - etc...) com argumento do Neil Gaiman e criaturas do workshop do Jim Hanson.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.

Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.

quarta-feira, 22 de março de 2006

mote para as proximas semanas

Não há fome que não dê em fartura.

...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)

segunda-feira, 20 de março de 2006

mudança

Lá por casa aproveitou-se o fim de semana e o embalo de duas margaritas para se mudar a televisão da sala para o sotão, que era projecto adiado há quase 3 anos. É incrível como pequenas coisas como esta conseguem transmitir a sensação de que se está a começar uma nova fase de vida.

quinta-feira, 16 de março de 2006

proposta de lei

Ontem ocorreu-me que, tendo em conta que os partidos de esquerda andam todos contentes com aquela proposta de ter 50% de mulheres na política, os partidos de direita deviam aproveitar para propor uma lei que não permitisse mais de 10% de homossexuais.
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...

terça-feira, 14 de março de 2006

Outro contexto

Roubei esta imagem no blog "O Abrupto". É um saco da cadeia de livrarias Waterstones.


Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.

Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...

antes de adormecer

D - Achas que a alma precisa do corpo para existir?

B - Não necessáriamente.

D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?

B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?

D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.

B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.

D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?

B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.

D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?

B - Uma coisa género Frankenstein?

D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.

B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...

D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?

B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?

D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.

B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!

D - O que é que dizias?

B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.

D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."

quinta-feira, 9 de março de 2006

viagem ao meu inconsciente

Esta noite sonhei com ilhas. Ao princípio estava nos Açores mas depois andava pular de ilha em ilha em direcção ao mediterrâneo até que, algures perto da costa da Tunísia, o despertador me acordou.

Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:

Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.

Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.

segunda-feira, 6 de março de 2006

Óscares

Entre o George e Jake eu se calhar também escolhia o George... mas ainda bem que não me pedem para escolher.
Parabéns, senhor Clooney!

Colossal

Ainda estou de queixo caído. Passei o fim de semana a jogar o fenomenal "Shadow of the Colossus", o novo jogo para a Playstation dos mesmos criadores do "Ico". (Aliás, incialmente este jogo era suposto ser o "Ico2" mas saiu-lhes outra coisa e ainda bem.)
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.

Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.




http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/

sexta-feira, 3 de março de 2006

034 - Os Herdeiros

Pouco depois a minha mãe telefonou, tinha mesmo ido ao cinema, mas a tia Júlia, explicou-nos, tinha ido visitar uma amiga.
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”

quarta-feira, 1 de março de 2006

033 - Os Herdeiros

Deixei um recado à minha mãe, “Já voltámos, estou em casa do Jaime.”, e corri para lá.
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”

futuro fantastico

http://www.youtube.com/watch?v=iVI6xw9Zph8

Coisas Infelizes

As estações do metro de Lisboa acordaram hoje inundadas de anúncios ao FIFA Street 2, um jogo de futebol para a Playstation 2 que mexe um bocadito com o nosso orgulho nacional por ostentar na capa (numa excelente ilustração) o giraço do Ronaldo.



À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".

Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...

Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.

De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.