quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

032- Os Herdeiros

Acabei por adormecer, vencido pelo cansaço, para acordar já manhã avançada, sozinho na tenda e com a cabeça pesada e doída, martelada que fora por sonhos de um surrealismo descontrolado.
O Jaime e os outros tinham feito fogo e preparavam comida. Ninguém parecia de bom humor e, pensando aonde tinha de ir para me lavar com água gelada concluí que não era feito para acampar. Eu queria ir para casa, ler um livro, dormir numa cama fofa e lavar-me numa casa de banho. Que raio estava eu ali a fazer com gente de que nem sequer gostava e que me aturavam por favor à tia Júlia? As explicações que nos deram para o passeio nocturno também não me convenceram, era óbvio que estavam a mentir.Mas o que mais me irritou foi terem começado a tratar-nos como se fôssemos crianças. As conversas, que no dia anterior tinham sido ligeiras e cheias de incentivo para que apreciássemos “a caminhada e o saudável contacto com a natureza”, agora estavam todas infectadas por um sarcasmo escarninho sobre a nossa inabilidade para montar as tendas, fazer fogo e aguentar o passo em caminhos mais íngremes. De repente éramos um estorvo. Mais irritante ainda era o silêncio do Padre Matos que evitava até olhar para nós. Dei por mim a desejar que ele voltasse à sua boa disposição postiça, que sempre era um estado mais “normal”.
Felizmente, a meio da tarde, já nós nos tinhamos arrastado por intermináveis trilhos da floresta, quando ele apontou na direcção de uma estrada de alcatrão e disse:
“Então e se encurtássemos o passeio? Se formos por ali chegamos aos carros daqui a uma hora. Eu sei que tinhamos planeado acampar esta noite também, mas parece que estamos todos muito cansados.”
Todos encolhemos os ombros, com vergonha de expressar o alívio por alguém ter finalmente sugerido isso mas o Padre Matos não esperou por mais respostas e simplesmente seguiu na direcção que apontara. Em menos de duas horas estávamos de volta a Lisboa onde eles nos largaram frente à Sé.
Eu e o Jaime mal tínhamos falado durante o dia, sabendo que estávamos ambos de mau humor e irritadiços. Decidimos ir cada um para sua casa, eu aliviado por não ter de passar pelo interrogatório da tia Júlia. A minha mãe ia simplesmente ficar contente por eu ter voltado mais cedo. Mas nem tive de me preocupar com o que havia de dizer. Ela não estava em casa.
Aproveitei para dar um duche interminável com a água mais quente que o meu corpo aguentava. O telefone tocou quando eu ainda me limpava. Era o Jaime.
“Podes vir para cá?”
“Porquê?”
“A vó Júlia não está em casa.”
“A minha mãe também não. Deve ter ido ao cinema, os óculos dela não estão cá. Se calhar foram juntas. “. Mas enquanto falava percebi o disparate que estava a dizer. A tia Júlia nunca ia ao cinema.
“Sim, se calhar foi isso…” disse o Jaime, pouco convicto. “Mas podes vir?”
“Estou cansado. Ia-me deitar.”
O Jaime ficou calado.
“O que é que se passa?”
Ele hesitou.
“Vem para cá.”, disse depois de repente.
E, sem que fossem precisas mais palavras, eu percebi. Ele estava com medo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

estrelinhas

Depois de alguns meses de trabalho árduo, dei finalmente uma classificação a todas as canções do meu iPod.
Estou portanto em condições de partilhar com o mundo o nome das que ganharam 5 estrelinhas. Os critérios para a sua atribuição são obviamente muito pessoais e subjectivos (atenção: há nomes de canções que não estão 100% correctos).

sábado, 11 de fevereiro de 2006

031 - Os Herdeiros

“O que achas que devemos fazer?”
“Eu acho que vou buscar os nossos sacos-cama e deitar-me na tenda do padre Matos. Quando eles chegarem logo nos ajudam a arranjar aquilo. Caramba, está mesmo frio!”, disse o Jaime, esfregando os braços.
“Tu não achas que eles estão em perigo…”
“Não sejas parvo. São só escuteiros malucos. E mesmo que partam as pernas a andar por aí à noite eles sabem fazer talas com pauzinhos e pôr ervas nas feridas e coisas dessas. Só acho que foram muito mal educados em se ir embora sem nos dizer nada.”
“E se eles se perderam?”
“Nesse caso, bem feita. Mas o Sol deve estar a nascer não tarda nada. Ninguém se consegue perder aqui por muito tempo. Está tudo cheio de estradas! E nós não estamos própriamente acampados no meio do nada”, E apontou a lanterna para a mesa de piqueniques que ficava lá mais para o fundo da clareira e que não tinhamos usado ao jantar só para tentar fingir que estavamos mais longe da civilização. Suponho que também o fez só para se reconfortar um bocadinho, mas a mim, aquele relance do mundo real fez parecer tudo ainda mais desolado.
Entretanto o Jaime já levava as nossas coisas para a outra tenda. Eu fiquei ainda um pouco a olhar em volta, à espera de ver não sei o quê, mas depois enfiei-me rapidamente no saco-cama. A meu lado, o Jaime não tardou a adormecer mas eu não consegui pregar olho.
Deve ter passado quase uma hora até eu os ouvir. Pus a cabeça fora da tenda e, à luz pálida e leitosa da alvorada, vi-os a regressar, algo cambaleantes, ao acampamento.
O João Paulo riu-se ao ver a nossa tenda no chão. Os outros também sorriam ao olhar para a minha cabeça desgrenhada emergindo da tenda do padre Matos, mas ele tinha um ar zangado quando me perguntou o que acontecera. Expliquei-lhes o acidente sem entrar em pormenores embaraçosos.
“E vocês, onde foram?”
“Fomos só dar um passeio. Dá-me os nossos sacos-cama. Nós deitamo-nos na vossa tenda.”
“Porque é que levaram tanto tempo?”
“Porque o João Paulo é um idiota! Deixa lá isso, volta a dormir. Nós estamos exaustos.”
Passei-lhe os sacos-cama e voltei a fechar a tenda.
“Eles já voltaram?”, resmungou o Jaime sem sequer se virar ou abrir o olhos.
“Já. Acho que estiveram a beber.”
“É mais provável que tenham estado a fumar ganzas.”
“Achas que sim? Mas ele é padre!”
“Isso não quer dizer que seja um santo.”
“Se era por isso, não precisavam de se ir embora. A quem é que nós iamos contar?”
“Ao menino Jesus. Calas-te e deixas-me dormir?”
Voltei a deitar-me mas ainda não conseguia dormir. Enquanto o Jaime ressonava baixinho eu prestava atenção aos sons do que se passava lá fora. Era difícil perceber o que diziam, mas de vez em quando ouviam-se uns risinhos. A voz do padre Matos no entanto continuava a soar zangada. E num momento em que se ergueu com mais volume, tenho a certeza de que o ouvi dizer:
“Não podes hesitar com a faca. Foi por isso que ela conseguiu fugir.”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

o ano dos caubois

Os serões das ultimas semanas têm sido quase todos passados a ver episódios da série Deadwood que se recomenda vivamente. O argumento e diálogos são excelentes, os actores são excelentes, os cenários são excelentes, a fotografia é excelente, a realização é excelente... e a cada episódio sobem a fasquia.



Estou completamente fascinado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

lamechice

Ontem lá vi finalmente o "Brokeback mountain" e, como já esperava, chorei um bocadito e vou levar uns anos a recuperar da coisa (eu ainda não estava totalmente restablecido de "o paciente inglês").
Obrigado Hollywood, pela glossy love story passada dentro do armário (quase literalmente). Fazia falta. Mas daqui a uns anos experimentem fazer qualquer coisa verdadeiramente chocante: talvez uma história de amor gay com final feliz?

PS - como de costume, o livro é melhor do que o filme, mas este é daqueles que, embora completamente fiel ao livro, não deixa de ser puro cinema e vale por si mesmo. Veja o filme, leia o livro (que até é um conto pequenito) ou vice versa!

PS2 - será muito mau sonhar que o Heath Ledger ganha o óscar e pede o Jake Gyllenhaal em casamento no discurso? Eu quero um final feliz!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Cegueria Histerica

Ontem desencantei no clube de video um filme surpreendentemente bom.
"Cegueira histérica" com Juliette Lewis, Uma Thurman e Gena Rownlands.
A história é bocadito básica e não passa de uma espécie de retrato de mulheres americanas suburbanas à beira de um ataque de nervos, mas vale pelos desempenhos das actrizes (Uma thurman ganhou um globo de ouro com isto e Juliette Lewis merecia um também)



Tenho saudades de ver mais a Juliette.
Também ia muito bem no "Blueberry", que é outra pérola ignorada.



Eu amo a Juliette. (A Lewis... se bem que também não me desagrada La Binoche)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

morte aos noruegueses

Nunca deixo de me espantar com o efeito bola de neve que a estupidez pode ter. Ou que há gente estúpida que provoca estupidez em gente ainda mais estúpida e assim sucessivamente, ao estilo das bonequinhas russas que saltam umas de dentro das outras.

Isto a propósito de uma polémica que tem feito correr tinta nos media noruegueses e que se resume da seguinte maneira:

1- Um jornal dinamarquês resolve fazer uma reportagem onde apresenta algumas caricaturas da cara de Maomé, o profeta da fé islâmica. - Para os menos sabedores que não percebem porque é que isto é insultuoso, informa-se que a religião muçulmana é iconoclasta, ou seja, não permite representações de profetas, de deus, etc... (o que na minha opinião até é uma coisa muito saudável, tendo em conta muitas ilustrações cristãs que se vêm por aí)

2- Organizações muçulmanas chateiam-se, com razão, e, sem razão, há ameaças de bomba na sede do jornal dinamarquês

3- Uma revista cristã norueguesa publica um dos retratos de maomé, apelando à liberdade de expressão (confundido liberdade de expressão com liberdade de ofender o próximo)

4- Um dos maiores jornais diários noruegueses não publica a cara do profeta, mas publica fotos das outras publicações que a publicaram (ou seja, a hipocrisia do "nós não mostramos, mas vejam os outros a mostrar")

5 - Os muçulmanos noruegueses chateiam-se

6 - Uma bloguista norueguesa "famosa" e "inteligente" resolve começar uma acção entre bloggers de modo a que haja todos os dias um blog norueguês a publicar a cara do maomé. A Acção ganha direito a primeiras páginas nos jornais.

7 - Muçulmanos de várias partes do globo chateiam-se com os noruegueses e ameaçam de morte qualquer norueguês que ponha o pé no seu país.


Moral da história: Esta gente toda devia arranjar mais que fazer.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

030 - Os Herdeiros

Acordei a meio da noite com uma pressão familiarmente incómoda na bexiga. Tentei fingir que não era nada e adormecer de novo mas tive que me resignar, vestir uma camisola e abrir a tenda o mais silenciosamente que pude para não acordar o Jaime. Estava escuro e frio à brava. A única coisa que via eram os contornos indistintos das árvores abanadas pelo vento gelado. Enchi-me de coragem e, mesmo em peúgas, dei a volta à tenda, até onde calculava estar o tronco de uma árvore. Arrependi-me logo de não ter calçado os ténis porque as agulhas dos pinheiros e o cascalho aleijavam-me os pés. Foi por isso que não fui muito longe para mijar.
Ainda não tinha terminado por completo quando ouvi a voz do Jaime perguntar:
“Estás bem, António?”
E, subitamente, a luz da lanterna que ele acendeu e apontou na minha direcção, iluminou a raíz da árvore que eu escolhera como alvo. Aí contorcia-se uma cara, um esgar, qualquer coisa entre o réptil e o humano. Dei vários passos para trás e o gemido de terror só me saiu da garganta quando já estava a cair em cima da tenda.
O Jaime chamou-me todos os nomes que se lembrou ao ver-me enrolado no oleado e nas estacas da tenda, lutando para me libertar.
“O que é que estás a fazer, idiota?!”
“Estava a fazer xixi, mas acho que vi uma cobra quando acendeste a lanterna.”
Levantei-me e tirei-lhe a lanterna da mão. Avancei cuidadosamente apontando a luz para as raízes da árvore. A única coisa de anormal era a mancha escura que eu tinha deixado no chão. Era apenas uma raiz mais contorcida que o costume. Mas eu apostava que a tinha visto mexer-se. Mais do que isso, se eu fechasse os olhos conseguia ver ainda aquela cara horrenda a fitar-me.
“Deve ter sido um reflexo naquela raíz.”, disse o Jaime, pondo em palavras um dos meus pensamentos. “E, se era mesmo uma cobra, já fugiu quando lhe mijaste em cima.”
Não me consegui rir porque ainda tremia, abalado pelo susto, e ele, ao meu lado, tremia também, mas de frio, porque se tinha levantado só em t-shirt, cuecas e meias.
“Anda medricas, ajuda-me a levantar isto outra vez.”, disse ele já a bater os dentes.
Mas eu tinha feito tantos estragos que não conseguimos pôr a tenda de novo em pé. Era um emaranhado impossível de lona, estacas e cordas.
“Acho que temos de acordar alguém para nos ajudar.”, concluiu o Jaime. E eu, apesar da vergonha, concordei. Apontei a lanterna para as outras duas tendas e dirigi-me à mais pequena. Comecei por chamar o padre Matos, mas como o meu sussurro não parecia capaz de o acordar e eu não queria erguer mais a voz para não acordar os outros, acabei por abrir o fecho da tenda e olhar lá para dentro.
Estava vazia.
“O que foi?”, perguntou o Jaime ao ver-me paralizado, com o foco apontado lá para dentro.
“Não está aqui ninguém.”
“Se calhar estão todos a dormir na tenda grande, por causa do frio.”
Não fui capaz de argumentar que na tenda “grande” cabiam só três pessoas e que os sacos-cama estavam ali, bem estendidos e fechados, como se não tivessem sido usados. Assenti apenas com a cabeça e estendi a lanterna ao Jaime, que entretanto viera ver com os seus próprios olhos e se agachara ao meu lado. Ele levantou-se devagar mas avançou decidido para a outra tenda e bateu na lona como se fosse uma porta.
Nada.
Eu aproximei-me e olhámos um para o outro apreensivos antes de ele abrir o fecho.
Vazia. Os três sacos-cama estendidos e intocados como os outros dois.
“Acho que não se deitaram.”, disse eu. “Se calhar foram dar um passeio antes de dormir.”
O Jaime foi até aos restos da fogueira apagada e pôs a mão nas cinzas.
“Está fria.”
“Que horas são?” perguntei eu. E ele, surpreendido por eu interromper o seu momento Sherlock Holmes- índio com uma pergunta lógica, apontou o foco para o relógio no pulso.
“Quatro e meia.”
“A que horas nos deitámos?”
“Deviam ser dez ou onze. Não era tarde.”
Ficámos calados, sem querer expressar as idéias que nos corriam pela cabeça. Eu só conseguia pensar na cara na raiz da árvore, mas mesmo assim não fui capaz de contar ao Jaime o que verdadeiramente julgara ter visto. Era patético estar a pensar em vampiros, lobisomens ou simples assassinos psicópatas, mas, cortando afiado a noite escura, o vento açoitava tão impiedosamente as árvores e a lona da nossa tenda desfeita, mal pendurada nas estacas tortas, que eu comecei a tremer, já não tanto por causa do frio, mas por causa do medo que me começava a invadir o corpo e que eu não conseguia conter porque nunca o sentira assim tão puro, tão agudo, indomável, a cavalgar-me pelas veias.

029 - Os Herdeiros

Montámos o acampamento já noite escura, eu e o Jaime tão atrapalhados com as lanternas e a tenda que eles tiveram de nos ajudar a pô-la de pé. Sentámo-nos a jantar à volta da fogueira, primeiro aturando as cançõezitas de escuteiro tocadas na guitarra que um dos rapazes carregara montanha acima, montanha abaixo, e depois começámos a contar anedotas e histórias.
A certa altura o João Paulo fez questão de nos explicar mais sobre Sintra começando pelo nome, que, ao que parece, significa montanha da lua e deriva da palavra Cyntia, de origem celta, que se refere à deusa grega Artémis, a virgem caçadora.
Aí o Jaime interrompeu-o:
“É estranho esse nome. Sin é o deus árabe da lua. Bem, não exactamente árabe, mas era esse o nome que os assírios usavam. A lua era um deus masculino para os povos da mesopotâmia. Claro que depois passou a ser referido como Alá, mas o simbolo da lua ficou. Quanto tempo é que os árabes estiveram aqui em Sintra? Dois, três séculos?”
“E tu falas árabe, se calhar…”, gozou um dos outros rapazes.
“Um bocadinho, estou a aprender.”
“De qualquer maneira isso soa-me a disparate”, disse o João Paulo. “Em todas as culturas a lua deve ser um astro feminino porque tem uma relação com o período das mulheres”.
“Não, disse eu. Em norueguês, por exemplo, “lua” é uma palavra masculina e o “sol” é feminino. É curioso porque também só dei por isso outro dia. Estava a ver um livro com pinturas de Munch e reparei num quadro que era referido como uma cena nocturna isso mas não estava a fazer muito sentido porque eu olhava para ele e via o sol, representado como um enorme…aa…falo, reflectido na água, e só conseguia ver aquilo como uma coisa masculina. Mas depois, claro, ocorreu-me que a lua é masculina em norueguês e que assim já fazia todo o sentido representá-la daquela maneira.”
Ninguém falou ou quis acrescentar algo a isto.
“O António está a aprender norueguês.”, esclareceu o Padre Matos, mas ninguém deixou de olhar para nós como se fossemos anormais.
Eu conhecia aquela atmosfera. Era a mesma que ficava no ar cada vez que eu abria a boca nas aulas. Ficava sempre a sentir-me um mete-nojo.
“Já é tarde, acho que me vou deitar.”, disse eu.
“Sim, também já estou com sono.”, disse o Jaime.
Fomos para a tenda e entrámos nos sacos-cama sem trocar palavra. Deitados em silêncio, a marinar numa amargura habitual, ambos sabíamos o que o outro pensava: que nunca seríamos capazes de socializar como pessoas normais antes de fazermos uma lobotomia.
O Jaime abriu o lado do saco-cama e pôs a mão de fora. Eu fiz o mesmo e adormecemos de mãos dadas.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

orgulho

O nosso amigo Kenneth fez a gentileza de nos enviar um DVD com a sua série "Raballder", um documentário em 6 episódios sobre uma equipa de andebol gay norueguesa que tenta passar da 4ª para a 3ª divisão. Neste momento a série passa na televisão norueguesa mas já foi comprada por canais suecos e dinamarqueses.
Ontem à noite vimos os primeiros dois episódios e estamos super entusiasmados. O resultado é brilhante. Mostrar a vida real de vários homossexuais de forma tão cândida e descomplicada é desarmante e enternecedor.
Estou orgulhoso do meu amigo e já o comecei a chatear para põr legendas e enviar para o festival gay e lésbico de lisboa (onde há 2 anos passou outro documentário seu "The secret club")

250 anos

Ontem o meu iPod passou aleatóriamente "Waiting for the miracle" do Leonard Cohen. E face ao recente bombardeamento mediático houve uma frase dessa canção que se iluminou de significado:

"The maestro says it´s Mozart, but it sounds like bubble-gum"

Entretanto, marcámos bilhetes para ir a Salzburgo em Maio. Espero o inferno com o "Eine Kleine Nachtmusik" como banda sonora, mas achei que seria um bocadinho desleal para com os leitores estar a escrever histórias passadas em Salzburgo sem nunca lá ter estado... os sacrifícios que se fazem pela arte...

Por outro lado, o meu recente frenesim de investigação desenterrou um fascinante livro sobre vikings das prateleiras lá de casa e o verdadeiro Skråmestø leu-o de uma ponta à outra e agora ficou com idéias de escrever uma história de vikings passada em Istambul. Quererá isto dizer férias na Turquia no verão? Acho que estamos a comprometer as nossas férias demasiado. Por mim, uns dias sossegados na Quarteira ou em Armação de Pêra nem soa mal. Eu quero é férias! Já!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

028- Os Herdeiros

A ermida de São Saturnino, não sei se alguma vez lá foste, pouco mais parecia que um celeiro de portas abertas e paredes nuas. Um dos amigos do padre Matos, João Paulo, acho que que se chamava, sabia muito sobre Sintra, ou disso se gabava, e contou-nos algumas histórias relacionadas com a Peninha e a ermida, mas quando o Jaime lhe perguntou se ele sabia quem era o São Saturnino e porque lhe tinham erguido ali uma capela ele não soube responder. E nem o padre Matos sabia fosse o que fosse sobre o Santo. Enquanto todos se lamentavam do esquecimento a que estavam condenados os santos menos milagreiros, eu, por algum motivo, recordei-me perfeitamente de quem ele era.
A tia Júlia impingira-me em tempos um dicionário de santos, antes de uma visita que tínhamos feito ao Museu de Arte Antiga. “Já que vão olhar para os quadros, ao menos saibam o que estão a ver”. Assim me ensinara destinguir a Santa Catarina pela roda, o São Vicente pela corda, etc… Mitologia medieval, chamava-lhe ela.
Assim pude contar aos outros que São Saturnino fora um padre cristão na Gália romana, cuja passagem diária frente ao templo de Júpiter aparentemente fazia calar os oráculos. Como tal, foi intimado a sacrificar um touro no templo mas, recusando-se a fazê-lo, foi ele atado ao touro que o arrastou pela escadaria do templo e o matou.
“Chamo a esses santos Martiris Vulgaris”, disse o João Paulo, “não admira que tenha sido esquecido”.
“A mim esta história sempre me pareceu uma trágica paródia do rapto de Europa. Aliás, acho que comentei isso com a tia Júlia na altura em que a li. Aqueles romanos devem-se ter divertido a montar o velhote no touro.”, disse eu.
“O que me intriga é porque raio vieram fazer uma capelinha a esse santo aqui no fim do mundo, na ponta da Europa.”, disse o Jaime.
“Era o santo cristão que calava os deuses pagãos. Mas aqui, pelos vistos, não teve grande sucesso”, disse eu.
Enquanto olhávamos uns para os outros sem saber o que acrescentar às palavras que me tinham saltado da boca, a noite pareceu apressar-se a cair lá fora, tornando aquelas paredes ainda mais esquálidas e tristes.
“Vamos”, disse o padre Matos de repente, “Já nos estamos a atrasar demais e igrejas desconsagradas são perigosas à noite”. Dito isto, benzeu-se.
“Não sabia que era supersticioso”, brincou o Jaime com ele.
“Sou religioso, Jaime. Pode parecer-te o mesmo, mas há uma grande diferença”. E com gestos largos enxotou-nos para fora.

027 - Os Herdeiros

Tomámos a auto-estrada de Cascais e a serra de Sintra começou a aproximar-se pela nossa direita como o lombo negro de algum monstro gigante que mergulhasse do mar para a terra. O padre Matos apontou-me a silhueta do Palácio da Pena no perfil recortado contra o limpo céu da Primavera e depois a Peninha, o outro cume mais alto.
Seguimos para o cabo da Roca aonde fomos olhar para o horizonte, já que eu e o Jaime também nunca tinhamos estado no ponto mais ocidental do continente europeu, e depois, voltando um pouco para trás, deixámos os carros estacionados à beira da estrada e lá fomos, mochilas às costas, entrando pelo bosque, atacando a montanha a passos largos.
Eu fui ficando para trás porque, de todos, era quem menos estava habituado áquilo e não estava com disposição para conversas, ao contrário dos outros e do Jaime, que, familiarizado já com eles, trocava piadas e fazia perguntas sobre acampamentos, caminhadas e nós de escuteiro.
Fui o último a chegar à Peninha, já todos se tinham cansado da vista. Enquanto esperavam por mim tinham aberto as bolachas e os cantis e faziam o primeiro piquenique sentados nas rochas, à beira de uma igreja abandonada. Eu voltei-lhes as costas e fiquei a olhar para o mar e para o pôr-do-sol fulgurante que tingia o horizonte a ouro. Percebi então porque é que o padre Matos insistira para que fôssemos áquela hora. Ele tivera de assegurar umas sete vezes a minha mãe de que conseguiam montar as tendas de noite, antes de ela nos deixar vir, mas valera a pena.
O Jaime veio ter comigo e ficou só ali ao meu lado, deixando-me arder de raiva e de ciúme. Não disse nada. Ficou só a ouvir-me arfar, ainda cansado da subida.
Entretanto o Sol deixou-se engolir pelo mar e a mudança sentiu-se tão subitamente ali na montanha que senti um arrepio de frio correr sobre o suor das minhas costas. Era como se um outro poder se tivesse instaurado sobre a terra. A noite começava agora.
O Jaime deve ter sentido algo parecido porque se aproximou de mim e pôs um braço por cima dos meus ombros. Ficámos ainda um pouco a olhar para o espectro, último rastro de luz que o sol deixara.
“Eles estavam-me a contar que há quem acredite que esta montanha era a ligação do continente da Atlântida à Europa, e que é o único bocado dela que resta fora de água.”
Continuei a olhar para o horizonte e respondi, “Quem inventou isso esteve aqui de certeza.”
Devagar, senti que a minha irritação se dissipava. Bastava que o Jaime estivesse ali, a meu lado. Estendeu-me uma bolacha. Eu sorri.
“Anda”, disse-me, “tens de vir ver a igreja. São Saturnino, lembra-te alguma coisa?”

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Arsene Lupin

Alguma relutancia em ver um dos meus heróis literários de juventude adaptado ao cinema, mas como é feito por franceses e tem a Kristin Scott Thomas pode ser que se safe pela positiva (o trailer é daqueles feitos para o publico pipoqueiro, mas isso hoje em dia não quer dizer nada). Aguardo com expectativa.

trailer aqui:
http://www.tf1international.com/download/75/ARSpromo.wmv

Erase and Rewind

Caros leitores,

Finalmente dei-me ao trabalho de rever tudo o que já tinha escrito n"Os Herdeiros". Como tal, achei que valia a pena republicar tudo outra vez. Não que tenham acontecido grandes mudanças na história (quem já leu excusa de ler outra vez), as principais diferenças estão nas vírgulas, acentos e parágrafos, mas, como eu escrevo isto directamente para o blog, lendo tudo de seguida, tornaram-se óbvias algumas falhas no fluir do texto.

Também, como um leitor atento já tinha apontado, o fascículo 27 (agora com nr.26 porque tinha inadvertidamente saltado um numero) estava demasiado "explícito". Por isso apaguei-o e reescrevi-o. Esse é que se recomenda que seja lido novamente por quem já tinha lido a versão anterior.

Continuam a ser bem vindos os comentários, nem que sejam sobre ortografia e gramática.

Obrigado pela atenção,
Eu

026 - Os Herdeiros (versao revista)

Fomos ter com o padre Matos e os amigos ao largo da Sé, ainda com a minha mãe colada aos calcanhares, para ver quem eram os rapazes com quem íamos e para os fazer prometer que nos iam trazer de volta sem um arranhão. Tinham estacionado aí os dois carros, um dos quais uma carrinha com apenas dois lugares. E esse foi o problema. Na altura de nos dividirmos pelos carros, cinco num e dois no outro, o padre Matos, que conduzia a carrinha, disse, “porque não vens comigo, António?”, e eu não tive cara para dizer que não.
Mais vale explicar-te logo o que senti. Resumindo muito simplesmente, fiquei chateado por não ir no outro carro porque os amigos do padre Matos eram todos muito giros, viris e simpáticos, Porque queria ir com o Jaime e não queria que o Jaime fosse com eles sem mim (ciúmes), e não queria estar sozinho ao pé do padre Matos porque ele me atraía sexualmente e eu achava-o irritante, hipócrita e idiota. É claro que na altura isto era apenas uma grande confusão na minha cabeça e suponho que emergia sob a forma de amuo, impaciência e fingido desinteresse. Mas lá fui, sentei-me ao lado dele.
Tenho estado a fazer um esforço para me lembrar do que falámos nessa pequena viagem, nós os dois. Falámos de livros, certamente, mas não me lembro das perguntas que ele fez sobre a biblioteca da tia Júlia. A minha cabeça estava noutro lado, no carro onde ia o Jaime, mas a conversa incessante dele e as perguntas insidiosas devem ter começado a irritar-me. Além disso, comecei a ficar com a impressão de que ele me queria saltar para cima. No momento em que entrámos para o carro, ele, esfregando a mão no meu joelho perguntou, “Então, pronto para a diversão?”. Eu fingi não ter notado um segundo sentido nas palavras e achei que, embora a mão dele se tivesse demorado um bocadinho demais no joelho e subido, ao retirar-se, talvez mais para a coxa do que o devido, não devia dar importância áquilo. Mas pôs-me em alerta. E enquanto ele continuava a enrolar perguntas numa conversa aparentemente inocente, eu só me lembrava da fábula da raposa e do corvo. Ele tinha definitivamente mais do que um interesse educado sobre mim, o Jaime, a nossa família. Terei sido eu quem lhe falou nessa altura da biblioteca da tia Júlia? Provavelmente. Mas não importa, fosse eu, o Jaime ou a própria tia Júlia, o cabrão por essa altura já tinha farejado o seu queijo e nós continuávamos sem ver a raposa disfarçada na pele da ovelha.

025 - Os Herdeiros (versao revista)

Foi essa a minha, nossa, primeira ida a Sintra. Tínhamos 16 anos.
E nem por um momento parei para me questionar porque é que os nossos incontáveis passeios de fim de semana nunca tinham incluido Sintra. A tia Júlia diria, “Marta, porque não levas os miúdos a Tomar / Conímbriga / Alcobaça / Mértola / Évora / Marvão / etc / etc…” E lá nos montávamos nós no Opel da minha mãe para ir ver as maravilhas históricas de Portugal. Até Espanha, às vezes. Mas Sintra… ela nunca referira Sintra, mesmo sendo logo ali, a escassos quilómetros de Lisboa.
Outra diferença relevante em relação a outros passeios foi a total ausência de lição histórica. Normalmente, na noite antes de viajarmos, a tia Júlia fazia um bolo, chá, e sentávamo-nos a ouvi-la falar dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro, de mosaicos e termas romanas, de ruínas, restauros, castelos, mosteiros, antas, igrejas, capelinhas e o que mais houvesse para saber, ver, sentir e pensar em certos sítios. Tanto que era como lá estar ainda antes de ir.
Porque depois ela nunca vinha connosco, mesmo que fossemos a sítios onde ela nunca tinha ido (que por acaso eram poucos, mas mesmo assim…). Ela tinha a perfeita noção do quanto dominava as nossas vidas e suponho que essa era a sua maneira de nos libertar. Apesar disso, nós sabiamos que se regressássemos sem ter visto um chafariz, um pelourinho, que ela tivesse referido, teriamos de enfrentar o seu olhar desapontado. E isso, simplesmente, não se fazia. Nem uns pastéis de tentúgal, ou umas barrigas de freira, serviam, aprendemos, para lhe apaziguar os resmungos, quando nos falhava um ponto do itinerário.
Mas desta vez, sobre Sintra, nada.
Sorria simplesmente por nos ver tão entusiasmados. Iamos acampar pela primeira vez. O padre Matos ficara de nos arranjar a tenda e os sacos-cama, mas fomos comprar mochilas, e comida e lanternas e canivetes. Desde que o Jaime comprara o arco e as flechas que não tinhamos andado tão histéricos pela casa.
A minha mãe, que saíra mais cedo de propósito para se despedir de nós, ia dando recomendações à medida que se lembrava: “Não apanhem frio. Se fizerem uma fogueira ponham pedras à volta. Pus pensos e algodão no bolso da frente da mochila. Têm pilhas nas lanternas?”. A tia Júlia tentava acalmá-la explicando que íamos estar cercados de antigos escuteiros que acampavam e faziam caminhadas na floresta praticamente desde o berço, mas a minha mãe continuava a ver aquilo como a expedição para procurar a nascente do Nilo.
Não, não demos por nada. Com tanta excitação ninguém deu pelo silêncio, pelos lábios cerrados, pelas rugas na testa, da tia Júlia.
Eu só as vejo agora, agora que penso nisso.
Imagino-as perfeitamente.
Ela sabia o que estava a fazer. Sempre soube.
Nem os pássaros ensinam os seus a voar. Atiram-nos para fora do ninho.

024 - Os Herdeiros (versao revista)

Mas o curioso é que, quanto mais nos afastávamos nas disciplinas de estudo, ele com os desportos e o árabe e eu com a música e o norueguês, mais próximos nos sentíamos. Passávamos fins de tarde e fins de semana juntos, a conversar, a construir o nosso pequeno mundo a partir do que cada um trazia, dizia, pensava das suas diferentes disciplinas. Mas éramos párias. Era difícil fazer outros amigos, na escola ou fosse onde fosse. Não conseguíamos pertencer a sítio nenhum senão juntos. E isso tornou-se cada vez mais… sufocante.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa nas festas de fim de ano lectivo em que tocávamos todos juntos, uns para os outros, e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo sem se interessar em conhecê-los. Até a tia Júlia, dizendo que nos achava “demasiado incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que acabávamos sempre por ter com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre deus que não tinham nada de católicas. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista sobre a função do homem em relação ao mundo tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar, por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.

023 - Os Herdeiros (versao revista)

Eu sei.
É que o que mais me perturbara naquele dia fora o abraço que eu dera ao Jaime e as mãos do padre Matos. Tudo o resto perdeu importância, nessa noite, na cama. A insónia das noites que se seguiram não era pela bruxa da família, nem pelo sotão dos livros, nem nada que se parecesse. Eu estava obcecado. Sexo, sexo, sexo. Dos 13 aos 16 anos não pensei noutra coisa. Tudo o resto era piloto automático. Talvez julgues que exagero, mas não. Apenas me controlava muito bem. Mas eu era como um vulcão, prestes a explodir ao menor descuido. Foi por isso também que inventei as aulas de norueguês. Eu precisava de mais coisas para me ocupar. Para me distrair.
Eu devorara o livro das runas de um fôlego e claro que, na aula de piano seguinte, massacrei a Runa com tudo o que tinha aprendido. Perguntei-lhe se ela sabia que as runas só tinham traços verticais e diagonais porque isso tornava mais fácil gravá-las na madeira, no sentido dos veios. Se ela sabia que o alfabeto das runas se chamava futhark e que a sua versão mais comum tinha apenas 16 letras.
Claro que ela sabia. Não que fosse uma coisa normal de se saber mas o nome dela fizera-a interessar-se por isso. E depois falou-me de outro tipo de runas, não a escrita, mas as canções da região de Finnskogen, de onde a família dela era originária.
Explicou-me que “Rune” é uma palavra de origem germânica que significa segredo, ou magia, e isso significa que as canções rune são canções mágicas com origem shamanista. Há também runas líricas ou épicas, mas as mais vulgares são as de encantamento. Eram usadas por pessoas capazes de, com emoção e poder, cantar melodias improvisadas com pouco mais de cinco notas que repetiam durante horas para fazer curas ou criar protecções mágicas.
Eu perguntei-lhe mais coisas sobre o nome dela. Porque é que ela se chamava Runa, se a palavra norueguesa era “rune”. E ela explicou-me que era o mesmo que se chamar “a rune”, porque em norueguês o artigo era incluido no final do substantivo.
E porque é que o sobrenome dela se escrevia Eikaas, mas se lia “aicós”. E ela explicou-me que aa era o equivalente à letra å (que se lê “ó”), umas das três vogais extra que o norueguês acrescenta ao tradicional alfabeto latino. E que esse nome significava “colina dos carvalhos”.
Eu estava tão fascinado que lhe perguntei se ela me podia ensinar norueguês. E ela disse que sim.
A tia Júlia e a minha mãe também não disseram que não e, graças a isso, nos meses seguintes atazanei o Jaime com os meus ridículos e básicos conhecimentos de uma língua estranha, que nunca nenhum de nós tinha ouvido antes. O suficiente para ele se roer de inveja (o que era precisamente o objectivo). Até talvez tenha sido um pouco demais porque depois ele começou a pedir à tia Júlia para aprender também norueguês. Mas ela não foi na cantiga. Ela raramente cedia aos nossos caprichos. Em vez disso pô-lo a aprender árabe. Como se fosse a mesma coisa…

022 - Os Herdeiros (versao revista)

Foi ele quem correu para mim e me ajudou a levantar. Enquanto me observava, tentando ver se eu tinha partido alguma coisa, observei-o eu a ele, ambos indiferentes à histeria do Jaime e da tia Júlia que saltitavam à nossa volta.
Ele era bastante novo, bastante bonito e com uns olhos ternos mas decididos, que eram a sua maior arma, tal como a voz. Davam-lhe a liderança em qualquer situação. E no entanto, logo nesse momento eu soube que estava algo errado. Que o padre Matos não devia ser padre. Agora sei que o estava a comparar com outra pessoa, mas foi isso que, felizmente, me fez construir desde logo uma reserva em relação a ele.
Ninguém teve a mínima dúvida quando ele anunciou que eu estava bem, que era só o nariz a sangrar e alguns arranhões. Ele fora chefe de escuteiros, disse-nos, e tinha experiência nestas coisas. Os miúdos estavam sempre a aleijar-se.
A tia Júlia estava visívelmente mais aliviada, mas isso não livrou o Jaime de um raspanete. Enquanto ela corria a buscar algodão e água oxigenada para me limpar, ia desfiando a série de castigos que o iam ocupar durante a semana.
O padre Matos aproveitou a saída dela para me dizer que eu já podia tirar a revista pornográfica de dentro das calças. Ele sentira o livro das runas, quando me apalpara para ver se tinha costelas partidas. Eu assim fiz, sem me rir da “piada” dele, mais para aliviar o incómodo do que para lhe explicar que aquele volume não era nada do que ele julgava. O Jaime nem achou estranho que eu estivesse a esconder um livro, mas ambos olharam curiosos para a capa quando o pousei na secretária. E depois olharam para mim, como se a queda me tivesse afectado o juízo. Mas a tia Júlia voltou e o caos dos primeiros socorros acabou por desviar as atenções e nos levar para a sala, onde ela depois serviu chá e biscoitos para repor a calma e a ordem. O padre Matos contou-nos histórias dos escuteiros e, sendo ele tão absolutamente magnético e divertido, até acabou por ser uma tarde bem passada.
Assim se insinuou ele nas nossas vidas, quase sem darmos por isso, conquistando imediatamente a afeição do Jaime e da tia Júlia, só por me ter levantado do chão e nos ter feito rir com anedotas de adolescentes a cagar no mato.
E eu ria-me também, e tentava atribuir aquela sensação de que algo estava mal a todos os acontecimentos e neuroses do meu dia. Muito tempo passou até me ocorrer perguntar o que fora o padre Matos fazer a casa da tia Júlia naquela tarde. Tempo demais. Anos demais.
Como pude ser tão cego?