Hoje fiz um desvio no caminho para o supermercado e entrei no Celeiro para comprar pão. Já eram 6 horas e nas padarias já só havia carcaças (o pão com o nome mais correcto do mundo porque de facto sabe a pão morto mesmo quando acabadinho de sair do forno). Aproveitei para me aventurar numas coisas novas e comprei manteiga de sésamo (ainda não sei se gosto) e comprei millet (O cereal. Eu só conhecia o pintor).
Segundo a internet "Millet is one of the oldest foods known to humans and possibly the first cereal grain to be used for domestic purposes". Curiosamente, eu vivi os meus 32 anos sem saber isto.
Segui as instruções da embalagem, lavei os grãozinhos, dei uma leve fritura e cozi durante 20 minutos. Sabia um pouco a papas de milho e embora a água já tivesse sido toda chupada, achei que aquilo podia ter cozido mais tempo. Para salvar a refeição que aquilo ia acompanhar (uns lombinhos de porco com molho de maçã e rábano) resolvi juntar queijo roquefort às papas de millet. Foi bem pensado e funcionou mas de certeza que tripliquei o nível de colesterol da refeição.
Mais uma vez, segundo a internet, "The Hunzas, a people who live in a remote area of the Himalayan foothills and are known for their excellent health and longevity also enjoy millet as a staple in their diet." Acredito que sim, porque aquilo em estado puro tinha um sabor atrozmente saudável. Por outro lado, suponho que os Hunzas não afogam o seu millet em roquefort...
"research on millet and its food value is in its infancy and its potential vastly untapped." Digo o mesmo porque ainda tenho meio quilo de produto para usar em experiencias... até lá, decididamente gosto mais de roquefort do que de millet.
segunda-feira, 24 de julho de 2006
mulheres a beira
Ontem aluguei o filme "Flightplan" só porque me estava a apetecer ver a Jodie Foster. Valeu a pena. A senhora tem mais uma excelente variação de actuação no modelo "estou-aqui-à-beira-do-colapso-nervoso-mas-estou-me-a-aguentar-dentro-do-possível".
(A propósito, quem também é muito boa nisso é a Mary McDonnell, se bem que se especializa mais no "se-me-tocares-com-um-dedo-desato-a-chorar" (ver Donnie Darko e Battlestar Galactica) enquanto que a Jodie é melhor no "se-me-tocares-com-um-dedo-eu-mordo" (ver Contacto e Panic Room))
Ainda me dei ao trabalho de ver os extras do DVD só para concluir que há muita gente a trabalhar (e bem!) em filmes que são uma grande pepinada. Mas recomenda-se, apesar de tudo. Só na ultima meia-hora é que o filme, que se estava a aguentar muito bem, se rende e admite que não sabe descalçar a bota onde enfiou (com bastante convicção e graciosidade) o pé. O final roça o patético.
O que, curiosamente, é o total oposto de outra boa pepinada da Jodie que é o "Nell". Que é patético desde o início mas que depois se sai com um grande final capaz de redimir duas horas de sentimentalismo barato.
Eu gosto da Jodie e da Mary.
(A propósito, quem também é muito boa nisso é a Mary McDonnell, se bem que se especializa mais no "se-me-tocares-com-um-dedo-desato-a-chorar" (ver Donnie Darko e Battlestar Galactica) enquanto que a Jodie é melhor no "se-me-tocares-com-um-dedo-eu-mordo" (ver Contacto e Panic Room))
Ainda me dei ao trabalho de ver os extras do DVD só para concluir que há muita gente a trabalhar (e bem!) em filmes que são uma grande pepinada. Mas recomenda-se, apesar de tudo. Só na ultima meia-hora é que o filme, que se estava a aguentar muito bem, se rende e admite que não sabe descalçar a bota onde enfiou (com bastante convicção e graciosidade) o pé. O final roça o patético.
O que, curiosamente, é o total oposto de outra boa pepinada da Jodie que é o "Nell". Que é patético desde o início mas que depois se sai com um grande final capaz de redimir duas horas de sentimentalismo barato.
Eu gosto da Jodie e da Mary.
domingo, 23 de julho de 2006
adulto
Já sou um homenzinho. De agora em diante passo a ter barba. Comprei finalmente uma daquelas maquinetas de cortar cabelo. Há mais de uma década que sofria com uma barba miserável e mal semeada que não se podia mostrar crescida e que quando usava a gillette me dava borbulhas para vários dias. Mas finalmente posso ter a barba sempre com este aspecto másculo (I want to believe) dos pelinhos uniformemente aparados a 3mm. O meu bigode quase se une ao resto da barba e quase consigo ter patilhas. Isto vai no bom caminho. Já era tempo de deixar de invejar o meu primo que começou logo a fazer a barba aos 11 anos e que, embora a faça todas as manhãs, ao meio-dia já consegue lixar a tinta das paredes.
São curiosas estas mudanças fisiológicas no corpo que envelhece. Felizmente, por enquanto só as vou notando ao nível piloso (de pêlo). As minhas entradas, que se começaram a manifestar logo aos 30, já vão por aqui adentro, criando uma linda península de cabelo ao cimo da testa que se ameaça tornar numa ilhota. É o meu maior terror. Eu não me importava de ser careca. Não tenho nada contra. Até acho sexy nos outros. Mas estes tufos que vão ficando para nos lembrar que a maré está irremediavelmente a descer são ridículos. Daí eu achar que a compra da maquineta de cortar cabelo foi um investimento para o futuro. As ilhotas só se safam com as palmeiras cortadas. No futuro, vejo-me com a barba a ligar ao cabelo nuns uniformes 3mm. A orla marítima é que é capaz de ter um desenho complexo.
Entretanto, parece que a falta de cabelo nas têmporas se deve à sua emigração para outro lado. Nomeadamente para as narinas, orelhas, peito, ombros e costas. Exacto! Aí mesmo onde faz imensa falta. Mas tudo bem, pinça eu já tinha para impedir as sobrancelhas de andarem de mãos dadas.
E depois... os cabelos brancos! São fascinantes e cheios de personalidade. Não lhes basta terem uma cor diferente do outros. Mesmo depois de dois esfreganços com gel na cabeleira, continuam em pé só para chamarem a atenção. Coitadinhos. Por enquanto ainda se sentem muito isolados. Um aqui, outro ali. É por isso que ainda faço uns desvios com a pinça no caminho entre a sobrancelha e a orelha.
É muito cansativo, isto de ser adulto.
Mas podia ser pior. Eu podia ser um wookie.

Moral da história: Olhar sempre para o lado luminoso da vida e continuar a brilhar como um diamante maluco.
São curiosas estas mudanças fisiológicas no corpo que envelhece. Felizmente, por enquanto só as vou notando ao nível piloso (de pêlo). As minhas entradas, que se começaram a manifestar logo aos 30, já vão por aqui adentro, criando uma linda península de cabelo ao cimo da testa que se ameaça tornar numa ilhota. É o meu maior terror. Eu não me importava de ser careca. Não tenho nada contra. Até acho sexy nos outros. Mas estes tufos que vão ficando para nos lembrar que a maré está irremediavelmente a descer são ridículos. Daí eu achar que a compra da maquineta de cortar cabelo foi um investimento para o futuro. As ilhotas só se safam com as palmeiras cortadas. No futuro, vejo-me com a barba a ligar ao cabelo nuns uniformes 3mm. A orla marítima é que é capaz de ter um desenho complexo.
Entretanto, parece que a falta de cabelo nas têmporas se deve à sua emigração para outro lado. Nomeadamente para as narinas, orelhas, peito, ombros e costas. Exacto! Aí mesmo onde faz imensa falta. Mas tudo bem, pinça eu já tinha para impedir as sobrancelhas de andarem de mãos dadas.
E depois... os cabelos brancos! São fascinantes e cheios de personalidade. Não lhes basta terem uma cor diferente do outros. Mesmo depois de dois esfreganços com gel na cabeleira, continuam em pé só para chamarem a atenção. Coitadinhos. Por enquanto ainda se sentem muito isolados. Um aqui, outro ali. É por isso que ainda faço uns desvios com a pinça no caminho entre a sobrancelha e a orelha.
É muito cansativo, isto de ser adulto.
Mas podia ser pior. Eu podia ser um wookie.

Moral da história: Olhar sempre para o lado luminoso da vida e continuar a brilhar como um diamante maluco.
quinta-feira, 20 de julho de 2006
123456789
Hoje fiz o meu primeiro sudoku.
Finalmente percebo o fascínio da coisa.
Eu tenho um problema com números. Até hoje continuo sem saber a tabuada de cor (claro que sei a dos 2 e dos 5, mas dos 6 prá frente só contando pelos dedos e fazendo umas adições complicadas.)
Tenho uma amiga minha que durante anos sonhou com uma espiral de números e acordava sempre aterrorizada por se ir aproximando do número no centro da espiral. Curou-se com sessões intensas de psicoterapia e um bocadito de hipnose, mas nunca chegou a saber qual era o número que a aterrorizava.
Eu da minha parte também tenho um sonho recorrente. Sempre que estou nervoso com um prazo de entrega, ou me sinto ansioso em relação á minha competência com qualquer coisa, sonho que alguém descobriu que durante o liceu faltei a todas as aulas de matemática, ou que passei a faculdade toda sem saber que o curso de belas-artes afinal tinha aulas de matemática e que tenho de as fazer para não me invalidarem o diploma.
Isto é tão comum e tão patético que até enquanto estou a ter estes sonhos já estou consciente do que querem dizer.
Foi por isso que demorei tanto tempo até me decidir a experimentar o sudoku. Mas hoje na casa de banho havia um jornal e uma caneta e acabei por ficar lá mais tempo do que o estritamente necessário. Aquilo dá mesmo pica. Há um momento mágico em que os numeros começam todos a encaixar e vai tudo a bater certo de enfiada. Melhor só rebentar bolhinhas nos plásticos das mudanças.
Ou borbulhas.
Com muito pus.
Finalmente percebo o fascínio da coisa.
Eu tenho um problema com números. Até hoje continuo sem saber a tabuada de cor (claro que sei a dos 2 e dos 5, mas dos 6 prá frente só contando pelos dedos e fazendo umas adições complicadas.)
Tenho uma amiga minha que durante anos sonhou com uma espiral de números e acordava sempre aterrorizada por se ir aproximando do número no centro da espiral. Curou-se com sessões intensas de psicoterapia e um bocadito de hipnose, mas nunca chegou a saber qual era o número que a aterrorizava.
Eu da minha parte também tenho um sonho recorrente. Sempre que estou nervoso com um prazo de entrega, ou me sinto ansioso em relação á minha competência com qualquer coisa, sonho que alguém descobriu que durante o liceu faltei a todas as aulas de matemática, ou que passei a faculdade toda sem saber que o curso de belas-artes afinal tinha aulas de matemática e que tenho de as fazer para não me invalidarem o diploma.
Isto é tão comum e tão patético que até enquanto estou a ter estes sonhos já estou consciente do que querem dizer.
Foi por isso que demorei tanto tempo até me decidir a experimentar o sudoku. Mas hoje na casa de banho havia um jornal e uma caneta e acabei por ficar lá mais tempo do que o estritamente necessário. Aquilo dá mesmo pica. Há um momento mágico em que os numeros começam todos a encaixar e vai tudo a bater certo de enfiada. Melhor só rebentar bolhinhas nos plásticos das mudanças.
Ou borbulhas.
Com muito pus.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
os nomes dos bois
Uma das coisas mais tristes e divertidas que me foi acontecendo no ano em que o livro "Olhos de cão" foi editado, foi o modo como muita gente se sentiu à vontade para me falar sobre os escritores homossexuais portugueses.
É claro que isto aconteceu porque eu pus a palavra "homossexual" no texto da contracapa e não fiz mistério nenhum a explicar que Skråmestø é o sobrenome do meu namorado. Ou seja, como se costuma dizer, chamei os bois pelos nomes. Não sei se fui corajoso ou ingénuo. Ao que parece, é uma coisa que "não se faz". Na editora, nas primeiras reuniões, só vagamente se aludia à "temática especial" do livro. Depois lá acabaram por perceber que eu não sou exactamente um "jovem sensível" e passou a haver conversas mais "normais".
Entre 2003 e 2004 andei divertido a dar alguns autógrafos e entrevistas e a tomar pela primeira vez contacto com distribuidores, livreiros, jornalistas e até outros escritores. E o que acontecia invariavelmente era estes aproveitarem-se dos meus pacientes ouvidos para me porem a par do "quem é o quê" no panorama literário português. E, de repente, apercebi-me de que afinal Portugal tem uma data de escritores homossexuais. Até mesmo daqueles bons e famosos.
Mas, sem grande surpresa, no meio literário português acontece o mesmo que entre actores, cantores, políticos, desportistas e figuras públicas em geral. Estão todos no armário. Ou melhor, vão estando. Aparentemente toda a gente sabe que eles são mas como eles não dizem que são, então "oficialmente" não são.
Eu compreendo que, por exemplo, um ministro da defesa ou um primeiro ministro, tenham medo de não serem levados a sério por admitirem que preferem carinho masculino. Mas no caso de artistas criadores, isso deixa-me um bocadinho triste.
É claro que lá por um escritor ser homossexual não tem obrigatoriamente que escrever sobre isso, mas, acreditem, estar dentro do armário literário é o mesmo que estar no armário da vida. Quem não consegue viver a 100% também não consegue escrever a 100%. É escrever sempre à defesa.
Assim de repente, lembro-me de pelo menos dois livros de dois escritores desta ceifa que tinham tudo para serem excelentes livros e não são. Precisamente porque aludem vagamente a tendencias homossexuais nas suas personagens principais e depois acabam por sacudir a coisa como se fosse irrelevante. No final, a sensação que fica é que o escritor não é honesto nem para com o leitor nem para com as suas personagens (o que é mais grave!).
Se isto ficasse por aqui, seriam apenas histórias tristes de pessoas tristes (mesmo que satisfeitas com prémios da APE). É mais chato quando aparecem nos jornais a dizer que "literatura gay e lésbica" não existe ou que é um rótulo e todos os rótulos são maus (embora este seja pior que os outros, claro).
É claro que isto aconteceu porque eu pus a palavra "homossexual" no texto da contracapa e não fiz mistério nenhum a explicar que Skråmestø é o sobrenome do meu namorado. Ou seja, como se costuma dizer, chamei os bois pelos nomes. Não sei se fui corajoso ou ingénuo. Ao que parece, é uma coisa que "não se faz". Na editora, nas primeiras reuniões, só vagamente se aludia à "temática especial" do livro. Depois lá acabaram por perceber que eu não sou exactamente um "jovem sensível" e passou a haver conversas mais "normais".
Entre 2003 e 2004 andei divertido a dar alguns autógrafos e entrevistas e a tomar pela primeira vez contacto com distribuidores, livreiros, jornalistas e até outros escritores. E o que acontecia invariavelmente era estes aproveitarem-se dos meus pacientes ouvidos para me porem a par do "quem é o quê" no panorama literário português. E, de repente, apercebi-me de que afinal Portugal tem uma data de escritores homossexuais. Até mesmo daqueles bons e famosos.
Mas, sem grande surpresa, no meio literário português acontece o mesmo que entre actores, cantores, políticos, desportistas e figuras públicas em geral. Estão todos no armário. Ou melhor, vão estando. Aparentemente toda a gente sabe que eles são mas como eles não dizem que são, então "oficialmente" não são.
Eu compreendo que, por exemplo, um ministro da defesa ou um primeiro ministro, tenham medo de não serem levados a sério por admitirem que preferem carinho masculino. Mas no caso de artistas criadores, isso deixa-me um bocadinho triste.
É claro que lá por um escritor ser homossexual não tem obrigatoriamente que escrever sobre isso, mas, acreditem, estar dentro do armário literário é o mesmo que estar no armário da vida. Quem não consegue viver a 100% também não consegue escrever a 100%. É escrever sempre à defesa.
Assim de repente, lembro-me de pelo menos dois livros de dois escritores desta ceifa que tinham tudo para serem excelentes livros e não são. Precisamente porque aludem vagamente a tendencias homossexuais nas suas personagens principais e depois acabam por sacudir a coisa como se fosse irrelevante. No final, a sensação que fica é que o escritor não é honesto nem para com o leitor nem para com as suas personagens (o que é mais grave!).
Se isto ficasse por aqui, seriam apenas histórias tristes de pessoas tristes (mesmo que satisfeitas com prémios da APE). É mais chato quando aparecem nos jornais a dizer que "literatura gay e lésbica" não existe ou que é um rótulo e todos os rótulos são maus (embora este seja pior que os outros, claro).
terça-feira, 18 de julho de 2006
o meu top series de televisao
Alguem que leia este blog já deve ter reparado que eu sou um bocadinho (eufemismo) viciado em séries de televisão.
Hoje fica aqui a lista de séries que vejo (ou vi recentemente), por ordem de preferência e divididas em Drama, Comédia e Mini Séries.
DRAMA
Deadwood
Battlestar Galactica
The Wire
Weeds
Lost
Huff
Rescue Me
Entourage
Carnivale
Nip/Tuck (a primeira temporada sozinha poderia por a série mais acima na tabela, mas as seguintes mandaram-na cá para o fundo)
Queer as Folk (americana)
COMEDIA
Will & Grace
The Office (inglesa e americana)
Scrubs
MINI SERIES
Bleak House
Tales of the city
North and South (BBC)
Band of Brothers
Hoje fica aqui a lista de séries que vejo (ou vi recentemente), por ordem de preferência e divididas em Drama, Comédia e Mini Séries.
DRAMA
Deadwood
Battlestar Galactica
The Wire
Weeds
Lost
Huff
Rescue Me
Entourage
Carnivale
Nip/Tuck (a primeira temporada sozinha poderia por a série mais acima na tabela, mas as seguintes mandaram-na cá para o fundo)
Queer as Folk (americana)
COMEDIA
Will & Grace
The Office (inglesa e americana)
Scrubs
MINI SERIES
Bleak House
Tales of the city
North and South (BBC)
Band of Brothers
segunda-feira, 17 de julho de 2006
projecto para esta semana

Fazer isto com 1m de diâmetro.
Entrei numa fase megalómana. Não mais quadrinhos de 30 cm. Agora é ao metro!
sábado, 15 de julho de 2006
A minha cançao do ano
Achei a minha canção do ano: "Province" dos Tv on the Radio.
Hoje já a ouvi umas 20 vezes.
E depois rezei para que o David Bowie (que canta no coro!) convoque esta gente para lhe produzir o próximo album...
Lema para os próximos meses 4AD IS NOT DEAD!

Artist: TV On The Radio
Album: Return To Cookie Mountain
Year: 2006
Title: Province
Suddenly, all your history's ablaze
Try to breath, as the world desintegrates
Just like autumn leaves, we're in for change
Holding tenderly to what remains
And all your memories, are as precious as gold
And all the honey, and the fire which you stole
Have you running through all your red cheeked days
Shaking loose these songs from their sacred hiding space
Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave
Push under this expanse of bursting stars
Let this burning brightly illumintate where we are
Build this hallow that lovers voices occupy
Let it follow That we let it free, let it fly
Breaking open the walls of this cage
Intoxicated, oh so amazed
Much like falcons tumbling from the heights ablaze
conjoined, talons engaged
Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave
Hoje já a ouvi umas 20 vezes.
E depois rezei para que o David Bowie (que canta no coro!) convoque esta gente para lhe produzir o próximo album...
Lema para os próximos meses 4AD IS NOT DEAD!

Artist: TV On The Radio
Album: Return To Cookie Mountain
Year: 2006
Title: Province
Suddenly, all your history's ablaze
Try to breath, as the world desintegrates
Just like autumn leaves, we're in for change
Holding tenderly to what remains
And all your memories, are as precious as gold
And all the honey, and the fire which you stole
Have you running through all your red cheeked days
Shaking loose these songs from their sacred hiding space
Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave
Push under this expanse of bursting stars
Let this burning brightly illumintate where we are
Build this hallow that lovers voices occupy
Let it follow That we let it free, let it fly
Breaking open the walls of this cage
Intoxicated, oh so amazed
Much like falcons tumbling from the heights ablaze
conjoined, talons engaged
Hold your heart courageously
as we walk into this dark place
Stand steadfast erect and see
that love is the province of the brave
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Quase Nada
Há uma coisa que irrita: as embalagens do fiambre.
Que raio quer dizer "Fiambre da perna extra"? Eu já nem me preocupo em saber de que animal vem o fiambre mas é perturbante o desplante com que eles nos dizem que é tirado de uma perna extra, que talvez o animal não tivesse em circunstâncias normais.
Também não percebo como é que tiveram a idéia das "Fatias finíssimas". Não era mais honesto chamar áquilo "Aglomerado de fiambre desfeito em fanicos"? Já alguém alguma vez consegui descolar uma daquelas "fatias" inteira e intacta? Não vejo onde está o suposto glamour da coisa quando se tem de chafurdar com as dedongas para sacar uma lasca de aglomerado.
Isto para não falar no grande eufemismo da embalagens que se orgulham de ter uma "Abertura fácil". Não há cola mais forte que aquela. E é melhor afiar a faca antes de atacar aquele fabuloso plástico super resistente.
A minha desculpa para este post? Passa da meia-noite, está um calor do caraças e estive a beber sangria.
Que raio quer dizer "Fiambre da perna extra"? Eu já nem me preocupo em saber de que animal vem o fiambre mas é perturbante o desplante com que eles nos dizem que é tirado de uma perna extra, que talvez o animal não tivesse em circunstâncias normais.
Também não percebo como é que tiveram a idéia das "Fatias finíssimas". Não era mais honesto chamar áquilo "Aglomerado de fiambre desfeito em fanicos"? Já alguém alguma vez consegui descolar uma daquelas "fatias" inteira e intacta? Não vejo onde está o suposto glamour da coisa quando se tem de chafurdar com as dedongas para sacar uma lasca de aglomerado.
Isto para não falar no grande eufemismo da embalagens que se orgulham de ter uma "Abertura fácil". Não há cola mais forte que aquela. E é melhor afiar a faca antes de atacar aquele fabuloso plástico super resistente.
A minha desculpa para este post? Passa da meia-noite, está um calor do caraças e estive a beber sangria.
segunda-feira, 10 de julho de 2006
no DVD
Depois dos advogados, dos médicos, dos polícias, dos cowboys e dos agentes funerários, eis que chega a vez dos Psiquiatras e dos Bombeiros terem direito a duas excelentes séries dramáticas (com uma pitada de comédia). Ambas são bastante recomendáveis, ambas têm actores (muito justamente) nomeados para os Emmys, ambas têm uma pontinha gay (parece que é moderno). Foram duas semanas bem passadas a aumentar a mossa no sofá. Encomendando as duas juntas na amazon.uk dá um desconto simpático.
Huff

Rescue Me

Descobri ontem que o "Rescue Me" estreia sexta-feira na SIC. Em português chama-se "Socorro"
Entretanto, Battlestar Galactica Season 2 só sai no fim de Agosto. Mas eu quero! Agora! Já!
Huff

Rescue Me

Descobri ontem que o "Rescue Me" estreia sexta-feira na SIC. Em português chama-se "Socorro"
Entretanto, Battlestar Galactica Season 2 só sai no fim de Agosto. Mas eu quero! Agora! Já!
domingo, 2 de julho de 2006
o interruptor
Na sexta-feira saí à noite em Lisboa.
Um verdadeiro evento, tendo em conta que a minha frequeencia de bares e discotecas poder-se-ia dizer limitada aos aniversários do rei. Mas, como estava com antigos colegas de faculdade e extremamente bem disposto (e convenientemente perto de casa), lá estava eu, ainda acordado à 3 da manhã, a dar um (minusculo) pézinho de dança.
Depois de restaurante e bar, o nosso heterogéneo grupo foi acabar a noite numa festarola que decorria num bar/sítio que nunca associei a nada gay, mas, assim que lá entrámos, o meu gaydar disparou e desatou a apitar em todas as direcções. A princípio, julguei que era o sistema avariado, resultado de muito tempo passado dentro casa e falta de exposição a menores de 30 anos. Mas, uma avaliação fria e racional acabou por me confirmar que o gaydar raramente falha ou avaria.
Quando chegámos abanava-se a anca com umas "inofensivas" Bangles e Katrina and the Waves, mas o que parecia um ocasional êxito dos Wham ou um toque portuga com António Variações, encarreirou com os Communards, meteu-se pela Donna Summer e para o resto da noite já não conseguiu sair de uma areia movediça de Chic, BonneyM e semelhantes lantejoulas musicas do anos 70. Suava-se em bica, e quem não dançava era maricas. Ou seja, a noite foi peneirando os heteros para fora da pista de dança e rapazitos e rapazitas, que inicialmente pareciam apenas felizes, às tantas não hesitavam em demonstrar publicamente o seu afecto. Era bonito. Era simples e táva-se bem. E eu nunca tinha estado num bar ou discoteca gay português que fosse assim, tão à vontade, tão descomprometido.
E hoje pus-me a pensar. Será que aquele evento se tornou “gay” precisamente porque não era suposto ser gay? E, se fosse suposto ser, teria alguma vez conseguido atingir com tanta facilidade aquele saudável nível de bem estar e convívio social entre heteros e homos? (E alguém consegue ler esta frase anterior sem se sentir com prisão de ventre?)
Num post que li recentemente no blog do Miguel Vale de Almeida, ele comentava a fraca adesão à marcha e arraial gay (aos quais eu não fui com uma muito boa desculpa (possivel variante do mesmo alibi de todos os que não foram mas acham que deveriam ter ido)). Dizia ele algo que digeri assim: Se calhar estes modelos de marcha e festa de orgulho gay têm pouca adesão porque são um modelo importado que não se aplica bem ao nosso tecido social.
Parece-me que isto aponta numa boa direcção. Nós somos um povo que se caracteriza pela fraca adesão, passividade (no sentido normal da palavra) e falta de espontâniedade.
Veja-se as taxas de abstenção nas eleições.
Veja-se a duração da nossa ditadura.
Veja-se a mínima quantidade de tiros e sangue na revolução de 25 de Abril.
Veja-se os nossos desfiles de carnaval
E no entanto...
Veja-se o que acontece quando a selecção ou um dos três principais clubes de futebol ganham um jogo/campeonato.
Veja-se o funeral da Amália, do Àlvaro Cunhal e daquele miúdo dos Morangos com Açúcar
Veja-se o Coliseu a esgotar com o Tony Carreira e as longas temporadas dos musicais do LaFéria.
Hummm...
Faz de facto falta animar a malta, nisto do activismo, solidariedade e visibilidade gay em Portugal. Mas a malta não se anima apenas gritando "animem-se!". É preciso descobrir o interruptor que ligue a espontãniedade de todos os rabetas, fufas e travecas portugueses. Principalmente o interruptor daqueles que permanecem ainda mais desligados quando acham que esse interruptor vai mostrar apenas rabetas, fufas e travecas e não a simples verdade: pessoas. Um grupo socialmente muito diversificado de pessoas.
Estas comemorações do orgulho gay junino têm origem na carga de porrada que rabetas, fufas e travecas americanos deram aos polícias que faziam uma rusga num bar na noite da morte da Judy Garland. Fizeram muito bem e pessoalmente não tenho o menor problema em acenar uma bandeirola multicolorida nesse dia para o comemorar, mas, pensando bem, que grande estímulo é afinal esse para um simples portuguesinho?
Na sexta-feira à noite, a malta à minha volta estava de facto animada. Espontâneamente. Sem precisar de bandeirola para demarcar território ou de uma data especial para socializar e se misturar no mundo. E se alguém tivesse ido lá chatear tinha de certeza apanhado uma carga de porrada. E tenho a certeza de que se isto aconteceu à minha frente na sexta-feira pode acontecer noutros dias.
Agora, onde raio fica este interruptor da naturalidade e espontâniedade dos homossexuais portugueses? E como se liga?
Alguém vá lá saber, sff.
Um verdadeiro evento, tendo em conta que a minha frequeencia de bares e discotecas poder-se-ia dizer limitada aos aniversários do rei. Mas, como estava com antigos colegas de faculdade e extremamente bem disposto (e convenientemente perto de casa), lá estava eu, ainda acordado à 3 da manhã, a dar um (minusculo) pézinho de dança.
Depois de restaurante e bar, o nosso heterogéneo grupo foi acabar a noite numa festarola que decorria num bar/sítio que nunca associei a nada gay, mas, assim que lá entrámos, o meu gaydar disparou e desatou a apitar em todas as direcções. A princípio, julguei que era o sistema avariado, resultado de muito tempo passado dentro casa e falta de exposição a menores de 30 anos. Mas, uma avaliação fria e racional acabou por me confirmar que o gaydar raramente falha ou avaria.
Quando chegámos abanava-se a anca com umas "inofensivas" Bangles e Katrina and the Waves, mas o que parecia um ocasional êxito dos Wham ou um toque portuga com António Variações, encarreirou com os Communards, meteu-se pela Donna Summer e para o resto da noite já não conseguiu sair de uma areia movediça de Chic, BonneyM e semelhantes lantejoulas musicas do anos 70. Suava-se em bica, e quem não dançava era maricas. Ou seja, a noite foi peneirando os heteros para fora da pista de dança e rapazitos e rapazitas, que inicialmente pareciam apenas felizes, às tantas não hesitavam em demonstrar publicamente o seu afecto. Era bonito. Era simples e táva-se bem. E eu nunca tinha estado num bar ou discoteca gay português que fosse assim, tão à vontade, tão descomprometido.
E hoje pus-me a pensar. Será que aquele evento se tornou “gay” precisamente porque não era suposto ser gay? E, se fosse suposto ser, teria alguma vez conseguido atingir com tanta facilidade aquele saudável nível de bem estar e convívio social entre heteros e homos? (E alguém consegue ler esta frase anterior sem se sentir com prisão de ventre?)
Num post que li recentemente no blog do Miguel Vale de Almeida, ele comentava a fraca adesão à marcha e arraial gay (aos quais eu não fui com uma muito boa desculpa (possivel variante do mesmo alibi de todos os que não foram mas acham que deveriam ter ido)). Dizia ele algo que digeri assim: Se calhar estes modelos de marcha e festa de orgulho gay têm pouca adesão porque são um modelo importado que não se aplica bem ao nosso tecido social.
Parece-me que isto aponta numa boa direcção. Nós somos um povo que se caracteriza pela fraca adesão, passividade (no sentido normal da palavra) e falta de espontâniedade.
Veja-se as taxas de abstenção nas eleições.
Veja-se a duração da nossa ditadura.
Veja-se a mínima quantidade de tiros e sangue na revolução de 25 de Abril.
Veja-se os nossos desfiles de carnaval
E no entanto...
Veja-se o que acontece quando a selecção ou um dos três principais clubes de futebol ganham um jogo/campeonato.
Veja-se o funeral da Amália, do Àlvaro Cunhal e daquele miúdo dos Morangos com Açúcar
Veja-se o Coliseu a esgotar com o Tony Carreira e as longas temporadas dos musicais do LaFéria.
Hummm...
Faz de facto falta animar a malta, nisto do activismo, solidariedade e visibilidade gay em Portugal. Mas a malta não se anima apenas gritando "animem-se!". É preciso descobrir o interruptor que ligue a espontãniedade de todos os rabetas, fufas e travecas portugueses. Principalmente o interruptor daqueles que permanecem ainda mais desligados quando acham que esse interruptor vai mostrar apenas rabetas, fufas e travecas e não a simples verdade: pessoas. Um grupo socialmente muito diversificado de pessoas.
Estas comemorações do orgulho gay junino têm origem na carga de porrada que rabetas, fufas e travecas americanos deram aos polícias que faziam uma rusga num bar na noite da morte da Judy Garland. Fizeram muito bem e pessoalmente não tenho o menor problema em acenar uma bandeirola multicolorida nesse dia para o comemorar, mas, pensando bem, que grande estímulo é afinal esse para um simples portuguesinho?
Na sexta-feira à noite, a malta à minha volta estava de facto animada. Espontâneamente. Sem precisar de bandeirola para demarcar território ou de uma data especial para socializar e se misturar no mundo. E se alguém tivesse ido lá chatear tinha de certeza apanhado uma carga de porrada. E tenho a certeza de que se isto aconteceu à minha frente na sexta-feira pode acontecer noutros dias.
Agora, onde raio fica este interruptor da naturalidade e espontâniedade dos homossexuais portugueses? E como se liga?
Alguém vá lá saber, sff.
quarta-feira, 28 de junho de 2006
A discriminaçao
As palavras que nos saem da boca têm tendencia a surpreender-nos. Outro dia dei por mim a dizer a alguém que nunca me tinha sentido discriminado enquanto homossexual.
Mas que grande eufemismo!
Passado uns minutos de ter dito esta barbaridade dei por mim a pensar se de facto tinha motivos para poder dizer isto.
A verdade é que a minha vida é muito sossegada, confortável e feliz e tem dias deliciosamente burgueses (que incluem férias em países estrangeiros e compras despreocupadas em sites de internet). Tenho a grande sorte de estar bem acasalado (amantizado também é uma palavra que me agrada) há uma data de anos. Quase desde a altura em que pus o pé fora do armário. Aos 24 anos... !!!!!
Ou seja, sou homossexual oficial, muito feliz e com muito orgulho há menos de uma década. A estupidez alheia passa-me ao lado ou faz ricochete na carapaça da minha felicidade. Como naquela vez em que o meu vizinho "beato" disse aos pedreiros que trabalhavam em minha casa que era uma vergonha estarem a trabalhar para paneleiros. Graças ao Deus dele, isto deu-me mais vontade de rir do que de lhe partir as trombas. Porque felizmente, vivo numa época, num país e numa sociedade onde tal comentário pode ganhar toda a irrelevância que merece. Não só os pedreiros não se foram embora horrorizados, como ficaram mais tempo que o previsto (ou seja, tudo normal).
Olhando para a minha vidinha em perspectiva, há de facto um ponto charneira nesta coisa da discriminação. Foi aquela altura em que resolvi sair do armário e percebi que ser um grande panilas não era uma coisa que me metia medo e que até tinha bastante piada. Claro que podia ter acontecido mais cedo mas, je ne regrette rien.
Daí que a minha conclusão simplista poderia ser: só somos afectados por aquilo que deixamos que nos afecte. Os cães ladram e a caravana passa, etc..
A minha tirada eufemistica sobre a discriminação saiu naquele contexto de "conselhos aos gays mais jovens" (mesmo quando os mais jovens têm 45 anos e são casados com 2 filhos). Mas, pensando bem, quem sou eu para dar conselhos a alguém sobre discriminação? Sou um jovem homem branco, não sou gordo, não sou feio e, se estiver calado, até passo por hetero. Ou seja, não fosse este pequeno acidente da (des)orientação sexual se calhar não tinha motivos para me queixar de nada, o mundo seria a minha ostra e minha vida um tédio. De todos os "males" de que poderia padecer, sou suficientemente sortudo para me ter calhado este d' "o amor que não se atreve a dizer o seu nome", que se pode mostrar ou esconder à sociedade, nutrir em casulo o tempo que se quiser até a borboleta estar pronta para abrir as asas.
No meu voo de borboleta, nos meus 9 anos de paneleirice aberta ao mundo, tenho de facto tido a sorte de nunca me ter sentido verdadeiramente discriminado enquanto homossexual. Não perdi amigos, não me recusaram empregos, não me deserdaram, não me cuspiram em cima, não me apedrejaram, não me atiraram para dentro de um poço, não me enforcaram numa ponte.
Claro que há pessoas que sentem mais aquela coisa inglesa do “paus e pedras podem partir-me os ossos, mas só as palavras me magoam” mas ainda por cima, eu nem sou uma delas. Estou-me um bocado nas tintas para conversas de taxistas, vizinhas beatas e treinadores de futebol.
Por várias vezes me têm chegado às mãos alguns inquéritos sobre a vida dos homossexuais que, depois de preenchidos eu acabo por não entregar para não estragar as estatísticas. É deprimente olhar para eles e constatar que nunca tive nenhum problema sério por ser gay.
Que fazer então com esta minha vida aparentemente atípica? Se calhar o melhor é mesmo reduzi-la a um eufemismo. Aproveitar para dizer, sem mentir por aí além, que “nunca me senti discriminado enquanto homossexual” e incitar algumas almas atromentadas a procurar um pouco de verdade nas suas vidas.
Mas que grande eufemismo!
Passado uns minutos de ter dito esta barbaridade dei por mim a pensar se de facto tinha motivos para poder dizer isto.
A verdade é que a minha vida é muito sossegada, confortável e feliz e tem dias deliciosamente burgueses (que incluem férias em países estrangeiros e compras despreocupadas em sites de internet). Tenho a grande sorte de estar bem acasalado (amantizado também é uma palavra que me agrada) há uma data de anos. Quase desde a altura em que pus o pé fora do armário. Aos 24 anos... !!!!!
Ou seja, sou homossexual oficial, muito feliz e com muito orgulho há menos de uma década. A estupidez alheia passa-me ao lado ou faz ricochete na carapaça da minha felicidade. Como naquela vez em que o meu vizinho "beato" disse aos pedreiros que trabalhavam em minha casa que era uma vergonha estarem a trabalhar para paneleiros. Graças ao Deus dele, isto deu-me mais vontade de rir do que de lhe partir as trombas. Porque felizmente, vivo numa época, num país e numa sociedade onde tal comentário pode ganhar toda a irrelevância que merece. Não só os pedreiros não se foram embora horrorizados, como ficaram mais tempo que o previsto (ou seja, tudo normal).
Olhando para a minha vidinha em perspectiva, há de facto um ponto charneira nesta coisa da discriminação. Foi aquela altura em que resolvi sair do armário e percebi que ser um grande panilas não era uma coisa que me metia medo e que até tinha bastante piada. Claro que podia ter acontecido mais cedo mas, je ne regrette rien.
Daí que a minha conclusão simplista poderia ser: só somos afectados por aquilo que deixamos que nos afecte. Os cães ladram e a caravana passa, etc..
A minha tirada eufemistica sobre a discriminação saiu naquele contexto de "conselhos aos gays mais jovens" (mesmo quando os mais jovens têm 45 anos e são casados com 2 filhos). Mas, pensando bem, quem sou eu para dar conselhos a alguém sobre discriminação? Sou um jovem homem branco, não sou gordo, não sou feio e, se estiver calado, até passo por hetero. Ou seja, não fosse este pequeno acidente da (des)orientação sexual se calhar não tinha motivos para me queixar de nada, o mundo seria a minha ostra e minha vida um tédio. De todos os "males" de que poderia padecer, sou suficientemente sortudo para me ter calhado este d' "o amor que não se atreve a dizer o seu nome", que se pode mostrar ou esconder à sociedade, nutrir em casulo o tempo que se quiser até a borboleta estar pronta para abrir as asas.
No meu voo de borboleta, nos meus 9 anos de paneleirice aberta ao mundo, tenho de facto tido a sorte de nunca me ter sentido verdadeiramente discriminado enquanto homossexual. Não perdi amigos, não me recusaram empregos, não me deserdaram, não me cuspiram em cima, não me apedrejaram, não me atiraram para dentro de um poço, não me enforcaram numa ponte.
Claro que há pessoas que sentem mais aquela coisa inglesa do “paus e pedras podem partir-me os ossos, mas só as palavras me magoam” mas ainda por cima, eu nem sou uma delas. Estou-me um bocado nas tintas para conversas de taxistas, vizinhas beatas e treinadores de futebol.
Por várias vezes me têm chegado às mãos alguns inquéritos sobre a vida dos homossexuais que, depois de preenchidos eu acabo por não entregar para não estragar as estatísticas. É deprimente olhar para eles e constatar que nunca tive nenhum problema sério por ser gay.
Que fazer então com esta minha vida aparentemente atípica? Se calhar o melhor é mesmo reduzi-la a um eufemismo. Aproveitar para dizer, sem mentir por aí além, que “nunca me senti discriminado enquanto homossexual” e incitar algumas almas atromentadas a procurar um pouco de verdade nas suas vidas.
sexta-feira, 23 de junho de 2006
citaçao para o fim de semana
"I may love Judy Garland, but ultimately what makes me a gay man is that I want a big one down my hunger chute"
Marcus O'Donnell
em "the little book of gay love", Penguin
Marcus O'Donnell
em "the little book of gay love", Penguin
quarta-feira, 21 de junho de 2006
Jesus Cristo e' o senhor

Confesso que estava muito céptico. Sendo um fã dos livros de vampiros e bruxas da Anne Rice, quando soube que o próximo livro dela seria uma "auto-biografia" de Jesus, fiquei de pé atrás. Aliás, com os dois pés bem lá para trás. Os últimos livros da senhora já se podiam definir como "derrapanço literário" por isso tudo levava a crer que agora é que era o bater no fundo do poço.
Afinal não.
É certo que os vampiros e as bruxas já tinham dado o que tinham para dar (e os fantasmas e as múmias também) e que a viragem é um bocadito para o inesperado, mas se calhar faz bastante sentido. Jesus é daquelas coisas em que, tal como os vampiros e as bruxas, há quem acredite neles, mas nunca nos afectam directamente no dia a dia.
Como sempre achei Jesus uma personagem interessante, embora mal compreendida (principalmente pela igreja católica), dei o benefício da dúvida e lá comecei a ler o livro.
Tiro o chapéu à senhora Rice. Um livro escrito do ponto de vista de Jesus aos 7 anos de Idade não era um desafio fácil e ela sai-se airosamente e com direito a medalhas. Fico ansiosamente à espera dos próximos volumes. E isto sim é um feito, tendo em conta que é um história em que toda a gente sabe que o herói morre no fim (e ressuscita para a sequela).
Mas por enquanto: Viva o menino Jesus!
PS - Entretanto fiquei contente de saber que "Cry to heaven", o livro de Anne Rice sobre cantores castrados na Itália do séc. XVIII com um gosto particular em entupir a garganta com o instrumento do parceiro, vai ser finalmente adaptado ao cinema.
Depois de "Entrevista com o vampiro" no ter proporcionado umas beijocas Brad Pitt - Tom Cruise e Brad Pitt - António Banderas, aguarda-se com espectativa o anúncio do elenco para mais um devaneio apaneleirado com muita renda, cetim e ópera.
terça-feira, 20 de junho de 2006
segunda-feira, 19 de junho de 2006
directamente da gaveta
Sei que ela gosta de gatos, de flores, de coisas bonitas.
Sei que tem os caracóis de um anjo de Botticelli que brilham especialmente ao sol.
Sei que tem uma inocência limpa nos olhos e que um dia será capaz de amar para lá do razoável.
Soube que me tinha amado quando, sentados no miradouro, eu lhe disse que te amava. Vi-lhe nos olhos.
Sei também que antes de ela nascer, a mãe dela, doente, tinha decidido nunca mais ter filhos. E que uma cigana a tinha parado na rua e dito, estás grávida. E que ela se assustou porque não sabia. E que a cigana acrescentou, não temas porque tudo vai correr bem, para além do filho que já tens vai-te nascer uma filha que será como tua mãe, que vai cuidar de ti e que te vai dar amor quando precisares e que crescerá para além da sombra da tua vida e desabrochará quando o sol dela vier.
E sei que assim foi.
É isto que sei. Que mais queres saber?
Sei que tem os caracóis de um anjo de Botticelli que brilham especialmente ao sol.
Sei que tem uma inocência limpa nos olhos e que um dia será capaz de amar para lá do razoável.
Soube que me tinha amado quando, sentados no miradouro, eu lhe disse que te amava. Vi-lhe nos olhos.
Sei também que antes de ela nascer, a mãe dela, doente, tinha decidido nunca mais ter filhos. E que uma cigana a tinha parado na rua e dito, estás grávida. E que ela se assustou porque não sabia. E que a cigana acrescentou, não temas porque tudo vai correr bem, para além do filho que já tens vai-te nascer uma filha que será como tua mãe, que vai cuidar de ti e que te vai dar amor quando precisares e que crescerá para além da sombra da tua vida e desabrochará quando o sol dela vier.
E sei que assim foi.
É isto que sei. Que mais queres saber?
quarta-feira, 14 de junho de 2006
Na realidade
Foi divertido assistir à trovoada de ontem à noite em Lisboa (e que hoje está de regresso). Sempre julgara que tempestades dessas, com relâmpagos à frequencia de luzes estroboscópicas só existiam em filmes de terror de série B. Afinal podem ser verdade.
Por muito tempo também julguei que o sabor a morango extremamente intenso das pastilhas elásticas era uma coisa exclusivamente artificial, até ao dia em que provei morangos silvestres numa floresta norueguesa.
Para além disso...
Ontem, depois de ver 5 episódios de Queer as folk (versão americana) e rever um de O sexo e a cidade (sim, dia de ronha e coma cerebral) também concluí que provavelmente os argumentistas da maior parte das séries e filmes americanos nunca amaram ninguém (porque dá muito trabalho!).
Entretanto...
Estou a trabalhar como designer num projecto intitulado "Os grandes amores da história de Portugal". Ao que parece, para o mundo da arte e da ficção, um amor só é verdadeiramente "grande" quando é breve, difícil e/ou impossível. Isto aparentemente dá logo à partida uma grande vantagem artística a qualquer relação homosexual.
Entretanto...
O "Brokeback mountain" saiu em DVD. Não vou comprar. Basta-me ouvir a musiquita do filme para os meus sacos lacrimais entrarem em actividade.
Por muito tempo também julguei que o sabor a morango extremamente intenso das pastilhas elásticas era uma coisa exclusivamente artificial, até ao dia em que provei morangos silvestres numa floresta norueguesa.
Para além disso...
Ontem, depois de ver 5 episódios de Queer as folk (versão americana) e rever um de O sexo e a cidade (sim, dia de ronha e coma cerebral) também concluí que provavelmente os argumentistas da maior parte das séries e filmes americanos nunca amaram ninguém (porque dá muito trabalho!).
Entretanto...
Estou a trabalhar como designer num projecto intitulado "Os grandes amores da história de Portugal". Ao que parece, para o mundo da arte e da ficção, um amor só é verdadeiramente "grande" quando é breve, difícil e/ou impossível. Isto aparentemente dá logo à partida uma grande vantagem artística a qualquer relação homosexual.
Entretanto...
O "Brokeback mountain" saiu em DVD. Não vou comprar. Basta-me ouvir a musiquita do filme para os meus sacos lacrimais entrarem em actividade.
domingo, 11 de junho de 2006
A Noruega no seu melhor - a Kira e o Jack
As manchetes dos Jornais noruegueses por vezes ultrapassam-se a si mesmas.
A minha favorita de sempre, e um clássico frequeentemente recordado cá em casa, foi o "Kira jaget Bjørnen" (Kira ladrou ao urso).
Em 2004, a cadela Kira (7 anos) , ladrando, conseguiu enxotar um urso que aparecera no quintal do dono. Este, fotografou e filmou a sua cadelinha (video disponível em http://www.aftenposten.no/dyr/article783657.ece), o que permitiu ao jornal publicar esta linda foto do anus da Kira na primeira página:

Este fim de semana, o jornal Dagbladet retoma finalmente um tema capaz de ofuscar a situação no Iraque ou o mundial de futebol.
Desta vez foi o gato Jack (americano, idade desconhecida mas pesa 7 quilos) que bufou a um urso:

Infelizmente, por o caso se ter passado nos Estados Unidos e não na Noruega, embora tenha tido direito a página inteira, não foi o destaque da capa.
...as saudades que eu tenho da Noruega!
A minha favorita de sempre, e um clássico frequeentemente recordado cá em casa, foi o "Kira jaget Bjørnen" (Kira ladrou ao urso).
Em 2004, a cadela Kira (7 anos) , ladrando, conseguiu enxotar um urso que aparecera no quintal do dono. Este, fotografou e filmou a sua cadelinha (video disponível em http://www.aftenposten.no/dyr/article783657.ece), o que permitiu ao jornal publicar esta linda foto do anus da Kira na primeira página:

Este fim de semana, o jornal Dagbladet retoma finalmente um tema capaz de ofuscar a situação no Iraque ou o mundial de futebol.
Desta vez foi o gato Jack (americano, idade desconhecida mas pesa 7 quilos) que bufou a um urso:

Infelizmente, por o caso se ter passado nos Estados Unidos e não na Noruega, embora tenha tido direito a página inteira, não foi o destaque da capa.
...as saudades que eu tenho da Noruega!
sexta-feira, 9 de junho de 2006
balanço primeiro semestre
A pedido de várias famílias (isto é para ti, Celso!) aqui fica a minha lista de músicas mais ouvidas nos ultimos seis meses.
Olhando para ela concluí que este ano, so far, tem sido um bocadito xocho. Nesta lista ninguém apanhou 5 estrelitas. A Marisa Monte tem 3 entradas!! Ou eu ando a ouvir as coisas erradas ou isto anda mesmo por baixo.
The First Song-Band of Horses
The Funeral -Band of Horses
Pink Love -Blonde redhead
Newsweek -Bombay 1
Superafim -Cansei de Ser Sexy
Home On Ice -Clap Your Hands Say Yeah!
Over and Over Again (Lost & Found) -Clap Your Hands Say Yeah!
True Skool -Coldcut
Where Is The Time -Constantin Veis
Heart Like A Demon -DK7
A Love That Will Never Grow Old -Emmylou Harris
Crazy -Gnarls Barkley
Boomerang 2005 [Comme Un Boomerang] -Gonzales, Feist & Dani
Miss Pilling -Half Cousin
Marble House -The Knife
Super Zero -Linda Draper
A Thousand Roads -Lisa Gerrard And Jeff Rona
Infinito Particular -Marisa Monte
Vilarejo -Marisa Monte
Universo Ao Meu Redor -Marisa Monte
An Envoy To The Open Fields -Mew
Beneath The Rose -Micah P. Hinson
Off the Record My Morning Jacket
Track 04(do album mish maoul) -natacha atlas
Track 06(do album mish maoul) -natacha atlas
No Yes No -PET
Whip my blue chips -PET
Lígia -Ramón Leal
Beautifulheart -Richard Swift
World Citizen -Ryuichi Sakamoto
Sweetmeat -Scarlet´s Well
These Things -She Wants Revenge
She Falls In Love With Machines -Spleen United
Tiny Cities Made of Ashes -Sun Kil Moon
Jesus Christ Was An Only Child -Sun Kil Moon
Good To Be Free -Swan Dive
Cymbal Rush -Thom Yorke
All Over This Town -The Upper Room
Combination -The Upper Room
Olhando para ela concluí que este ano, so far, tem sido um bocadito xocho. Nesta lista ninguém apanhou 5 estrelitas. A Marisa Monte tem 3 entradas!! Ou eu ando a ouvir as coisas erradas ou isto anda mesmo por baixo.
The First Song-Band of Horses
The Funeral -Band of Horses
Pink Love -Blonde redhead
Newsweek -Bombay 1
Superafim -Cansei de Ser Sexy
Home On Ice -Clap Your Hands Say Yeah!
Over and Over Again (Lost & Found) -Clap Your Hands Say Yeah!
True Skool -Coldcut
Where Is The Time -Constantin Veis
Heart Like A Demon -DK7
A Love That Will Never Grow Old -Emmylou Harris
Crazy -Gnarls Barkley
Boomerang 2005 [Comme Un Boomerang] -Gonzales, Feist & Dani
Miss Pilling -Half Cousin
Marble House -The Knife
Super Zero -Linda Draper
A Thousand Roads -Lisa Gerrard And Jeff Rona
Infinito Particular -Marisa Monte
Vilarejo -Marisa Monte
Universo Ao Meu Redor -Marisa Monte
An Envoy To The Open Fields -Mew
Beneath The Rose -Micah P. Hinson
Off the Record My Morning Jacket
Track 04(do album mish maoul) -natacha atlas
Track 06(do album mish maoul) -natacha atlas
No Yes No -PET
Whip my blue chips -PET
Lígia -Ramón Leal
Beautifulheart -Richard Swift
World Citizen -Ryuichi Sakamoto
Sweetmeat -Scarlet´s Well
These Things -She Wants Revenge
She Falls In Love With Machines -Spleen United
Tiny Cities Made of Ashes -Sun Kil Moon
Jesus Christ Was An Only Child -Sun Kil Moon
Good To Be Free -Swan Dive
Cymbal Rush -Thom Yorke
All Over This Town -The Upper Room
Combination -The Upper Room
quinta-feira, 8 de junho de 2006
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Como una Ola
Morreu Rocio Jurado, a espanha cobre-se de luto.
Telefonei ao meu amigo Juan Pedro a dar-lhe os pêsames. Foi ele quem em 2005 me levou ao inolvidável clube "Madrid La Nuit" para ver este pindérico show:

Ele não estava triste porque, como eu, sabe muito bem que a Rocio Jurado vai continuar viva nos coração de todos os artistas de transformismo espanhóis por muito anos... Rocio is dead, long live Rocio!!
Telefonei ao meu amigo Juan Pedro a dar-lhe os pêsames. Foi ele quem em 2005 me levou ao inolvidável clube "Madrid La Nuit" para ver este pindérico show:

Ele não estava triste porque, como eu, sabe muito bem que a Rocio Jurado vai continuar viva nos coração de todos os artistas de transformismo espanhóis por muito anos... Rocio is dead, long live Rocio!!
quarta-feira, 31 de maio de 2006
Era cego e agora vejo - ou - Nao sabia e agora sei
Descobri a maravilha que é ter as letras das canções no iPod!
PS- ouvi o album novo do vocalista dos Radiohead: Gosto da última canção porque me faz lembrar o "Remar remar" dos Xutos e Pontapés.
PS- ouvi o album novo do vocalista dos Radiohead: Gosto da última canção porque me faz lembrar o "Remar remar" dos Xutos e Pontapés.
terça-feira, 30 de maio de 2006
Momentos de alta cultura
Aos desatentos e inicialmente desinteressados informo que já abriu no Museu de Arte Antiga de Lisboa, a exposição Grandes Mestres da Pintura Europeia: de Fra Angelico a Bonnard. Colecção Rau (18 de Maio a 17 de Setembro)
Porque vale a pena ir ver a exposição?
Primeiro porque não é todos os dias que se vê um conjunto de quadros desta excelente qualidade e bom gosto, capazes de fazer uma boa retrospectiva da história da arte, da idade média a metade do séc.XX
Segundo porque se vê em meia horita. Não é demais e não é de menos.
Terceiro porque é uma oportunidade única para ver um dos melhores nus masculinos pintados no séc. XIX:
"Pescador com rede" de Frederic Bazille.
É uma imagem que, ao vivo, tem um magnetismo poderoso. Rede? Qual rede?
Dito gentilmente: este quadro retrata o rabo mais impressionante do impressionismo.

Esta foto não lhe faz justiça nenhuma. Vão lá ver a coisa ao vivo.
Porque vale a pena ir ver a exposição?
Primeiro porque não é todos os dias que se vê um conjunto de quadros desta excelente qualidade e bom gosto, capazes de fazer uma boa retrospectiva da história da arte, da idade média a metade do séc.XX
Segundo porque se vê em meia horita. Não é demais e não é de menos.
Terceiro porque é uma oportunidade única para ver um dos melhores nus masculinos pintados no séc. XIX:
"Pescador com rede" de Frederic Bazille.
É uma imagem que, ao vivo, tem um magnetismo poderoso. Rede? Qual rede?
Dito gentilmente: este quadro retrata o rabo mais impressionante do impressionismo.

Esta foto não lhe faz justiça nenhuma. Vão lá ver a coisa ao vivo.
segunda-feira, 29 de maio de 2006
Bichos esquisitos que ja comi
- Caracoletas
(Mais conhecidas por escargots - que até é um nome que lhes fica melhor porque faz lembrar escarreta. São grandes, são nojentas. Comi por dever social. Felizmente os bichos tinham morrido afogados em manteiga de alho. Foi como comer um grande macaco do nariz com um saborzito a alho.)
- Gafanhotos
(Sabem a palha. Comi-os fritos, enrolados numa tortilha e com guacamole. Não era mau (graças ao excelente guacamole) mas não vejo razões para repetir. Tem um factor divertido que é o facto de as patinhas dos bichos terem tendencia a ficar presas entre os dentes)
- Crocodilo (ou era jacaré?)
(Provei em versão bife grelhado. Fez-me lembrar uma galinha muito rija e borrachenta. Ao que parece, é preciso marinar a carne por muito tempo para que fique mole. A minha pergunta é: porquê a trabalheira? A menos que o crocodilo tenha comido as suas galinhas e não haja um talho decente num raio de 500km (às vezes acontece).
- Capivara
( bife grelhado. Delicioso! Carne tenra, suculenta e com um sabor próprio que nos tira logo os remorsos de estarmos a comer um bicho tão simpático)
- Baleia
(É uma coisa estranhíssima. Parece carne de mamífero (e é!) mas sabe a peixe. Cozinhar um bife de vaca com caldo de peixe deve dar o mesmo resultado. Para esquecer.)
- Rãs
(Eram as perninhas. Dispostas numa travessa, tinham um ar muito triste. É comum dizer que faz lembrar galinha, mas a mim lembrou-me mais coelho. Não foi bom nem mau. Se calhar um bom cozinheiro consegue dar a volta à coisa. Pareceu-me que tinham potencial para serem melhores.)
Na lista para experimentar:
Ovos de formiga - (num restaurante fabuloso da Cidade do México onde fui duas vezes e onde quero voltar. Constavam do menu mas infelizmente não estava na estação deles.)
Canguru - (dizem-me que é bom. Fica para quando for à Australia que deve ser mais fresco.)
Portanto, o prémio Bicho Exótico Gostoso vai para:
A Capivara
(Mais conhecidas por escargots - que até é um nome que lhes fica melhor porque faz lembrar escarreta. São grandes, são nojentas. Comi por dever social. Felizmente os bichos tinham morrido afogados em manteiga de alho. Foi como comer um grande macaco do nariz com um saborzito a alho.)
- Gafanhotos
(Sabem a palha. Comi-os fritos, enrolados numa tortilha e com guacamole. Não era mau (graças ao excelente guacamole) mas não vejo razões para repetir. Tem um factor divertido que é o facto de as patinhas dos bichos terem tendencia a ficar presas entre os dentes)
- Crocodilo (ou era jacaré?)
(Provei em versão bife grelhado. Fez-me lembrar uma galinha muito rija e borrachenta. Ao que parece, é preciso marinar a carne por muito tempo para que fique mole. A minha pergunta é: porquê a trabalheira? A menos que o crocodilo tenha comido as suas galinhas e não haja um talho decente num raio de 500km (às vezes acontece).
- Capivara
( bife grelhado. Delicioso! Carne tenra, suculenta e com um sabor próprio que nos tira logo os remorsos de estarmos a comer um bicho tão simpático)
- Baleia
(É uma coisa estranhíssima. Parece carne de mamífero (e é!) mas sabe a peixe. Cozinhar um bife de vaca com caldo de peixe deve dar o mesmo resultado. Para esquecer.)
- Rãs
(Eram as perninhas. Dispostas numa travessa, tinham um ar muito triste. É comum dizer que faz lembrar galinha, mas a mim lembrou-me mais coelho. Não foi bom nem mau. Se calhar um bom cozinheiro consegue dar a volta à coisa. Pareceu-me que tinham potencial para serem melhores.)
Na lista para experimentar:
Ovos de formiga - (num restaurante fabuloso da Cidade do México onde fui duas vezes e onde quero voltar. Constavam do menu mas infelizmente não estava na estação deles.)
Canguru - (dizem-me que é bom. Fica para quando for à Australia que deve ser mais fresco.)
Portanto, o prémio Bicho Exótico Gostoso vai para:
A Capivara
sexta-feira, 26 de maio de 2006
E eu ate gosto de favas
Uma pessoa tem sempre mais que fazer, mas não há quem consiga resistir ao quizz do ano: "Se eu fosse uma música do José Cid qual seria?"
Você é A Pouco e Pouco :
aparentemente, você é um cidadão pacato e respeitável, com uma vida banal dividida entre o seu lar e o seu emprego. Porém, e apesar do seu assumido gosto pelas coisas simples e quotidianas da vida e da realidade portuguesa, esconde manias bizarras.
O mais curioso é que isto bate certo...
![]() |
Você é A Pouco e Pouco :
aparentemente, você é um cidadão pacato e respeitável, com uma vida banal dividida entre o seu lar e o seu emprego. Porém, e apesar do seu assumido gosto pelas coisas simples e quotidianas da vida e da realidade portuguesa, esconde manias bizarras.
O mais curioso é que isto bate certo...
Discos pedidos
- Boa tarde, gostava de dedicar a canção "No one has ever looked so dead" dos The Organ às empregadas do supermercado do meu bairro.
olhos rolando para o ceu
Um dos meus endereços de email (o que uso para me registar em qualquer serviço online) é constantemente bombardeado por spam mail, numa média de 700 por semana. Apesar da banalidade irritante da coisa, de certo modo admiro os criadores dos títulos dos emails pela sua capacidade de se saírem com frases capazes de nos saltar aos olhos e criar vontade de os mandar vocês sabem para onde. Hoje havia um intitulado: "Mude de mulher com a frequência com que muda de roupa interior".
Depois de muito pensar, achei que o lado positivo da coisa era o facto de eu não conhecer ninguém que possa ser considerado o público alvo desse email.
Depois de muito pensar, achei que o lado positivo da coisa era o facto de eu não conhecer ninguém que possa ser considerado o público alvo desse email.
Algumas novidades
Acrescentei algumas imagens novas ao meu site.

Os interessados em ver mais disto podem visitar:
http://home.no.net/danielba/galeria

Os interessados em ver mais disto podem visitar:
http://home.no.net/danielba/galeria
Ensopado
Estive a ver o trailer para o "World Trade Center", o novo filme do Oliver Stone.
É claro que um trailer não é um filme, mas enjoei-me logo nos primeiros segundos com o pianinho sentimental que depois se transforma numa sopa de violinos tristes-mas-esperançosos. Duvido que vá ver. (embora o Nicholas Cage esteja com óptimo (péssimo) aspecto.)
Deixou-me a impressão de pílula dourada.
É claro que pílulas douradas há muitas, mas há algumas que me apetece tomar (Brokeback Mountain por ex.) e outras que dispenso.
É claro que um trailer não é um filme, mas enjoei-me logo nos primeiros segundos com o pianinho sentimental que depois se transforma numa sopa de violinos tristes-mas-esperançosos. Duvido que vá ver. (embora o Nicholas Cage esteja com óptimo (péssimo) aspecto.)
Deixou-me a impressão de pílula dourada.
É claro que pílulas douradas há muitas, mas há algumas que me apetece tomar (Brokeback Mountain por ex.) e outras que dispenso.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
O mundo esta cheio de surpresas
E quando se julgava que obras primas da superficialidade musical eram inultrapassáveis...
Ouvir a versão que Patrick & Eugéne fizeram de "Can´t get you out of my head" da Kylie Minogue é a prova de que o glacé do bolo pode sempre levar mais açúcar. Tentem ouvir isto e manter uma cara séria - Impossível.
"Postcard From Summerisle" é o album que anda a contribuir para o meu bom humor primaveril.
Ouvir a versão que Patrick & Eugéne fizeram de "Can´t get you out of my head" da Kylie Minogue é a prova de que o glacé do bolo pode sempre levar mais açúcar. Tentem ouvir isto e manter uma cara séria - Impossível.
"Postcard From Summerisle" é o album que anda a contribuir para o meu bom humor primaveril.
terça-feira, 23 de maio de 2006
O Charlie e a Lassie
Hoje, enquanto pesquisava por imagens para fazer a capa de um livro achei uma foto do John Steinbeck com o seu cão Charlie

Provavelmente, so alguém que tenha lido o livro "Viagens com o Charlie" consegue perceber porque é que esta foto me comoveu...
Eu não gosto de caniches (em teoria). O Steinbeck também não tem cara de quem gosta de caniches. Mas o Charlie é o cão que nos resgata dos nossos preconceitos racistas.
Outro dia também me apaixonei por uma Lassie (um collie), que é cão com uma mítica que me irrita. Ia eu na rua quando passo por um jipe mal estacionado, que tinha sido deixado com o motor ligado. A Lassie estava sentada no lugar do condutor, com as patas da frente no volante e abanava-se para a frente e para trás como quem pensa: porque é que esta coisa não anda?.
É por coisas destas que eu devia arranjar um telemovel da nova geração, com câmara de filmar e lindos toques polifónicos...

Provavelmente, so alguém que tenha lido o livro "Viagens com o Charlie" consegue perceber porque é que esta foto me comoveu...
Eu não gosto de caniches (em teoria). O Steinbeck também não tem cara de quem gosta de caniches. Mas o Charlie é o cão que nos resgata dos nossos preconceitos racistas.
Outro dia também me apaixonei por uma Lassie (um collie), que é cão com uma mítica que me irrita. Ia eu na rua quando passo por um jipe mal estacionado, que tinha sido deixado com o motor ligado. A Lassie estava sentada no lugar do condutor, com as patas da frente no volante e abanava-se para a frente e para trás como quem pensa: porque é que esta coisa não anda?.
É por coisas destas que eu devia arranjar um telemovel da nova geração, com câmara de filmar e lindos toques polifónicos...
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Summer of love
http://www.tate.org.uk/liverpool/exhibitions/summeroflove/
Um dos melhores momentos das férias foi ver em Viena a exposição "Summer of love". Uma excelente retrospectiva do psicadelismo dos anos 60 a caminho dos 70. Suponho que até foi melhor vê-la em Viena do que na Tate modern em Londres o ano passado, porque tinha um interessantíssimo apêndice dedicado exclusivamente à Austria que de certeza não constava na versão anglocêntrica da Tate.
Também descobri que afinal o Summer of Love foi em 1967 e não em 1969, como sempre julguei. 69 fica-se por ser o "Anné Erotique", suponho... :-)
O meu Summer of Love foi em 1998. E o vosso?
Um dos melhores momentos das férias foi ver em Viena a exposição "Summer of love". Uma excelente retrospectiva do psicadelismo dos anos 60 a caminho dos 70. Suponho que até foi melhor vê-la em Viena do que na Tate modern em Londres o ano passado, porque tinha um interessantíssimo apêndice dedicado exclusivamente à Austria que de certeza não constava na versão anglocêntrica da Tate.
Também descobri que afinal o Summer of Love foi em 1967 e não em 1969, como sempre julguei. 69 fica-se por ser o "Anné Erotique", suponho... :-)
O meu Summer of Love foi em 1998. E o vosso?
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Sir Ian
Numa entrevista recente, Ian McKellen (vulgo Gandalf) diz que não percebe porque é que a Igreja Católica pode ter alguma coisa contra O Código DaVinci porque esta teoria de que Jesus se casou com Maria Madalena e teve filhos é a unica com alguma solidez para provar que Jesus não era homosexual. (Eu adoro o Sir Ian!)

Da minha parte, só tenho a dizer que sempre tive muita dificuldade em perceber um Deus que manda o filho encarnar como homem e só lhe dá a experimentar parte da humanidade. Que nasça numa manjedoura, ok. Que faça milagres que permitem a toda a gente beber vinho e embebedar-se, ok. Que apanhe porrada e morra, ok. Mas e sexo? Nada?! E se sim, com quem? (consigo mesmo não vale!)

Da minha parte, só tenho a dizer que sempre tive muita dificuldade em perceber um Deus que manda o filho encarnar como homem e só lhe dá a experimentar parte da humanidade. Que nasça numa manjedoura, ok. Que faça milagres que permitem a toda a gente beber vinho e embebedar-se, ok. Que apanhe porrada e morra, ok. Mas e sexo? Nada?! E se sim, com quem? (consigo mesmo não vale!)
Save Deadwood
Hoje enviei este email à HBO:
Dear People of HBO:
Your channel has created some of the best fiction series in the history of television. However, in my opinion, Deadwood outshines all of them for it´s amazing quality in all fields: script, photography, acting, wardrobe, etc... it is an absolute masterpiece. This series is what I would like television to be in general.
It made me very sad to hear that your channel plans to cancel this series.
I am a Portuguese living in Portugal and although I don´t watch your channel, I follow your series like Deadwood, The Wire, Carnivale and Entourage by buying the DVD boxes.
I guess that I don´t enter the count of your ratings but still, I am a willing payer of your high quality product.
It is sad to think that an outstanding piece of work such as Deadwood is might end just because of low number of tv viewers. But do remember that your program can still be profitable in other markets and supports.
Please put your marketing people to work and let the artists that make Deadwood continue to contribute to the world with a piece of art that enriches our contemporary civilization.
thank you for your kind attention,
Daniel
Mais informação em
www.savedeadwood.net
Dear People of HBO:
Your channel has created some of the best fiction series in the history of television. However, in my opinion, Deadwood outshines all of them for it´s amazing quality in all fields: script, photography, acting, wardrobe, etc... it is an absolute masterpiece. This series is what I would like television to be in general.
It made me very sad to hear that your channel plans to cancel this series.
I am a Portuguese living in Portugal and although I don´t watch your channel, I follow your series like Deadwood, The Wire, Carnivale and Entourage by buying the DVD boxes.
I guess that I don´t enter the count of your ratings but still, I am a willing payer of your high quality product.
It is sad to think that an outstanding piece of work such as Deadwood is might end just because of low number of tv viewers. But do remember that your program can still be profitable in other markets and supports.
Please put your marketing people to work and let the artists that make Deadwood continue to contribute to the world with a piece of art that enriches our contemporary civilization.
thank you for your kind attention,
Daniel
Mais informação em
www.savedeadwood.net
quarta-feira, 17 de maio de 2006
os mandamentos do cliente
10 anos como designer e continua-se a esbarrar com estes dogmas:
- Espaço é vazio que deve ser preenchido
- o branco não é uma cor
há gente que enlouquece por menos
aaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrggggggggggggghhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!
- Espaço é vazio que deve ser preenchido
- o branco não é uma cor
há gente que enlouquece por menos
aaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrggggggggggggghhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!
terça-feira, 16 de maio de 2006
sexta-feira, 5 de maio de 2006
A escuta
Depois da BBC, o regresso à HBO.

Esta série é mais uma que se junta a Deadwood, Weeds, Battlestar Galactica e Lost, para me fazer acreditar que ainda vale a pena ver televisão, e que o formato série tem grandes vantagens sobre o formato filme. Há tempo para desenvolver enredos e para definir personagens complexos e realistas. Nesta, destaque para os marginais negros e gays com um erotismo à la Bonnie & Clyde.

Esta série é mais uma que se junta a Deadwood, Weeds, Battlestar Galactica e Lost, para me fazer acreditar que ainda vale a pena ver televisão, e que o formato série tem grandes vantagens sobre o formato filme. Há tempo para desenvolver enredos e para definir personagens complexos e realistas. Nesta, destaque para os marginais negros e gays com um erotismo à la Bonnie & Clyde.
Na pista do Jaime
A partir de segunda feira estarei aqui:

Mas é claro que vou ter de imaginar o sitio assim:

Vou ficar no hotel Mozart. O nome parece-me super original. Suponho que é o mesmo onde o António ficou... :-D

Mas é claro que vou ter de imaginar o sitio assim:

Vou ficar no hotel Mozart. O nome parece-me super original. Suponho que é o mesmo onde o António ficou... :-D
terça-feira, 2 de maio de 2006
Bleak House
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/
É absolutamente extraordinária a adaptação para televisão que a BBC fez deste livro de Charles Dickens. Recomenda-se vivamente o DVD.
Gillian Anderson (a dos Ficheiros Secretos) numa interpretação fabulosa junto a um elenco escolhido a dedo.

Imperdível é também esta deliciosa animação em flash sobre a vida de Charles Dickens:
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/animation.shtml
É absolutamente extraordinária a adaptação para televisão que a BBC fez deste livro de Charles Dickens. Recomenda-se vivamente o DVD.
Gillian Anderson (a dos Ficheiros Secretos) numa interpretação fabulosa junto a um elenco escolhido a dedo.

Imperdível é também esta deliciosa animação em flash sobre a vida de Charles Dickens:
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/animation.shtml
domingo, 30 de abril de 2006
os reis reinaram
Foi muito bonito o concerto dos Kings of Convenience ontem à noite na Aula Magna.
Se nós portugueses temos a patente mundial para a "saudade" então os noruegueses têm a patente do "Kos" (verbo: å kose; adjectivo: koselig)
Kos é algo aconchegante, que nos faz sentir bem, felizes, protegidos. É saber que o mundo é mau, agreste e cruel mas que as pessoas podem criar para si mesmas momentos de calma, descontração e felicidade. Os noruegueses são peritos nisso e o concerto de ontem à noite foi prova disso. Foi muito koselig.
Começou com os dois rapazitos a cantar com as suas guitarrinhas como se estivessem na sala lá de casa e acabou com o público a dançar no palco. Pelo meio trocaram-se declarações de amor e eles provaram como se podem fazer revoluções pacíficas e que não é preciso fazer muito barulho para se exprimir a alegria. Basta estalar os dedos e cantarolar uma canção, mesmo quando não se sabe a letra.
Se nós portugueses temos a patente mundial para a "saudade" então os noruegueses têm a patente do "Kos" (verbo: å kose; adjectivo: koselig)
Kos é algo aconchegante, que nos faz sentir bem, felizes, protegidos. É saber que o mundo é mau, agreste e cruel mas que as pessoas podem criar para si mesmas momentos de calma, descontração e felicidade. Os noruegueses são peritos nisso e o concerto de ontem à noite foi prova disso. Foi muito koselig.
Começou com os dois rapazitos a cantar com as suas guitarrinhas como se estivessem na sala lá de casa e acabou com o público a dançar no palco. Pelo meio trocaram-se declarações de amor e eles provaram como se podem fazer revoluções pacíficas e que não é preciso fazer muito barulho para se exprimir a alegria. Basta estalar os dedos e cantarolar uma canção, mesmo quando não se sabe a letra.
quarta-feira, 26 de abril de 2006
gudbrandsdalsost
Ó alegria!
Chegou um quilo disto lá a casa.

"Isto" é o famoso queijo castanho da noruega, vulgo "brunost", ou, mais exactamente, "gudbrandsdalsost" (em tradução literal: queijo do vale do fogo de deus). Quem nunca o provou pode tomar nota na rubrica "coisas para fazer antes de morrer".
Chegou um quilo disto lá a casa.

"Isto" é o famoso queijo castanho da noruega, vulgo "brunost", ou, mais exactamente, "gudbrandsdalsost" (em tradução literal: queijo do vale do fogo de deus). Quem nunca o provou pode tomar nota na rubrica "coisas para fazer antes de morrer".
Mirrormask
Lá fui ao IndieLisboa ver o "Mirrormask" do Dave McKean e Neil Gaiman.
Começou por ser giro ver que a audiência era quase toda composta por pessoal da faculdade de Belas Artes. Senti-me um bocadito velho ao pensar que foi há exactamente 10 anos que saí de lá.
Quanto ao filme, a sensação foi um bocado parecida. É um filme datado. Embora tenha saído o ano passado teria tido muito mais impacto há 10 anos quando o Dave McKean era o rei do mundo da ilustração. Mas é claro, estas coisas levam muito tempo a fazer.
No geral, o filme é bom. Bastante melhor do que eu esperava.Há uma enorme consistência entre a história e o universo visual mas isso é porque o Dave e o Neil são almas gémeas que se auto-estimulam para terem orgasmos sincronizados.
O único problema da coisa é a música, com um saxofone armado em étnico ajudado por umas tablas armadas em jazzy cool que saltaram directamente de 1992 e tentam puxar o filme para o infantil quando é mais que sabido que as crianças que gostam de Dave McKean têm todas mais de 16 anos.
É curioso ver como há coisas que são tão o seu tempo e como o tempo dura cada vez menos. Este filme teria sido genial há 10 anos, mas chegou tarde. De qualquer maneira, ainda bem que chegou. São 2 horas visualmente inspiradas e inspiradoras. Daqui a uns 10 ou 20 anos, quando os anos 90 já estiverem com as fronteiras cronológicas mais diluídas, este filme provavelmente vai ser uma referencia incontornável e já deve ser possível disfrutar dele sem este saborzinho decepcionante de coisa fresca com prazo de validade expirado.
Começou por ser giro ver que a audiência era quase toda composta por pessoal da faculdade de Belas Artes. Senti-me um bocadito velho ao pensar que foi há exactamente 10 anos que saí de lá.
Quanto ao filme, a sensação foi um bocado parecida. É um filme datado. Embora tenha saído o ano passado teria tido muito mais impacto há 10 anos quando o Dave McKean era o rei do mundo da ilustração. Mas é claro, estas coisas levam muito tempo a fazer.
No geral, o filme é bom. Bastante melhor do que eu esperava.Há uma enorme consistência entre a história e o universo visual mas isso é porque o Dave e o Neil são almas gémeas que se auto-estimulam para terem orgasmos sincronizados.
O único problema da coisa é a música, com um saxofone armado em étnico ajudado por umas tablas armadas em jazzy cool que saltaram directamente de 1992 e tentam puxar o filme para o infantil quando é mais que sabido que as crianças que gostam de Dave McKean têm todas mais de 16 anos.
É curioso ver como há coisas que são tão o seu tempo e como o tempo dura cada vez menos. Este filme teria sido genial há 10 anos, mas chegou tarde. De qualquer maneira, ainda bem que chegou. São 2 horas visualmente inspiradas e inspiradoras. Daqui a uns 10 ou 20 anos, quando os anos 90 já estiverem com as fronteiras cronológicas mais diluídas, este filme provavelmente vai ser uma referencia incontornável e já deve ser possível disfrutar dele sem este saborzinho decepcionante de coisa fresca com prazo de validade expirado.
terça-feira, 25 de abril de 2006
cliche x2
Má sorte é apanhar com o mesmo cliché 2 dias de seguida:
"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)
Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.
No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.
Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.
O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).
É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!
Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.
Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)
Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)
"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)
Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.
No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.
Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.
O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).
É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!
Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.
Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)
Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)
sexta-feira, 21 de abril de 2006
cliche
Ontem a propósito do filme "Me and You and everyone we know" (muito recomendável, diga-se de passagem) lembrei-me de um pequeno momento da minha vida, de um dia em que me levantei cedíssimo em casa dos meus pais para apanhar um comboio. Enquanto comia o pequeno almoço, o sol levantava-se e pela janela da cozinha entrava uma bonita luz dourada. Nisto, lá fora, um passarinho vem pousar nas roseiras em flor da minha mãe e põe-se a pipilar muito feliz.
Foi a primeira e única vez que assisti a uma cena imortalizada em vários padrões de cortinados, serviços de chá e leques chineses. Ou seja, era um cliché da pirosada ao vivo e a cores.
Serviu esse momento para eu perceber como a representação artistica da realidade pode conspurcar a nossa percepção dessa mesma realidade. Porque, embora eu estivesse consciente da profunda e comovente beleza do passarinho cantor pousado na roseira estava também consciente de que toda uma cultura visual da humanidade me tinha condicionado para achar aquilo uma grande e ridícula pirosada.
Suponho que seja esse um dos grandes males da sociedade moderna, o facto de não se conseguir ter um experiência pura da realidade. Tudo nos chega revisto, reciclado, representado e eu tenho a impressão de que é preciso mais inocência para se enfrentar o mundo e viver como deve ser, caso contrário passa-se a vida prisioneiro do cinismo e da ironia.
Foi a primeira e única vez que assisti a uma cena imortalizada em vários padrões de cortinados, serviços de chá e leques chineses. Ou seja, era um cliché da pirosada ao vivo e a cores.
Serviu esse momento para eu perceber como a representação artistica da realidade pode conspurcar a nossa percepção dessa mesma realidade. Porque, embora eu estivesse consciente da profunda e comovente beleza do passarinho cantor pousado na roseira estava também consciente de que toda uma cultura visual da humanidade me tinha condicionado para achar aquilo uma grande e ridícula pirosada.
Suponho que seja esse um dos grandes males da sociedade moderna, o facto de não se conseguir ter um experiência pura da realidade. Tudo nos chega revisto, reciclado, representado e eu tenho a impressão de que é preciso mais inocência para se enfrentar o mundo e viver como deve ser, caso contrário passa-se a vida prisioneiro do cinismo e da ironia.
quarta-feira, 19 de abril de 2006
Divida de Imaginario
Esta noite sonhei com uma planície e, quando acordei, tentei lembrar-me de onde é que aquela paisagem me era familiar. Só depois de espremer muito o cérebro é que me lembrei que era uma paisagem imaginada por mim num livro dos cinco, mais exactamente, "Os cinco e o comboio fantasma".
Fiquei um bocadito na cama a apreciar o quentinho do édredon, o quentinho do namorado e a desabitual falta de pressa de ir trabalhar e pensei na Enid Blyton. É sem dúvida a escritora de quem li mais livros. Vejamos:
Colecção Os cinco: 21 volumes
Colecção Os sete: 15 (?) volumes
Colecção Mistério: 17 (?) volumes
Colecção A aventura: 7 (?) volumes
Colecção O segredo: 7(?) volumes
Colecção O Mistério (esta é aquela em que um dos meninos tinha uma macaca chamada Miranda): 5 (?) volumes
Colecção o Colégio de Santa Clara: 6 volumes
Colecção o Colégio das 4 torres: 6 volumes
Mais alguns títulos avulso.
Mais os livros do Nodi.
Dá à volta de 70 livros, mais coisa menos coisa. Isto os que eu li.
Acho que devo muito à senhora Enid Blyton. Devia-me lembrar mais vezes dela.
De qualquer maneira, tem o meu respeito e veneração eterna.
PS: Depois de escrever isto fiz o meu Enid Blyton top 5
1- A aventura no Circo
2- O segredo das grutas de Spiggy
3- Os cinco e a Ciganita
4- O segredo do Castelo de Lua
5- O mistério da torre assombrada
...e olhando para este top cinco facilmente concluo que o que me fascina são livros com castelos e/ou passagens secretas. Hummm.....
Fiquei um bocadito na cama a apreciar o quentinho do édredon, o quentinho do namorado e a desabitual falta de pressa de ir trabalhar e pensei na Enid Blyton. É sem dúvida a escritora de quem li mais livros. Vejamos:
Colecção Os cinco: 21 volumes
Colecção Os sete: 15 (?) volumes
Colecção Mistério: 17 (?) volumes
Colecção A aventura: 7 (?) volumes
Colecção O segredo: 7(?) volumes
Colecção O Mistério (esta é aquela em que um dos meninos tinha uma macaca chamada Miranda): 5 (?) volumes
Colecção o Colégio de Santa Clara: 6 volumes
Colecção o Colégio das 4 torres: 6 volumes
Mais alguns títulos avulso.
Mais os livros do Nodi.
Dá à volta de 70 livros, mais coisa menos coisa. Isto os que eu li.
Acho que devo muito à senhora Enid Blyton. Devia-me lembrar mais vezes dela.
De qualquer maneira, tem o meu respeito e veneração eterna.
PS: Depois de escrever isto fiz o meu Enid Blyton top 5
1- A aventura no Circo
2- O segredo das grutas de Spiggy
3- Os cinco e a Ciganita
4- O segredo do Castelo de Lua
5- O mistério da torre assombrada
...e olhando para este top cinco facilmente concluo que o que me fascina são livros com castelos e/ou passagens secretas. Hummm.....
segunda-feira, 17 de abril de 2006
De volta a vida
Hoje acordei e parecia que era eu de novo.
Durante a manhã até ouvi música
Durante a tarde até me apercebi que vai haver um concerto dos Piano Magic no Santiago Alquimista dia 28 de Abril.
O mundo desabrocha novamente à minha volta e já não estou imerso em formatação de textos.
Outro dia um amigo meu disse-me que estava feliz por já não ser designer. Eu percebi-o perfeitamente.
Durante a manhã até ouvi música
Durante a tarde até me apercebi que vai haver um concerto dos Piano Magic no Santiago Alquimista dia 28 de Abril.
O mundo desabrocha novamente à minha volta e já não estou imerso em formatação de textos.
Outro dia um amigo meu disse-me que estava feliz por já não ser designer. Eu percebi-o perfeitamente.
segunda-feira, 27 de março de 2006
Dave Mckean no IndieLisboa
A primeira coisa que me saltou aos olhos da programação do IndieLisboa - festival de cinema independente de lisboa foi o filme do Dave McKean (Sandman - Mr. Punch - Mirrors - etc...) com argumento do Neil Gaiman e criaturas do workshop do Jim Hanson.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.
Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.
Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.
quarta-feira, 22 de março de 2006
mote para as proximas semanas
Não há fome que não dê em fartura.
...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)
...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)
segunda-feira, 20 de março de 2006
mudança
Lá por casa aproveitou-se o fim de semana e o embalo de duas margaritas para se mudar a televisão da sala para o sotão, que era projecto adiado há quase 3 anos. É incrível como pequenas coisas como esta conseguem transmitir a sensação de que se está a começar uma nova fase de vida.
quinta-feira, 16 de março de 2006
proposta de lei
Ontem ocorreu-me que, tendo em conta que os partidos de esquerda andam todos contentes com aquela proposta de ter 50% de mulheres na política, os partidos de direita deviam aproveitar para propor uma lei que não permitisse mais de 10% de homossexuais.
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...
terça-feira, 14 de março de 2006
Outro contexto
Roubei esta imagem no blog "O Abrupto". É um saco da cadeia de livrarias Waterstones.

Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.
Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...
Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.
Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...
antes de adormecer
D - Achas que a alma precisa do corpo para existir?
B - Não necessáriamente.
D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?
B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?
D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.
B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.
D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?
B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.
D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?
B - Uma coisa género Frankenstein?
D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.
B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...
D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?
B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?
D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.
B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!
D - O que é que dizias?
B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.
D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."
B - Não necessáriamente.
D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?
B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?
D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.
B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.
D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?
B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.
D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?
B - Uma coisa género Frankenstein?
D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.
B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...
D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?
B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?
D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.
B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!
D - O que é que dizias?
B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.
D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."
quinta-feira, 9 de março de 2006
viagem ao meu inconsciente
Esta noite sonhei com ilhas. Ao princípio estava nos Açores mas depois andava pular de ilha em ilha em direcção ao mediterrâneo até que, algures perto da costa da Tunísia, o despertador me acordou.
Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:
Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.
Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.
Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:
Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.
Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.
segunda-feira, 6 de março de 2006
Óscares
Entre o George e Jake eu se calhar também escolhia o George... mas ainda bem que não me pedem para escolher.
Parabéns, senhor Clooney!
Parabéns, senhor Clooney!
Colossal
Ainda estou de queixo caído. Passei o fim de semana a jogar o fenomenal "Shadow of the Colossus", o novo jogo para a Playstation dos mesmos criadores do "Ico". (Aliás, incialmente este jogo era suposto ser o "Ico2" mas saiu-lhes outra coisa e ainda bem.)
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.
Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.

http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.
Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.

http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/
sexta-feira, 3 de março de 2006
034 - Os Herdeiros
Pouco depois a minha mãe telefonou, tinha mesmo ido ao cinema, mas a tia Júlia, explicou-nos, tinha ido visitar uma amiga.
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”
quarta-feira, 1 de março de 2006
033 - Os Herdeiros
Deixei um recado à minha mãe, “Já voltámos, estou em casa do Jaime.”, e corri para lá.
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”
Coisas Infelizes
As estações do metro de Lisboa acordaram hoje inundadas de anúncios ao FIFA Street 2, um jogo de futebol para a Playstation 2 que mexe um bocadito com o nosso orgulho nacional por ostentar na capa (numa excelente ilustração) o giraço do Ronaldo.

À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".
Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...
Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.
De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.

À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".
Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...
Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.
De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
032- Os Herdeiros
Acabei por adormecer, vencido pelo cansaço, para acordar já manhã avançada, sozinho na tenda e com a cabeça pesada e doída, martelada que fora por sonhos de um surrealismo descontrolado.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
estrelinhas
Depois de alguns meses de trabalho árduo, dei finalmente uma classificação a todas as canções do meu iPod.
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).
sábado, 11 de fevereiro de 2006
031 - Os Herdeiros
“O que achas que devemos fazer?”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
o ano dos caubois
Os serões das ultimas semanas têm sido quase todos passados a ver episódios da série Deadwood que se recomenda vivamente. O argumento e diálogos são excelentes, os actores são excelentes, os cenários são excelentes, a fotografia é excelente, a realização é excelente... e a cada episódio sobem a fasquia.

Estou completamente fascinado.

Estou completamente fascinado.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
lamechice
Ontem lá vi finalmente o "Brokeback mountain" e, como já esperava, chorei um bocadito e vou levar uns anos a recuperar da coisa (eu ainda não estava totalmente restablecido de "o paciente inglês").
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?
PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!
PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?
PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!
PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Cegueria Histerica
Ontem desencantei no clube de video um filme surpreendentemente bom.
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)

Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.

Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)

Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.

Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
morte aos noruegueses
Nunca deixo de me espantar com o efeito bola de neve que a estupidez pode ter. Ou que há gente estúpida que provoca estupidez em gente ainda mais estúpida e assim sucessivamente, ao estilo das bonequinhas russas que saltam umas de dentro das outras.
Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:
1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)
2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês
3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)
4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")
5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se
6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.
7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.
Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.
Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:
1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)
2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês
3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)
4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")
5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se
6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.
7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.
Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
030 - Os Herdeiros
Acordei a meio da noite com uma pressão familiarmente incómoda na bexiga. Tentei fingir que não era nada e adormecer de novo mas tive que me resignar, vestir uma camisola e abrir a tenda o mais silenciosamente que pude para não acordar o Jaime. Estava escuro e frio à brava. A única coisa que via eram os contornos indistintos das árvores abanadas pelo vento gelado. Enchi-me de coragem e, mesmo em peúgas, dei a volta à tenda, até onde calculava estar o tronco de uma árvore. Arrependi-me logo de não ter calçado os ténis porque as agulhas dos pinheiros e o cascalho aleijavam-me os pés. Foi por isso que não fui muito longe para mijar.
Ainda não tinha terminado por completo quando ouvi a voz do Jaime perguntar:
“Estás bem, António?”
E, subitamente, a luz da lanterna que ele acendeu e apontou na minha direcção, iluminou a raíz da árvore que eu escolhera como alvo. Aí contorcia-se uma cara, um esgar, qualquer coisa entre o réptil e o humano. Dei vários passos para trás e o gemido de terror só me saiu da garganta quando já estava a cair em cima da tenda.
O Jaime chamou-me todos os nomes que se lembrou ao ver-me enrolado no oleado e nas estacas da tenda, lutando para me libertar.
“O que é que estás a fazer, idiota?!”
“Estava a fazer xixi, mas acho que vi uma cobra quando acendeste a lanterna.”
Levantei-me e tirei-lhe a lanterna da mão. Avancei cuidadosamente apontando a luz para as raízes da árvore. A única coisa de anormal era a mancha escura que eu tinha deixado no chão. Era apenas uma raiz mais contorcida que o costume. Mas eu apostava que a tinha visto mexer-se. Mais do que isso, se eu fechasse os olhos conseguia ver ainda aquela cara horrenda a fitar-me.
“Deve ter sido um reflexo naquela raíz.”, disse o Jaime, pondo em palavras um dos meus pensamentos. “E, se era mesmo uma cobra, já fugiu quando lhe mijaste em cima.”
Não me consegui rir porque ainda tremia, abalado pelo susto, e ele, ao meu lado, tremia também, mas de frio, porque se tinha levantado só em t-shirt, cuecas e meias.
“Anda medricas, ajuda-me a levantar isto outra vez.”, disse ele já a bater os dentes.
Mas eu tinha feito tantos estragos que não conseguimos pôr a tenda de novo em pé. Era um emaranhado impossível de lona, estacas e cordas.
“Acho que temos de acordar alguém para nos ajudar.”, concluiu o Jaime. E eu, apesar da vergonha, concordei. Apontei a lanterna para as outras duas tendas e dirigi-me à mais pequena. Comecei por chamar o padre Matos, mas como o meu sussurro não parecia capaz de o acordar e eu não queria erguer mais a voz para não acordar os outros, acabei por abrir o fecho da tenda e olhar lá para dentro.
Estava vazia.
“O que foi?”, perguntou o Jaime ao ver-me paralizado, com o foco apontado lá para dentro.
“Não está aqui ninguém.”
“Se calhar estão todos a dormir na tenda grande, por causa do frio.”
Não fui capaz de argumentar que na tenda “grande” cabiam só três pessoas e que os sacos-cama estavam ali, bem estendidos e fechados, como se não tivessem sido usados. Assenti apenas com a cabeça e estendi a lanterna ao Jaime, que entretanto viera ver com os seus próprios olhos e se agachara ao meu lado. Ele levantou-se devagar mas avançou decidido para a outra tenda e bateu na lona como se fosse uma porta.
Nada.
Eu aproximei-me e olhámos um para o outro apreensivos antes de ele abrir o fecho.
Vazia. Os três sacos-cama estendidos e intocados como os outros dois.
“Acho que não se deitaram.”, disse eu. “Se calhar foram dar um passeio antes de dormir.”
O Jaime foi até aos restos da fogueira apagada e pôs a mão nas cinzas.
“Está fria.”
“Que horas são?” perguntei eu. E ele, surpreendido por eu interromper o seu momento Sherlock Holmes- índio com uma pergunta lógica, apontou o foco para o relógio no pulso.
“Quatro e meia.”
“A que horas nos deitámos?”
“Deviam ser dez ou onze. Não era tarde.”
Ficámos calados, sem querer expressar as idéias que nos corriam pela cabeça. Eu só conseguia pensar na cara na raiz da árvore, mas mesmo assim não fui capaz de contar ao Jaime o que verdadeiramente julgara ter visto. Era patético estar a pensar em vampiros, lobisomens ou simples assassinos psicópatas, mas, cortando afiado a noite escura, o vento açoitava tão impiedosamente as árvores e a lona da nossa tenda desfeita, mal pendurada nas estacas tortas, que eu comecei a tremer, já não tanto por causa do frio, mas por causa do medo que me começava a invadir o corpo e que eu não conseguia conter porque nunca o sentira assim tão puro, tão agudo, indomável, a cavalgar-me pelas veias.
Ainda não tinha terminado por completo quando ouvi a voz do Jaime perguntar:
“Estás bem, António?”
E, subitamente, a luz da lanterna que ele acendeu e apontou na minha direcção, iluminou a raíz da árvore que eu escolhera como alvo. Aí contorcia-se uma cara, um esgar, qualquer coisa entre o réptil e o humano. Dei vários passos para trás e o gemido de terror só me saiu da garganta quando já estava a cair em cima da tenda.
O Jaime chamou-me todos os nomes que se lembrou ao ver-me enrolado no oleado e nas estacas da tenda, lutando para me libertar.
“O que é que estás a fazer, idiota?!”
“Estava a fazer xixi, mas acho que vi uma cobra quando acendeste a lanterna.”
Levantei-me e tirei-lhe a lanterna da mão. Avancei cuidadosamente apontando a luz para as raízes da árvore. A única coisa de anormal era a mancha escura que eu tinha deixado no chão. Era apenas uma raiz mais contorcida que o costume. Mas eu apostava que a tinha visto mexer-se. Mais do que isso, se eu fechasse os olhos conseguia ver ainda aquela cara horrenda a fitar-me.
“Deve ter sido um reflexo naquela raíz.”, disse o Jaime, pondo em palavras um dos meus pensamentos. “E, se era mesmo uma cobra, já fugiu quando lhe mijaste em cima.”
Não me consegui rir porque ainda tremia, abalado pelo susto, e ele, ao meu lado, tremia também, mas de frio, porque se tinha levantado só em t-shirt, cuecas e meias.
“Anda medricas, ajuda-me a levantar isto outra vez.”, disse ele já a bater os dentes.
Mas eu tinha feito tantos estragos que não conseguimos pôr a tenda de novo em pé. Era um emaranhado impossível de lona, estacas e cordas.
“Acho que temos de acordar alguém para nos ajudar.”, concluiu o Jaime. E eu, apesar da vergonha, concordei. Apontei a lanterna para as outras duas tendas e dirigi-me à mais pequena. Comecei por chamar o padre Matos, mas como o meu sussurro não parecia capaz de o acordar e eu não queria erguer mais a voz para não acordar os outros, acabei por abrir o fecho da tenda e olhar lá para dentro.
Estava vazia.
“O que foi?”, perguntou o Jaime ao ver-me paralizado, com o foco apontado lá para dentro.
“Não está aqui ninguém.”
“Se calhar estão todos a dormir na tenda grande, por causa do frio.”
Não fui capaz de argumentar que na tenda “grande” cabiam só três pessoas e que os sacos-cama estavam ali, bem estendidos e fechados, como se não tivessem sido usados. Assenti apenas com a cabeça e estendi a lanterna ao Jaime, que entretanto viera ver com os seus próprios olhos e se agachara ao meu lado. Ele levantou-se devagar mas avançou decidido para a outra tenda e bateu na lona como se fosse uma porta.
Nada.
Eu aproximei-me e olhámos um para o outro apreensivos antes de ele abrir o fecho.
Vazia. Os três sacos-cama estendidos e intocados como os outros dois.
“Acho que não se deitaram.”, disse eu. “Se calhar foram dar um passeio antes de dormir.”
O Jaime foi até aos restos da fogueira apagada e pôs a mão nas cinzas.
“Está fria.”
“Que horas são?” perguntei eu. E ele, surpreendido por eu interromper o seu momento Sherlock Holmes- índio com uma pergunta lógica, apontou o foco para o relógio no pulso.
“Quatro e meia.”
“A que horas nos deitámos?”
“Deviam ser dez ou onze. Não era tarde.”
Ficámos calados, sem querer expressar as idéias que nos corriam pela cabeça. Eu só conseguia pensar na cara na raiz da árvore, mas mesmo assim não fui capaz de contar ao Jaime o que verdadeiramente julgara ter visto. Era patético estar a pensar em vampiros, lobisomens ou simples assassinos psicópatas, mas, cortando afiado a noite escura, o vento açoitava tão impiedosamente as árvores e a lona da nossa tenda desfeita, mal pendurada nas estacas tortas, que eu comecei a tremer, já não tanto por causa do frio, mas por causa do medo que me começava a invadir o corpo e que eu não conseguia conter porque nunca o sentira assim tão puro, tão agudo, indomável, a cavalgar-me pelas veias.
029 - Os Herdeiros
Montámos o acampamento já noite escura, eu e o Jaime tão atrapalhados com as lanternas e a tenda que eles tiveram de nos ajudar a pô-la de pé. Sentámo-nos a jantar à volta da fogueira, primeiro aturando as cançõezitas de escuteiro tocadas na guitarra que um dos rapazes carregara montanha acima, montanha abaixo, e depois começámos a contar anedotas e histórias.
A certa altura o João Paulo fez questão de nos explicar mais sobre Sintra começando pelo nome, que, ao que parece, significa montanha da lua e deriva da palavra Cyntia, de origem celta, que se refere à deusa grega Artémis, a virgem caçadora.
Aí o Jaime interrompeu-o:
“É estranho esse nome. Sin é o deus árabe da lua. Bem, não exactamente árabe, mas era esse o nome que os assírios usavam. A lua era um deus masculino para os povos da mesopotâmia. Claro que depois passou a ser referido como Alá, mas o simbolo da lua ficou. Quanto tempo é que os árabes estiveram aqui em Sintra? Dois, três séculos?”
“E tu falas árabe, se calhar…”, gozou um dos outros rapazes.
“Um bocadinho, estou a aprender.”
“De qualquer maneira isso soa-me a disparate”, disse o João Paulo. “Em todas as culturas a lua deve ser um astro feminino porque tem uma relação com o período das mulheres”.
“Não, disse eu. Em norueguês, por exemplo, “lua” é uma palavra masculina e o “sol” é feminino. É curioso porque também só dei por isso outro dia. Estava a ver um livro com pinturas de Munch e reparei num quadro que era referido como uma cena nocturna isso mas não estava a fazer muito sentido porque eu olhava para ele e via o sol, representado como um enorme…aa…falo, reflectido na água, e só conseguia ver aquilo como uma coisa masculina. Mas depois, claro, ocorreu-me que a lua é masculina em norueguês e que assim já fazia todo o sentido representá-la daquela maneira.”
Ninguém falou ou quis acrescentar algo a isto.
“O António está a aprender norueguês.”, esclareceu o Padre Matos, mas ninguém deixou de olhar para nós como se fossemos anormais.
Eu conhecia aquela atmosfera. Era a mesma que ficava no ar cada vez que eu abria a boca nas aulas. Ficava sempre a sentir-me um mete-nojo.
“Já é tarde, acho que me vou deitar.”, disse eu.
“Sim, também já estou com sono.”, disse o Jaime.
Fomos para a tenda e entrámos nos sacos-cama sem trocar palavra. Deitados em silêncio, a marinar numa amargura habitual, ambos sabíamos o que o outro pensava: que nunca seríamos capazes de socializar como pessoas normais antes de fazermos uma lobotomia.
O Jaime abriu o lado do saco-cama e pôs a mão de fora. Eu fiz o mesmo e adormecemos de mãos dadas.
A certa altura o João Paulo fez questão de nos explicar mais sobre Sintra começando pelo nome, que, ao que parece, significa montanha da lua e deriva da palavra Cyntia, de origem celta, que se refere à deusa grega Artémis, a virgem caçadora.
Aí o Jaime interrompeu-o:
“É estranho esse nome. Sin é o deus árabe da lua. Bem, não exactamente árabe, mas era esse o nome que os assírios usavam. A lua era um deus masculino para os povos da mesopotâmia. Claro que depois passou a ser referido como Alá, mas o simbolo da lua ficou. Quanto tempo é que os árabes estiveram aqui em Sintra? Dois, três séculos?”
“E tu falas árabe, se calhar…”, gozou um dos outros rapazes.
“Um bocadinho, estou a aprender.”
“De qualquer maneira isso soa-me a disparate”, disse o João Paulo. “Em todas as culturas a lua deve ser um astro feminino porque tem uma relação com o período das mulheres”.
“Não, disse eu. Em norueguês, por exemplo, “lua” é uma palavra masculina e o “sol” é feminino. É curioso porque também só dei por isso outro dia. Estava a ver um livro com pinturas de Munch e reparei num quadro que era referido como uma cena nocturna isso mas não estava a fazer muito sentido porque eu olhava para ele e via o sol, representado como um enorme…aa…falo, reflectido na água, e só conseguia ver aquilo como uma coisa masculina. Mas depois, claro, ocorreu-me que a lua é masculina em norueguês e que assim já fazia todo o sentido representá-la daquela maneira.”
Ninguém falou ou quis acrescentar algo a isto.
“O António está a aprender norueguês.”, esclareceu o Padre Matos, mas ninguém deixou de olhar para nós como se fossemos anormais.
Eu conhecia aquela atmosfera. Era a mesma que ficava no ar cada vez que eu abria a boca nas aulas. Ficava sempre a sentir-me um mete-nojo.
“Já é tarde, acho que me vou deitar.”, disse eu.
“Sim, também já estou com sono.”, disse o Jaime.
Fomos para a tenda e entrámos nos sacos-cama sem trocar palavra. Deitados em silêncio, a marinar numa amargura habitual, ambos sabíamos o que o outro pensava: que nunca seríamos capazes de socializar como pessoas normais antes de fazermos uma lobotomia.
O Jaime abriu o lado do saco-cama e pôs a mão de fora. Eu fiz o mesmo e adormecemos de mãos dadas.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
orgulho
O nosso amigo Kenneth fez a gentileza de nos enviar um DVD com a sua série "Raballder", um documentário em 6 episódios sobre uma equipa de andebol gay norueguesa que tenta passar da 4ª para a 3ª divisão. Neste momento a série passa na televisão norueguesa mas já foi comprada por canais suecos e dinamarqueses.
Ontem à noite vimos os primeiros dois episódios e estamos super entusiasmados. O resultado é brilhante. Mostrar a vida real de vários homossexuais de forma tão cândida e descomplicada é desarmante e enternecedor.
Estou orgulhoso do meu amigo e já o comecei a chatear para põr legendas e enviar para o festival gay e lésbico de lisboa (onde há 2 anos passou outro documentário seu "The secret club")
Ontem à noite vimos os primeiros dois episódios e estamos super entusiasmados. O resultado é brilhante. Mostrar a vida real de vários homossexuais de forma tão cândida e descomplicada é desarmante e enternecedor.
Estou orgulhoso do meu amigo e já o comecei a chatear para põr legendas e enviar para o festival gay e lésbico de lisboa (onde há 2 anos passou outro documentário seu "The secret club")
250 anos
Ontem o meu iPod passou aleatóriamente "Waiting for the miracle" do Leonard Cohen. E face ao recente bombardeamento mediático houve uma frase dessa canção que se iluminou de significado:
"The maestro says it´s Mozart, but it sounds like bubble-gum"
Entretanto, marcámos bilhetes para ir a Salzburgo em Maio. Espero o inferno com o "Eine Kleine Nachtmusik" como banda sonora, mas achei que seria um bocadinho desleal para com os leitores estar a escrever histórias passadas em Salzburgo sem nunca lá ter estado... os sacrifícios que se fazem pela arte...
Por outro lado, o meu recente frenesim de investigação desenterrou um fascinante livro sobre vikings das prateleiras lá de casa e o verdadeiro Skråmestø leu-o de uma ponta à outra e agora ficou com idéias de escrever uma história de vikings passada em Istambul. Quererá isto dizer férias na Turquia no verão? Acho que estamos a comprometer as nossas férias demasiado. Por mim, uns dias sossegados na Quarteira ou em Armação de Pêra nem soa mal. Eu quero é férias! Já!
"The maestro says it´s Mozart, but it sounds like bubble-gum"
Entretanto, marcámos bilhetes para ir a Salzburgo em Maio. Espero o inferno com o "Eine Kleine Nachtmusik" como banda sonora, mas achei que seria um bocadinho desleal para com os leitores estar a escrever histórias passadas em Salzburgo sem nunca lá ter estado... os sacrifícios que se fazem pela arte...
Por outro lado, o meu recente frenesim de investigação desenterrou um fascinante livro sobre vikings das prateleiras lá de casa e o verdadeiro Skråmestø leu-o de uma ponta à outra e agora ficou com idéias de escrever uma história de vikings passada em Istambul. Quererá isto dizer férias na Turquia no verão? Acho que estamos a comprometer as nossas férias demasiado. Por mim, uns dias sossegados na Quarteira ou em Armação de Pêra nem soa mal. Eu quero é férias! Já!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2006
028- Os Herdeiros
A ermida de São Saturnino, não sei se alguma vez lá foste, pouco mais parecia que um celeiro de portas abertas e paredes nuas. Um dos amigos do padre Matos, João Paulo, acho que que se chamava, sabia muito sobre Sintra, ou disso se gabava, e contou-nos algumas histórias relacionadas com a Peninha e a ermida, mas quando o Jaime lhe perguntou se ele sabia quem era o São Saturnino e porque lhe tinham erguido ali uma capela ele não soube responder. E nem o padre Matos sabia fosse o que fosse sobre o Santo. Enquanto todos se lamentavam do esquecimento a que estavam condenados os santos menos milagreiros, eu, por algum motivo, recordei-me perfeitamente de quem ele era.
A tia Júlia impingira-me em tempos um dicionário de santos, antes de uma visita que tínhamos feito ao Museu de Arte Antiga. “Já que vão olhar para os quadros, ao menos saibam o que estão a ver”. Assim me ensinara destinguir a Santa Catarina pela roda, o São Vicente pela corda, etc… Mitologia medieval, chamava-lhe ela.
Assim pude contar aos outros que São Saturnino fora um padre cristão na Gália romana, cuja passagem diária frente ao templo de Júpiter aparentemente fazia calar os oráculos. Como tal, foi intimado a sacrificar um touro no templo mas, recusando-se a fazê-lo, foi ele atado ao touro que o arrastou pela escadaria do templo e o matou.
“Chamo a esses santos Martiris Vulgaris”, disse o João Paulo, “não admira que tenha sido esquecido”.
“A mim esta história sempre me pareceu uma trágica paródia do rapto de Europa. Aliás, acho que comentei isso com a tia Júlia na altura em que a li. Aqueles romanos devem-se ter divertido a montar o velhote no touro.”, disse eu.
“O que me intriga é porque raio vieram fazer uma capelinha a esse santo aqui no fim do mundo, na ponta da Europa.”, disse o Jaime.
“Era o santo cristão que calava os deuses pagãos. Mas aqui, pelos vistos, não teve grande sucesso”, disse eu.
Enquanto olhávamos uns para os outros sem saber o que acrescentar às palavras que me tinham saltado da boca, a noite pareceu apressar-se a cair lá fora, tornando aquelas paredes ainda mais esquálidas e tristes.
“Vamos”, disse o padre Matos de repente, “Já nos estamos a atrasar demais e igrejas desconsagradas são perigosas à noite”. Dito isto, benzeu-se.
“Não sabia que era supersticioso”, brincou o Jaime com ele.
“Sou religioso, Jaime. Pode parecer-te o mesmo, mas há uma grande diferença”. E com gestos largos enxotou-nos para fora.
A tia Júlia impingira-me em tempos um dicionário de santos, antes de uma visita que tínhamos feito ao Museu de Arte Antiga. “Já que vão olhar para os quadros, ao menos saibam o que estão a ver”. Assim me ensinara destinguir a Santa Catarina pela roda, o São Vicente pela corda, etc… Mitologia medieval, chamava-lhe ela.
Assim pude contar aos outros que São Saturnino fora um padre cristão na Gália romana, cuja passagem diária frente ao templo de Júpiter aparentemente fazia calar os oráculos. Como tal, foi intimado a sacrificar um touro no templo mas, recusando-se a fazê-lo, foi ele atado ao touro que o arrastou pela escadaria do templo e o matou.
“Chamo a esses santos Martiris Vulgaris”, disse o João Paulo, “não admira que tenha sido esquecido”.
“A mim esta história sempre me pareceu uma trágica paródia do rapto de Europa. Aliás, acho que comentei isso com a tia Júlia na altura em que a li. Aqueles romanos devem-se ter divertido a montar o velhote no touro.”, disse eu.
“O que me intriga é porque raio vieram fazer uma capelinha a esse santo aqui no fim do mundo, na ponta da Europa.”, disse o Jaime.
“Era o santo cristão que calava os deuses pagãos. Mas aqui, pelos vistos, não teve grande sucesso”, disse eu.
Enquanto olhávamos uns para os outros sem saber o que acrescentar às palavras que me tinham saltado da boca, a noite pareceu apressar-se a cair lá fora, tornando aquelas paredes ainda mais esquálidas e tristes.
“Vamos”, disse o padre Matos de repente, “Já nos estamos a atrasar demais e igrejas desconsagradas são perigosas à noite”. Dito isto, benzeu-se.
“Não sabia que era supersticioso”, brincou o Jaime com ele.
“Sou religioso, Jaime. Pode parecer-te o mesmo, mas há uma grande diferença”. E com gestos largos enxotou-nos para fora.
027 - Os Herdeiros
Tomámos a auto-estrada de Cascais e a serra de Sintra começou a aproximar-se pela nossa direita como o lombo negro de algum monstro gigante que mergulhasse do mar para a terra. O padre Matos apontou-me a silhueta do Palácio da Pena no perfil recortado contra o limpo céu da Primavera e depois a Peninha, o outro cume mais alto.
Seguimos para o cabo da Roca aonde fomos olhar para o horizonte, já que eu e o Jaime também nunca tinhamos estado no ponto mais ocidental do continente europeu, e depois, voltando um pouco para trás, deixámos os carros estacionados à beira da estrada e lá fomos, mochilas às costas, entrando pelo bosque, atacando a montanha a passos largos.
Eu fui ficando para trás porque, de todos, era quem menos estava habituado áquilo e não estava com disposição para conversas, ao contrário dos outros e do Jaime, que, familiarizado já com eles, trocava piadas e fazia perguntas sobre acampamentos, caminhadas e nós de escuteiro.
Fui o último a chegar à Peninha, já todos se tinham cansado da vista. Enquanto esperavam por mim tinham aberto as bolachas e os cantis e faziam o primeiro piquenique sentados nas rochas, à beira de uma igreja abandonada. Eu voltei-lhes as costas e fiquei a olhar para o mar e para o pôr-do-sol fulgurante que tingia o horizonte a ouro. Percebi então porque é que o padre Matos insistira para que fôssemos áquela hora. Ele tivera de assegurar umas sete vezes a minha mãe de que conseguiam montar as tendas de noite, antes de ela nos deixar vir, mas valera a pena.
O Jaime veio ter comigo e ficou só ali ao meu lado, deixando-me arder de raiva e de ciúme. Não disse nada. Ficou só a ouvir-me arfar, ainda cansado da subida.
Entretanto o Sol deixou-se engolir pelo mar e a mudança sentiu-se tão subitamente ali na montanha que senti um arrepio de frio correr sobre o suor das minhas costas. Era como se um outro poder se tivesse instaurado sobre a terra. A noite começava agora.
O Jaime deve ter sentido algo parecido porque se aproximou de mim e pôs um braço por cima dos meus ombros. Ficámos ainda um pouco a olhar para o espectro, último rastro de luz que o sol deixara.
“Eles estavam-me a contar que há quem acredite que esta montanha era a ligação do continente da Atlântida à Europa, e que é o único bocado dela que resta fora de água.”
Continuei a olhar para o horizonte e respondi, “Quem inventou isso esteve aqui de certeza.”
Devagar, senti que a minha irritação se dissipava. Bastava que o Jaime estivesse ali, a meu lado. Estendeu-me uma bolacha. Eu sorri.
“Anda”, disse-me, “tens de vir ver a igreja. São Saturnino, lembra-te alguma coisa?”
Seguimos para o cabo da Roca aonde fomos olhar para o horizonte, já que eu e o Jaime também nunca tinhamos estado no ponto mais ocidental do continente europeu, e depois, voltando um pouco para trás, deixámos os carros estacionados à beira da estrada e lá fomos, mochilas às costas, entrando pelo bosque, atacando a montanha a passos largos.
Eu fui ficando para trás porque, de todos, era quem menos estava habituado áquilo e não estava com disposição para conversas, ao contrário dos outros e do Jaime, que, familiarizado já com eles, trocava piadas e fazia perguntas sobre acampamentos, caminhadas e nós de escuteiro.
Fui o último a chegar à Peninha, já todos se tinham cansado da vista. Enquanto esperavam por mim tinham aberto as bolachas e os cantis e faziam o primeiro piquenique sentados nas rochas, à beira de uma igreja abandonada. Eu voltei-lhes as costas e fiquei a olhar para o mar e para o pôr-do-sol fulgurante que tingia o horizonte a ouro. Percebi então porque é que o padre Matos insistira para que fôssemos áquela hora. Ele tivera de assegurar umas sete vezes a minha mãe de que conseguiam montar as tendas de noite, antes de ela nos deixar vir, mas valera a pena.
O Jaime veio ter comigo e ficou só ali ao meu lado, deixando-me arder de raiva e de ciúme. Não disse nada. Ficou só a ouvir-me arfar, ainda cansado da subida.
Entretanto o Sol deixou-se engolir pelo mar e a mudança sentiu-se tão subitamente ali na montanha que senti um arrepio de frio correr sobre o suor das minhas costas. Era como se um outro poder se tivesse instaurado sobre a terra. A noite começava agora.
O Jaime deve ter sentido algo parecido porque se aproximou de mim e pôs um braço por cima dos meus ombros. Ficámos ainda um pouco a olhar para o espectro, último rastro de luz que o sol deixara.
“Eles estavam-me a contar que há quem acredite que esta montanha era a ligação do continente da Atlântida à Europa, e que é o único bocado dela que resta fora de água.”
Continuei a olhar para o horizonte e respondi, “Quem inventou isso esteve aqui de certeza.”
Devagar, senti que a minha irritação se dissipava. Bastava que o Jaime estivesse ali, a meu lado. Estendeu-me uma bolacha. Eu sorri.
“Anda”, disse-me, “tens de vir ver a igreja. São Saturnino, lembra-te alguma coisa?”
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
Arsene Lupin
Alguma relutancia em ver um dos meus heróis literários de juventude adaptado ao cinema, mas como é feito por franceses e tem a Kristin Scott Thomas pode ser que se safe pela positiva (o trailer é daqueles feitos para o publico pipoqueiro, mas isso hoje em dia não quer dizer nada). Aguardo com expectativa.
trailer aqui:
http://www.tf1international.com/download/75/ARSpromo.wmv
trailer aqui:
http://www.tf1international.com/download/75/ARSpromo.wmv
Erase and Rewind
Caros leitores,
Finalmente dei-me ao trabalho de rever tudo o que já tinha escrito n"Os Herdeiros". Como tal, achei que valia a pena republicar tudo outra vez. Não que tenham acontecido grandes mudanças na história (quem já leu excusa de ler outra vez), as principais diferenças estão nas vírgulas, acentos e parágrafos, mas, como eu escrevo isto directamente para o blog, lendo tudo de seguida, tornaram-se óbvias algumas falhas no fluir do texto.
Também, como um leitor atento já tinha apontado, o fascículo 27 (agora com nr.26 porque tinha inadvertidamente saltado um numero) estava demasiado "explícito". Por isso apaguei-o e reescrevi-o. Esse é que se recomenda que seja lido novamente por quem já tinha lido a versão anterior.
Continuam a ser bem vindos os comentários, nem que sejam sobre ortografia e gramática.
Obrigado pela atenção,
Eu
Finalmente dei-me ao trabalho de rever tudo o que já tinha escrito n"Os Herdeiros". Como tal, achei que valia a pena republicar tudo outra vez. Não que tenham acontecido grandes mudanças na história (quem já leu excusa de ler outra vez), as principais diferenças estão nas vírgulas, acentos e parágrafos, mas, como eu escrevo isto directamente para o blog, lendo tudo de seguida, tornaram-se óbvias algumas falhas no fluir do texto.
Também, como um leitor atento já tinha apontado, o fascículo 27 (agora com nr.26 porque tinha inadvertidamente saltado um numero) estava demasiado "explícito". Por isso apaguei-o e reescrevi-o. Esse é que se recomenda que seja lido novamente por quem já tinha lido a versão anterior.
Continuam a ser bem vindos os comentários, nem que sejam sobre ortografia e gramática.
Obrigado pela atenção,
Eu
026 - Os Herdeiros (versao revista)
Fomos ter com o padre Matos e os amigos ao largo da Sé, ainda com a minha mãe colada aos calcanhares, para ver quem eram os rapazes com quem íamos e para os fazer prometer que nos iam trazer de volta sem um arranhão. Tinham estacionado aí os dois carros, um dos quais uma carrinha com apenas dois lugares. E esse foi o problema. Na altura de nos dividirmos pelos carros, cinco num e dois no outro, o padre Matos, que conduzia a carrinha, disse, “porque não vens comigo, António?”, e eu não tive cara para dizer que não.
Mais vale explicar-te logo o que senti. Resumindo muito simplesmente, fiquei chateado por não ir no outro carro porque os amigos do padre Matos eram todos muito giros, viris e simpáticos, Porque queria ir com o Jaime e não queria que o Jaime fosse com eles sem mim (ciúmes), e não queria estar sozinho ao pé do padre Matos porque ele me atraía sexualmente e eu achava-o irritante, hipócrita e idiota. É claro que na altura isto era apenas uma grande confusão na minha cabeça e suponho que emergia sob a forma de amuo, impaciência e fingido desinteresse. Mas lá fui, sentei-me ao lado dele.
Tenho estado a fazer um esforço para me lembrar do que falámos nessa pequena viagem, nós os dois. Falámos de livros, certamente, mas não me lembro das perguntas que ele fez sobre a biblioteca da tia Júlia. A minha cabeça estava noutro lado, no carro onde ia o Jaime, mas a conversa incessante dele e as perguntas insidiosas devem ter começado a irritar-me. Além disso, comecei a ficar com a impressão de que ele me queria saltar para cima. No momento em que entrámos para o carro, ele, esfregando a mão no meu joelho perguntou, “Então, pronto para a diversão?”. Eu fingi não ter notado um segundo sentido nas palavras e achei que, embora a mão dele se tivesse demorado um bocadinho demais no joelho e subido, ao retirar-se, talvez mais para a coxa do que o devido, não devia dar importância áquilo. Mas pôs-me em alerta. E enquanto ele continuava a enrolar perguntas numa conversa aparentemente inocente, eu só me lembrava da fábula da raposa e do corvo. Ele tinha definitivamente mais do que um interesse educado sobre mim, o Jaime, a nossa família. Terei sido eu quem lhe falou nessa altura da biblioteca da tia Júlia? Provavelmente. Mas não importa, fosse eu, o Jaime ou a própria tia Júlia, o cabrão por essa altura já tinha farejado o seu queijo e nós continuávamos sem ver a raposa disfarçada na pele da ovelha.
Mais vale explicar-te logo o que senti. Resumindo muito simplesmente, fiquei chateado por não ir no outro carro porque os amigos do padre Matos eram todos muito giros, viris e simpáticos, Porque queria ir com o Jaime e não queria que o Jaime fosse com eles sem mim (ciúmes), e não queria estar sozinho ao pé do padre Matos porque ele me atraía sexualmente e eu achava-o irritante, hipócrita e idiota. É claro que na altura isto era apenas uma grande confusão na minha cabeça e suponho que emergia sob a forma de amuo, impaciência e fingido desinteresse. Mas lá fui, sentei-me ao lado dele.
Tenho estado a fazer um esforço para me lembrar do que falámos nessa pequena viagem, nós os dois. Falámos de livros, certamente, mas não me lembro das perguntas que ele fez sobre a biblioteca da tia Júlia. A minha cabeça estava noutro lado, no carro onde ia o Jaime, mas a conversa incessante dele e as perguntas insidiosas devem ter começado a irritar-me. Além disso, comecei a ficar com a impressão de que ele me queria saltar para cima. No momento em que entrámos para o carro, ele, esfregando a mão no meu joelho perguntou, “Então, pronto para a diversão?”. Eu fingi não ter notado um segundo sentido nas palavras e achei que, embora a mão dele se tivesse demorado um bocadinho demais no joelho e subido, ao retirar-se, talvez mais para a coxa do que o devido, não devia dar importância áquilo. Mas pôs-me em alerta. E enquanto ele continuava a enrolar perguntas numa conversa aparentemente inocente, eu só me lembrava da fábula da raposa e do corvo. Ele tinha definitivamente mais do que um interesse educado sobre mim, o Jaime, a nossa família. Terei sido eu quem lhe falou nessa altura da biblioteca da tia Júlia? Provavelmente. Mas não importa, fosse eu, o Jaime ou a própria tia Júlia, o cabrão por essa altura já tinha farejado o seu queijo e nós continuávamos sem ver a raposa disfarçada na pele da ovelha.
025 - Os Herdeiros (versao revista)
Foi essa a minha, nossa, primeira ida a Sintra. Tínhamos 16 anos.
E nem por um momento parei para me questionar porque é que os nossos incontáveis passeios de fim de semana nunca tinham incluido Sintra. A tia Júlia diria, “Marta, porque não levas os miúdos a Tomar / Conímbriga / Alcobaça / Mértola / Évora / Marvão / etc / etc…” E lá nos montávamos nós no Opel da minha mãe para ir ver as maravilhas históricas de Portugal. Até Espanha, às vezes. Mas Sintra… ela nunca referira Sintra, mesmo sendo logo ali, a escassos quilómetros de Lisboa.
Outra diferença relevante em relação a outros passeios foi a total ausência de lição histórica. Normalmente, na noite antes de viajarmos, a tia Júlia fazia um bolo, chá, e sentávamo-nos a ouvi-la falar dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro, de mosaicos e termas romanas, de ruínas, restauros, castelos, mosteiros, antas, igrejas, capelinhas e o que mais houvesse para saber, ver, sentir e pensar em certos sítios. Tanto que era como lá estar ainda antes de ir.
Porque depois ela nunca vinha connosco, mesmo que fossemos a sítios onde ela nunca tinha ido (que por acaso eram poucos, mas mesmo assim…). Ela tinha a perfeita noção do quanto dominava as nossas vidas e suponho que essa era a sua maneira de nos libertar. Apesar disso, nós sabiamos que se regressássemos sem ter visto um chafariz, um pelourinho, que ela tivesse referido, teriamos de enfrentar o seu olhar desapontado. E isso, simplesmente, não se fazia. Nem uns pastéis de tentúgal, ou umas barrigas de freira, serviam, aprendemos, para lhe apaziguar os resmungos, quando nos falhava um ponto do itinerário.
Mas desta vez, sobre Sintra, nada.
Sorria simplesmente por nos ver tão entusiasmados. Iamos acampar pela primeira vez. O padre Matos ficara de nos arranjar a tenda e os sacos-cama, mas fomos comprar mochilas, e comida e lanternas e canivetes. Desde que o Jaime comprara o arco e as flechas que não tinhamos andado tão histéricos pela casa.
A minha mãe, que saíra mais cedo de propósito para se despedir de nós, ia dando recomendações à medida que se lembrava: “Não apanhem frio. Se fizerem uma fogueira ponham pedras à volta. Pus pensos e algodão no bolso da frente da mochila. Têm pilhas nas lanternas?”. A tia Júlia tentava acalmá-la explicando que íamos estar cercados de antigos escuteiros que acampavam e faziam caminhadas na floresta praticamente desde o berço, mas a minha mãe continuava a ver aquilo como a expedição para procurar a nascente do Nilo.
Não, não demos por nada. Com tanta excitação ninguém deu pelo silêncio, pelos lábios cerrados, pelas rugas na testa, da tia Júlia.
Eu só as vejo agora, agora que penso nisso.
Imagino-as perfeitamente.
Ela sabia o que estava a fazer. Sempre soube.
Nem os pássaros ensinam os seus a voar. Atiram-nos para fora do ninho.
E nem por um momento parei para me questionar porque é que os nossos incontáveis passeios de fim de semana nunca tinham incluido Sintra. A tia Júlia diria, “Marta, porque não levas os miúdos a Tomar / Conímbriga / Alcobaça / Mértola / Évora / Marvão / etc / etc…” E lá nos montávamos nós no Opel da minha mãe para ir ver as maravilhas históricas de Portugal. Até Espanha, às vezes. Mas Sintra… ela nunca referira Sintra, mesmo sendo logo ali, a escassos quilómetros de Lisboa.
Outra diferença relevante em relação a outros passeios foi a total ausência de lição histórica. Normalmente, na noite antes de viajarmos, a tia Júlia fazia um bolo, chá, e sentávamo-nos a ouvi-la falar dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro, de mosaicos e termas romanas, de ruínas, restauros, castelos, mosteiros, antas, igrejas, capelinhas e o que mais houvesse para saber, ver, sentir e pensar em certos sítios. Tanto que era como lá estar ainda antes de ir.
Porque depois ela nunca vinha connosco, mesmo que fossemos a sítios onde ela nunca tinha ido (que por acaso eram poucos, mas mesmo assim…). Ela tinha a perfeita noção do quanto dominava as nossas vidas e suponho que essa era a sua maneira de nos libertar. Apesar disso, nós sabiamos que se regressássemos sem ter visto um chafariz, um pelourinho, que ela tivesse referido, teriamos de enfrentar o seu olhar desapontado. E isso, simplesmente, não se fazia. Nem uns pastéis de tentúgal, ou umas barrigas de freira, serviam, aprendemos, para lhe apaziguar os resmungos, quando nos falhava um ponto do itinerário.
Mas desta vez, sobre Sintra, nada.
Sorria simplesmente por nos ver tão entusiasmados. Iamos acampar pela primeira vez. O padre Matos ficara de nos arranjar a tenda e os sacos-cama, mas fomos comprar mochilas, e comida e lanternas e canivetes. Desde que o Jaime comprara o arco e as flechas que não tinhamos andado tão histéricos pela casa.
A minha mãe, que saíra mais cedo de propósito para se despedir de nós, ia dando recomendações à medida que se lembrava: “Não apanhem frio. Se fizerem uma fogueira ponham pedras à volta. Pus pensos e algodão no bolso da frente da mochila. Têm pilhas nas lanternas?”. A tia Júlia tentava acalmá-la explicando que íamos estar cercados de antigos escuteiros que acampavam e faziam caminhadas na floresta praticamente desde o berço, mas a minha mãe continuava a ver aquilo como a expedição para procurar a nascente do Nilo.
Não, não demos por nada. Com tanta excitação ninguém deu pelo silêncio, pelos lábios cerrados, pelas rugas na testa, da tia Júlia.
Eu só as vejo agora, agora que penso nisso.
Imagino-as perfeitamente.
Ela sabia o que estava a fazer. Sempre soube.
Nem os pássaros ensinam os seus a voar. Atiram-nos para fora do ninho.
024 - Os Herdeiros (versao revista)
Mas o curioso é que, quanto mais nos afastávamos nas disciplinas de estudo, ele com os desportos e o árabe e eu com a música e o norueguês, mais próximos nos sentíamos. Passávamos fins de tarde e fins de semana juntos, a conversar, a construir o nosso pequeno mundo a partir do que cada um trazia, dizia, pensava das suas diferentes disciplinas. Mas éramos párias. Era difícil fazer outros amigos, na escola ou fosse onde fosse. Não conseguíamos pertencer a sítio nenhum senão juntos. E isso tornou-se cada vez mais… sufocante.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa nas festas de fim de ano lectivo em que tocávamos todos juntos, uns para os outros, e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo sem se interessar em conhecê-los. Até a tia Júlia, dizendo que nos achava “demasiado incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que acabávamos sempre por ter com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre deus que não tinham nada de católicas. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista sobre a função do homem em relação ao mundo tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar, por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa nas festas de fim de ano lectivo em que tocávamos todos juntos, uns para os outros, e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo sem se interessar em conhecê-los. Até a tia Júlia, dizendo que nos achava “demasiado incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que acabávamos sempre por ter com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre deus que não tinham nada de católicas. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista sobre a função do homem em relação ao mundo tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar, por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
023 - Os Herdeiros (versao revista)
Eu sei.
É que o que mais me perturbara naquele dia fora o abraço que eu dera ao Jaime e as mãos do padre Matos. Tudo o resto perdeu importância, nessa noite, na cama. A insónia das noites que se seguiram não era pela bruxa da família, nem pelo sotão dos livros, nem nada que se parecesse. Eu estava obcecado. Sexo, sexo, sexo. Dos 13 aos 16 anos não pensei noutra coisa. Tudo o resto era piloto automático. Talvez julgues que exagero, mas não. Apenas me controlava muito bem. Mas eu era como um vulcão, prestes a explodir ao menor descuido. Foi por isso também que inventei as aulas de norueguês. Eu precisava de mais coisas para me ocupar. Para me distrair.
Eu devorara o livro das runas de um fôlego e claro que, na aula de piano seguinte, massacrei a Runa com tudo o que tinha aprendido. Perguntei-lhe se ela sabia que as runas só tinham traços verticais e diagonais porque isso tornava mais fácil gravá-las na madeira, no sentido dos veios. Se ela sabia que o alfabeto das runas se chamava futhark e que a sua versão mais comum tinha apenas 16 letras.
Claro que ela sabia. Não que fosse uma coisa normal de se saber mas o nome dela fizera-a interessar-se por isso. E depois falou-me de outro tipo de runas, não a escrita, mas as canções da região de Finnskogen, de onde a família dela era originária.
Explicou-me que “Rune” é uma palavra de origem germânica que significa segredo, ou magia, e isso significa que as canções rune são canções mágicas com origem shamanista. Há também runas líricas ou épicas, mas as mais vulgares são as de encantamento. Eram usadas por pessoas capazes de, com emoção e poder, cantar melodias improvisadas com pouco mais de cinco notas que repetiam durante horas para fazer curas ou criar protecções mágicas.
Eu perguntei-lhe mais coisas sobre o nome dela. Porque é que ela se chamava Runa, se a palavra norueguesa era “rune”. E ela explicou-me que era o mesmo que se chamar “a rune”, porque em norueguês o artigo era incluido no final do substantivo.
E porque é que o sobrenome dela se escrevia Eikaas, mas se lia “aicós”. E ela explicou-me que aa era o equivalente à letra å (que se lê “ó”), umas das três vogais extra que o norueguês acrescenta ao tradicional alfabeto latino. E que esse nome significava “colina dos carvalhos”.
Eu estava tão fascinado que lhe perguntei se ela me podia ensinar norueguês. E ela disse que sim.
A tia Júlia e a minha mãe também não disseram que não e, graças a isso, nos meses seguintes atazanei o Jaime com os meus ridículos e básicos conhecimentos de uma língua estranha, que nunca nenhum de nós tinha ouvido antes. O suficiente para ele se roer de inveja (o que era precisamente o objectivo). Até talvez tenha sido um pouco demais porque depois ele começou a pedir à tia Júlia para aprender também norueguês. Mas ela não foi na cantiga. Ela raramente cedia aos nossos caprichos. Em vez disso pô-lo a aprender árabe. Como se fosse a mesma coisa…
É que o que mais me perturbara naquele dia fora o abraço que eu dera ao Jaime e as mãos do padre Matos. Tudo o resto perdeu importância, nessa noite, na cama. A insónia das noites que se seguiram não era pela bruxa da família, nem pelo sotão dos livros, nem nada que se parecesse. Eu estava obcecado. Sexo, sexo, sexo. Dos 13 aos 16 anos não pensei noutra coisa. Tudo o resto era piloto automático. Talvez julgues que exagero, mas não. Apenas me controlava muito bem. Mas eu era como um vulcão, prestes a explodir ao menor descuido. Foi por isso também que inventei as aulas de norueguês. Eu precisava de mais coisas para me ocupar. Para me distrair.
Eu devorara o livro das runas de um fôlego e claro que, na aula de piano seguinte, massacrei a Runa com tudo o que tinha aprendido. Perguntei-lhe se ela sabia que as runas só tinham traços verticais e diagonais porque isso tornava mais fácil gravá-las na madeira, no sentido dos veios. Se ela sabia que o alfabeto das runas se chamava futhark e que a sua versão mais comum tinha apenas 16 letras.
Claro que ela sabia. Não que fosse uma coisa normal de se saber mas o nome dela fizera-a interessar-se por isso. E depois falou-me de outro tipo de runas, não a escrita, mas as canções da região de Finnskogen, de onde a família dela era originária.
Explicou-me que “Rune” é uma palavra de origem germânica que significa segredo, ou magia, e isso significa que as canções rune são canções mágicas com origem shamanista. Há também runas líricas ou épicas, mas as mais vulgares são as de encantamento. Eram usadas por pessoas capazes de, com emoção e poder, cantar melodias improvisadas com pouco mais de cinco notas que repetiam durante horas para fazer curas ou criar protecções mágicas.
Eu perguntei-lhe mais coisas sobre o nome dela. Porque é que ela se chamava Runa, se a palavra norueguesa era “rune”. E ela explicou-me que era o mesmo que se chamar “a rune”, porque em norueguês o artigo era incluido no final do substantivo.
E porque é que o sobrenome dela se escrevia Eikaas, mas se lia “aicós”. E ela explicou-me que aa era o equivalente à letra å (que se lê “ó”), umas das três vogais extra que o norueguês acrescenta ao tradicional alfabeto latino. E que esse nome significava “colina dos carvalhos”.
Eu estava tão fascinado que lhe perguntei se ela me podia ensinar norueguês. E ela disse que sim.
A tia Júlia e a minha mãe também não disseram que não e, graças a isso, nos meses seguintes atazanei o Jaime com os meus ridículos e básicos conhecimentos de uma língua estranha, que nunca nenhum de nós tinha ouvido antes. O suficiente para ele se roer de inveja (o que era precisamente o objectivo). Até talvez tenha sido um pouco demais porque depois ele começou a pedir à tia Júlia para aprender também norueguês. Mas ela não foi na cantiga. Ela raramente cedia aos nossos caprichos. Em vez disso pô-lo a aprender árabe. Como se fosse a mesma coisa…
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