segunda-feira, 27 de março de 2006

Dave Mckean no IndieLisboa

A primeira coisa que me saltou aos olhos da programação do IndieLisboa - festival de cinema independente de lisboa foi o filme do Dave McKean (Sandman - Mr. Punch - Mirrors - etc...) com argumento do Neil Gaiman e criaturas do workshop do Jim Hanson.
Passa dia 20 de Abril no King3 às 21h30 e no dia 26 de Abril às 18h30 no Forum Lisboa.

Não sei se é bom ou mau mas é certamente um festim para os olhos.

quarta-feira, 22 de março de 2006

mote para as proximas semanas

Não há fome que não dê em fartura.

...isto a propósito da quantidade de trabalho que tenho. Ao que parece em Portugal faz-se tudo de Março a Maio e de Outubro a Novembro. (Pelo meio é o Verão e o Natal.)

segunda-feira, 20 de março de 2006

mudança

Lá por casa aproveitou-se o fim de semana e o embalo de duas margaritas para se mudar a televisão da sala para o sotão, que era projecto adiado há quase 3 anos. É incrível como pequenas coisas como esta conseguem transmitir a sensação de que se está a começar uma nova fase de vida.

quinta-feira, 16 de março de 2006

proposta de lei

Ontem ocorreu-me que, tendo em conta que os partidos de esquerda andam todos contentes com aquela proposta de ter 50% de mulheres na política, os partidos de direita deviam aproveitar para propor uma lei que não permitisse mais de 10% de homossexuais.
Teoricamente, seria uma proposta que eles gostariam de fazer e com argumentos tão genuinos, parvos e inatacáveis como os que a esquerda arranja. A chatice é que se ambas as leis fossem aprovadas, os partidos de direita provavelmente ficariam às moscas...

terça-feira, 14 de março de 2006

Outro contexto

Roubei esta imagem no blog "O Abrupto". É um saco da cadeia de livrarias Waterstones.


Para quem é está tudo bem, mas aposto que o Jerry Seinfeld nunca foi à Rua do Carmo e à Rua Garrett onde se acham livrarias com tromboses evidentes.

Continuo a preferir o saco que me deram numa livraria da Cidade do México, amarelo berrante com enormes letras pretas que diziam: "Não me roubes, só trago livros!". Acho que é uma frase muito optimista porque parte do princípio que o potencial ladrão sabe ler...

antes de adormecer

D - Achas que a alma precisa do corpo para existir?

B - Não necessáriamente.

D - Mas se a alma anima o corpo e se o corpo é a morada da alma, será que a alma pode continuar a pensar e a ter memória quando o cérebro já não existe?

B - Talvez, lembras-te daqueles computadores que não tinham memória ROM e funcionavam só com duas disquetes?

D - Sim, e os ZX Spectrum, com uma cassete.

B - Talvez a alma seja só energia, electrões e coisas dessas aos pulos que depois quando o cérebro deixa de funcionar, vão continuando a pular pelo universo fora e a identidade é o padrão dos pulos dos electrões.

D - É isso que achas que vai acontecer connosco quando morrermos?

B - Não, eu acho que nos vamos transformar em duas cabecinhas com asas que continuam a tagarelar no limbo.

D - Mas imagina que morrias, o teu coração parava e orgãos deixavam todos de funcionar, ou seja, a tal energia deixava de ser produzida. Será que se depois, artificialmente, enviasses energia ao corpo para pôr tudo a funcionar outra vez, será que o teu cérebro ainda produzia a mesma identidade?

B - Uma coisa género Frankenstein?

D - Sim, mas com um corpo inteiro em vez de bocadinhos agrafados.

B - Mas isso tinha de ser logo a seguir à morte, antes que o corpo se deteriorasse...

D - Imagina que morrias, género tinhas um ataque cardíaco e caias para o lado. Eras congelado e passado dois anos vinham uns cientistas com um raio que te descongelava e punha o corpo a funcionar outra vez. Achas que era a mesma pessoa que tinha morrido que voltava?

B - Isso havia de ser tétrico. E se eu voltasse a falar chinês? Era a mesma pessoa mas falava chinês?

D - E mandavam uns médicos e psicólogos perguntar-te se te lembravas quem eras.

B - Provavelmente tinha umas histórias de túneis de luz para contar. Ah, e tinha uma mensagem do Além para a humanidade!

D - O que é que dizias?

B - Se calhar qualquer coisa como: "A Virgem Maria mandou dizer que é para lhe construirem uma capelinha ali!" e apontava para trás deles e quando eles se virassem eu batia as botas outra vez e havia uma grande discussão para decidir o sitio certo para onde eu tinha apontado.

D- Sim! E depois eles perguntavam-me se eu queria que eles te reanimassem outra vez e eu dizia-lhes: "Obrigado, mas acho que não vale a pena."

quinta-feira, 9 de março de 2006

viagem ao meu inconsciente

Esta noite sonhei com ilhas. Ao princípio estava nos Açores mas depois andava pular de ilha em ilha em direcção ao mediterrâneo até que, algures perto da costa da Tunísia, o despertador me acordou.

Chegado ao escritório apeteceu-me consultar um site com um dicionário de sonhos:

Island - Conscience not clear. Solitude. Escape. Need for space and privacy.

Estas coisas às vezes batem assustadoramente certas.

segunda-feira, 6 de março de 2006

Óscares

Entre o George e Jake eu se calhar também escolhia o George... mas ainda bem que não me pedem para escolher.
Parabéns, senhor Clooney!

Colossal

Ainda estou de queixo caído. Passei o fim de semana a jogar o fenomenal "Shadow of the Colossus", o novo jogo para a Playstation dos mesmos criadores do "Ico". (Aliás, incialmente este jogo era suposto ser o "Ico2" mas saiu-lhes outra coisa e ainda bem.)
Embora se passe no mesmo universo, "Shadow of the Colossus" é um conceito de jogo completamente diferente de "Ico".
Basicamente, consiste em localizar e matar colossos (seres gigantescos meio animal, meio máquina) a fim de lhes retirar os poderes para que depois possamos resuscitar a nossa linda namorada que nos morreu logo no início do jogo. A premissa é básica, mas o desenvolvimento é genial.
Toda a gente conhece aqueles jogos em que se vai matando uns monstrinhos a toda a hora e depois, no final do jogo, há um bicharoco grande que já podemos matar com todos os superpoderes e bazukas que se encontrou pelo caminho. Mas este jogo é um bocadinho ao contrário. Temos sempre e apenas uma espada e um arco com flechas e os monstros são sempre enormes, gigantescos, como se fossem fortalezas ambulantes a que temos de montar cerco, invadir e minar por dentro. É como se nós fossemos um mosquito a tentar matar um elefante. Ou seja, é como se estivéssemo sempre no "último nível".
E a primeira reacção quando se vê qualquer dos colossos pela primeira vez é: "Meu deus!" e depois: "Isto é impossível" e depois, quando ele vem atrás de nós: "Ai, mãezinha!!".
É muito curioso porque este jogo deve ser o primeiro a explorar o instinto básico que imagino esteja por trás de coisas como a tourada. É preciso ter tomates para nos chegarmos ao pé de um monstrego que nos pode fazer em fanicos a qualquer momento, trepar-lhe pela perna acima e espetar-lhe um palito (a nossa espada) no joelho. E sentirmo-nos os reis do mundo quando a coisa cai, faz tremer a terra e nós nos aguentámos lá em cima, agarrados a um pêlo.
Depois há a beleza visual do jogo. A música lindíssima. O nosso belo cavalo negro. A desesperada e nostálgica poesia da morte e da desolação.

Resumindo: é uma obra de arte. Definitivamente, jogos de computador podem ser - já são - obras de arte. Talvez até as mais fascinantes de todas porque podemos fazer parte delas.




http://www.shadowofthecolossus.com/
http://www.icothegame.com/

sexta-feira, 3 de março de 2006

034 - Os Herdeiros

Pouco depois a minha mãe telefonou, tinha mesmo ido ao cinema, mas a tia Júlia, explicou-nos, tinha ido visitar uma amiga.
“Que amiga?”
“Não sei. Alguém que lhe telefonou e ela resolveu ir de visita, já que vocês não estavam.”
“E vai ficar fora esta noite?”
“Foi isso que eu entendi.”
“Mas quem é essa amiga?”
“António, pareces a mãe da tia Júlia. Não sei! Não perguntei.”
“Mas se fosse eu tinhas perguntado.”
“Eu sou tua mãe. É o meu dever.”
“Eu vou dormir aqui esta noite, para o Jaime não ficar sózinho.”
“Já jantaram?”
“Estás a perguntar isso porque te preocupas ou porque é o teu dever?”
“Não te armes em esperto. Já jantaram?”

quarta-feira, 1 de março de 2006

033 - Os Herdeiros

Deixei um recado à minha mãe, “Já voltámos, estou em casa do Jaime.”, e corri para lá.
Ele estava na sala, com a televisão ligada em altos berro e as luzes da casa todas acesas. Quando entrei levantou apenas os olhos para confirmar que era eu e deixou-se ficar enterrado no sofá a ver os anúncios.
“Então? O que é que foi?”
“Nada. Não me apetecia estar sózinho.”
Eu olhei em volta. As luzes estavam mesmo todas acesas. Fui até ao fundo do corredor e comecei a apagá-las. O quarto da tia Júlia, o quarto do Jaime, o quarto de hóspedes, a casa de banho, a cozinha, a despensa, o corredor. E na sala apaguei a luz forte do tecto porque os candeeiros das mesas e atrás do sofá também estavam acesos. Depois sentei-me ao lado dele, que continuava com os olhos pregados no écran e fingia não reparar no que eu estava a fazer. Peguei no controle remoto e baixei o som. Ficámos a ver a quarta parte de um filme idiota com o Van Damme que aparecera para interromper os anúncios. Meia hora depois ele continuava sem dizer palavra e eu estava farto daquilo.
“Conta-me o que se passou ou dou-te um murro.”
Isso pelo menos pô-lo a sorrir. Mas foi só um segundo.
“Eu tinha começado a tirar coisas da mochila quando ainda vinha a subir a escada para encontrar as chaves. Por isso entrei em casa com montes de coisas nas mãos e não acendi a luz. Pensei que a vó Júlia estivesse no quarto dela, que se tivesse deitado mais cedo ou qualquer coisa assim. Fui lá para lhe dizer que tinhamos voltado mais cedo, mas o quarto estava às escuras. Primeiro pensei que ela estivesse a dormir, mas depois vi que a cama estava feita… mas sabes… eu senti… não sei… uma presença, como se ela estivesse mesmo lá... Acendi a luz mas não vi nada. E fui espreitar debaixo da cama e dentro do armário, feito parvo. Não sei porque fiz isso.
Depois foi na casa de banho. Estava a lavar a cara e quando me olhei ao espelho tive uma sensação estranhíssima. Foi como se tivesse olhado para outra pessoa. Era eu, sabes?, o meu reflexo no espelho, mas era como se a minha cara não me pertencesse. Foi mais como… não sei, como olhar por uma janela. E o reflexo do espelho era mais real do que eu. Percebes o que quero dizer?”
“Não.”
Ele não disse mais nada.
“Foi só isso?”, perguntei eu.
“Eu sabia que ias achar estúpido.”
“Mas foi mesmo só isso? Não viste nada…sei lá… mais estranho?”
“Não. Não vi nenhum fantasma.”
Ficámos a olhar um para o outro muito sérios até nos termos de começar a rir da nossa seriedade.
“Achas que a vó Júlia e a tua mãe foram ao cinema?”
“Sim. Aproveitaram não estarmos cá para irem ver o novo filme do Van Damme.”
“És tão parvo.”, disse ele. Pegou no controle da televisão e apagou-a. Não dissémos mais nada durante um bocado. Eu olhava para ele. Ele olhava em frente para lado nenhum.
“Mas a sério, António, foi como se o meu corpo não me pertencesse.”

futuro fantastico

http://www.youtube.com/watch?v=iVI6xw9Zph8

Coisas Infelizes

As estações do metro de Lisboa acordaram hoje inundadas de anúncios ao FIFA Street 2, um jogo de futebol para a Playstation 2 que mexe um bocadito com o nosso orgulho nacional por ostentar na capa (numa excelente ilustração) o giraço do Ronaldo.



À partida não tenho nada contra o jogo. Não o vi, não o joguei e nem sequer tenho interesse em o ver ou jogar. Mas achei bastante infeliz a frase promocional que é qualquer coisa como "Faz da bola a tua arma de humilhação".

Mas que raio quer a frase dizer? Que o futebol é um desporto em que o objectivo é humilhar o adversário? Que estar na rua significa ter de andar armado? etc...

Não consigo concluir se a frase é idiota ou apenas assustadoramente realista.

De qualquer maneira, tendo em conta os "Valores" que promove, acho que o Ronaldinho e a FIFA deviam ter vergonha e mover um processo contra o pessoal da agência de publicidade e directores de marketing da produtora do jogo e aproveitar para lhes extorquir uma pipa de massa (de que não devem precisar mas que dá sempre jeito). Ou então convidá-los para um jogo de futebol e humilhá-los com a bola, que bem merecem.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

032- Os Herdeiros

Acabei por adormecer, vencido pelo cansaço, para acordar já manhã avançada, sozinho na tenda e com a cabeça pesada e doída, martelada que fora por sonhos de um surrealismo descontrolado.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

estrelinhas

Depois de alguns meses de trabalho árduo, dei finalmente uma classificação a todas as canções do meu iPod.
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).

sábado, 11 de fevereiro de 2006

031 - Os Herdeiros

“O que achas que devemos fazer?”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

o ano dos caubois

Os serões das ultimas semanas têm sido quase todos passados a ver episódios da série Deadwood que se recomenda vivamente. O argumento e diálogos são excelentes, os actores são excelentes, os cenários são excelentes, a fotografia é excelente, a realização é excelente... e a cada episódio sobem a fasquia.



Estou completamente fascinado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

lamechice

Ontem lá vi finalmente o "Brokeback mountain" e, como já esperava, chorei um bocadito e vou levar uns anos a recuperar da coisa (eu ainda não estava totalmente restablecido de "o paciente inglês").
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?

PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!

PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Cegueria Histerica

Ontem desencantei no clube de video um filme surpreendentemente bom.
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)



Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.



Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

morte aos noruegueses

Nunca deixo de me espantar com o efeito bola de neve que a estupidez pode ter. Ou que há gente estúpida que provoca estupidez em gente ainda mais estúpida e assim sucessivamente, ao estilo das bonequinhas russas que saltam umas de dentro das outras.

Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:

1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)

2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês

3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)

4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")

5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se

6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.

7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.


Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.