Foi divertido assistir à trovoada de ontem à noite em Lisboa (e que hoje está de regresso). Sempre julgara que tempestades dessas, com relâmpagos à frequencia de luzes estroboscópicas só existiam em filmes de terror de série B. Afinal podem ser verdade.
Por muito tempo também julguei que o sabor a morango extremamente intenso das pastilhas elásticas era uma coisa exclusivamente artificial, até ao dia em que provei morangos silvestres numa floresta norueguesa.
Para além disso...
Ontem, depois de ver 5 episódios de Queer as folk (versão americana) e rever um de O sexo e a cidade (sim, dia de ronha e coma cerebral) também concluí que provavelmente os argumentistas da maior parte das séries e filmes americanos nunca amaram ninguém (porque dá muito trabalho!).
Entretanto...
Estou a trabalhar como designer num projecto intitulado "Os grandes amores da história de Portugal". Ao que parece, para o mundo da arte e da ficção, um amor só é verdadeiramente "grande" quando é breve, difícil e/ou impossível. Isto aparentemente dá logo à partida uma grande vantagem artística a qualquer relação homosexual.
Entretanto...
O "Brokeback mountain" saiu em DVD. Não vou comprar. Basta-me ouvir a musiquita do filme para os meus sacos lacrimais entrarem em actividade.
quarta-feira, 14 de junho de 2006
domingo, 11 de junho de 2006
A Noruega no seu melhor - a Kira e o Jack
As manchetes dos Jornais noruegueses por vezes ultrapassam-se a si mesmas.
A minha favorita de sempre, e um clássico frequeentemente recordado cá em casa, foi o "Kira jaget Bjørnen" (Kira ladrou ao urso).
Em 2004, a cadela Kira (7 anos) , ladrando, conseguiu enxotar um urso que aparecera no quintal do dono. Este, fotografou e filmou a sua cadelinha (video disponível em http://www.aftenposten.no/dyr/article783657.ece), o que permitiu ao jornal publicar esta linda foto do anus da Kira na primeira página:

Este fim de semana, o jornal Dagbladet retoma finalmente um tema capaz de ofuscar a situação no Iraque ou o mundial de futebol.
Desta vez foi o gato Jack (americano, idade desconhecida mas pesa 7 quilos) que bufou a um urso:

Infelizmente, por o caso se ter passado nos Estados Unidos e não na Noruega, embora tenha tido direito a página inteira, não foi o destaque da capa.
...as saudades que eu tenho da Noruega!
A minha favorita de sempre, e um clássico frequeentemente recordado cá em casa, foi o "Kira jaget Bjørnen" (Kira ladrou ao urso).
Em 2004, a cadela Kira (7 anos) , ladrando, conseguiu enxotar um urso que aparecera no quintal do dono. Este, fotografou e filmou a sua cadelinha (video disponível em http://www.aftenposten.no/dyr/article783657.ece), o que permitiu ao jornal publicar esta linda foto do anus da Kira na primeira página:

Este fim de semana, o jornal Dagbladet retoma finalmente um tema capaz de ofuscar a situação no Iraque ou o mundial de futebol.
Desta vez foi o gato Jack (americano, idade desconhecida mas pesa 7 quilos) que bufou a um urso:

Infelizmente, por o caso se ter passado nos Estados Unidos e não na Noruega, embora tenha tido direito a página inteira, não foi o destaque da capa.
...as saudades que eu tenho da Noruega!
sexta-feira, 9 de junho de 2006
balanço primeiro semestre
A pedido de várias famílias (isto é para ti, Celso!) aqui fica a minha lista de músicas mais ouvidas nos ultimos seis meses.
Olhando para ela concluí que este ano, so far, tem sido um bocadito xocho. Nesta lista ninguém apanhou 5 estrelitas. A Marisa Monte tem 3 entradas!! Ou eu ando a ouvir as coisas erradas ou isto anda mesmo por baixo.
The First Song-Band of Horses
The Funeral -Band of Horses
Pink Love -Blonde redhead
Newsweek -Bombay 1
Superafim -Cansei de Ser Sexy
Home On Ice -Clap Your Hands Say Yeah!
Over and Over Again (Lost & Found) -Clap Your Hands Say Yeah!
True Skool -Coldcut
Where Is The Time -Constantin Veis
Heart Like A Demon -DK7
A Love That Will Never Grow Old -Emmylou Harris
Crazy -Gnarls Barkley
Boomerang 2005 [Comme Un Boomerang] -Gonzales, Feist & Dani
Miss Pilling -Half Cousin
Marble House -The Knife
Super Zero -Linda Draper
A Thousand Roads -Lisa Gerrard And Jeff Rona
Infinito Particular -Marisa Monte
Vilarejo -Marisa Monte
Universo Ao Meu Redor -Marisa Monte
An Envoy To The Open Fields -Mew
Beneath The Rose -Micah P. Hinson
Off the Record My Morning Jacket
Track 04(do album mish maoul) -natacha atlas
Track 06(do album mish maoul) -natacha atlas
No Yes No -PET
Whip my blue chips -PET
Lígia -Ramón Leal
Beautifulheart -Richard Swift
World Citizen -Ryuichi Sakamoto
Sweetmeat -Scarlet´s Well
These Things -She Wants Revenge
She Falls In Love With Machines -Spleen United
Tiny Cities Made of Ashes -Sun Kil Moon
Jesus Christ Was An Only Child -Sun Kil Moon
Good To Be Free -Swan Dive
Cymbal Rush -Thom Yorke
All Over This Town -The Upper Room
Combination -The Upper Room
Olhando para ela concluí que este ano, so far, tem sido um bocadito xocho. Nesta lista ninguém apanhou 5 estrelitas. A Marisa Monte tem 3 entradas!! Ou eu ando a ouvir as coisas erradas ou isto anda mesmo por baixo.
The First Song-Band of Horses
The Funeral -Band of Horses
Pink Love -Blonde redhead
Newsweek -Bombay 1
Superafim -Cansei de Ser Sexy
Home On Ice -Clap Your Hands Say Yeah!
Over and Over Again (Lost & Found) -Clap Your Hands Say Yeah!
True Skool -Coldcut
Where Is The Time -Constantin Veis
Heart Like A Demon -DK7
A Love That Will Never Grow Old -Emmylou Harris
Crazy -Gnarls Barkley
Boomerang 2005 [Comme Un Boomerang] -Gonzales, Feist & Dani
Miss Pilling -Half Cousin
Marble House -The Knife
Super Zero -Linda Draper
A Thousand Roads -Lisa Gerrard And Jeff Rona
Infinito Particular -Marisa Monte
Vilarejo -Marisa Monte
Universo Ao Meu Redor -Marisa Monte
An Envoy To The Open Fields -Mew
Beneath The Rose -Micah P. Hinson
Off the Record My Morning Jacket
Track 04(do album mish maoul) -natacha atlas
Track 06(do album mish maoul) -natacha atlas
No Yes No -PET
Whip my blue chips -PET
Lígia -Ramón Leal
Beautifulheart -Richard Swift
World Citizen -Ryuichi Sakamoto
Sweetmeat -Scarlet´s Well
These Things -She Wants Revenge
She Falls In Love With Machines -Spleen United
Tiny Cities Made of Ashes -Sun Kil Moon
Jesus Christ Was An Only Child -Sun Kil Moon
Good To Be Free -Swan Dive
Cymbal Rush -Thom Yorke
All Over This Town -The Upper Room
Combination -The Upper Room
quinta-feira, 8 de junho de 2006
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Como una Ola
Morreu Rocio Jurado, a espanha cobre-se de luto.
Telefonei ao meu amigo Juan Pedro a dar-lhe os pêsames. Foi ele quem em 2005 me levou ao inolvidável clube "Madrid La Nuit" para ver este pindérico show:

Ele não estava triste porque, como eu, sabe muito bem que a Rocio Jurado vai continuar viva nos coração de todos os artistas de transformismo espanhóis por muito anos... Rocio is dead, long live Rocio!!
Telefonei ao meu amigo Juan Pedro a dar-lhe os pêsames. Foi ele quem em 2005 me levou ao inolvidável clube "Madrid La Nuit" para ver este pindérico show:

Ele não estava triste porque, como eu, sabe muito bem que a Rocio Jurado vai continuar viva nos coração de todos os artistas de transformismo espanhóis por muito anos... Rocio is dead, long live Rocio!!
quarta-feira, 31 de maio de 2006
Era cego e agora vejo - ou - Nao sabia e agora sei
Descobri a maravilha que é ter as letras das canções no iPod!
PS- ouvi o album novo do vocalista dos Radiohead: Gosto da última canção porque me faz lembrar o "Remar remar" dos Xutos e Pontapés.
PS- ouvi o album novo do vocalista dos Radiohead: Gosto da última canção porque me faz lembrar o "Remar remar" dos Xutos e Pontapés.
terça-feira, 30 de maio de 2006
Momentos de alta cultura
Aos desatentos e inicialmente desinteressados informo que já abriu no Museu de Arte Antiga de Lisboa, a exposição Grandes Mestres da Pintura Europeia: de Fra Angelico a Bonnard. Colecção Rau (18 de Maio a 17 de Setembro)
Porque vale a pena ir ver a exposição?
Primeiro porque não é todos os dias que se vê um conjunto de quadros desta excelente qualidade e bom gosto, capazes de fazer uma boa retrospectiva da história da arte, da idade média a metade do séc.XX
Segundo porque se vê em meia horita. Não é demais e não é de menos.
Terceiro porque é uma oportunidade única para ver um dos melhores nus masculinos pintados no séc. XIX:
"Pescador com rede" de Frederic Bazille.
É uma imagem que, ao vivo, tem um magnetismo poderoso. Rede? Qual rede?
Dito gentilmente: este quadro retrata o rabo mais impressionante do impressionismo.

Esta foto não lhe faz justiça nenhuma. Vão lá ver a coisa ao vivo.
Porque vale a pena ir ver a exposição?
Primeiro porque não é todos os dias que se vê um conjunto de quadros desta excelente qualidade e bom gosto, capazes de fazer uma boa retrospectiva da história da arte, da idade média a metade do séc.XX
Segundo porque se vê em meia horita. Não é demais e não é de menos.
Terceiro porque é uma oportunidade única para ver um dos melhores nus masculinos pintados no séc. XIX:
"Pescador com rede" de Frederic Bazille.
É uma imagem que, ao vivo, tem um magnetismo poderoso. Rede? Qual rede?
Dito gentilmente: este quadro retrata o rabo mais impressionante do impressionismo.

Esta foto não lhe faz justiça nenhuma. Vão lá ver a coisa ao vivo.
segunda-feira, 29 de maio de 2006
Bichos esquisitos que ja comi
- Caracoletas
(Mais conhecidas por escargots - que até é um nome que lhes fica melhor porque faz lembrar escarreta. São grandes, são nojentas. Comi por dever social. Felizmente os bichos tinham morrido afogados em manteiga de alho. Foi como comer um grande macaco do nariz com um saborzito a alho.)
- Gafanhotos
(Sabem a palha. Comi-os fritos, enrolados numa tortilha e com guacamole. Não era mau (graças ao excelente guacamole) mas não vejo razões para repetir. Tem um factor divertido que é o facto de as patinhas dos bichos terem tendencia a ficar presas entre os dentes)
- Crocodilo (ou era jacaré?)
(Provei em versão bife grelhado. Fez-me lembrar uma galinha muito rija e borrachenta. Ao que parece, é preciso marinar a carne por muito tempo para que fique mole. A minha pergunta é: porquê a trabalheira? A menos que o crocodilo tenha comido as suas galinhas e não haja um talho decente num raio de 500km (às vezes acontece).
- Capivara
( bife grelhado. Delicioso! Carne tenra, suculenta e com um sabor próprio que nos tira logo os remorsos de estarmos a comer um bicho tão simpático)
- Baleia
(É uma coisa estranhíssima. Parece carne de mamífero (e é!) mas sabe a peixe. Cozinhar um bife de vaca com caldo de peixe deve dar o mesmo resultado. Para esquecer.)
- Rãs
(Eram as perninhas. Dispostas numa travessa, tinham um ar muito triste. É comum dizer que faz lembrar galinha, mas a mim lembrou-me mais coelho. Não foi bom nem mau. Se calhar um bom cozinheiro consegue dar a volta à coisa. Pareceu-me que tinham potencial para serem melhores.)
Na lista para experimentar:
Ovos de formiga - (num restaurante fabuloso da Cidade do México onde fui duas vezes e onde quero voltar. Constavam do menu mas infelizmente não estava na estação deles.)
Canguru - (dizem-me que é bom. Fica para quando for à Australia que deve ser mais fresco.)
Portanto, o prémio Bicho Exótico Gostoso vai para:
A Capivara
(Mais conhecidas por escargots - que até é um nome que lhes fica melhor porque faz lembrar escarreta. São grandes, são nojentas. Comi por dever social. Felizmente os bichos tinham morrido afogados em manteiga de alho. Foi como comer um grande macaco do nariz com um saborzito a alho.)
- Gafanhotos
(Sabem a palha. Comi-os fritos, enrolados numa tortilha e com guacamole. Não era mau (graças ao excelente guacamole) mas não vejo razões para repetir. Tem um factor divertido que é o facto de as patinhas dos bichos terem tendencia a ficar presas entre os dentes)
- Crocodilo (ou era jacaré?)
(Provei em versão bife grelhado. Fez-me lembrar uma galinha muito rija e borrachenta. Ao que parece, é preciso marinar a carne por muito tempo para que fique mole. A minha pergunta é: porquê a trabalheira? A menos que o crocodilo tenha comido as suas galinhas e não haja um talho decente num raio de 500km (às vezes acontece).
- Capivara
( bife grelhado. Delicioso! Carne tenra, suculenta e com um sabor próprio que nos tira logo os remorsos de estarmos a comer um bicho tão simpático)
- Baleia
(É uma coisa estranhíssima. Parece carne de mamífero (e é!) mas sabe a peixe. Cozinhar um bife de vaca com caldo de peixe deve dar o mesmo resultado. Para esquecer.)
- Rãs
(Eram as perninhas. Dispostas numa travessa, tinham um ar muito triste. É comum dizer que faz lembrar galinha, mas a mim lembrou-me mais coelho. Não foi bom nem mau. Se calhar um bom cozinheiro consegue dar a volta à coisa. Pareceu-me que tinham potencial para serem melhores.)
Na lista para experimentar:
Ovos de formiga - (num restaurante fabuloso da Cidade do México onde fui duas vezes e onde quero voltar. Constavam do menu mas infelizmente não estava na estação deles.)
Canguru - (dizem-me que é bom. Fica para quando for à Australia que deve ser mais fresco.)
Portanto, o prémio Bicho Exótico Gostoso vai para:
A Capivara
sexta-feira, 26 de maio de 2006
E eu ate gosto de favas
Uma pessoa tem sempre mais que fazer, mas não há quem consiga resistir ao quizz do ano: "Se eu fosse uma música do José Cid qual seria?"
Você é A Pouco e Pouco :
aparentemente, você é um cidadão pacato e respeitável, com uma vida banal dividida entre o seu lar e o seu emprego. Porém, e apesar do seu assumido gosto pelas coisas simples e quotidianas da vida e da realidade portuguesa, esconde manias bizarras.
O mais curioso é que isto bate certo...
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Você é A Pouco e Pouco :
aparentemente, você é um cidadão pacato e respeitável, com uma vida banal dividida entre o seu lar e o seu emprego. Porém, e apesar do seu assumido gosto pelas coisas simples e quotidianas da vida e da realidade portuguesa, esconde manias bizarras.
O mais curioso é que isto bate certo...
Discos pedidos
- Boa tarde, gostava de dedicar a canção "No one has ever looked so dead" dos The Organ às empregadas do supermercado do meu bairro.
olhos rolando para o ceu
Um dos meus endereços de email (o que uso para me registar em qualquer serviço online) é constantemente bombardeado por spam mail, numa média de 700 por semana. Apesar da banalidade irritante da coisa, de certo modo admiro os criadores dos títulos dos emails pela sua capacidade de se saírem com frases capazes de nos saltar aos olhos e criar vontade de os mandar vocês sabem para onde. Hoje havia um intitulado: "Mude de mulher com a frequência com que muda de roupa interior".
Depois de muito pensar, achei que o lado positivo da coisa era o facto de eu não conhecer ninguém que possa ser considerado o público alvo desse email.
Depois de muito pensar, achei que o lado positivo da coisa era o facto de eu não conhecer ninguém que possa ser considerado o público alvo desse email.
Algumas novidades
Acrescentei algumas imagens novas ao meu site.

Os interessados em ver mais disto podem visitar:
http://home.no.net/danielba/galeria

Os interessados em ver mais disto podem visitar:
http://home.no.net/danielba/galeria
Ensopado
Estive a ver o trailer para o "World Trade Center", o novo filme do Oliver Stone.
É claro que um trailer não é um filme, mas enjoei-me logo nos primeiros segundos com o pianinho sentimental que depois se transforma numa sopa de violinos tristes-mas-esperançosos. Duvido que vá ver. (embora o Nicholas Cage esteja com óptimo (péssimo) aspecto.)
Deixou-me a impressão de pílula dourada.
É claro que pílulas douradas há muitas, mas há algumas que me apetece tomar (Brokeback Mountain por ex.) e outras que dispenso.
É claro que um trailer não é um filme, mas enjoei-me logo nos primeiros segundos com o pianinho sentimental que depois se transforma numa sopa de violinos tristes-mas-esperançosos. Duvido que vá ver. (embora o Nicholas Cage esteja com óptimo (péssimo) aspecto.)
Deixou-me a impressão de pílula dourada.
É claro que pílulas douradas há muitas, mas há algumas que me apetece tomar (Brokeback Mountain por ex.) e outras que dispenso.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
O mundo esta cheio de surpresas
E quando se julgava que obras primas da superficialidade musical eram inultrapassáveis...
Ouvir a versão que Patrick & Eugéne fizeram de "Can´t get you out of my head" da Kylie Minogue é a prova de que o glacé do bolo pode sempre levar mais açúcar. Tentem ouvir isto e manter uma cara séria - Impossível.
"Postcard From Summerisle" é o album que anda a contribuir para o meu bom humor primaveril.
Ouvir a versão que Patrick & Eugéne fizeram de "Can´t get you out of my head" da Kylie Minogue é a prova de que o glacé do bolo pode sempre levar mais açúcar. Tentem ouvir isto e manter uma cara séria - Impossível.
"Postcard From Summerisle" é o album que anda a contribuir para o meu bom humor primaveril.
terça-feira, 23 de maio de 2006
O Charlie e a Lassie
Hoje, enquanto pesquisava por imagens para fazer a capa de um livro achei uma foto do John Steinbeck com o seu cão Charlie

Provavelmente, so alguém que tenha lido o livro "Viagens com o Charlie" consegue perceber porque é que esta foto me comoveu...
Eu não gosto de caniches (em teoria). O Steinbeck também não tem cara de quem gosta de caniches. Mas o Charlie é o cão que nos resgata dos nossos preconceitos racistas.
Outro dia também me apaixonei por uma Lassie (um collie), que é cão com uma mítica que me irrita. Ia eu na rua quando passo por um jipe mal estacionado, que tinha sido deixado com o motor ligado. A Lassie estava sentada no lugar do condutor, com as patas da frente no volante e abanava-se para a frente e para trás como quem pensa: porque é que esta coisa não anda?.
É por coisas destas que eu devia arranjar um telemovel da nova geração, com câmara de filmar e lindos toques polifónicos...

Provavelmente, so alguém que tenha lido o livro "Viagens com o Charlie" consegue perceber porque é que esta foto me comoveu...
Eu não gosto de caniches (em teoria). O Steinbeck também não tem cara de quem gosta de caniches. Mas o Charlie é o cão que nos resgata dos nossos preconceitos racistas.
Outro dia também me apaixonei por uma Lassie (um collie), que é cão com uma mítica que me irrita. Ia eu na rua quando passo por um jipe mal estacionado, que tinha sido deixado com o motor ligado. A Lassie estava sentada no lugar do condutor, com as patas da frente no volante e abanava-se para a frente e para trás como quem pensa: porque é que esta coisa não anda?.
É por coisas destas que eu devia arranjar um telemovel da nova geração, com câmara de filmar e lindos toques polifónicos...
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Summer of love
http://www.tate.org.uk/liverpool/exhibitions/summeroflove/
Um dos melhores momentos das férias foi ver em Viena a exposição "Summer of love". Uma excelente retrospectiva do psicadelismo dos anos 60 a caminho dos 70. Suponho que até foi melhor vê-la em Viena do que na Tate modern em Londres o ano passado, porque tinha um interessantíssimo apêndice dedicado exclusivamente à Austria que de certeza não constava na versão anglocêntrica da Tate.
Também descobri que afinal o Summer of Love foi em 1967 e não em 1969, como sempre julguei. 69 fica-se por ser o "Anné Erotique", suponho... :-)
O meu Summer of Love foi em 1998. E o vosso?
Um dos melhores momentos das férias foi ver em Viena a exposição "Summer of love". Uma excelente retrospectiva do psicadelismo dos anos 60 a caminho dos 70. Suponho que até foi melhor vê-la em Viena do que na Tate modern em Londres o ano passado, porque tinha um interessantíssimo apêndice dedicado exclusivamente à Austria que de certeza não constava na versão anglocêntrica da Tate.
Também descobri que afinal o Summer of Love foi em 1967 e não em 1969, como sempre julguei. 69 fica-se por ser o "Anné Erotique", suponho... :-)
O meu Summer of Love foi em 1998. E o vosso?
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Sir Ian
Numa entrevista recente, Ian McKellen (vulgo Gandalf) diz que não percebe porque é que a Igreja Católica pode ter alguma coisa contra O Código DaVinci porque esta teoria de que Jesus se casou com Maria Madalena e teve filhos é a unica com alguma solidez para provar que Jesus não era homosexual. (Eu adoro o Sir Ian!)

Da minha parte, só tenho a dizer que sempre tive muita dificuldade em perceber um Deus que manda o filho encarnar como homem e só lhe dá a experimentar parte da humanidade. Que nasça numa manjedoura, ok. Que faça milagres que permitem a toda a gente beber vinho e embebedar-se, ok. Que apanhe porrada e morra, ok. Mas e sexo? Nada?! E se sim, com quem? (consigo mesmo não vale!)

Da minha parte, só tenho a dizer que sempre tive muita dificuldade em perceber um Deus que manda o filho encarnar como homem e só lhe dá a experimentar parte da humanidade. Que nasça numa manjedoura, ok. Que faça milagres que permitem a toda a gente beber vinho e embebedar-se, ok. Que apanhe porrada e morra, ok. Mas e sexo? Nada?! E se sim, com quem? (consigo mesmo não vale!)
Save Deadwood
Hoje enviei este email à HBO:
Dear People of HBO:
Your channel has created some of the best fiction series in the history of television. However, in my opinion, Deadwood outshines all of them for it´s amazing quality in all fields: script, photography, acting, wardrobe, etc... it is an absolute masterpiece. This series is what I would like television to be in general.
It made me very sad to hear that your channel plans to cancel this series.
I am a Portuguese living in Portugal and although I don´t watch your channel, I follow your series like Deadwood, The Wire, Carnivale and Entourage by buying the DVD boxes.
I guess that I don´t enter the count of your ratings but still, I am a willing payer of your high quality product.
It is sad to think that an outstanding piece of work such as Deadwood is might end just because of low number of tv viewers. But do remember that your program can still be profitable in other markets and supports.
Please put your marketing people to work and let the artists that make Deadwood continue to contribute to the world with a piece of art that enriches our contemporary civilization.
thank you for your kind attention,
Daniel
Mais informação em
www.savedeadwood.net
Dear People of HBO:
Your channel has created some of the best fiction series in the history of television. However, in my opinion, Deadwood outshines all of them for it´s amazing quality in all fields: script, photography, acting, wardrobe, etc... it is an absolute masterpiece. This series is what I would like television to be in general.
It made me very sad to hear that your channel plans to cancel this series.
I am a Portuguese living in Portugal and although I don´t watch your channel, I follow your series like Deadwood, The Wire, Carnivale and Entourage by buying the DVD boxes.
I guess that I don´t enter the count of your ratings but still, I am a willing payer of your high quality product.
It is sad to think that an outstanding piece of work such as Deadwood is might end just because of low number of tv viewers. But do remember that your program can still be profitable in other markets and supports.
Please put your marketing people to work and let the artists that make Deadwood continue to contribute to the world with a piece of art that enriches our contemporary civilization.
thank you for your kind attention,
Daniel
Mais informação em
www.savedeadwood.net
quarta-feira, 17 de maio de 2006
os mandamentos do cliente
10 anos como designer e continua-se a esbarrar com estes dogmas:
- Espaço é vazio que deve ser preenchido
- o branco não é uma cor
há gente que enlouquece por menos
aaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrggggggggggggghhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!
- Espaço é vazio que deve ser preenchido
- o branco não é uma cor
há gente que enlouquece por menos
aaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrggggggggggggghhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!
terça-feira, 16 de maio de 2006
sexta-feira, 5 de maio de 2006
A escuta
Depois da BBC, o regresso à HBO.

Esta série é mais uma que se junta a Deadwood, Weeds, Battlestar Galactica e Lost, para me fazer acreditar que ainda vale a pena ver televisão, e que o formato série tem grandes vantagens sobre o formato filme. Há tempo para desenvolver enredos e para definir personagens complexos e realistas. Nesta, destaque para os marginais negros e gays com um erotismo à la Bonnie & Clyde.

Esta série é mais uma que se junta a Deadwood, Weeds, Battlestar Galactica e Lost, para me fazer acreditar que ainda vale a pena ver televisão, e que o formato série tem grandes vantagens sobre o formato filme. Há tempo para desenvolver enredos e para definir personagens complexos e realistas. Nesta, destaque para os marginais negros e gays com um erotismo à la Bonnie & Clyde.
Na pista do Jaime
A partir de segunda feira estarei aqui:

Mas é claro que vou ter de imaginar o sitio assim:

Vou ficar no hotel Mozart. O nome parece-me super original. Suponho que é o mesmo onde o António ficou... :-D

Mas é claro que vou ter de imaginar o sitio assim:

Vou ficar no hotel Mozart. O nome parece-me super original. Suponho que é o mesmo onde o António ficou... :-D
terça-feira, 2 de maio de 2006
Bleak House
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/
É absolutamente extraordinária a adaptação para televisão que a BBC fez deste livro de Charles Dickens. Recomenda-se vivamente o DVD.
Gillian Anderson (a dos Ficheiros Secretos) numa interpretação fabulosa junto a um elenco escolhido a dedo.

Imperdível é também esta deliciosa animação em flash sobre a vida de Charles Dickens:
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/animation.shtml
É absolutamente extraordinária a adaptação para televisão que a BBC fez deste livro de Charles Dickens. Recomenda-se vivamente o DVD.
Gillian Anderson (a dos Ficheiros Secretos) numa interpretação fabulosa junto a um elenco escolhido a dedo.

Imperdível é também esta deliciosa animação em flash sobre a vida de Charles Dickens:
http://www.bbc.co.uk/drama/bleakhouse/animation.shtml
domingo, 30 de abril de 2006
os reis reinaram
Foi muito bonito o concerto dos Kings of Convenience ontem à noite na Aula Magna.
Se nós portugueses temos a patente mundial para a "saudade" então os noruegueses têm a patente do "Kos" (verbo: å kose; adjectivo: koselig)
Kos é algo aconchegante, que nos faz sentir bem, felizes, protegidos. É saber que o mundo é mau, agreste e cruel mas que as pessoas podem criar para si mesmas momentos de calma, descontração e felicidade. Os noruegueses são peritos nisso e o concerto de ontem à noite foi prova disso. Foi muito koselig.
Começou com os dois rapazitos a cantar com as suas guitarrinhas como se estivessem na sala lá de casa e acabou com o público a dançar no palco. Pelo meio trocaram-se declarações de amor e eles provaram como se podem fazer revoluções pacíficas e que não é preciso fazer muito barulho para se exprimir a alegria. Basta estalar os dedos e cantarolar uma canção, mesmo quando não se sabe a letra.
Se nós portugueses temos a patente mundial para a "saudade" então os noruegueses têm a patente do "Kos" (verbo: å kose; adjectivo: koselig)
Kos é algo aconchegante, que nos faz sentir bem, felizes, protegidos. É saber que o mundo é mau, agreste e cruel mas que as pessoas podem criar para si mesmas momentos de calma, descontração e felicidade. Os noruegueses são peritos nisso e o concerto de ontem à noite foi prova disso. Foi muito koselig.
Começou com os dois rapazitos a cantar com as suas guitarrinhas como se estivessem na sala lá de casa e acabou com o público a dançar no palco. Pelo meio trocaram-se declarações de amor e eles provaram como se podem fazer revoluções pacíficas e que não é preciso fazer muito barulho para se exprimir a alegria. Basta estalar os dedos e cantarolar uma canção, mesmo quando não se sabe a letra.
quarta-feira, 26 de abril de 2006
gudbrandsdalsost
Ó alegria!
Chegou um quilo disto lá a casa.

"Isto" é o famoso queijo castanho da noruega, vulgo "brunost", ou, mais exactamente, "gudbrandsdalsost" (em tradução literal: queijo do vale do fogo de deus). Quem nunca o provou pode tomar nota na rubrica "coisas para fazer antes de morrer".
Chegou um quilo disto lá a casa.

"Isto" é o famoso queijo castanho da noruega, vulgo "brunost", ou, mais exactamente, "gudbrandsdalsost" (em tradução literal: queijo do vale do fogo de deus). Quem nunca o provou pode tomar nota na rubrica "coisas para fazer antes de morrer".
Mirrormask
Lá fui ao IndieLisboa ver o "Mirrormask" do Dave McKean e Neil Gaiman.
Começou por ser giro ver que a audiência era quase toda composta por pessoal da faculdade de Belas Artes. Senti-me um bocadito velho ao pensar que foi há exactamente 10 anos que saí de lá.
Quanto ao filme, a sensação foi um bocado parecida. É um filme datado. Embora tenha saído o ano passado teria tido muito mais impacto há 10 anos quando o Dave McKean era o rei do mundo da ilustração. Mas é claro, estas coisas levam muito tempo a fazer.
No geral, o filme é bom. Bastante melhor do que eu esperava.Há uma enorme consistência entre a história e o universo visual mas isso é porque o Dave e o Neil são almas gémeas que se auto-estimulam para terem orgasmos sincronizados.
O único problema da coisa é a música, com um saxofone armado em étnico ajudado por umas tablas armadas em jazzy cool que saltaram directamente de 1992 e tentam puxar o filme para o infantil quando é mais que sabido que as crianças que gostam de Dave McKean têm todas mais de 16 anos.
É curioso ver como há coisas que são tão o seu tempo e como o tempo dura cada vez menos. Este filme teria sido genial há 10 anos, mas chegou tarde. De qualquer maneira, ainda bem que chegou. São 2 horas visualmente inspiradas e inspiradoras. Daqui a uns 10 ou 20 anos, quando os anos 90 já estiverem com as fronteiras cronológicas mais diluídas, este filme provavelmente vai ser uma referencia incontornável e já deve ser possível disfrutar dele sem este saborzinho decepcionante de coisa fresca com prazo de validade expirado.
Começou por ser giro ver que a audiência era quase toda composta por pessoal da faculdade de Belas Artes. Senti-me um bocadito velho ao pensar que foi há exactamente 10 anos que saí de lá.
Quanto ao filme, a sensação foi um bocado parecida. É um filme datado. Embora tenha saído o ano passado teria tido muito mais impacto há 10 anos quando o Dave McKean era o rei do mundo da ilustração. Mas é claro, estas coisas levam muito tempo a fazer.
No geral, o filme é bom. Bastante melhor do que eu esperava.Há uma enorme consistência entre a história e o universo visual mas isso é porque o Dave e o Neil são almas gémeas que se auto-estimulam para terem orgasmos sincronizados.
O único problema da coisa é a música, com um saxofone armado em étnico ajudado por umas tablas armadas em jazzy cool que saltaram directamente de 1992 e tentam puxar o filme para o infantil quando é mais que sabido que as crianças que gostam de Dave McKean têm todas mais de 16 anos.
É curioso ver como há coisas que são tão o seu tempo e como o tempo dura cada vez menos. Este filme teria sido genial há 10 anos, mas chegou tarde. De qualquer maneira, ainda bem que chegou. São 2 horas visualmente inspiradas e inspiradoras. Daqui a uns 10 ou 20 anos, quando os anos 90 já estiverem com as fronteiras cronológicas mais diluídas, este filme provavelmente vai ser uma referencia incontornável e já deve ser possível disfrutar dele sem este saborzinho decepcionante de coisa fresca com prazo de validade expirado.
terça-feira, 25 de abril de 2006
cliche x2
Má sorte é apanhar com o mesmo cliché 2 dias de seguida:
"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)
Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.
No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.
Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.
O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).
É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!
Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.
Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)
Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)
"Le temps qui reste" de François Ozon (filme chato e previsível mas com uma boa representação de Melvil Poupaud (que me pareceu um tipo simpático a julgar pelas palavritas que (timidamente) troquei com ele no átrio do Forum Lisboa)
e
Episódio 2 da série 3 de "Nip/Tuck" (série que varia imprevisivelmente entre o bom e o muito mau)
Em ambos, um rapazito insatisfeito com a sua vida rapa o cabelo frente ao espelho da casa de banho.
No filme, o rapazito está na fase terminal do cancro e eu interpretei a cena como sendo demonstração da sua aceitação da morte. Algo como: tosquio-me porque sou um carneirinho que se auto-sacrifica.
Na série, o rapazito acabou de descobrir que durante 20 episódios namorou uma mulher que afinal era um homem e depois para se sentir mais macho foi procurar um travesti, deu-lhe porrada e foi para casa e rapou o cabelo.
O que achei irritante em ambas as cenas foi o seu uso descartável, limitando-se a explorar o factor choque da auto-imolação (que nem é assim tão grande porque a mesma cena já foi usada tantas vezes em tanta coisa).
É que na vida real, deprimente à séria é quando um tipo doente que vive sózinho, depois de lhe ter passado a nóia de rapar o cabelo frente ao espelho do lavatório, percebe que tem de limpar a porcaria que fez. É que aquelas máquinas mandam cabelinhos para todo o lado!!!
Já o outro da série, a mesma coisa. Demonstração de rebeldia era o pai dizer-lhe "limpa já essa porcaria que fizeste no lavatório" e ele responder "Não limpo nada, e quem és tu para me dares ordens?!". Não admira que seja um puto problemático, com pais que deixam para as empregadas domésticas cubanas (a série passa-se em Miami) a resolução dos verdadeiros problemas do dia a dia.
Só me lembro duas vezes em que esta cena da tosquia me tocou devidamente. Foi nos filmes "joana d'arc" de Carl Dryer e no "Alien 3" (onde, mesmo sendo uma referência oblíqua ao primeiro, ainda assim fazia sentido)
Entretanto, dado o avanço assustador das minhas entradas que já não permitem passar um mês sem cortar o cabelo, estou a considerar comprar um maquineta destas. Vou é usá-la na banheira com a cortina fechada e às terças de manhã, que não sou parvo. (A minha empregada doméstica ucraniana vem às terças.)
sexta-feira, 21 de abril de 2006
cliche
Ontem a propósito do filme "Me and You and everyone we know" (muito recomendável, diga-se de passagem) lembrei-me de um pequeno momento da minha vida, de um dia em que me levantei cedíssimo em casa dos meus pais para apanhar um comboio. Enquanto comia o pequeno almoço, o sol levantava-se e pela janela da cozinha entrava uma bonita luz dourada. Nisto, lá fora, um passarinho vem pousar nas roseiras em flor da minha mãe e põe-se a pipilar muito feliz.
Foi a primeira e única vez que assisti a uma cena imortalizada em vários padrões de cortinados, serviços de chá e leques chineses. Ou seja, era um cliché da pirosada ao vivo e a cores.
Serviu esse momento para eu perceber como a representação artistica da realidade pode conspurcar a nossa percepção dessa mesma realidade. Porque, embora eu estivesse consciente da profunda e comovente beleza do passarinho cantor pousado na roseira estava também consciente de que toda uma cultura visual da humanidade me tinha condicionado para achar aquilo uma grande e ridícula pirosada.
Suponho que seja esse um dos grandes males da sociedade moderna, o facto de não se conseguir ter um experiência pura da realidade. Tudo nos chega revisto, reciclado, representado e eu tenho a impressão de que é preciso mais inocência para se enfrentar o mundo e viver como deve ser, caso contrário passa-se a vida prisioneiro do cinismo e da ironia.
Foi a primeira e única vez que assisti a uma cena imortalizada em vários padrões de cortinados, serviços de chá e leques chineses. Ou seja, era um cliché da pirosada ao vivo e a cores.
Serviu esse momento para eu perceber como a representação artistica da realidade pode conspurcar a nossa percepção dessa mesma realidade. Porque, embora eu estivesse consciente da profunda e comovente beleza do passarinho cantor pousado na roseira estava também consciente de que toda uma cultura visual da humanidade me tinha condicionado para achar aquilo uma grande e ridícula pirosada.
Suponho que seja esse um dos grandes males da sociedade moderna, o facto de não se conseguir ter um experiência pura da realidade. Tudo nos chega revisto, reciclado, representado e eu tenho a impressão de que é preciso mais inocência para se enfrentar o mundo e viver como deve ser, caso contrário passa-se a vida prisioneiro do cinismo e da ironia.
quarta-feira, 19 de abril de 2006
Divida de Imaginario
Esta noite sonhei com uma planície e, quando acordei, tentei lembrar-me de onde é que aquela paisagem me era familiar. Só depois de espremer muito o cérebro é que me lembrei que era uma paisagem imaginada por mim num livro dos cinco, mais exactamente, "Os cinco e o comboio fantasma".
Fiquei um bocadito na cama a apreciar o quentinho do édredon, o quentinho do namorado e a desabitual falta de pressa de ir trabalhar e pensei na Enid Blyton. É sem dúvida a escritora de quem li mais livros. Vejamos:
Colecção Os cinco: 21 volumes
Colecção Os sete: 15 (?) volumes
Colecção Mistério: 17 (?) volumes
Colecção A aventura: 7 (?) volumes
Colecção O segredo: 7(?) volumes
Colecção O Mistério (esta é aquela em que um dos meninos tinha uma macaca chamada Miranda): 5 (?) volumes
Colecção o Colégio de Santa Clara: 6 volumes
Colecção o Colégio das 4 torres: 6 volumes
Mais alguns títulos avulso.
Mais os livros do Nodi.
Dá à volta de 70 livros, mais coisa menos coisa. Isto os que eu li.
Acho que devo muito à senhora Enid Blyton. Devia-me lembrar mais vezes dela.
De qualquer maneira, tem o meu respeito e veneração eterna.
PS: Depois de escrever isto fiz o meu Enid Blyton top 5
1- A aventura no Circo
2- O segredo das grutas de Spiggy
3- Os cinco e a Ciganita
4- O segredo do Castelo de Lua
5- O mistério da torre assombrada
...e olhando para este top cinco facilmente concluo que o que me fascina são livros com castelos e/ou passagens secretas. Hummm.....
Fiquei um bocadito na cama a apreciar o quentinho do édredon, o quentinho do namorado e a desabitual falta de pressa de ir trabalhar e pensei na Enid Blyton. É sem dúvida a escritora de quem li mais livros. Vejamos:
Colecção Os cinco: 21 volumes
Colecção Os sete: 15 (?) volumes
Colecção Mistério: 17 (?) volumes
Colecção A aventura: 7 (?) volumes
Colecção O segredo: 7(?) volumes
Colecção O Mistério (esta é aquela em que um dos meninos tinha uma macaca chamada Miranda): 5 (?) volumes
Colecção o Colégio de Santa Clara: 6 volumes
Colecção o Colégio das 4 torres: 6 volumes
Mais alguns títulos avulso.
Mais os livros do Nodi.
Dá à volta de 70 livros, mais coisa menos coisa. Isto os que eu li.
Acho que devo muito à senhora Enid Blyton. Devia-me lembrar mais vezes dela.
De qualquer maneira, tem o meu respeito e veneração eterna.
PS: Depois de escrever isto fiz o meu Enid Blyton top 5
1- A aventura no Circo
2- O segredo das grutas de Spiggy
3- Os cinco e a Ciganita
4- O segredo do Castelo de Lua
5- O mistério da torre assombrada
...e olhando para este top cinco facilmente concluo que o que me fascina são livros com castelos e/ou passagens secretas. Hummm.....
segunda-feira, 17 de abril de 2006
De volta a vida
Hoje acordei e parecia que era eu de novo.
Durante a manhã até ouvi música
Durante a tarde até me apercebi que vai haver um concerto dos Piano Magic no Santiago Alquimista dia 28 de Abril.
O mundo desabrocha novamente à minha volta e já não estou imerso em formatação de textos.
Outro dia um amigo meu disse-me que estava feliz por já não ser designer. Eu percebi-o perfeitamente.
Durante a manhã até ouvi música
Durante a tarde até me apercebi que vai haver um concerto dos Piano Magic no Santiago Alquimista dia 28 de Abril.
O mundo desabrocha novamente à minha volta e já não estou imerso em formatação de textos.
Outro dia um amigo meu disse-me que estava feliz por já não ser designer. Eu percebi-o perfeitamente.
segunda-feira, 27 de março de 2006
Dave Mckean no IndieLisboa
A primeira coisa que me saltou aos olhos da programação do IndieLisboa - festival de cinema independente de lisboa foi o filme do Dave McKean (Sandman - Mr. Punch - Mirrors - etc...) com argumento do Neil Gaiman e criaturas do workshop do Jim Hanson.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.
Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.
Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.
quarta-feira, 22 de março de 2006
mote para as proximas semanas
Não há fome que não dê em fartura.
...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)
...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)
segunda-feira, 20 de março de 2006
mudança
Lá por casa aproveitou-se o fim de semana e o embalo de duas margaritas para se mudar a televisão da sala para o sotão, que era projecto adiado há quase 3 anos. É incrível como pequenas coisas como esta conseguem transmitir a sensação de que se está a começar uma nova fase de vida.
quinta-feira, 16 de março de 2006
proposta de lei
Ontem ocorreu-me que, tendo em conta que os partidos de esquerda andam todos contentes com aquela proposta de ter 50% de mulheres na política, os partidos de direita deviam aproveitar para propor uma lei que não permitisse mais de 10% de homossexuais.
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...
terça-feira, 14 de março de 2006
Outro contexto
Roubei esta imagem no blog "O Abrupto". É um saco da cadeia de livrarias Waterstones.

Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.
Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...
Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.
Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...
antes de adormecer
D - Achas que a alma precisa do corpo para existir?
B - Não necessáriamente.
D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?
B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?
D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.
B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.
D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?
B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.
D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?
B - Uma coisa género Frankenstein?
D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.
B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...
D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?
B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?
D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.
B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!
D - O que é que dizias?
B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.
D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."
B - Não necessáriamente.
D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?
B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?
D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.
B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.
D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?
B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.
D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?
B - Uma coisa género Frankenstein?
D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.
B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...
D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?
B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?
D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.
B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!
D - O que é que dizias?
B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.
D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."
quinta-feira, 9 de março de 2006
viagem ao meu inconsciente
Esta noite sonhei com ilhas. Ao princípio estava nos Açores mas depois andava pular de ilha em ilha em direcção ao mediterrâneo até que, algures perto da costa da Tunísia, o despertador me acordou.
Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:
Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.
Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.
Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:
Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.
Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.
segunda-feira, 6 de março de 2006
Óscares
Entre o George e Jake eu se calhar também escolhia o George... mas ainda bem que não me pedem para escolher.
Parabéns, senhor Clooney!
Parabéns, senhor Clooney!
Colossal
Ainda estou de queixo caído. Passei o fim de semana a jogar o fenomenal "Shadow of the Colossus", o novo jogo para a Playstation dos mesmos criadores do "Ico". (Aliás, incialmente este jogo era suposto ser o "Ico2" mas saiu-lhes outra coisa e ainda bem.)
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.
Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.

http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.
Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.

http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/
sexta-feira, 3 de março de 2006
034 - Os Herdeiros
Pouco depois a minha mãe telefonou, tinha mesmo ido ao cinema, mas a tia Júlia, explicou-nos, tinha ido visitar uma amiga.
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”
quarta-feira, 1 de março de 2006
033 - Os Herdeiros
Deixei um recado à minha mãe, “Já voltámos, estou em casa do Jaime.”, e corri para lá.
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”
Coisas Infelizes
As estações do metro de Lisboa acordaram hoje inundadas de anúncios ao FIFA Street 2, um jogo de futebol para a Playstation 2 que mexe um bocadito com o nosso orgulho nacional por ostentar na capa (numa excelente ilustração) o giraço do Ronaldo.

À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".
Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...
Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.
De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.

À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".
Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...
Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.
De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
032- Os Herdeiros
Acabei por adormecer, vencido pelo cansaço, para acordar já manhã avançada, sozinho na tenda e com a cabeça pesada e doída, martelada que fora por sonhos de um surrealismo descontrolado.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
estrelinhas
Depois de alguns meses de trabalho árduo, dei finalmente uma classificação a todas as canções do meu iPod.
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).
sábado, 11 de fevereiro de 2006
031 - Os Herdeiros
“O que achas que devemos fazer?”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
o ano dos caubois
Os serões das ultimas semanas têm sido quase todos passados a ver episódios da série Deadwood que se recomenda vivamente. O argumento e diálogos são excelentes, os actores são excelentes, os cenários são excelentes, a fotografia é excelente, a realização é excelente... e a cada episódio sobem a fasquia.

Estou completamente fascinado.

Estou completamente fascinado.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
lamechice
Ontem lá vi finalmente o "Brokeback mountain" e, como já esperava, chorei um bocadito e vou levar uns anos a recuperar da coisa (eu ainda não estava totalmente restablecido de "o paciente inglês").
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?
PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!
PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?
PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!
PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Cegueria Histerica
Ontem desencantei no clube de video um filme surpreendentemente bom.
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)

Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.

Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)

Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.

Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
morte aos noruegueses
Nunca deixo de me espantar com o efeito bola de neve que a estupidez pode ter. Ou que há gente estúpida que provoca estupidez em gente ainda mais estúpida e assim sucessivamente, ao estilo das bonequinhas russas que saltam umas de dentro das outras.
Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:
1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)
2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês
3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)
4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")
5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se
6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.
7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.
Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.
Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:
1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)
2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês
3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)
4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")
5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se
6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.
7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.
Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
030 - Os Herdeiros
Acordei a meio da noite com uma pressão familiarmente incómoda na bexiga. Tentei fingir que não era nada e adormecer de novo mas tive que me resignar, vestir uma camisola e abrir a tenda o mais silenciosamente que pude para não acordar o Jaime. Estava escuro e frio à brava. A única coisa que via eram os contornos indistintos das árvores abanadas pelo vento gelado. Enchi-me de coragem e, mesmo em peúgas, dei a volta à tenda, até onde calculava estar o tronco de uma árvore. Arrependi-me logo de não ter calçado os ténis porque as agulhas dos pinheiros e o cascalho aleijavam-me os pés. Foi por isso que não fui muito longe para mijar.
Ainda não tinha terminado por completo quando ouvi a voz do Jaime perguntar:
“Estás bem, António?”
E, subitamente, a luz da lanterna que ele acendeu e apontou na minha direcção, iluminou a raíz da árvore que eu escolhera como alvo. Aí contorcia-se uma cara, um esgar, qualquer coisa entre o réptil e o humano. Dei vários passos para trás e o gemido de terror só me saiu da garganta quando já estava a cair em cima da tenda.
O Jaime chamou-me todos os nomes que se lembrou ao ver-me enrolado no oleado e nas estacas da tenda, lutando para me libertar.
“O que é que estás a fazer, idiota?!”
“Estava a fazer xixi, mas acho que vi uma cobra quando acendeste a lanterna.”
Levantei-me e tirei-lhe a lanterna da mão. Avancei cuidadosamente apontando a luz para as raízes da árvore. A única coisa de anormal era a mancha escura que eu tinha deixado no chão. Era apenas uma raiz mais contorcida que o costume. Mas eu apostava que a tinha visto mexer-se. Mais do que isso, se eu fechasse os olhos conseguia ver ainda aquela cara horrenda a fitar-me.
“Deve ter sido um reflexo naquela raíz.”, disse o Jaime, pondo em palavras um dos meus pensamentos. “E, se era mesmo uma cobra, já fugiu quando lhe mijaste em cima.”
Não me consegui rir porque ainda tremia, abalado pelo susto, e ele, ao meu lado, tremia também, mas de frio, porque se tinha levantado só em t-shirt, cuecas e meias.
“Anda medricas, ajuda-me a levantar isto outra vez.”, disse ele já a bater os dentes.
Mas eu tinha feito tantos estragos que não conseguimos pôr a tenda de novo em pé. Era um emaranhado impossível de lona, estacas e cordas.
“Acho que temos de acordar alguém para nos ajudar.”, concluiu o Jaime. E eu, apesar da vergonha, concordei. Apontei a lanterna para as outras duas tendas e dirigi-me à mais pequena. Comecei por chamar o padre Matos, mas como o meu sussurro não parecia capaz de o acordar e eu não queria erguer mais a voz para não acordar os outros, acabei por abrir o fecho da tenda e olhar lá para dentro.
Estava vazia.
“O que foi?”, perguntou o Jaime ao ver-me paralizado, com o foco apontado lá para dentro.
“Não está aqui ninguém.”
“Se calhar estão todos a dormir na tenda grande, por causa do frio.”
Não fui capaz de argumentar que na tenda “grande” cabiam só três pessoas e que os sacos-cama estavam ali, bem estendidos e fechados, como se não tivessem sido usados. Assenti apenas com a cabeça e estendi a lanterna ao Jaime, que entretanto viera ver com os seus próprios olhos e se agachara ao meu lado. Ele levantou-se devagar mas avançou decidido para a outra tenda e bateu na lona como se fosse uma porta.
Nada.
Eu aproximei-me e olhámos um para o outro apreensivos antes de ele abrir o fecho.
Vazia. Os três sacos-cama estendidos e intocados como os outros dois.
“Acho que não se deitaram.”, disse eu. “Se calhar foram dar um passeio antes de dormir.”
O Jaime foi até aos restos da fogueira apagada e pôs a mão nas cinzas.
“Está fria.”
“Que horas são?” perguntei eu. E ele, surpreendido por eu interromper o seu momento Sherlock Holmes- índio com uma pergunta lógica, apontou o foco para o relógio no pulso.
“Quatro e meia.”
“A que horas nos deitámos?”
“Deviam ser dez ou onze. Não era tarde.”
Ficámos calados, sem querer expressar as idéias que nos corriam pela cabeça. Eu só conseguia pensar na cara na raiz da árvore, mas mesmo assim não fui capaz de contar ao Jaime o que verdadeiramente julgara ter visto. Era patético estar a pensar em vampiros, lobisomens ou simples assassinos psicópatas, mas, cortando afiado a noite escura, o vento açoitava tão impiedosamente as árvores e a lona da nossa tenda desfeita, mal pendurada nas estacas tortas, que eu comecei a tremer, já não tanto por causa do frio, mas por causa do medo que me começava a invadir o corpo e que eu não conseguia conter porque nunca o sentira assim tão puro, tão agudo, indomável, a cavalgar-me pelas veias.
Ainda não tinha terminado por completo quando ouvi a voz do Jaime perguntar:
“Estás bem, António?”
E, subitamente, a luz da lanterna que ele acendeu e apontou na minha direcção, iluminou a raíz da árvore que eu escolhera como alvo. Aí contorcia-se uma cara, um esgar, qualquer coisa entre o réptil e o humano. Dei vários passos para trás e o gemido de terror só me saiu da garganta quando já estava a cair em cima da tenda.
O Jaime chamou-me todos os nomes que se lembrou ao ver-me enrolado no oleado e nas estacas da tenda, lutando para me libertar.
“O que é que estás a fazer, idiota?!”
“Estava a fazer xixi, mas acho que vi uma cobra quando acendeste a lanterna.”
Levantei-me e tirei-lhe a lanterna da mão. Avancei cuidadosamente apontando a luz para as raízes da árvore. A única coisa de anormal era a mancha escura que eu tinha deixado no chão. Era apenas uma raiz mais contorcida que o costume. Mas eu apostava que a tinha visto mexer-se. Mais do que isso, se eu fechasse os olhos conseguia ver ainda aquela cara horrenda a fitar-me.
“Deve ter sido um reflexo naquela raíz.”, disse o Jaime, pondo em palavras um dos meus pensamentos. “E, se era mesmo uma cobra, já fugiu quando lhe mijaste em cima.”
Não me consegui rir porque ainda tremia, abalado pelo susto, e ele, ao meu lado, tremia também, mas de frio, porque se tinha levantado só em t-shirt, cuecas e meias.
“Anda medricas, ajuda-me a levantar isto outra vez.”, disse ele já a bater os dentes.
Mas eu tinha feito tantos estragos que não conseguimos pôr a tenda de novo em pé. Era um emaranhado impossível de lona, estacas e cordas.
“Acho que temos de acordar alguém para nos ajudar.”, concluiu o Jaime. E eu, apesar da vergonha, concordei. Apontei a lanterna para as outras duas tendas e dirigi-me à mais pequena. Comecei por chamar o padre Matos, mas como o meu sussurro não parecia capaz de o acordar e eu não queria erguer mais a voz para não acordar os outros, acabei por abrir o fecho da tenda e olhar lá para dentro.
Estava vazia.
“O que foi?”, perguntou o Jaime ao ver-me paralizado, com o foco apontado lá para dentro.
“Não está aqui ninguém.”
“Se calhar estão todos a dormir na tenda grande, por causa do frio.”
Não fui capaz de argumentar que na tenda “grande” cabiam só três pessoas e que os sacos-cama estavam ali, bem estendidos e fechados, como se não tivessem sido usados. Assenti apenas com a cabeça e estendi a lanterna ao Jaime, que entretanto viera ver com os seus próprios olhos e se agachara ao meu lado. Ele levantou-se devagar mas avançou decidido para a outra tenda e bateu na lona como se fosse uma porta.
Nada.
Eu aproximei-me e olhámos um para o outro apreensivos antes de ele abrir o fecho.
Vazia. Os três sacos-cama estendidos e intocados como os outros dois.
“Acho que não se deitaram.”, disse eu. “Se calhar foram dar um passeio antes de dormir.”
O Jaime foi até aos restos da fogueira apagada e pôs a mão nas cinzas.
“Está fria.”
“Que horas são?” perguntei eu. E ele, surpreendido por eu interromper o seu momento Sherlock Holmes- índio com uma pergunta lógica, apontou o foco para o relógio no pulso.
“Quatro e meia.”
“A que horas nos deitámos?”
“Deviam ser dez ou onze. Não era tarde.”
Ficámos calados, sem querer expressar as idéias que nos corriam pela cabeça. Eu só conseguia pensar na cara na raiz da árvore, mas mesmo assim não fui capaz de contar ao Jaime o que verdadeiramente julgara ter visto. Era patético estar a pensar em vampiros, lobisomens ou simples assassinos psicópatas, mas, cortando afiado a noite escura, o vento açoitava tão impiedosamente as árvores e a lona da nossa tenda desfeita, mal pendurada nas estacas tortas, que eu comecei a tremer, já não tanto por causa do frio, mas por causa do medo que me começava a invadir o corpo e que eu não conseguia conter porque nunca o sentira assim tão puro, tão agudo, indomável, a cavalgar-me pelas veias.
029 - Os Herdeiros
Montámos o acampamento já noite escura, eu e o Jaime tão atrapalhados com as lanternas e a tenda que eles tiveram de nos ajudar a pô-la de pé. Sentámo-nos a jantar à volta da fogueira, primeiro aturando as cançõezitas de escuteiro tocadas na guitarra que um dos rapazes carregara montanha acima, montanha abaixo, e depois começámos a contar anedotas e histórias.
A certa altura o João Paulo fez questão de nos explicar mais sobre Sintra começando pelo nome, que, ao que parece, significa montanha da lua e deriva da palavra Cyntia, de origem celta, que se refere à deusa grega Artémis, a virgem caçadora.
Aí o Jaime interrompeu-o:
“É estranho esse nome. Sin é o deus árabe da lua. Bem, não exactamente árabe, mas era esse o nome que os assírios usavam. A lua era um deus masculino para os povos da mesopotâmia. Claro que depois passou a ser referido como Alá, mas o simbolo da lua ficou. Quanto tempo é que os árabes estiveram aqui em Sintra? Dois, três séculos?”
“E tu falas árabe, se calhar…”, gozou um dos outros rapazes.
“Um bocadinho, estou a aprender.”
“De qualquer maneira isso soa-me a disparate”, disse o João Paulo. “Em todas as culturas a lua deve ser um astro feminino porque tem uma relação com o período das mulheres”.
“Não, disse eu. Em norueguês, por exemplo, “lua” é uma palavra masculina e o “sol” é feminino. É curioso porque também só dei por isso outro dia. Estava a ver um livro com pinturas de Munch e reparei num quadro que era referido como uma cena nocturna isso mas não estava a fazer muito sentido porque eu olhava para ele e via o sol, representado como um enorme…aa…falo, reflectido na água, e só conseguia ver aquilo como uma coisa masculina. Mas depois, claro, ocorreu-me que a lua é masculina em norueguês e que assim já fazia todo o sentido representá-la daquela maneira.”
Ninguém falou ou quis acrescentar algo a isto.
“O António está a aprender norueguês.”, esclareceu o Padre Matos, mas ninguém deixou de olhar para nós como se fossemos anormais.
Eu conhecia aquela atmosfera. Era a mesma que ficava no ar cada vez que eu abria a boca nas aulas. Ficava sempre a sentir-me um mete-nojo.
“Já é tarde, acho que me vou deitar.”, disse eu.
“Sim, também já estou com sono.”, disse o Jaime.
Fomos para a tenda e entrámos nos sacos-cama sem trocar palavra. Deitados em silêncio, a marinar numa amargura habitual, ambos sabíamos o que o outro pensava: que nunca seríamos capazes de socializar como pessoas normais antes de fazermos uma lobotomia.
O Jaime abriu o lado do saco-cama e pôs a mão de fora. Eu fiz o mesmo e adormecemos de mãos dadas.
A certa altura o João Paulo fez questão de nos explicar mais sobre Sintra começando pelo nome, que, ao que parece, significa montanha da lua e deriva da palavra Cyntia, de origem celta, que se refere à deusa grega Artémis, a virgem caçadora.
Aí o Jaime interrompeu-o:
“É estranho esse nome. Sin é o deus árabe da lua. Bem, não exactamente árabe, mas era esse o nome que os assírios usavam. A lua era um deus masculino para os povos da mesopotâmia. Claro que depois passou a ser referido como Alá, mas o simbolo da lua ficou. Quanto tempo é que os árabes estiveram aqui em Sintra? Dois, três séculos?”
“E tu falas árabe, se calhar…”, gozou um dos outros rapazes.
“Um bocadinho, estou a aprender.”
“De qualquer maneira isso soa-me a disparate”, disse o João Paulo. “Em todas as culturas a lua deve ser um astro feminino porque tem uma relação com o período das mulheres”.
“Não, disse eu. Em norueguês, por exemplo, “lua” é uma palavra masculina e o “sol” é feminino. É curioso porque também só dei por isso outro dia. Estava a ver um livro com pinturas de Munch e reparei num quadro que era referido como uma cena nocturna isso mas não estava a fazer muito sentido porque eu olhava para ele e via o sol, representado como um enorme…aa…falo, reflectido na água, e só conseguia ver aquilo como uma coisa masculina. Mas depois, claro, ocorreu-me que a lua é masculina em norueguês e que assim já fazia todo o sentido representá-la daquela maneira.”
Ninguém falou ou quis acrescentar algo a isto.
“O António está a aprender norueguês.”, esclareceu o Padre Matos, mas ninguém deixou de olhar para nós como se fossemos anormais.
Eu conhecia aquela atmosfera. Era a mesma que ficava no ar cada vez que eu abria a boca nas aulas. Ficava sempre a sentir-me um mete-nojo.
“Já é tarde, acho que me vou deitar.”, disse eu.
“Sim, também já estou com sono.”, disse o Jaime.
Fomos para a tenda e entrámos nos sacos-cama sem trocar palavra. Deitados em silêncio, a marinar numa amargura habitual, ambos sabíamos o que o outro pensava: que nunca seríamos capazes de socializar como pessoas normais antes de fazermos uma lobotomia.
O Jaime abriu o lado do saco-cama e pôs a mão de fora. Eu fiz o mesmo e adormecemos de mãos dadas.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
orgulho
O nosso amigo Kenneth fez a gentileza de nos enviar um DVD com a sua série "Raballder", um documentário em 6 episódios sobre uma equipa de andebol gay norueguesa que tenta passar da 4ª para a 3ª divisão. Neste momento a série passa na televisão norueguesa mas já foi comprada por canais suecos e dinamarqueses.
Ontem à noite vimos os primeiros dois episódios e estamos super entusiasmados. O resultado é brilhante. Mostrar a vida real de vários homossexuais de forma tão cândida e descomplicada é desarmante e enternecedor.
Estou orgulhoso do meu amigo e já o comecei a chatear para põr legendas e enviar para o festival gay e lésbico de lisboa (onde há 2 anos passou outro documentário seu "The secret club")
Ontem à noite vimos os primeiros dois episódios e estamos super entusiasmados. O resultado é brilhante. Mostrar a vida real de vários homossexuais de forma tão cândida e descomplicada é desarmante e enternecedor.
Estou orgulhoso do meu amigo e já o comecei a chatear para põr legendas e enviar para o festival gay e lésbico de lisboa (onde há 2 anos passou outro documentário seu "The secret club")
250 anos
Ontem o meu iPod passou aleatóriamente "Waiting for the miracle" do Leonard Cohen. E face ao recente bombardeamento mediático houve uma frase dessa canção que se iluminou de significado:
"The maestro says it´s Mozart, but it sounds like bubble-gum"
Entretanto, marcámos bilhetes para ir a Salzburgo em Maio. Espero o inferno com o "Eine Kleine Nachtmusik" como banda sonora, mas achei que seria um bocadinho desleal para com os leitores estar a escrever histórias passadas em Salzburgo sem nunca lá ter estado... os sacrifícios que se fazem pela arte...
Por outro lado, o meu recente frenesim de investigação desenterrou um fascinante livro sobre vikings das prateleiras lá de casa e o verdadeiro Skråmestø leu-o de uma ponta à outra e agora ficou com idéias de escrever uma história de vikings passada em Istambul. Quererá isto dizer férias na Turquia no verão? Acho que estamos a comprometer as nossas férias demasiado. Por mim, uns dias sossegados na Quarteira ou em Armação de Pêra nem soa mal. Eu quero é férias! Já!
"The maestro says it´s Mozart, but it sounds like bubble-gum"
Entretanto, marcámos bilhetes para ir a Salzburgo em Maio. Espero o inferno com o "Eine Kleine Nachtmusik" como banda sonora, mas achei que seria um bocadinho desleal para com os leitores estar a escrever histórias passadas em Salzburgo sem nunca lá ter estado... os sacrifícios que se fazem pela arte...
Por outro lado, o meu recente frenesim de investigação desenterrou um fascinante livro sobre vikings das prateleiras lá de casa e o verdadeiro Skråmestø leu-o de uma ponta à outra e agora ficou com idéias de escrever uma história de vikings passada em Istambul. Quererá isto dizer férias na Turquia no verão? Acho que estamos a comprometer as nossas férias demasiado. Por mim, uns dias sossegados na Quarteira ou em Armação de Pêra nem soa mal. Eu quero é férias! Já!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2006
028- Os Herdeiros
A ermida de São Saturnino, não sei se alguma vez lá foste, pouco mais parecia que um celeiro de portas abertas e paredes nuas. Um dos amigos do padre Matos, João Paulo, acho que que se chamava, sabia muito sobre Sintra, ou disso se gabava, e contou-nos algumas histórias relacionadas com a Peninha e a ermida, mas quando o Jaime lhe perguntou se ele sabia quem era o São Saturnino e porque lhe tinham erguido ali uma capela ele não soube responder. E nem o padre Matos sabia fosse o que fosse sobre o Santo. Enquanto todos se lamentavam do esquecimento a que estavam condenados os santos menos milagreiros, eu, por algum motivo, recordei-me perfeitamente de quem ele era.
A tia Júlia impingira-me em tempos um dicionário de santos, antes de uma visita que tínhamos feito ao Museu de Arte Antiga. “Já que vão olhar para os quadros, ao menos saibam o que estão a ver”. Assim me ensinara destinguir a Santa Catarina pela roda, o São Vicente pela corda, etc… Mitologia medieval, chamava-lhe ela.
Assim pude contar aos outros que São Saturnino fora um padre cristão na Gália romana, cuja passagem diária frente ao templo de Júpiter aparentemente fazia calar os oráculos. Como tal, foi intimado a sacrificar um touro no templo mas, recusando-se a fazê-lo, foi ele atado ao touro que o arrastou pela escadaria do templo e o matou.
“Chamo a esses santos Martiris Vulgaris”, disse o João Paulo, “não admira que tenha sido esquecido”.
“A mim esta história sempre me pareceu uma trágica paródia do rapto de Europa. Aliás, acho que comentei isso com a tia Júlia na altura em que a li. Aqueles romanos devem-se ter divertido a montar o velhote no touro.”, disse eu.
“O que me intriga é porque raio vieram fazer uma capelinha a esse santo aqui no fim do mundo, na ponta da Europa.”, disse o Jaime.
“Era o santo cristão que calava os deuses pagãos. Mas aqui, pelos vistos, não teve grande sucesso”, disse eu.
Enquanto olhávamos uns para os outros sem saber o que acrescentar às palavras que me tinham saltado da boca, a noite pareceu apressar-se a cair lá fora, tornando aquelas paredes ainda mais esquálidas e tristes.
“Vamos”, disse o padre Matos de repente, “Já nos estamos a atrasar demais e igrejas desconsagradas são perigosas à noite”. Dito isto, benzeu-se.
“Não sabia que era supersticioso”, brincou o Jaime com ele.
“Sou religioso, Jaime. Pode parecer-te o mesmo, mas há uma grande diferença”. E com gestos largos enxotou-nos para fora.
A tia Júlia impingira-me em tempos um dicionário de santos, antes de uma visita que tínhamos feito ao Museu de Arte Antiga. “Já que vão olhar para os quadros, ao menos saibam o que estão a ver”. Assim me ensinara destinguir a Santa Catarina pela roda, o São Vicente pela corda, etc… Mitologia medieval, chamava-lhe ela.
Assim pude contar aos outros que São Saturnino fora um padre cristão na Gália romana, cuja passagem diária frente ao templo de Júpiter aparentemente fazia calar os oráculos. Como tal, foi intimado a sacrificar um touro no templo mas, recusando-se a fazê-lo, foi ele atado ao touro que o arrastou pela escadaria do templo e o matou.
“Chamo a esses santos Martiris Vulgaris”, disse o João Paulo, “não admira que tenha sido esquecido”.
“A mim esta história sempre me pareceu uma trágica paródia do rapto de Europa. Aliás, acho que comentei isso com a tia Júlia na altura em que a li. Aqueles romanos devem-se ter divertido a montar o velhote no touro.”, disse eu.
“O que me intriga é porque raio vieram fazer uma capelinha a esse santo aqui no fim do mundo, na ponta da Europa.”, disse o Jaime.
“Era o santo cristão que calava os deuses pagãos. Mas aqui, pelos vistos, não teve grande sucesso”, disse eu.
Enquanto olhávamos uns para os outros sem saber o que acrescentar às palavras que me tinham saltado da boca, a noite pareceu apressar-se a cair lá fora, tornando aquelas paredes ainda mais esquálidas e tristes.
“Vamos”, disse o padre Matos de repente, “Já nos estamos a atrasar demais e igrejas desconsagradas são perigosas à noite”. Dito isto, benzeu-se.
“Não sabia que era supersticioso”, brincou o Jaime com ele.
“Sou religioso, Jaime. Pode parecer-te o mesmo, mas há uma grande diferença”. E com gestos largos enxotou-nos para fora.
027 - Os Herdeiros
Tomámos a auto-estrada de Cascais e a serra de Sintra começou a aproximar-se pela nossa direita como o lombo negro de algum monstro gigante que mergulhasse do mar para a terra. O padre Matos apontou-me a silhueta do Palácio da Pena no perfil recortado contra o limpo céu da Primavera e depois a Peninha, o outro cume mais alto.
Seguimos para o cabo da Roca aonde fomos olhar para o horizonte, já que eu e o Jaime também nunca tinhamos estado no ponto mais ocidental do continente europeu, e depois, voltando um pouco para trás, deixámos os carros estacionados à beira da estrada e lá fomos, mochilas às costas, entrando pelo bosque, atacando a montanha a passos largos.
Eu fui ficando para trás porque, de todos, era quem menos estava habituado áquilo e não estava com disposição para conversas, ao contrário dos outros e do Jaime, que, familiarizado já com eles, trocava piadas e fazia perguntas sobre acampamentos, caminhadas e nós de escuteiro.
Fui o último a chegar à Peninha, já todos se tinham cansado da vista. Enquanto esperavam por mim tinham aberto as bolachas e os cantis e faziam o primeiro piquenique sentados nas rochas, à beira de uma igreja abandonada. Eu voltei-lhes as costas e fiquei a olhar para o mar e para o pôr-do-sol fulgurante que tingia o horizonte a ouro. Percebi então porque é que o padre Matos insistira para que fôssemos áquela hora. Ele tivera de assegurar umas sete vezes a minha mãe de que conseguiam montar as tendas de noite, antes de ela nos deixar vir, mas valera a pena.
O Jaime veio ter comigo e ficou só ali ao meu lado, deixando-me arder de raiva e de ciúme. Não disse nada. Ficou só a ouvir-me arfar, ainda cansado da subida.
Entretanto o Sol deixou-se engolir pelo mar e a mudança sentiu-se tão subitamente ali na montanha que senti um arrepio de frio correr sobre o suor das minhas costas. Era como se um outro poder se tivesse instaurado sobre a terra. A noite começava agora.
O Jaime deve ter sentido algo parecido porque se aproximou de mim e pôs um braço por cima dos meus ombros. Ficámos ainda um pouco a olhar para o espectro, último rastro de luz que o sol deixara.
“Eles estavam-me a contar que há quem acredite que esta montanha era a ligação do continente da Atlântida à Europa, e que é o único bocado dela que resta fora de água.”
Continuei a olhar para o horizonte e respondi, “Quem inventou isso esteve aqui de certeza.”
Devagar, senti que a minha irritação se dissipava. Bastava que o Jaime estivesse ali, a meu lado. Estendeu-me uma bolacha. Eu sorri.
“Anda”, disse-me, “tens de vir ver a igreja. São Saturnino, lembra-te alguma coisa?”
Seguimos para o cabo da Roca aonde fomos olhar para o horizonte, já que eu e o Jaime também nunca tinhamos estado no ponto mais ocidental do continente europeu, e depois, voltando um pouco para trás, deixámos os carros estacionados à beira da estrada e lá fomos, mochilas às costas, entrando pelo bosque, atacando a montanha a passos largos.
Eu fui ficando para trás porque, de todos, era quem menos estava habituado áquilo e não estava com disposição para conversas, ao contrário dos outros e do Jaime, que, familiarizado já com eles, trocava piadas e fazia perguntas sobre acampamentos, caminhadas e nós de escuteiro.
Fui o último a chegar à Peninha, já todos se tinham cansado da vista. Enquanto esperavam por mim tinham aberto as bolachas e os cantis e faziam o primeiro piquenique sentados nas rochas, à beira de uma igreja abandonada. Eu voltei-lhes as costas e fiquei a olhar para o mar e para o pôr-do-sol fulgurante que tingia o horizonte a ouro. Percebi então porque é que o padre Matos insistira para que fôssemos áquela hora. Ele tivera de assegurar umas sete vezes a minha mãe de que conseguiam montar as tendas de noite, antes de ela nos deixar vir, mas valera a pena.
O Jaime veio ter comigo e ficou só ali ao meu lado, deixando-me arder de raiva e de ciúme. Não disse nada. Ficou só a ouvir-me arfar, ainda cansado da subida.
Entretanto o Sol deixou-se engolir pelo mar e a mudança sentiu-se tão subitamente ali na montanha que senti um arrepio de frio correr sobre o suor das minhas costas. Era como se um outro poder se tivesse instaurado sobre a terra. A noite começava agora.
O Jaime deve ter sentido algo parecido porque se aproximou de mim e pôs um braço por cima dos meus ombros. Ficámos ainda um pouco a olhar para o espectro, último rastro de luz que o sol deixara.
“Eles estavam-me a contar que há quem acredite que esta montanha era a ligação do continente da Atlântida à Europa, e que é o único bocado dela que resta fora de água.”
Continuei a olhar para o horizonte e respondi, “Quem inventou isso esteve aqui de certeza.”
Devagar, senti que a minha irritação se dissipava. Bastava que o Jaime estivesse ali, a meu lado. Estendeu-me uma bolacha. Eu sorri.
“Anda”, disse-me, “tens de vir ver a igreja. São Saturnino, lembra-te alguma coisa?”
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
Arsene Lupin
Alguma relutancia em ver um dos meus heróis literários de juventude adaptado ao cinema, mas como é feito por franceses e tem a Kristin Scott Thomas pode ser que se safe pela positiva (o trailer é daqueles feitos para o publico pipoqueiro, mas isso hoje em dia não quer dizer nada). Aguardo com expectativa.
trailer aqui:
http://www.tf1international.com/download/75/ARSpromo.wmv
trailer aqui:
http://www.tf1international.com/download/75/ARSpromo.wmv
Erase and Rewind
Caros leitores,
Finalmente dei-me ao trabalho de rever tudo o que já tinha escrito n"Os Herdeiros". Como tal, achei que valia a pena republicar tudo outra vez. Não que tenham acontecido grandes mudanças na história (quem já leu excusa de ler outra vez), as principais diferenças estão nas vírgulas, acentos e parágrafos, mas, como eu escrevo isto directamente para o blog, lendo tudo de seguida, tornaram-se óbvias algumas falhas no fluir do texto.
Também, como um leitor atento já tinha apontado, o fascículo 27 (agora com nr.26 porque tinha inadvertidamente saltado um numero) estava demasiado "explícito". Por isso apaguei-o e reescrevi-o. Esse é que se recomenda que seja lido novamente por quem já tinha lido a versão anterior.
Continuam a ser bem vindos os comentários, nem que sejam sobre ortografia e gramática.
Obrigado pela atenção,
Eu
Finalmente dei-me ao trabalho de rever tudo o que já tinha escrito n"Os Herdeiros". Como tal, achei que valia a pena republicar tudo outra vez. Não que tenham acontecido grandes mudanças na história (quem já leu excusa de ler outra vez), as principais diferenças estão nas vírgulas, acentos e parágrafos, mas, como eu escrevo isto directamente para o blog, lendo tudo de seguida, tornaram-se óbvias algumas falhas no fluir do texto.
Também, como um leitor atento já tinha apontado, o fascículo 27 (agora com nr.26 porque tinha inadvertidamente saltado um numero) estava demasiado "explícito". Por isso apaguei-o e reescrevi-o. Esse é que se recomenda que seja lido novamente por quem já tinha lido a versão anterior.
Continuam a ser bem vindos os comentários, nem que sejam sobre ortografia e gramática.
Obrigado pela atenção,
Eu
026 - Os Herdeiros (versao revista)
Fomos ter com o padre Matos e os amigos ao largo da Sé, ainda com a minha mãe colada aos calcanhares, para ver quem eram os rapazes com quem íamos e para os fazer prometer que nos iam trazer de volta sem um arranhão. Tinham estacionado aí os dois carros, um dos quais uma carrinha com apenas dois lugares. E esse foi o problema. Na altura de nos dividirmos pelos carros, cinco num e dois no outro, o padre Matos, que conduzia a carrinha, disse, “porque não vens comigo, António?”, e eu não tive cara para dizer que não.
Mais vale explicar-te logo o que senti. Resumindo muito simplesmente, fiquei chateado por não ir no outro carro porque os amigos do padre Matos eram todos muito giros, viris e simpáticos, Porque queria ir com o Jaime e não queria que o Jaime fosse com eles sem mim (ciúmes), e não queria estar sozinho ao pé do padre Matos porque ele me atraía sexualmente e eu achava-o irritante, hipócrita e idiota. É claro que na altura isto era apenas uma grande confusão na minha cabeça e suponho que emergia sob a forma de amuo, impaciência e fingido desinteresse. Mas lá fui, sentei-me ao lado dele.
Tenho estado a fazer um esforço para me lembrar do que falámos nessa pequena viagem, nós os dois. Falámos de livros, certamente, mas não me lembro das perguntas que ele fez sobre a biblioteca da tia Júlia. A minha cabeça estava noutro lado, no carro onde ia o Jaime, mas a conversa incessante dele e as perguntas insidiosas devem ter começado a irritar-me. Além disso, comecei a ficar com a impressão de que ele me queria saltar para cima. No momento em que entrámos para o carro, ele, esfregando a mão no meu joelho perguntou, “Então, pronto para a diversão?”. Eu fingi não ter notado um segundo sentido nas palavras e achei que, embora a mão dele se tivesse demorado um bocadinho demais no joelho e subido, ao retirar-se, talvez mais para a coxa do que o devido, não devia dar importância áquilo. Mas pôs-me em alerta. E enquanto ele continuava a enrolar perguntas numa conversa aparentemente inocente, eu só me lembrava da fábula da raposa e do corvo. Ele tinha definitivamente mais do que um interesse educado sobre mim, o Jaime, a nossa família. Terei sido eu quem lhe falou nessa altura da biblioteca da tia Júlia? Provavelmente. Mas não importa, fosse eu, o Jaime ou a própria tia Júlia, o cabrão por essa altura já tinha farejado o seu queijo e nós continuávamos sem ver a raposa disfarçada na pele da ovelha.
Mais vale explicar-te logo o que senti. Resumindo muito simplesmente, fiquei chateado por não ir no outro carro porque os amigos do padre Matos eram todos muito giros, viris e simpáticos, Porque queria ir com o Jaime e não queria que o Jaime fosse com eles sem mim (ciúmes), e não queria estar sozinho ao pé do padre Matos porque ele me atraía sexualmente e eu achava-o irritante, hipócrita e idiota. É claro que na altura isto era apenas uma grande confusão na minha cabeça e suponho que emergia sob a forma de amuo, impaciência e fingido desinteresse. Mas lá fui, sentei-me ao lado dele.
Tenho estado a fazer um esforço para me lembrar do que falámos nessa pequena viagem, nós os dois. Falámos de livros, certamente, mas não me lembro das perguntas que ele fez sobre a biblioteca da tia Júlia. A minha cabeça estava noutro lado, no carro onde ia o Jaime, mas a conversa incessante dele e as perguntas insidiosas devem ter começado a irritar-me. Além disso, comecei a ficar com a impressão de que ele me queria saltar para cima. No momento em que entrámos para o carro, ele, esfregando a mão no meu joelho perguntou, “Então, pronto para a diversão?”. Eu fingi não ter notado um segundo sentido nas palavras e achei que, embora a mão dele se tivesse demorado um bocadinho demais no joelho e subido, ao retirar-se, talvez mais para a coxa do que o devido, não devia dar importância áquilo. Mas pôs-me em alerta. E enquanto ele continuava a enrolar perguntas numa conversa aparentemente inocente, eu só me lembrava da fábula da raposa e do corvo. Ele tinha definitivamente mais do que um interesse educado sobre mim, o Jaime, a nossa família. Terei sido eu quem lhe falou nessa altura da biblioteca da tia Júlia? Provavelmente. Mas não importa, fosse eu, o Jaime ou a própria tia Júlia, o cabrão por essa altura já tinha farejado o seu queijo e nós continuávamos sem ver a raposa disfarçada na pele da ovelha.
025 - Os Herdeiros (versao revista)
Foi essa a minha, nossa, primeira ida a Sintra. Tínhamos 16 anos.
E nem por um momento parei para me questionar porque é que os nossos incontáveis passeios de fim de semana nunca tinham incluido Sintra. A tia Júlia diria, “Marta, porque não levas os miúdos a Tomar / Conímbriga / Alcobaça / Mértola / Évora / Marvão / etc / etc…” E lá nos montávamos nós no Opel da minha mãe para ir ver as maravilhas históricas de Portugal. Até Espanha, às vezes. Mas Sintra… ela nunca referira Sintra, mesmo sendo logo ali, a escassos quilómetros de Lisboa.
Outra diferença relevante em relação a outros passeios foi a total ausência de lição histórica. Normalmente, na noite antes de viajarmos, a tia Júlia fazia um bolo, chá, e sentávamo-nos a ouvi-la falar dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro, de mosaicos e termas romanas, de ruínas, restauros, castelos, mosteiros, antas, igrejas, capelinhas e o que mais houvesse para saber, ver, sentir e pensar em certos sítios. Tanto que era como lá estar ainda antes de ir.
Porque depois ela nunca vinha connosco, mesmo que fossemos a sítios onde ela nunca tinha ido (que por acaso eram poucos, mas mesmo assim…). Ela tinha a perfeita noção do quanto dominava as nossas vidas e suponho que essa era a sua maneira de nos libertar. Apesar disso, nós sabiamos que se regressássemos sem ter visto um chafariz, um pelourinho, que ela tivesse referido, teriamos de enfrentar o seu olhar desapontado. E isso, simplesmente, não se fazia. Nem uns pastéis de tentúgal, ou umas barrigas de freira, serviam, aprendemos, para lhe apaziguar os resmungos, quando nos falhava um ponto do itinerário.
Mas desta vez, sobre Sintra, nada.
Sorria simplesmente por nos ver tão entusiasmados. Iamos acampar pela primeira vez. O padre Matos ficara de nos arranjar a tenda e os sacos-cama, mas fomos comprar mochilas, e comida e lanternas e canivetes. Desde que o Jaime comprara o arco e as flechas que não tinhamos andado tão histéricos pela casa.
A minha mãe, que saíra mais cedo de propósito para se despedir de nós, ia dando recomendações à medida que se lembrava: “Não apanhem frio. Se fizerem uma fogueira ponham pedras à volta. Pus pensos e algodão no bolso da frente da mochila. Têm pilhas nas lanternas?”. A tia Júlia tentava acalmá-la explicando que íamos estar cercados de antigos escuteiros que acampavam e faziam caminhadas na floresta praticamente desde o berço, mas a minha mãe continuava a ver aquilo como a expedição para procurar a nascente do Nilo.
Não, não demos por nada. Com tanta excitação ninguém deu pelo silêncio, pelos lábios cerrados, pelas rugas na testa, da tia Júlia.
Eu só as vejo agora, agora que penso nisso.
Imagino-as perfeitamente.
Ela sabia o que estava a fazer. Sempre soube.
Nem os pássaros ensinam os seus a voar. Atiram-nos para fora do ninho.
E nem por um momento parei para me questionar porque é que os nossos incontáveis passeios de fim de semana nunca tinham incluido Sintra. A tia Júlia diria, “Marta, porque não levas os miúdos a Tomar / Conímbriga / Alcobaça / Mértola / Évora / Marvão / etc / etc…” E lá nos montávamos nós no Opel da minha mãe para ir ver as maravilhas históricas de Portugal. Até Espanha, às vezes. Mas Sintra… ela nunca referira Sintra, mesmo sendo logo ali, a escassos quilómetros de Lisboa.
Outra diferença relevante em relação a outros passeios foi a total ausência de lição histórica. Normalmente, na noite antes de viajarmos, a tia Júlia fazia um bolo, chá, e sentávamo-nos a ouvi-la falar dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro, de mosaicos e termas romanas, de ruínas, restauros, castelos, mosteiros, antas, igrejas, capelinhas e o que mais houvesse para saber, ver, sentir e pensar em certos sítios. Tanto que era como lá estar ainda antes de ir.
Porque depois ela nunca vinha connosco, mesmo que fossemos a sítios onde ela nunca tinha ido (que por acaso eram poucos, mas mesmo assim…). Ela tinha a perfeita noção do quanto dominava as nossas vidas e suponho que essa era a sua maneira de nos libertar. Apesar disso, nós sabiamos que se regressássemos sem ter visto um chafariz, um pelourinho, que ela tivesse referido, teriamos de enfrentar o seu olhar desapontado. E isso, simplesmente, não se fazia. Nem uns pastéis de tentúgal, ou umas barrigas de freira, serviam, aprendemos, para lhe apaziguar os resmungos, quando nos falhava um ponto do itinerário.
Mas desta vez, sobre Sintra, nada.
Sorria simplesmente por nos ver tão entusiasmados. Iamos acampar pela primeira vez. O padre Matos ficara de nos arranjar a tenda e os sacos-cama, mas fomos comprar mochilas, e comida e lanternas e canivetes. Desde que o Jaime comprara o arco e as flechas que não tinhamos andado tão histéricos pela casa.
A minha mãe, que saíra mais cedo de propósito para se despedir de nós, ia dando recomendações à medida que se lembrava: “Não apanhem frio. Se fizerem uma fogueira ponham pedras à volta. Pus pensos e algodão no bolso da frente da mochila. Têm pilhas nas lanternas?”. A tia Júlia tentava acalmá-la explicando que íamos estar cercados de antigos escuteiros que acampavam e faziam caminhadas na floresta praticamente desde o berço, mas a minha mãe continuava a ver aquilo como a expedição para procurar a nascente do Nilo.
Não, não demos por nada. Com tanta excitação ninguém deu pelo silêncio, pelos lábios cerrados, pelas rugas na testa, da tia Júlia.
Eu só as vejo agora, agora que penso nisso.
Imagino-as perfeitamente.
Ela sabia o que estava a fazer. Sempre soube.
Nem os pássaros ensinam os seus a voar. Atiram-nos para fora do ninho.
024 - Os Herdeiros (versao revista)
Mas o curioso é que, quanto mais nos afastávamos nas disciplinas de estudo, ele com os desportos e o árabe e eu com a música e o norueguês, mais próximos nos sentíamos. Passávamos fins de tarde e fins de semana juntos, a conversar, a construir o nosso pequeno mundo a partir do que cada um trazia, dizia, pensava das suas diferentes disciplinas. Mas éramos párias. Era difícil fazer outros amigos, na escola ou fosse onde fosse. Não conseguíamos pertencer a sítio nenhum senão juntos. E isso tornou-se cada vez mais… sufocante.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa nas festas de fim de ano lectivo em que tocávamos todos juntos, uns para os outros, e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo sem se interessar em conhecê-los. Até a tia Júlia, dizendo que nos achava “demasiado incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que acabávamos sempre por ter com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre deus que não tinham nada de católicas. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista sobre a função do homem em relação ao mundo tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar, por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa nas festas de fim de ano lectivo em que tocávamos todos juntos, uns para os outros, e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo sem se interessar em conhecê-los. Até a tia Júlia, dizendo que nos achava “demasiado incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que acabávamos sempre por ter com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre deus que não tinham nada de católicas. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista sobre a função do homem em relação ao mundo tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar, por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
023 - Os Herdeiros (versao revista)
Eu sei.
É que o que mais me perturbara naquele dia fora o abraço que eu dera ao Jaime e as mãos do padre Matos. Tudo o resto perdeu importância, nessa noite, na cama. A insónia das noites que se seguiram não era pela bruxa da família, nem pelo sotão dos livros, nem nada que se parecesse. Eu estava obcecado. Sexo, sexo, sexo. Dos 13 aos 16 anos não pensei noutra coisa. Tudo o resto era piloto automático. Talvez julgues que exagero, mas não. Apenas me controlava muito bem. Mas eu era como um vulcão, prestes a explodir ao menor descuido. Foi por isso também que inventei as aulas de norueguês. Eu precisava de mais coisas para me ocupar. Para me distrair.
Eu devorara o livro das runas de um fôlego e claro que, na aula de piano seguinte, massacrei a Runa com tudo o que tinha aprendido. Perguntei-lhe se ela sabia que as runas só tinham traços verticais e diagonais porque isso tornava mais fácil gravá-las na madeira, no sentido dos veios. Se ela sabia que o alfabeto das runas se chamava futhark e que a sua versão mais comum tinha apenas 16 letras.
Claro que ela sabia. Não que fosse uma coisa normal de se saber mas o nome dela fizera-a interessar-se por isso. E depois falou-me de outro tipo de runas, não a escrita, mas as canções da região de Finnskogen, de onde a família dela era originária.
Explicou-me que “Rune” é uma palavra de origem germânica que significa segredo, ou magia, e isso significa que as canções rune são canções mágicas com origem shamanista. Há também runas líricas ou épicas, mas as mais vulgares são as de encantamento. Eram usadas por pessoas capazes de, com emoção e poder, cantar melodias improvisadas com pouco mais de cinco notas que repetiam durante horas para fazer curas ou criar protecções mágicas.
Eu perguntei-lhe mais coisas sobre o nome dela. Porque é que ela se chamava Runa, se a palavra norueguesa era “rune”. E ela explicou-me que era o mesmo que se chamar “a rune”, porque em norueguês o artigo era incluido no final do substantivo.
E porque é que o sobrenome dela se escrevia Eikaas, mas se lia “aicós”. E ela explicou-me que aa era o equivalente à letra å (que se lê “ó”), umas das três vogais extra que o norueguês acrescenta ao tradicional alfabeto latino. E que esse nome significava “colina dos carvalhos”.
Eu estava tão fascinado que lhe perguntei se ela me podia ensinar norueguês. E ela disse que sim.
A tia Júlia e a minha mãe também não disseram que não e, graças a isso, nos meses seguintes atazanei o Jaime com os meus ridículos e básicos conhecimentos de uma língua estranha, que nunca nenhum de nós tinha ouvido antes. O suficiente para ele se roer de inveja (o que era precisamente o objectivo). Até talvez tenha sido um pouco demais porque depois ele começou a pedir à tia Júlia para aprender também norueguês. Mas ela não foi na cantiga. Ela raramente cedia aos nossos caprichos. Em vez disso pô-lo a aprender árabe. Como se fosse a mesma coisa…
É que o que mais me perturbara naquele dia fora o abraço que eu dera ao Jaime e as mãos do padre Matos. Tudo o resto perdeu importância, nessa noite, na cama. A insónia das noites que se seguiram não era pela bruxa da família, nem pelo sotão dos livros, nem nada que se parecesse. Eu estava obcecado. Sexo, sexo, sexo. Dos 13 aos 16 anos não pensei noutra coisa. Tudo o resto era piloto automático. Talvez julgues que exagero, mas não. Apenas me controlava muito bem. Mas eu era como um vulcão, prestes a explodir ao menor descuido. Foi por isso também que inventei as aulas de norueguês. Eu precisava de mais coisas para me ocupar. Para me distrair.
Eu devorara o livro das runas de um fôlego e claro que, na aula de piano seguinte, massacrei a Runa com tudo o que tinha aprendido. Perguntei-lhe se ela sabia que as runas só tinham traços verticais e diagonais porque isso tornava mais fácil gravá-las na madeira, no sentido dos veios. Se ela sabia que o alfabeto das runas se chamava futhark e que a sua versão mais comum tinha apenas 16 letras.
Claro que ela sabia. Não que fosse uma coisa normal de se saber mas o nome dela fizera-a interessar-se por isso. E depois falou-me de outro tipo de runas, não a escrita, mas as canções da região de Finnskogen, de onde a família dela era originária.
Explicou-me que “Rune” é uma palavra de origem germânica que significa segredo, ou magia, e isso significa que as canções rune são canções mágicas com origem shamanista. Há também runas líricas ou épicas, mas as mais vulgares são as de encantamento. Eram usadas por pessoas capazes de, com emoção e poder, cantar melodias improvisadas com pouco mais de cinco notas que repetiam durante horas para fazer curas ou criar protecções mágicas.
Eu perguntei-lhe mais coisas sobre o nome dela. Porque é que ela se chamava Runa, se a palavra norueguesa era “rune”. E ela explicou-me que era o mesmo que se chamar “a rune”, porque em norueguês o artigo era incluido no final do substantivo.
E porque é que o sobrenome dela se escrevia Eikaas, mas se lia “aicós”. E ela explicou-me que aa era o equivalente à letra å (que se lê “ó”), umas das três vogais extra que o norueguês acrescenta ao tradicional alfabeto latino. E que esse nome significava “colina dos carvalhos”.
Eu estava tão fascinado que lhe perguntei se ela me podia ensinar norueguês. E ela disse que sim.
A tia Júlia e a minha mãe também não disseram que não e, graças a isso, nos meses seguintes atazanei o Jaime com os meus ridículos e básicos conhecimentos de uma língua estranha, que nunca nenhum de nós tinha ouvido antes. O suficiente para ele se roer de inveja (o que era precisamente o objectivo). Até talvez tenha sido um pouco demais porque depois ele começou a pedir à tia Júlia para aprender também norueguês. Mas ela não foi na cantiga. Ela raramente cedia aos nossos caprichos. Em vez disso pô-lo a aprender árabe. Como se fosse a mesma coisa…
022 - Os Herdeiros (versao revista)
Foi ele quem correu para mim e me ajudou a levantar. Enquanto me observava, tentando ver se eu tinha partido alguma coisa, observei-o eu a ele, ambos indiferentes à histeria do Jaime e da tia Júlia que saltitavam à nossa volta.
Ele era bastante novo, bastante bonito e com uns olhos ternos mas decididos, que eram a sua maior arma, tal como a voz. Davam-lhe a liderança em qualquer situação. E no entanto, logo nesse momento eu soube que estava algo errado. Que o padre Matos não devia ser padre. Agora sei que o estava a comparar com outra pessoa, mas foi isso que, felizmente, me fez construir desde logo uma reserva em relação a ele.
Ninguém teve a mínima dúvida quando ele anunciou que eu estava bem, que era só o nariz a sangrar e alguns arranhões. Ele fora chefe de escuteiros, disse-nos, e tinha experiência nestas coisas. Os miúdos estavam sempre a aleijar-se.
A tia Júlia estava visívelmente mais aliviada, mas isso não livrou o Jaime de um raspanete. Enquanto ela corria a buscar algodão e água oxigenada para me limpar, ia desfiando a série de castigos que o iam ocupar durante a semana.
O padre Matos aproveitou a saída dela para me dizer que eu já podia tirar a revista pornográfica de dentro das calças. Ele sentira o livro das runas, quando me apalpara para ver se tinha costelas partidas. Eu assim fiz, sem me rir da “piada” dele, mais para aliviar o incómodo do que para lhe explicar que aquele volume não era nada do que ele julgava. O Jaime nem achou estranho que eu estivesse a esconder um livro, mas ambos olharam curiosos para a capa quando o pousei na secretária. E depois olharam para mim, como se a queda me tivesse afectado o juízo. Mas a tia Júlia voltou e o caos dos primeiros socorros acabou por desviar as atenções e nos levar para a sala, onde ela depois serviu chá e biscoitos para repor a calma e a ordem. O padre Matos contou-nos histórias dos escuteiros e, sendo ele tão absolutamente magnético e divertido, até acabou por ser uma tarde bem passada.
Assim se insinuou ele nas nossas vidas, quase sem darmos por isso, conquistando imediatamente a afeição do Jaime e da tia Júlia, só por me ter levantado do chão e nos ter feito rir com anedotas de adolescentes a cagar no mato.
E eu ria-me também, e tentava atribuir aquela sensação de que algo estava mal a todos os acontecimentos e neuroses do meu dia. Muito tempo passou até me ocorrer perguntar o que fora o padre Matos fazer a casa da tia Júlia naquela tarde. Tempo demais. Anos demais.
Como pude ser tão cego?
Ele era bastante novo, bastante bonito e com uns olhos ternos mas decididos, que eram a sua maior arma, tal como a voz. Davam-lhe a liderança em qualquer situação. E no entanto, logo nesse momento eu soube que estava algo errado. Que o padre Matos não devia ser padre. Agora sei que o estava a comparar com outra pessoa, mas foi isso que, felizmente, me fez construir desde logo uma reserva em relação a ele.
Ninguém teve a mínima dúvida quando ele anunciou que eu estava bem, que era só o nariz a sangrar e alguns arranhões. Ele fora chefe de escuteiros, disse-nos, e tinha experiência nestas coisas. Os miúdos estavam sempre a aleijar-se.
A tia Júlia estava visívelmente mais aliviada, mas isso não livrou o Jaime de um raspanete. Enquanto ela corria a buscar algodão e água oxigenada para me limpar, ia desfiando a série de castigos que o iam ocupar durante a semana.
O padre Matos aproveitou a saída dela para me dizer que eu já podia tirar a revista pornográfica de dentro das calças. Ele sentira o livro das runas, quando me apalpara para ver se tinha costelas partidas. Eu assim fiz, sem me rir da “piada” dele, mais para aliviar o incómodo do que para lhe explicar que aquele volume não era nada do que ele julgava. O Jaime nem achou estranho que eu estivesse a esconder um livro, mas ambos olharam curiosos para a capa quando o pousei na secretária. E depois olharam para mim, como se a queda me tivesse afectado o juízo. Mas a tia Júlia voltou e o caos dos primeiros socorros acabou por desviar as atenções e nos levar para a sala, onde ela depois serviu chá e biscoitos para repor a calma e a ordem. O padre Matos contou-nos histórias dos escuteiros e, sendo ele tão absolutamente magnético e divertido, até acabou por ser uma tarde bem passada.
Assim se insinuou ele nas nossas vidas, quase sem darmos por isso, conquistando imediatamente a afeição do Jaime e da tia Júlia, só por me ter levantado do chão e nos ter feito rir com anedotas de adolescentes a cagar no mato.
E eu ria-me também, e tentava atribuir aquela sensação de que algo estava mal a todos os acontecimentos e neuroses do meu dia. Muito tempo passou até me ocorrer perguntar o que fora o padre Matos fazer a casa da tia Júlia naquela tarde. Tempo demais. Anos demais.
Como pude ser tão cego?
021 - Os Herdeiros (versao revista)
Voltemos àquela tarde.
Enquanto descia as escadas, de volta ao apartamento da tia Júlia, escondi o livro debaixo da camisola. Estava decicido a não mostrar fraqueza, orgulho ferido ou o que fosse.
Ela estava na cozinha, a arranjar feijão verde, e quando eu entrei levantou apenas os olhos por um segundo.
“Então? Achaste alguma coisa que te interessasse?”
“Não.”
“É natural. É demasiada tralha.”
“De onde vieram aqueles livros. Não são seus, pois não?”
“Agora são. Mas vieram de muitos sitios diferentes. A maioria foi herdada. A família do Augusto lia muito.”
“Porque não os dá?”
“Porque havia de o fazer? E a quem havia de os dar?”
“Não os vai ler todos, pois não? Podia doá-los a uma biblioteca.”
“Mas eu gosto de cuidar deles. E os livros encontram sempre os seus leitores. Tarde ou cedo eles chamam alguém para os ler. Nem que leve anos... ou séculos... Não te preocupes por eles estarem fechados. Não estão. Os livros têm uma vontade própria e só se deixam ler quando querem, não achas?”
“Não sei.”
“Trancaste a porta e trouxeste a chave?”
“Sim.”
“Então guarda-a. Fica essa para ti. E depois, quando acabares de ler esse livro que tens escondido na camisola, volta a pô-lo lá.”
Felizmente a campainha tocou nesse momento e a tia Júlia foi abrir a porta sem ligar ao facto de eu ter corado até à ponta dos cabelos.
Deixei-me estar na cozinha um bocado, mas quando percebi que tinham chegado visitas e que a tia Júlia as ia receber na sala, não me apeteceu ficar sozinho a sentir-me miserável. O Jaime já tinha voltado da aula de judo e estava no quarto dele, sentado na cama, com os livros da escola espalhados à volta, embrenhado nos trabalhos de matemática.
“Sabes onde estive?”, perguntei-lhe.
“A Vó disse que tinhas ido ao sotão.”
“Sabias do sotão e já lá foste?”
“Claro que já lá fui!”
“Eu não sabia que havia um sotão.”
O Jaime levantou os olhos da matemática.
“É giro não, é? Tem montes de tralha.”
“Porque é que nunca ninguém me disse que havia uma biblioteca no sotão?”
“Julguei que sabias.”
“Não. Não sabia.”
“Isso é porque nunca prestas atenção a nada.”
E dito isto voltou a concentrar-se nos trabalhos de casa. Eu sentei-me na cadeira da secretária, a apurar uma fúria silenciosa. Sentia o livro debaixo do cinto das calças a magoar-me a barriga e só me apetecia pegar nele e atirá-lo à cabeça do Jaime.
Ele não tardou a estranhar o meu silêncio.
“O que foi?”
“Nada!”
Ele ficou a olhar para mim até que disse:
“Anda cá, vou-te mostrar o que aprendi hoje!”. Tirou os livros da cama e pôs-se de pé a saltitar no colchão.
“Não me apetece.”
“Vá lá! Não sejas maricas. Eu não te aleijo.”
Eu acedi porque não estava com cabeça para inventar uma desculpa para fugir áquilo. O Jaime tentava sempre ensinar-me todos os novos golpes de judo que aprendia. Desta vez eu tinha de ficar atrás dele e tentar apertá-lo com uma espécie de abraço. E quando pus os braços à volta dele, e enquanto ele os ajeitava para que estivessem no sítio certo, o calor do corpo e o cheiro a lavado do cabelo dele encheram-me de uma tristeza súbita. Foi esse o problema. Eu devia estar a simular um ataque, mas estava mais a derreter-me de encontro ao corpo dele. Antes que pudesse sequer aperceber-me devidamente do que se passava, ele deu-me um puxão e eu voei por cima do ombro dele com tal velocidade que, em vez de aterrar no colchão, como era suposto, fui bater na secretária e depois nos tacos do chão. Ficou tudo negro por uns segundos e embora não sentisse nenhuma dor nesse momento, sabia que assim que me levantasse e o susto passasse me ia sentir todo partido, por isso deixei-me ficar deitado, na posição em que tinha caído e, como me sentia algo miserável, resolvi juntar uns gemidos e umas lágrimas ao sangue que me escorria do nariz.
O Jaime, alarmado, ajoelhou-se no colchão e debruçou-se repetindo incessantemente, “Estás bem?! Estás bem?!” E passos no corredor anunciaram a chegada da tia Júlia que perguntava “O que é que se passa?! O que é que vocês fizeram agora?”. Com ela vinha também um homem, a visita a quem ela fora abrir a porta. Deitado no chão, eu só lhe via os pés, os sapatos negros brilhantes, as calças pretas. Foi para o ver melhor que me resolvi levantar, em vez de continuar com a choradeira e a fita que tinha começado a fazer. Ele estava todo vestido de negro, exceptuando o revelador colarinho branco e o crucifixo dourado que lhe pendia de um cordão ao peito. E embora eu nunca tivesse conhecido nenhum padre, havia algo de perturbadoramente familiar na sua figura. Algo que, como te disse, levou todos estes anos até me voltar à memória.
Enquanto descia as escadas, de volta ao apartamento da tia Júlia, escondi o livro debaixo da camisola. Estava decicido a não mostrar fraqueza, orgulho ferido ou o que fosse.
Ela estava na cozinha, a arranjar feijão verde, e quando eu entrei levantou apenas os olhos por um segundo.
“Então? Achaste alguma coisa que te interessasse?”
“Não.”
“É natural. É demasiada tralha.”
“De onde vieram aqueles livros. Não são seus, pois não?”
“Agora são. Mas vieram de muitos sitios diferentes. A maioria foi herdada. A família do Augusto lia muito.”
“Porque não os dá?”
“Porque havia de o fazer? E a quem havia de os dar?”
“Não os vai ler todos, pois não? Podia doá-los a uma biblioteca.”
“Mas eu gosto de cuidar deles. E os livros encontram sempre os seus leitores. Tarde ou cedo eles chamam alguém para os ler. Nem que leve anos... ou séculos... Não te preocupes por eles estarem fechados. Não estão. Os livros têm uma vontade própria e só se deixam ler quando querem, não achas?”
“Não sei.”
“Trancaste a porta e trouxeste a chave?”
“Sim.”
“Então guarda-a. Fica essa para ti. E depois, quando acabares de ler esse livro que tens escondido na camisola, volta a pô-lo lá.”
Felizmente a campainha tocou nesse momento e a tia Júlia foi abrir a porta sem ligar ao facto de eu ter corado até à ponta dos cabelos.
Deixei-me estar na cozinha um bocado, mas quando percebi que tinham chegado visitas e que a tia Júlia as ia receber na sala, não me apeteceu ficar sozinho a sentir-me miserável. O Jaime já tinha voltado da aula de judo e estava no quarto dele, sentado na cama, com os livros da escola espalhados à volta, embrenhado nos trabalhos de matemática.
“Sabes onde estive?”, perguntei-lhe.
“A Vó disse que tinhas ido ao sotão.”
“Sabias do sotão e já lá foste?”
“Claro que já lá fui!”
“Eu não sabia que havia um sotão.”
O Jaime levantou os olhos da matemática.
“É giro não, é? Tem montes de tralha.”
“Porque é que nunca ninguém me disse que havia uma biblioteca no sotão?”
“Julguei que sabias.”
“Não. Não sabia.”
“Isso é porque nunca prestas atenção a nada.”
E dito isto voltou a concentrar-se nos trabalhos de casa. Eu sentei-me na cadeira da secretária, a apurar uma fúria silenciosa. Sentia o livro debaixo do cinto das calças a magoar-me a barriga e só me apetecia pegar nele e atirá-lo à cabeça do Jaime.
Ele não tardou a estranhar o meu silêncio.
“O que foi?”
“Nada!”
Ele ficou a olhar para mim até que disse:
“Anda cá, vou-te mostrar o que aprendi hoje!”. Tirou os livros da cama e pôs-se de pé a saltitar no colchão.
“Não me apetece.”
“Vá lá! Não sejas maricas. Eu não te aleijo.”
Eu acedi porque não estava com cabeça para inventar uma desculpa para fugir áquilo. O Jaime tentava sempre ensinar-me todos os novos golpes de judo que aprendia. Desta vez eu tinha de ficar atrás dele e tentar apertá-lo com uma espécie de abraço. E quando pus os braços à volta dele, e enquanto ele os ajeitava para que estivessem no sítio certo, o calor do corpo e o cheiro a lavado do cabelo dele encheram-me de uma tristeza súbita. Foi esse o problema. Eu devia estar a simular um ataque, mas estava mais a derreter-me de encontro ao corpo dele. Antes que pudesse sequer aperceber-me devidamente do que se passava, ele deu-me um puxão e eu voei por cima do ombro dele com tal velocidade que, em vez de aterrar no colchão, como era suposto, fui bater na secretária e depois nos tacos do chão. Ficou tudo negro por uns segundos e embora não sentisse nenhuma dor nesse momento, sabia que assim que me levantasse e o susto passasse me ia sentir todo partido, por isso deixei-me ficar deitado, na posição em que tinha caído e, como me sentia algo miserável, resolvi juntar uns gemidos e umas lágrimas ao sangue que me escorria do nariz.
O Jaime, alarmado, ajoelhou-se no colchão e debruçou-se repetindo incessantemente, “Estás bem?! Estás bem?!” E passos no corredor anunciaram a chegada da tia Júlia que perguntava “O que é que se passa?! O que é que vocês fizeram agora?”. Com ela vinha também um homem, a visita a quem ela fora abrir a porta. Deitado no chão, eu só lhe via os pés, os sapatos negros brilhantes, as calças pretas. Foi para o ver melhor que me resolvi levantar, em vez de continuar com a choradeira e a fita que tinha começado a fazer. Ele estava todo vestido de negro, exceptuando o revelador colarinho branco e o crucifixo dourado que lhe pendia de um cordão ao peito. E embora eu nunca tivesse conhecido nenhum padre, havia algo de perturbadoramente familiar na sua figura. Algo que, como te disse, levou todos estes anos até me voltar à memória.
020 - Os Herdeiros (versao revista)
- várias frases riscadas até se tornarem ilegíveis -
Desculpa, não ligues a esta riscalhada toda.
Aconteceu uma coisa estranha agora mesmo. Enquanto me tentava acalmar voltei a tentar ligar para o telemóvel do Jaime, como tinha feito todos os dias, várias vezes ao dia, a semana passada. Mas depois daquela noite, não sei porquê fiquei convencido que ele não o tinha, que talvez o tivesse perdido ou deixado nalgum sítio. E mesmo enquanto vinha para aqui, e enquanto corria a cidade e ligava para tudo o que é hotel em Salzburgo não me ocorreu voltar a ligar-lhe.
E não sei porquê, fiz isso agora. Ou antes, sei muito bem: desespero irracional.
Mas, em vez do sinal de desligado que estava à espera, o telefone tocou. Ninguém atendeu, mas só ouvir-lhe a voz no gravador de mensagens encheu-me de alegria. E fiquei tão surpreendido que não soube o que dizer e não deixei mensagem. Por isso voltei a ligar. Mas o telemóvel estava de novo desligado.
Não sei como interpretar isto. Ou ele tem o telefone e não quer mesmo falar comigo ou então outra pessoa estava a mexer nele. E porque desligaria alguém o telefone logo depois de eu tentar telefonar? Se era ele quem o tinha na mão então deve ter visto no écran que era eu quem estava a ligar. E se não era ele… oh merda!
Roí as unhas e comi o chocolate do mini bar (o preço é uma roubalheira, mas que se lixe). Já estou mais calmo.
Desculpa, não ligues a esta riscalhada toda.
Aconteceu uma coisa estranha agora mesmo. Enquanto me tentava acalmar voltei a tentar ligar para o telemóvel do Jaime, como tinha feito todos os dias, várias vezes ao dia, a semana passada. Mas depois daquela noite, não sei porquê fiquei convencido que ele não o tinha, que talvez o tivesse perdido ou deixado nalgum sítio. E mesmo enquanto vinha para aqui, e enquanto corria a cidade e ligava para tudo o que é hotel em Salzburgo não me ocorreu voltar a ligar-lhe.
E não sei porquê, fiz isso agora. Ou antes, sei muito bem: desespero irracional.
Mas, em vez do sinal de desligado que estava à espera, o telefone tocou. Ninguém atendeu, mas só ouvir-lhe a voz no gravador de mensagens encheu-me de alegria. E fiquei tão surpreendido que não soube o que dizer e não deixei mensagem. Por isso voltei a ligar. Mas o telemóvel estava de novo desligado.
Não sei como interpretar isto. Ou ele tem o telefone e não quer mesmo falar comigo ou então outra pessoa estava a mexer nele. E porque desligaria alguém o telefone logo depois de eu tentar telefonar? Se era ele quem o tinha na mão então deve ter visto no écran que era eu quem estava a ligar. E se não era ele… oh merda!
Roí as unhas e comi o chocolate do mini bar (o preço é uma roubalheira, mas que se lixe). Já estou mais calmo.
019 - Os Herdeiros (versao revista)
Começou a nevar. Parei de escrever porque estava a ficar com dores no pulso. Bem me arrependo de não ter trazido o meu iBook. Não me lembro de alguma vez ter escrito tanto à mão. Mas preciso disto. No momento em que fui para a janela encostar a testa ao vidro para me refrescar (estes austríacos são uns fanáticos do aquecimento central) o meu cérebro voltou ao caos dos últimos dias. É demasiado. Escrever ajuda-me a focar e sinto que as coisas que te devo dizer são coisas que eu próprio preciso saber, mesmo que sejam memórias minhas. A nossa condição de humanos é tão imperfeita… Fazer sentido das coisas não é o mesmo que recordá-las e muito menos vivê-las na pele...
Depois também estive a ver televisão, mas nem o canal porno (grátis!) me conseguiu distrair. É esta certeza de que o Jaime está em perigo que me deixa completamente desfeito. Como ele estava diferente em tua casa! Como pode uma semana mudar tanto assim uma pessoa?
Que pergunta…eu sei. A mesma semana fez com que eu agora nem me reconheça no espelho. Esta barba, esta cicatriz.
Ele está em perigo e é por minha causa. Eu sei. Sinto-o. Porque outro motivo me esconderia ele tanta coisa? Se a seta com que me fez esta ferida me tivesse atingido no coração eu não duvidaria por um segundo de que foi lançada por amor. Felizmente ele tem boa pontaria... e esta ferida não é nada. O que me dói é que ele julgue que me pode proteger mantendo-me longe e ignorante do que se passa. Que pateta. Que idiota!
E como eu estou preocupado, Joana. É que ele é um bocado de mim, e não adianta que seja ele a sofrer em vez de mim. A dor é sentida pelos dois (tu viste como ele chorou por me ter ferido). E ele É meu irmão. MEU irmão!
Depois também estive a ver televisão, mas nem o canal porno (grátis!) me conseguiu distrair. É esta certeza de que o Jaime está em perigo que me deixa completamente desfeito. Como ele estava diferente em tua casa! Como pode uma semana mudar tanto assim uma pessoa?
Que pergunta…eu sei. A mesma semana fez com que eu agora nem me reconheça no espelho. Esta barba, esta cicatriz.
Ele está em perigo e é por minha causa. Eu sei. Sinto-o. Porque outro motivo me esconderia ele tanta coisa? Se a seta com que me fez esta ferida me tivesse atingido no coração eu não duvidaria por um segundo de que foi lançada por amor. Felizmente ele tem boa pontaria... e esta ferida não é nada. O que me dói é que ele julgue que me pode proteger mantendo-me longe e ignorante do que se passa. Que pateta. Que idiota!
E como eu estou preocupado, Joana. É que ele é um bocado de mim, e não adianta que seja ele a sofrer em vez de mim. A dor é sentida pelos dois (tu viste como ele chorou por me ter ferido). E ele É meu irmão. MEU irmão!
018 - Os Herdeiros (versao revista)
Seguiu-se uma inédita mistura de impotência com fascínio. É que havia de tudo: livros novos misturados com velhos, ficção com tratados científicos, revistas entremeadas com enciclopédias encadernadas. Mas o verdadeiro espanto era a diversidade de línguas. Era uma autêntica babilónia. Porque não havia apenas livros em confortável inglês, françês, espanhol, italiano ou alemão… havia também livros nos alfabetos e línguas mais delirantes, começando por grego ou russo e indo do árabe para o geórgio, tailandês, indiano… e por aí fora até chinês e japonês. Não que eu conseguisse exactamente destinguí-los, ou soubesse sequer dar-lhes nomes como cirílico, cóptico ou aramaico, mas a minha cultura visual era suficiente para destinguir coisas que pareciam “grego” de outras que pareciam “árabe” e outras que pareciam “chinês”.
Fiquei por ali ainda algum tempo, hipnotizado por imagens, alfabetos e pela esmagadora constatação de que o mundo e a humanidade eram uma coisa muito grande. Senti-me minúsculo. Eu pouco mais era que um rato naquele sotão.
E depois senti uma certa raiva para com a tia Júlia. Era tão típico dela ter-me mandado para ali sózinho, sem a mínima explicação, sem o menor aviso. O que era isto? Uma lição de humildade para o rapazinho que apanhava porrada na escola porque lia mais do que os outros e tirava “excelentes” nos testes de português? Que gostava de assustar os professores citando Fernando Pessoa e fazendo metáforas com referências a Milton, Dante, Camões, Virgílio e Homero?
E por outro lado, eu tinha a certeza de que ela estaria lá em baixo, a contar todos os minutos que eu passasse ali e não deixaria de olhar, com aquele seu falso desinteresse de coruja, para qualquer livro que eu decidisse levar para ler.
Levantei-me numa fúria e decidi que dali não levaria nada e que iria fingir que nada daquilo me interessava, só para a magoar.
Mas sabes, (eu sei que sabes), há um magnetismo tão grande nos livros… Se eu não percebia como é que na casa da tia Júlia os livros que se queria e precisava apareciam logo ali ao nosso lado, mais estranho ainda é o fenómeno que já vivi em incontáveis livrarias e bibliotecas. De, de repente, de entre toda uma enormidade de volumes, aparecer um que temos de agarrar, que sabemos, com uma certeza que só se equipara à certeza do amor, ter lá dentro tudo o que precisamos para dar descanso à mente e ao espírito.
Eu já tinha um pé no primeiro degrau da escada quando vi um livro que me fez parar. E depois de pegar nele, virá-lo, desfolhá-lo, cheirá-lo, amaldiçoei-me a mim próprio por não ser capaz de manter uma decisão simples. Tive de o levar.
Era um livro até bastante pequeno, bastante recente, bastante “barato”. Uma edição brasileira de um original inglês. O título era: “Decifrando as runas vikings”.
Fiquei por ali ainda algum tempo, hipnotizado por imagens, alfabetos e pela esmagadora constatação de que o mundo e a humanidade eram uma coisa muito grande. Senti-me minúsculo. Eu pouco mais era que um rato naquele sotão.
E depois senti uma certa raiva para com a tia Júlia. Era tão típico dela ter-me mandado para ali sózinho, sem a mínima explicação, sem o menor aviso. O que era isto? Uma lição de humildade para o rapazinho que apanhava porrada na escola porque lia mais do que os outros e tirava “excelentes” nos testes de português? Que gostava de assustar os professores citando Fernando Pessoa e fazendo metáforas com referências a Milton, Dante, Camões, Virgílio e Homero?
E por outro lado, eu tinha a certeza de que ela estaria lá em baixo, a contar todos os minutos que eu passasse ali e não deixaria de olhar, com aquele seu falso desinteresse de coruja, para qualquer livro que eu decidisse levar para ler.
Levantei-me numa fúria e decidi que dali não levaria nada e que iria fingir que nada daquilo me interessava, só para a magoar.
Mas sabes, (eu sei que sabes), há um magnetismo tão grande nos livros… Se eu não percebia como é que na casa da tia Júlia os livros que se queria e precisava apareciam logo ali ao nosso lado, mais estranho ainda é o fenómeno que já vivi em incontáveis livrarias e bibliotecas. De, de repente, de entre toda uma enormidade de volumes, aparecer um que temos de agarrar, que sabemos, com uma certeza que só se equipara à certeza do amor, ter lá dentro tudo o que precisamos para dar descanso à mente e ao espírito.
Eu já tinha um pé no primeiro degrau da escada quando vi um livro que me fez parar. E depois de pegar nele, virá-lo, desfolhá-lo, cheirá-lo, amaldiçoei-me a mim próprio por não ser capaz de manter uma decisão simples. Tive de o levar.
Era um livro até bastante pequeno, bastante recente, bastante “barato”. Uma edição brasileira de um original inglês. O título era: “Decifrando as runas vikings”.
017 - Os Herdeiros (versao revista)
Eu sempre julgara que o prédio terminava no quarto andar, onde vivia o Doutor Moreira, um senhor advogado que raramente víamos e que só parecia existir no Natal, quando ia lá a casa agradecer o bolo rei que a tia Júlia lhe mandava por mim e pelo Jaime, o seu comité natalício que distribuia bolos pela vizinhança. É que, embora ela se divertisse a desconstruir o nosso Natal com as suas histórias de cometas, rituais pagãos saturninos, ou o eterno favorito “Pai Natal ou São Nicolau - o discípulo de Frankenstein”, ela fazia sempre várias fornadas de bolo-rei para oferecer. E não só para os vizinhos (e isso era outra coisa estranha, como ela conhecia tanta gente mesmo que raramente saísse de casa).
Mas lá estava, uma porta oposta à do apartamento do Doutor Moreira, e, com a chave que a minha mão suada segurava, a fechadura abriu-se facilmente. Aí havia umas escadas, pintadas com tinta esmalte vermelha, vi eu, assim que acendi o interruptor ao lado da ombreira. E, lá em cima, uma única divisão a todo o tamanho do prédio, completamente atulhada de livros.
Não vale a pena começares a imaginar um sotão escuro e poeirento, como costumam ser nos livros de aventura e mistério. A tia Júlia gastara bastante dinheiro a pôr aquele sitio em condições, fiquei a saber, quando mais tarde lhe expressei a minha admiração. Depois de comprar aos vizinhos as partes que lhes cabiam no tempo em que fora uma arrecadação do condomínio, húmida e poeirenta, a tia Júlia reconstruira praticamente o sotão todo e instalara electricidade, um ar condicionado e usara materiais e vernizes a que os insectos não acham grande piada. E, como o pé direito era relativamente alto na maior parte do sotão, apesar da quantidade absurda de livros, tinha-se a sensação de estar num sítio espaçoso e arrumado. Não era para admirar. Fiquei também a saber depois que, semanalmente, a dona Otília passava ali uma manhã com o aspirador.
A minha primeira reacção, plantado ao cimo das escadas, foi de espanto. E depois senti-me como se tivesse ganho a lotaria. Aquilo eram livros para ler até ao fim da vida! Avancei por aqueles corredores de papel em êxtase salivante e reverência mística. Mas, em pouco mais de meia-hora, depois de explorar estantes, caixotes e pilhas de livros, a minha excitação inicial esmorecera até se tornar num profundo e quase magoado desapontamento. É que apenas uma pequeníssima parte daqueles livros era em português.
Mas lá estava, uma porta oposta à do apartamento do Doutor Moreira, e, com a chave que a minha mão suada segurava, a fechadura abriu-se facilmente. Aí havia umas escadas, pintadas com tinta esmalte vermelha, vi eu, assim que acendi o interruptor ao lado da ombreira. E, lá em cima, uma única divisão a todo o tamanho do prédio, completamente atulhada de livros.
Não vale a pena começares a imaginar um sotão escuro e poeirento, como costumam ser nos livros de aventura e mistério. A tia Júlia gastara bastante dinheiro a pôr aquele sitio em condições, fiquei a saber, quando mais tarde lhe expressei a minha admiração. Depois de comprar aos vizinhos as partes que lhes cabiam no tempo em que fora uma arrecadação do condomínio, húmida e poeirenta, a tia Júlia reconstruira praticamente o sotão todo e instalara electricidade, um ar condicionado e usara materiais e vernizes a que os insectos não acham grande piada. E, como o pé direito era relativamente alto na maior parte do sotão, apesar da quantidade absurda de livros, tinha-se a sensação de estar num sítio espaçoso e arrumado. Não era para admirar. Fiquei também a saber depois que, semanalmente, a dona Otília passava ali uma manhã com o aspirador.
A minha primeira reacção, plantado ao cimo das escadas, foi de espanto. E depois senti-me como se tivesse ganho a lotaria. Aquilo eram livros para ler até ao fim da vida! Avancei por aqueles corredores de papel em êxtase salivante e reverência mística. Mas, em pouco mais de meia-hora, depois de explorar estantes, caixotes e pilhas de livros, a minha excitação inicial esmorecera até se tornar num profundo e quase magoado desapontamento. É que apenas uma pequeníssima parte daqueles livros era em português.
016 - Os Herdeiros (versao revista)
No dia seguinte, antes de começar a minha “caça à bruxa”, resolvi investigar a questão dos livros, que era uma coisa que me intrigava muito mais. Chegado da escola, sentei-me na mesa da sala e, com a tia Júlia na cozinha e o Jaime ainda nas aulas de Judo, em vez de fazer os trabalhos de casa, resolvi contar os livros.
A sala estava, o que se podia chamar “arrumada”. A dona Otília estivera ali de manhã e, por onde ela passava, nada ficava torto, desalinhado ou poeirento. Num primeiro olhar, ninguém diria que esta divisão tinha livros. Mal nos apercebiamos de alguns sobre a mesa, outros sobre o piano, mais uns junto ao sofá, outros no parapeito da janela, outros… Comecei a contar. 184. Cento e oitenta e quatro livros naquela sala. Eu nem acreditava. Estavam por todo o lado. Mal comecei a reparar neles a sala transformou-se num ninho de víboras. Havia livros em cima, por baixo, ao lado e atrás do sofá. Nas mesas, nas cadeiras, dentro dos móveis, e até, espanto dos espantos, alguns arrumados nas prateleiras.
Transferi a obsessão para o resto da casa. Cozinha, casas de banho, corredor, quartos, armários e despensa. 1525. Mil quinhentos e vinte e cinco.
É claro que o meu súbito frenesi não passou despercebido à tia Júlia. Enquanto eu contava os livros na despensa (onde fui descobrir a “Mensagem” de Fernando Pessoa entre as latas de grão e o acúcar) ela veio meter o nariz para me perguntar, “Estás à procura de alguma coisa?”
“Não, mas adivinhe o que achei entre as latas do grão”
“A Mensagem, de Fernando Pessoa”.
“Como é que sabe?!”
“Fui eu que o pus aí. O que estás a fazer?”
“Estou a contar os livros que tem em casa”.
“Oh, mas aqui em casa não há quase livros nenhuns! Eu detesto estar sempre a tropeçar neles e ponho tudo no sotão.”
“Há um sotão neste prédio?”
“Toma!” Tirou do bolso uma chave e deu-ma. “Vai lá ver o sotão e deixa-me a despensa em paz.”
A sala estava, o que se podia chamar “arrumada”. A dona Otília estivera ali de manhã e, por onde ela passava, nada ficava torto, desalinhado ou poeirento. Num primeiro olhar, ninguém diria que esta divisão tinha livros. Mal nos apercebiamos de alguns sobre a mesa, outros sobre o piano, mais uns junto ao sofá, outros no parapeito da janela, outros… Comecei a contar. 184. Cento e oitenta e quatro livros naquela sala. Eu nem acreditava. Estavam por todo o lado. Mal comecei a reparar neles a sala transformou-se num ninho de víboras. Havia livros em cima, por baixo, ao lado e atrás do sofá. Nas mesas, nas cadeiras, dentro dos móveis, e até, espanto dos espantos, alguns arrumados nas prateleiras.
Transferi a obsessão para o resto da casa. Cozinha, casas de banho, corredor, quartos, armários e despensa. 1525. Mil quinhentos e vinte e cinco.
É claro que o meu súbito frenesi não passou despercebido à tia Júlia. Enquanto eu contava os livros na despensa (onde fui descobrir a “Mensagem” de Fernando Pessoa entre as latas de grão e o acúcar) ela veio meter o nariz para me perguntar, “Estás à procura de alguma coisa?”
“Não, mas adivinhe o que achei entre as latas do grão”
“A Mensagem, de Fernando Pessoa”.
“Como é que sabe?!”
“Fui eu que o pus aí. O que estás a fazer?”
“Estou a contar os livros que tem em casa”.
“Oh, mas aqui em casa não há quase livros nenhuns! Eu detesto estar sempre a tropeçar neles e ponho tudo no sotão.”
“Há um sotão neste prédio?”
“Toma!” Tirou do bolso uma chave e deu-ma. “Vai lá ver o sotão e deixa-me a despensa em paz.”
015 - Os Herdeiros (versao revista)
Comecei por perguntar à minha mãe, “o que faz a tia Júlia?”
“Que pergunta é essa? Ela não faz nada, quer dizer, trata da casa e de vocês e já é mais que muito.”
“Mas ela não faz mais nada? Nunca teve uma profissão?”
“Que eu saiba não.”
“Então e o dinheiro? Ela tem mais dinheiro do que nós.”
“António, não te quero a falar assim!” E pôs-se a olhar para mim de lado, a colher da sopa ainda na mão que lhe amparava o queixo. “A tia Júlia tem uma pensão que tira do que herdou da família e do marido”.
“Como é que sabes?”
“Como, como é que sei? Sei e pronto! Cala-te lá com isso e come a sopa. É muito feio falar de dinheiro à mesa.”
Nessa noite, já na cama, pus-me a pensar na vida da tia Júlia. Ela estava sempre em casa, ou pelo menos era essa a impressão que eu tinha, mas eu só passava lá as tardes e às vezes os serões. Mesmo o Jaime estava fora todas as manhãs, algumas tardes e ao fim de semana nós saíamos muitas vezes com a minha mãe. Também nas férias, fossemos nós nalguma excursão ou passeio, a tia Júlia recusava-se sempre a acompanhar-nos.
O que fazia ela?
Duas vezes por semana ia lá a Dona Otília fazer as limpezas e engomar a roupa (e continua a ir), por isso, de afazeres domésticos, a tia Júlia pouco mais fazia que cozinhar e, de vez em quando, coser as meias do Jaime. Era frequente eu encontrá-la a ler, sentada num cadeirão do escritório ou da sala mas, embora ela parecesse sempre à vontade para falar de qualquer assunto, da cultura helénica à teoria quântica, passando pelas filosofias de Nietzsche, Kant e Santo Agostinho, a julgar pelo que costumava ter nas mãos, ela pouco mais lia que policiais da Agatha Christie.
E ao pensar nisso nisso, ocorreu-me outra questão ainda mais estranha. De onde vinham os livros que apareciam lá por casa? É que não havia nenhuma grande estante ou biblioteca, nenhum tesouro de Próspero, e no entanto, naquela casa, tinham-me passado pelas mãos todas as comédias e tragédias de Shakespeare, todas as aventuras algumas vez escritas por Julio Verne, Tolkien, Enid Blyton e Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Já para não falar nos dicionários, enciclopédias e todo o género de tomos informativos ou fantásticos que apareciam de algum lado sempre que se precisava deles. O total oposto da minha casa, onde a minha mãe ordenava os livros, com um militarismo alemão, na estante que cobria uma parede inteira da sala e de onde eles raramente saíam.
Em casa da tia Júlia havia sempre livros. Mais livros até que na biblioteca da escola, que eu achava sempre diminuta, e, no entanto, eu não me conseguia recordar de alguma vez os ter ido procurar a uma prateleira. Eles estavam em todo o lado mas não eram postos em sítio nenhum, simplesmente flutuavam por ali. E quando eu pensava na enorme quantidade deles que já tinha lido, mesmo com apenas 13 anos, não conseguia perceber onde eles se iam enfiar antes e depois de serem lidos.
Nessa noite não dormi.
“Que pergunta é essa? Ela não faz nada, quer dizer, trata da casa e de vocês e já é mais que muito.”
“Mas ela não faz mais nada? Nunca teve uma profissão?”
“Que eu saiba não.”
“Então e o dinheiro? Ela tem mais dinheiro do que nós.”
“António, não te quero a falar assim!” E pôs-se a olhar para mim de lado, a colher da sopa ainda na mão que lhe amparava o queixo. “A tia Júlia tem uma pensão que tira do que herdou da família e do marido”.
“Como é que sabes?”
“Como, como é que sei? Sei e pronto! Cala-te lá com isso e come a sopa. É muito feio falar de dinheiro à mesa.”
Nessa noite, já na cama, pus-me a pensar na vida da tia Júlia. Ela estava sempre em casa, ou pelo menos era essa a impressão que eu tinha, mas eu só passava lá as tardes e às vezes os serões. Mesmo o Jaime estava fora todas as manhãs, algumas tardes e ao fim de semana nós saíamos muitas vezes com a minha mãe. Também nas férias, fossemos nós nalguma excursão ou passeio, a tia Júlia recusava-se sempre a acompanhar-nos.
O que fazia ela?
Duas vezes por semana ia lá a Dona Otília fazer as limpezas e engomar a roupa (e continua a ir), por isso, de afazeres domésticos, a tia Júlia pouco mais fazia que cozinhar e, de vez em quando, coser as meias do Jaime. Era frequente eu encontrá-la a ler, sentada num cadeirão do escritório ou da sala mas, embora ela parecesse sempre à vontade para falar de qualquer assunto, da cultura helénica à teoria quântica, passando pelas filosofias de Nietzsche, Kant e Santo Agostinho, a julgar pelo que costumava ter nas mãos, ela pouco mais lia que policiais da Agatha Christie.
E ao pensar nisso nisso, ocorreu-me outra questão ainda mais estranha. De onde vinham os livros que apareciam lá por casa? É que não havia nenhuma grande estante ou biblioteca, nenhum tesouro de Próspero, e no entanto, naquela casa, tinham-me passado pelas mãos todas as comédias e tragédias de Shakespeare, todas as aventuras algumas vez escritas por Julio Verne, Tolkien, Enid Blyton e Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Já para não falar nos dicionários, enciclopédias e todo o género de tomos informativos ou fantásticos que apareciam de algum lado sempre que se precisava deles. O total oposto da minha casa, onde a minha mãe ordenava os livros, com um militarismo alemão, na estante que cobria uma parede inteira da sala e de onde eles raramente saíam.
Em casa da tia Júlia havia sempre livros. Mais livros até que na biblioteca da escola, que eu achava sempre diminuta, e, no entanto, eu não me conseguia recordar de alguma vez os ter ido procurar a uma prateleira. Eles estavam em todo o lado mas não eram postos em sítio nenhum, simplesmente flutuavam por ali. E quando eu pensava na enorme quantidade deles que já tinha lido, mesmo com apenas 13 anos, não conseguia perceber onde eles se iam enfiar antes e depois de serem lidos.
Nessa noite não dormi.
014 - Os Herdeiros (versao revista)
Sabes, eu sempre senti um ciúme secreto do Jaime. Por ser ele quem vivia com a tia Júlia. E é estranho estar a dizer, escrever isto pela primeira vez. Ainda mais nestas circunstâncias tão…oh, tão irónicas!
Não duvides, por favor, do meu amor pela minha mãe. Mas há sempre um apelo especial naquilo que não se possui. Eu invejei muito tudo o que o Jaime tinha. Os brinquedos - mais que os meus e mais caros do que os meus. A escola privada - com uniformes, bons professores e festas de Natal com teatro e prendas. As aulas de tiro com arco, judo e natação. Mas acima de tudo, o facto de, ao fim do dia, ele continuar na casa da tia Júlia, de dormir lá, de ser, de facto, aquela a sua casa. De a tia Júlia ser mais dele do que minha.
Mas, é claro, isso eram tolices infantis, e eu sei o esforço que a tia Júlia sempre fez para nos tratar como iguais, mesmo com todas as diferenças de posse. E tão difícil que isso deve ter sido para ela, sei eu agora. Bastou-me olhar para ti, Joana…
Além disso, o Jaime sempre foi o mais generoso dos irmãos. O que tinha ele que eu não tivesse? Ele sempre se fez uma parte de mim. E vice versa.
Por isso eu tinha a certeza de que, se eu não sabia que as vizinhas chamavam bruxa à tia Júlia, menos o sabia ele. E foi por isso que resolvi descobrir o que se escondia de verdade por trás daquela história. Se algo houvesse naquilo que pudesse magoar o Jaime, devia primeiro magoar-me a mim.
Não duvides, por favor, do meu amor pela minha mãe. Mas há sempre um apelo especial naquilo que não se possui. Eu invejei muito tudo o que o Jaime tinha. Os brinquedos - mais que os meus e mais caros do que os meus. A escola privada - com uniformes, bons professores e festas de Natal com teatro e prendas. As aulas de tiro com arco, judo e natação. Mas acima de tudo, o facto de, ao fim do dia, ele continuar na casa da tia Júlia, de dormir lá, de ser, de facto, aquela a sua casa. De a tia Júlia ser mais dele do que minha.
Mas, é claro, isso eram tolices infantis, e eu sei o esforço que a tia Júlia sempre fez para nos tratar como iguais, mesmo com todas as diferenças de posse. E tão difícil que isso deve ter sido para ela, sei eu agora. Bastou-me olhar para ti, Joana…
Além disso, o Jaime sempre foi o mais generoso dos irmãos. O que tinha ele que eu não tivesse? Ele sempre se fez uma parte de mim. E vice versa.
Por isso eu tinha a certeza de que, se eu não sabia que as vizinhas chamavam bruxa à tia Júlia, menos o sabia ele. E foi por isso que resolvi descobrir o que se escondia de verdade por trás daquela história. Se algo houvesse naquilo que pudesse magoar o Jaime, devia primeiro magoar-me a mim.
013 - Os Herdeiros (versao revista)
Demorei mais tempo do que o costume a regressar a casa, pensando no que de facto aquilo queria dizer. Nós éramos todos tão pouco religiosos e supersticiosos. Principalmente a tia Júlia que, todos os natais, insistia em nos contar a “verdadeira” história de São Nicolau, pondo especial ênfase na parte das criancinhas esquartejadas dentro da salgadeira (que, admito, era a nossa parte favorita). Desmistificar, era a palavra de ordem para tudo o que a tia Júlia dizia e fazia. Porquê lhe davam então as vizinhas o título de bruxa?
Aquilo perturbava-me, mas não devido a essa palavra … a quê, então?
Ao fundo da rua, a Sé de Lisboa estava já iluminada e eu lembro-me de ter sido essa uma das vezes em que mais fortemente uma vertigem histórica se apossou de mim. É raro pensar com tanta consciência em tudo o que já se passou no sítio onde vivemos. É uma colina de lisboa que já viu fenícios, gregos, romanos, visigodos, mouros, cristãos. As nossas ruas ficam entre a Praça do Rossio, onde já se queimaram bruxas, judeus e sodomitas, e a Prisão do Limoeiro onde, mais recentemente, se torturaram, não com menor requinte, intelectuais e liberais diversos. Ou seja, tudo pessoas com quem a nossa família reúne afinidades. E no entanto, como a minha mãe costumava dizer, “Que tempos abençoados estes em que vivemos, apesar de tudo". E depois vinha abraçar-me e acrescentava: “Sabes a sorte que temos? Eu, que nasci depois da guerra, e tu, que nasceste depois da ditadura? És uma criança abençoada, António. Aproveita a sorte de teres nascido agora. Olha só os livros todos que tens à tua disposição, tudo o que há no mundo na tua mão, sem censura e sem limites”. (Ela ainda repete isto, de vez em quando.)
Eu, naquele momento, saco cheio de batatas e cebolas, a caminho de casa, senti-me de facto previligiado, porque a minha mente, por segundos, quase conseguia ter a noção da enormidade do que se passara ali, naquela rua, naquela colina, naquela cidade, para que eu pudesse ir assim, tão despreocupado para casa, sem medo de bruxas. Uma vertigem histórica em que desfilava uma crescente erosão de preconceitos e superstições que permitiam que eu, nesse preciso momento, soubesse que os meus valores me permitiriam olhar lucidamente para este perturbante facto, de ter uma “bruxa” na família. E essa lucidez, que eu sempre tenho prezado tanto, devia-se, deve-se, precisamente, à tia Júlia.
Percebi assim que não era de facto a palavra “bruxa” que me perturbava, mas a implicação de que havia algo na vida da tia Júlia que me era desconhecido, talvez vedado. Ou, pior ainda, algo que ela ocultava de mim julgando que eu não fosse capaz de compreender.
Aquilo perturbava-me, mas não devido a essa palavra … a quê, então?
Ao fundo da rua, a Sé de Lisboa estava já iluminada e eu lembro-me de ter sido essa uma das vezes em que mais fortemente uma vertigem histórica se apossou de mim. É raro pensar com tanta consciência em tudo o que já se passou no sítio onde vivemos. É uma colina de lisboa que já viu fenícios, gregos, romanos, visigodos, mouros, cristãos. As nossas ruas ficam entre a Praça do Rossio, onde já se queimaram bruxas, judeus e sodomitas, e a Prisão do Limoeiro onde, mais recentemente, se torturaram, não com menor requinte, intelectuais e liberais diversos. Ou seja, tudo pessoas com quem a nossa família reúne afinidades. E no entanto, como a minha mãe costumava dizer, “Que tempos abençoados estes em que vivemos, apesar de tudo". E depois vinha abraçar-me e acrescentava: “Sabes a sorte que temos? Eu, que nasci depois da guerra, e tu, que nasceste depois da ditadura? És uma criança abençoada, António. Aproveita a sorte de teres nascido agora. Olha só os livros todos que tens à tua disposição, tudo o que há no mundo na tua mão, sem censura e sem limites”. (Ela ainda repete isto, de vez em quando.)
Eu, naquele momento, saco cheio de batatas e cebolas, a caminho de casa, senti-me de facto previligiado, porque a minha mente, por segundos, quase conseguia ter a noção da enormidade do que se passara ali, naquela rua, naquela colina, naquela cidade, para que eu pudesse ir assim, tão despreocupado para casa, sem medo de bruxas. Uma vertigem histórica em que desfilava uma crescente erosão de preconceitos e superstições que permitiam que eu, nesse preciso momento, soubesse que os meus valores me permitiriam olhar lucidamente para este perturbante facto, de ter uma “bruxa” na família. E essa lucidez, que eu sempre tenho prezado tanto, devia-se, deve-se, precisamente, à tia Júlia.
Percebi assim que não era de facto a palavra “bruxa” que me perturbava, mas a implicação de que havia algo na vida da tia Júlia que me era desconhecido, talvez vedado. Ou, pior ainda, algo que ela ocultava de mim julgando que eu não fosse capaz de compreender.
012 - Os Herdeiros (versao revista)
Eu nunca compreendera bem as reticências que a minha mãe punha em relação à tia Júlia. É que, apesar de termos começado a passar muito tempo lá, ela nunca deixava de manter uma certa frieza (que nem sequer lhe vinha dos genes alemães). A princípio, suponho que, de um modo inconsciente, liguei isso ao suicídio do meu pai mas, como esse era o assunto de que nunca se falava, apesar de estar no cerne do nó que unira as nossas famílias, deixei que continuasse imerso nas névoas do tabu.
Eu já devia ter uns treze anos quando, finalmente, me tive de confrontar com uma parte da vida da tia Júlia que, embora estivesse estado sempre presente, eu nunca tinha verdadeiramente visto, ou tomado consciência que existisse.
Aconteceu da maneira mais prosaica, ao fim de uma tarde em que a minha mãe me pedira para ir comprar batatas e cebolas à mercearia da esquina (que fica precisamente na esquina da rua entre a da tia Júlia e a nossa). Eu esperava para pagar, enquanto uma freguesa à minha frente falava com a dona do estabelecimento. Eu não seguia a conversa porque olhava para os chocolates, mas a certo ponto uma delas começou a falar de uma mulher do bairro que, pela descrição, eu identifiquei imediatamente como sendo a tia Júlia, embora o nome não fosse mencionado. E depois, referiu-se a ela como bruxa. E não era um insulto, ou mera difamação porque (e isto foi o que mais me surpreendeu), ao dizer a palavra, a sua voz baixou para um tom de grande respeito, ou reverência mesmo.
Eu já devia ter uns treze anos quando, finalmente, me tive de confrontar com uma parte da vida da tia Júlia que, embora estivesse estado sempre presente, eu nunca tinha verdadeiramente visto, ou tomado consciência que existisse.
Aconteceu da maneira mais prosaica, ao fim de uma tarde em que a minha mãe me pedira para ir comprar batatas e cebolas à mercearia da esquina (que fica precisamente na esquina da rua entre a da tia Júlia e a nossa). Eu esperava para pagar, enquanto uma freguesa à minha frente falava com a dona do estabelecimento. Eu não seguia a conversa porque olhava para os chocolates, mas a certo ponto uma delas começou a falar de uma mulher do bairro que, pela descrição, eu identifiquei imediatamente como sendo a tia Júlia, embora o nome não fosse mencionado. E depois, referiu-se a ela como bruxa. E não era um insulto, ou mera difamação porque (e isto foi o que mais me surpreendeu), ao dizer a palavra, a sua voz baixou para um tom de grande respeito, ou reverência mesmo.
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