Demorei mais tempo do que o costume a regressar a casa, pensando no que de facto aquilo queria dizer. Nós éramos todos tão pouco religiosos e supersticiosos. Principalmente a tia Júlia que, todos os natais, insistia em nos contar a “verdadeira” história de São Nicolau, pondo especial ênfase na parte das criancinhas esquartejadas dentro da salgadeira (que, admito, era a nossa parte favorita). Desmistificar, era a palavra de ordem para tudo o que a tia Júlia dizia e fazia. Porquê lhe davam então as vizinhas o título de bruxa?
Aquilo perturbava-me, mas não devido a essa palavra … a quê, então?
Ao fundo da rua, a Sé de Lisboa estava já iluminada e eu lembro-me de ter sido essa uma das vezes em que mais fortemente uma vertigem histórica se apossou de mim. É raro pensar com tanta consciência em tudo o que já se passou no sítio onde vivemos. É uma colina de lisboa que já viu fenícios, gregos, romanos, visigodos, mouros, cristãos. As nossas ruas ficam entre a Praça do Rossio, onde já se queimaram bruxas, judeus e sodomitas, e a Prisão do Limoeiro onde, mais recentemente, se torturaram, não com menor requinte, intelectuais e liberais diversos. Ou seja, tudo pessoas com quem a nossa família reúne afinidades. E no entanto, como a minha mãe costumava dizer, “Que tempos abençoados estes em que vivemos, apesar de tudo". E depois vinha abraçar-me e acrescentava: “Sabes a sorte que temos? Eu, que nasci depois da guerra, e tu, que nasceste depois da ditadura? És uma criança abençoada, António. Aproveita a sorte de teres nascido agora. Olha só os livros todos que tens à tua disposição, tudo o que há no mundo na tua mão, sem censura e sem limites”. (Ela ainda repete isto, de vez em quando.)
Eu, naquele momento, saco cheio de batatas e cebolas, a caminho de casa, senti-me de facto previligiado, porque a minha mente, por segundos, quase conseguia ter a noção da enormidade do que se passara ali, naquela rua, naquela colina, naquela cidade, para que eu pudesse ir assim, tão despreocupado para casa, sem medo de bruxas. Uma vertigem histórica em que desfilava uma crescente erosão de preconceitos e superstições que permitiam que eu, nesse preciso momento, soubesse que os meus valores me permitiriam olhar lucidamente para este perturbante facto, de ter uma “bruxa” na família. E essa lucidez, que eu sempre tenho prezado tanto, devia-se, deve-se, precisamente, à tia Júlia.
Percebi assim que não era de facto a palavra “bruxa” que me perturbava, mas a implicação de que havia algo na vida da tia Júlia que me era desconhecido, talvez vedado. Ou, pior ainda, algo que ela ocultava de mim julgando que eu não fosse capaz de compreender.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
012 - Os Herdeiros (versao revista)
Eu nunca compreendera bem as reticências que a minha mãe punha em relação à tia Júlia. É que, apesar de termos começado a passar muito tempo lá, ela nunca deixava de manter uma certa frieza (que nem sequer lhe vinha dos genes alemães). A princípio, suponho que, de um modo inconsciente, liguei isso ao suicídio do meu pai mas, como esse era o assunto de que nunca se falava, apesar de estar no cerne do nó que unira as nossas famílias, deixei que continuasse imerso nas névoas do tabu.
Eu já devia ter uns treze anos quando, finalmente, me tive de confrontar com uma parte da vida da tia Júlia que, embora estivesse estado sempre presente, eu nunca tinha verdadeiramente visto, ou tomado consciência que existisse.
Aconteceu da maneira mais prosaica, ao fim de uma tarde em que a minha mãe me pedira para ir comprar batatas e cebolas à mercearia da esquina (que fica precisamente na esquina da rua entre a da tia Júlia e a nossa). Eu esperava para pagar, enquanto uma freguesa à minha frente falava com a dona do estabelecimento. Eu não seguia a conversa porque olhava para os chocolates, mas a certo ponto uma delas começou a falar de uma mulher do bairro que, pela descrição, eu identifiquei imediatamente como sendo a tia Júlia, embora o nome não fosse mencionado. E depois, referiu-se a ela como bruxa. E não era um insulto, ou mera difamação porque (e isto foi o que mais me surpreendeu), ao dizer a palavra, a sua voz baixou para um tom de grande respeito, ou reverência mesmo.
Eu já devia ter uns treze anos quando, finalmente, me tive de confrontar com uma parte da vida da tia Júlia que, embora estivesse estado sempre presente, eu nunca tinha verdadeiramente visto, ou tomado consciência que existisse.
Aconteceu da maneira mais prosaica, ao fim de uma tarde em que a minha mãe me pedira para ir comprar batatas e cebolas à mercearia da esquina (que fica precisamente na esquina da rua entre a da tia Júlia e a nossa). Eu esperava para pagar, enquanto uma freguesa à minha frente falava com a dona do estabelecimento. Eu não seguia a conversa porque olhava para os chocolates, mas a certo ponto uma delas começou a falar de uma mulher do bairro que, pela descrição, eu identifiquei imediatamente como sendo a tia Júlia, embora o nome não fosse mencionado. E depois, referiu-se a ela como bruxa. E não era um insulto, ou mera difamação porque (e isto foi o que mais me surpreendeu), ao dizer a palavra, a sua voz baixou para um tom de grande respeito, ou reverência mesmo.
011 - Os Herdeiros (versao revista)
Se a minha mãe começara por me despejar à tarde na casa da tia Júlia, fora por puro desespero. O horário dela na faculdade era bastante preenchido e o que ganhava não era suficiente para se poder dar ao luxo de me pôr num sitio que me ocupasse os tempos livres e onde se certificassem que eu fazia os trabalhos de casa. Quando a tia Júlia me pôs a aprender piano, a única coisa que pediu à minha mãe foi autorização. E ela, nesses termos, não se lembrou de nenhum motivo contra.
A vida social da minha mãe era quase nula. Trabalho, casa, trabalho e, os tempos livres que não passava comigo, ocupava-os também com trabalho na sua vertente mais lúdica, lendo literatura alemã. Suponho que em tempos isso fora um prazer. Agora tornara-se só parte da profissão. Até o plano dela de me ensinar alemão era constantemente adiado porque, depois de passar grande parte do dia a dar aulas, em casa preferia ficar calada. Não tinha amigos e a família resumia-se a nós dois e uns primos dela, que, embora não fossem os tais ramos mortos da árvore genealógica, continuavam a viver na Alemanha e ela já nem postais de Natal lhes mandava.
Os serões em casa da tia Júlia, cuja frequência se foi progressivamente transformando num hábito diário, eram para ela um escape à monotonia e mediocridade académica. Costumava apenas ficar a ouvir-nos mas, de vez em quando, observava que falávamos de coisas anormalmente adultas e culturais. E depois queixava-se de que, desde que deixara de seguir as novelas, não tinha mais assunto para conversas na universidade. Mas nós riamo-nos e continuávamos a ouvir as explicações da tia Júlia sobre a omnipresença da regra de ouro na Natureza, por exemplo.
A vida social da minha mãe era quase nula. Trabalho, casa, trabalho e, os tempos livres que não passava comigo, ocupava-os também com trabalho na sua vertente mais lúdica, lendo literatura alemã. Suponho que em tempos isso fora um prazer. Agora tornara-se só parte da profissão. Até o plano dela de me ensinar alemão era constantemente adiado porque, depois de passar grande parte do dia a dar aulas, em casa preferia ficar calada. Não tinha amigos e a família resumia-se a nós dois e uns primos dela, que, embora não fossem os tais ramos mortos da árvore genealógica, continuavam a viver na Alemanha e ela já nem postais de Natal lhes mandava.
Os serões em casa da tia Júlia, cuja frequência se foi progressivamente transformando num hábito diário, eram para ela um escape à monotonia e mediocridade académica. Costumava apenas ficar a ouvir-nos mas, de vez em quando, observava que falávamos de coisas anormalmente adultas e culturais. E depois queixava-se de que, desde que deixara de seguir as novelas, não tinha mais assunto para conversas na universidade. Mas nós riamo-nos e continuávamos a ouvir as explicações da tia Júlia sobre a omnipresença da regra de ouro na Natureza, por exemplo.
010 - Os Herdeiros (versao revista)
As aulas eram às terças e quintas, supostamente durante as horas em que o Jaime ainda estivesse a fazer os trabalhos dele. Mas, em breve, era ele quem ficava à nossa espera, espreitando à porta da sala para ver se ainda íamos demorar muito, intrigado com os estranhos movimentos de solfejo que eu fazia enquanto entoava penosamente o nome das notas. E como a tia Júlia acabou por pagar horas extra à Runa, que não se importava nada de extender as aulas até ao limite da minha paciência (que era grande), passou a ser o Jaime a ficar impaciente e a entreter-se atazinando a tia Júlia para lá dos limites da paciência dos santos.
O castigo dele tomou a forma de aulas de tiro com arco. Na altura ninguém se questionou porquê, parecia apenas uma boa maneira de tirar o Jaime de casa às terças e quintas à tarde. Eu roí-me de inveja. É muito mais cool ser o Robin dos Bosques do que o Chopin. Quando ele apareceu lá em casa pela primeira vez com o arco e as flechas que ia usar nas aulas ficámos uma boa hora a olhar para elas, pousadas em cima da cama, numa reverência histérica e babada. É claro que quisémos brincar aos índios e cowboys mas a tia Júlia advertiu-nos logo que aquilo não era um brinquedo e que se nos ouvisse a ulular pelos corredores era ela quem nos arrancava o escalpe. Aquilo era uma actividade séria. Um desporto. Uma das provas olímpicas. E para enfatizar a sua importância, enfadou-nos com a história das olimpíadas.
A Runa, por seu lado, apercebendo-se da minha súbita falta de concentração nas aulas, voltou a trazer discos. E ouvimos a abertura de “Guilherme Tell” de Rossini enquanto ela me contava a história dessa ópera. Que eu contei ao Jaime, à tia Júlia e à minha mãe nessa noite, enquanto ouviamos o disco, emprestado pela Runa, e comiamos a sobremesa.
Essa foi a primeira noite em que a minha mãe acedeu a ficar para jantar.
Na altura, eu era demasiado novo para entender pequenas subtilezas sociais, mas agora sei que essa noite foi a primeira grande vitória da tia Júlia. Conseguira finalmente juntar-nos aos quatro e começar a construir qualquer coisa parecida com um lar, uma família.
O castigo dele tomou a forma de aulas de tiro com arco. Na altura ninguém se questionou porquê, parecia apenas uma boa maneira de tirar o Jaime de casa às terças e quintas à tarde. Eu roí-me de inveja. É muito mais cool ser o Robin dos Bosques do que o Chopin. Quando ele apareceu lá em casa pela primeira vez com o arco e as flechas que ia usar nas aulas ficámos uma boa hora a olhar para elas, pousadas em cima da cama, numa reverência histérica e babada. É claro que quisémos brincar aos índios e cowboys mas a tia Júlia advertiu-nos logo que aquilo não era um brinquedo e que se nos ouvisse a ulular pelos corredores era ela quem nos arrancava o escalpe. Aquilo era uma actividade séria. Um desporto. Uma das provas olímpicas. E para enfatizar a sua importância, enfadou-nos com a história das olimpíadas.
A Runa, por seu lado, apercebendo-se da minha súbita falta de concentração nas aulas, voltou a trazer discos. E ouvimos a abertura de “Guilherme Tell” de Rossini enquanto ela me contava a história dessa ópera. Que eu contei ao Jaime, à tia Júlia e à minha mãe nessa noite, enquanto ouviamos o disco, emprestado pela Runa, e comiamos a sobremesa.
Essa foi a primeira noite em que a minha mãe acedeu a ficar para jantar.
Na altura, eu era demasiado novo para entender pequenas subtilezas sociais, mas agora sei que essa noite foi a primeira grande vitória da tia Júlia. Conseguira finalmente juntar-nos aos quatro e começar a construir qualquer coisa parecida com um lar, uma família.
009 - Os Herdeiros (versao revista)
Ao chegar da escola, na tarde seguinte, encontrei uma senhora alta, de penetrantes olhos azuis, à minha espera na sala. Fiquei ainda mais intimidado depois das apresentações. Ela era estrangeira, norueguesa. Apesar do seu sorriso e do sotaque divertido, aquilo não prometia vir a ter piada nenhuma, e o piano, regressado à sua habitual verticalidade, parecia rir-se de mim com os seus dentes restaurados. O Jaime fora recambiado para o quarto dele e depois também a tia Júlia se retirou para que eu pudesse ter a minha primeira aula de música. Porque, embora o plano fosse ensinarem-me a tocar piano, eu primeiro tinha de aprender música, por isso, nas primeiras aulas pouco toquei. A Runa (era o nome da professora) teve de começar por me ensinar a ler e a escrever música, com enorme paciência. Durante semanas apresentou-me o mundo das pautas, compassos, claves, mínimas, semínimas e colcheias. Era um conceito interessante, como se podia escrever num papel os sons que se ouviam, mas aqueles símbolos não significavam nada para mim. A minha relação com a escrita musical era totalmente abstacta, mesmo que ela tocasse as notas no piano. E quando ela se apercebeu disso, compreendeu que tinha de começar por me fazer ouvir música e por isso, durante algumas aulas, pouco mais fizémos que dedicar-nos à audição de discos que ela trazia. Começámos por clássicos agradáveis e didáticos como “Pedro e o Lobo” de Prokofiev e “The young persons guide to the orchestra” de Britten, que ela ia comentando, mas por fim chegou o momento que me marcaria a fogo. Quando eu, arrepiadinho até aos ossos pela abertura da “Carmina Burana” de Carl Orff, tive de lhe perguntar para confirmar:
“Mas isto está escrito? É possível ler ISTO de um papel?”
Ela deu uma gargalhada, mas depois, percebendo o que eu queria dizer, assentiu seriamente com a cabeça. E foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que me pôs na disposição de aprender tudo o que ela tivesse para me ensinar.
O Fortuna, velut luna…
“Mas isto está escrito? É possível ler ISTO de um papel?”
Ela deu uma gargalhada, mas depois, percebendo o que eu queria dizer, assentiu seriamente com a cabeça. E foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que me pôs na disposição de aprender tudo o que ela tivesse para me ensinar.
O Fortuna, velut luna…
008 - Os Herdeiros (versao revista)
Havia um piano em casa da tia Júlia. Estava plantado na sala, verticalmente encostado a uma parede, no lugar onde se esperaria uma televisão, e devia ter começado a criar raízes aí no século XIX. Fazia tão parte da casa como o estuque trabalhado dos tectos e certamente sobrevivera a todas as mudanças de proprietários do apartamento. Era um pouco como o actual frigorífico, que é o que normalmente fica para trás, quando se vende uma casa. Aposto que, na altura de uma mudança, aquele piano, ganhava nomes como “traste monstruoso” ou “elefante desafinado”. Era um objecto esquecido e a única utilidade que ainda tinha era como prateleira para molduras, bibelots e livros. Mas dava um certo “ar” à sala, e julgo que era por isso que nem mesmo a tia Júlia, que era tão prática e pouco dada a “ares”, o deixara ficar. E também, não se conseguia deixar de ter pena daquele objecto tão desastradamente elegante.
Outra característica do piano era ter um efeito magnético em momentos ociosos. Ninguém resistia, a dada altura, a abrir-lhe a tampa e carregar nas teclas. Os adultos que faziam isso paravam imediatamente assim que a primeira nota, num volume inesperadamente alto, ecoava pelo prédio. Era um som de agonia metálica e mecânica tão insuportável que só se podia gemer em compaixão para com o pobre instrumento.
Mas as crianças, ou seja, eu e o Jaime, tinhamos um verdadeiro fascínio por aquilo e, em fantásticos duetos a quatro mãos, ou despiques à vez, aperfeiçoávamos a arte de extorquir dali os mais arrepiantes, insuportáveis e massacrantes sons. O objectivo final era fazer com que a tia Júlia viesse lá de dentro ensandecida e gritasse o seu habitual “Pelos sete demónios de Madalena!!!”, que era a sua expressão máxima de exasperação e que nunca falhava para nos deixar em convulsões de riso histérico.
A brincadeira tomou tais proporções que a tia Júlia teve de tomar medidas drásticas. E fui eu quem fez o copo transbordar com a última gota de água.
Os meus mais solitários momentos de ócio eram passados naquela sala, nas tardes em que eu tinha de esperar que o Jaime acabasse os trabalhos de casa dele. A tia Júlia normalmente deixava-me com um livro e ia para a cozinha tratar dos afazeres domésticos. Mas isto passou-se numa fase anterior áquela que te descrevi, em que o tráfico clandestino de livros me andava a alimentar um vício de leitura. Isto de que te estou a falar passou-se quando eu tinha oito, quase nove, anos e a única coisa que me interessava era que o Jaime se despachasse para irmos montar a pista de carros para fazermos corridas. Não havia livro no mundo capaz de merecer a minha atenção, nesses momentos. E a minha fonte de consolo era aquele piano, que, com a sua voz de pecador torturado num círculo fundo do inferno, era a única coisa capaz de expressar o que me ia na alma.
E, por mais raspanetes, e mesmo promessas de tareia que a tia Júlia me fizesse, eu não conseguia ficar sentadinho nos cadeirões da sala, com um livro no colo. Pelo canto do olho, aquele mastodonte anti-melódico chamava-me sempre para uma sessão de catártica agonia sonora.
Até que um dia, vinda lá de dentro numa fúria, depois de me atirar com a praga dos sete demónios da Madalena, a tia Júlia olhou para mim seriamente e deve ter tido uma epifania. Em vez de me dar os açoites que o comum mortal adoraria descarregar em cima de mim, disse-me, numa voz gelada, que não estava para aturar os meus olhitos de bambi hipócritas:
“Muito bem! Foi a última vez que isto aconteceu. Agora vais-te sentar ali, ler o teu livrinho e ficar calado. E eu vou tratar imediatamente do teu castigo. Vais ver, meu menino… nem sabes o que te espera!”
E foi para o telefone pôr em acção o seu mais maquiavélico e diabólico plano, que acabaria por me moldar, irremediavelmente, a vida.
Outra característica do piano era ter um efeito magnético em momentos ociosos. Ninguém resistia, a dada altura, a abrir-lhe a tampa e carregar nas teclas. Os adultos que faziam isso paravam imediatamente assim que a primeira nota, num volume inesperadamente alto, ecoava pelo prédio. Era um som de agonia metálica e mecânica tão insuportável que só se podia gemer em compaixão para com o pobre instrumento.
Mas as crianças, ou seja, eu e o Jaime, tinhamos um verdadeiro fascínio por aquilo e, em fantásticos duetos a quatro mãos, ou despiques à vez, aperfeiçoávamos a arte de extorquir dali os mais arrepiantes, insuportáveis e massacrantes sons. O objectivo final era fazer com que a tia Júlia viesse lá de dentro ensandecida e gritasse o seu habitual “Pelos sete demónios de Madalena!!!”, que era a sua expressão máxima de exasperação e que nunca falhava para nos deixar em convulsões de riso histérico.
A brincadeira tomou tais proporções que a tia Júlia teve de tomar medidas drásticas. E fui eu quem fez o copo transbordar com a última gota de água.
Os meus mais solitários momentos de ócio eram passados naquela sala, nas tardes em que eu tinha de esperar que o Jaime acabasse os trabalhos de casa dele. A tia Júlia normalmente deixava-me com um livro e ia para a cozinha tratar dos afazeres domésticos. Mas isto passou-se numa fase anterior áquela que te descrevi, em que o tráfico clandestino de livros me andava a alimentar um vício de leitura. Isto de que te estou a falar passou-se quando eu tinha oito, quase nove, anos e a única coisa que me interessava era que o Jaime se despachasse para irmos montar a pista de carros para fazermos corridas. Não havia livro no mundo capaz de merecer a minha atenção, nesses momentos. E a minha fonte de consolo era aquele piano, que, com a sua voz de pecador torturado num círculo fundo do inferno, era a única coisa capaz de expressar o que me ia na alma.
E, por mais raspanetes, e mesmo promessas de tareia que a tia Júlia me fizesse, eu não conseguia ficar sentadinho nos cadeirões da sala, com um livro no colo. Pelo canto do olho, aquele mastodonte anti-melódico chamava-me sempre para uma sessão de catártica agonia sonora.
Até que um dia, vinda lá de dentro numa fúria, depois de me atirar com a praga dos sete demónios da Madalena, a tia Júlia olhou para mim seriamente e deve ter tido uma epifania. Em vez de me dar os açoites que o comum mortal adoraria descarregar em cima de mim, disse-me, numa voz gelada, que não estava para aturar os meus olhitos de bambi hipócritas:
“Muito bem! Foi a última vez que isto aconteceu. Agora vais-te sentar ali, ler o teu livrinho e ficar calado. E eu vou tratar imediatamente do teu castigo. Vais ver, meu menino… nem sabes o que te espera!”
E foi para o telefone pôr em acção o seu mais maquiavélico e diabólico plano, que acabaria por me moldar, irremediavelmente, a vida.
007 - Os Herdeiros (versao revista)
Que acharás tu do Jaime? Tu só o viste duas vezes e ambas foram…bem…chamemos-lhes… circunstâncias invulgares.
O Jaime tem exactamente a mesma idade que eu (e a mesma que tu, claro). Isso, as viuvezes da minha mãe e da tia Júlia e a nossa vizinhaça foi o que de início fez com que passássemos tanto tempo juntos.
Mas uma coisa que acho curiosa, agora que olho para trás e vejo a mão da tia Júlia em tanta coisa, é que, embora ela cuidasse da nossa educação com igual interesse, nós nunca estudámos juntos na mesma escola. O Jaime era sempre posto em escolas particulares, liceus finos, universidade privada e eu estive sempre no ensino público.
Era só as tardes que passávamos juntos e, mesmo assim, muitas vezes, eu tinha de esperar que ele acabasse os trabalhos de casa, porque os meus faziam-se em meia-hora enquanto que os dele levavam a tarde quase toda. Mas eram depois as poucas horas ao fim do dia que valiam. Quando brincávamos juntos.
A minha mãe chegava antes do jantar para me vir buscar, vinda da universidade. Tão exausta que mal conseguia cozinhar. Mas, apesar dos meus pedidos insistentes, ela raramente cedia a ficar em casa da tia Júlia para jantar. Acho que ela queria aqueles momentos só para nós, mesmo que eu comesse a sopa de trombas, a pensar na nave espacial de legos que eu e o Jaime tínhamos começado a construir. E insistia em rever comigo os trabalhos de casa. Eram sufocantes, os trabalhos de casa. Uma idiotice. E as nossas noites passadas frente à televisão, uma seca. Eu não me interessava pelas novelas e a minha mãe adormecia no sofá em menos de vinte minutos. Era nessas alturas que a ausência do Jaime se assemelhava a uma dor. A minha mãe a ressonar, a sala iluminada pela aura inane da televisão, e o resto da casa às escuras. E a minha solidão.
Para além do Jaime, os meus únicos amigos eram os livros. O que não era exactamente saudável. Não preciso explicar-te em detalhe o que isto fazia à minha vida na escola. Eu era o menino que fazia sempre os trabalhos de casa, sabia tudo e tinha sempre boas notas. Odiavam-me de morte, na escola. E eu odiava aquele culto diário da estupidificação metódica.
Quando foi que a minha mãe cedeu à tia Júlia? Não sei precisar a data. Mas começou certamente com as minhas aulas de piano. E de norueguês.
O Jaime tem exactamente a mesma idade que eu (e a mesma que tu, claro). Isso, as viuvezes da minha mãe e da tia Júlia e a nossa vizinhaça foi o que de início fez com que passássemos tanto tempo juntos.
Mas uma coisa que acho curiosa, agora que olho para trás e vejo a mão da tia Júlia em tanta coisa, é que, embora ela cuidasse da nossa educação com igual interesse, nós nunca estudámos juntos na mesma escola. O Jaime era sempre posto em escolas particulares, liceus finos, universidade privada e eu estive sempre no ensino público.
Era só as tardes que passávamos juntos e, mesmo assim, muitas vezes, eu tinha de esperar que ele acabasse os trabalhos de casa, porque os meus faziam-se em meia-hora enquanto que os dele levavam a tarde quase toda. Mas eram depois as poucas horas ao fim do dia que valiam. Quando brincávamos juntos.
A minha mãe chegava antes do jantar para me vir buscar, vinda da universidade. Tão exausta que mal conseguia cozinhar. Mas, apesar dos meus pedidos insistentes, ela raramente cedia a ficar em casa da tia Júlia para jantar. Acho que ela queria aqueles momentos só para nós, mesmo que eu comesse a sopa de trombas, a pensar na nave espacial de legos que eu e o Jaime tínhamos começado a construir. E insistia em rever comigo os trabalhos de casa. Eram sufocantes, os trabalhos de casa. Uma idiotice. E as nossas noites passadas frente à televisão, uma seca. Eu não me interessava pelas novelas e a minha mãe adormecia no sofá em menos de vinte minutos. Era nessas alturas que a ausência do Jaime se assemelhava a uma dor. A minha mãe a ressonar, a sala iluminada pela aura inane da televisão, e o resto da casa às escuras. E a minha solidão.
Para além do Jaime, os meus únicos amigos eram os livros. O que não era exactamente saudável. Não preciso explicar-te em detalhe o que isto fazia à minha vida na escola. Eu era o menino que fazia sempre os trabalhos de casa, sabia tudo e tinha sempre boas notas. Odiavam-me de morte, na escola. E eu odiava aquele culto diário da estupidificação metódica.
Quando foi que a minha mãe cedeu à tia Júlia? Não sei precisar a data. Mas começou certamente com as minhas aulas de piano. E de norueguês.
006 - Os Herdeiros (versao revista)
Outra coisa que também se torna evidente no que escrevi. É que, de certo modo, vinte anos depois, continuo sem ter uma noção realista do que se passa à minha volta. Que tenho andado a viver como se a vida fosse uma festa, quando afinal é um velório.
Perdoa-me, Joana. É difícil combater toda esta morbidez quando durante uma semana (ou uma vida) se anda encharcado em morte e em sangue (E isto literalmente! A propósito, a ferida já se nota pouco. A cicatriz vai ficar grande, de certeza, mas fica um pouco escondida pela barba, que estou seriamente a pensar deixar crescer, e só aqui no quarto é que tenho tirado o cachecol. É estranho olhar-me no espelho. Fico mesmo diferente de barba. Bastou uma semana sem a fazer. E sinto-me diferente, também. Sabes, acho que estou a precisar de chorar, para verdadeiramente voltar a mim, mas estou tão cansado que nem isso consigo fazer…)
Enfim, perdoa-me todas estas digressões mas é difícil não me perder. Li e reli o que já escrevi e percebo que isto não será útil apenas para ti. Eu preciso voltar a sítios da minha vida que são como aquele corredor da casa da tia Júlia que achei tão comprido e escuro aos cinco anos. Agora sei perfeitamente onde estão os quartos, a despensa, a cozinha. Sei onde vai dar cada uma das portas. Mas não é o hábito que torna as coisas mais compreensíveis. O hábito cega-te. Eu preciso voltar a esse corredor e tentar perceber o que vi quando abri as portas, em diferentes momentos da minha vida. Tenho a certeza que será aí que vou achar a pista de que preciso agora para encontrar o Jaime. As páginas amarelas de Salzburgo são inúteis. Talvez até consiga perceber do que é que ele anda a fugir (ou o que é que ele anda a combater?). Porque, sabes, eu tenho uma séria suspeita do que é, mas, como o Dom Quixote alternativo, eu, neste momento, preferia não acreditar em gigantes…
Perdoa-me, Joana. É difícil combater toda esta morbidez quando durante uma semana (ou uma vida) se anda encharcado em morte e em sangue (E isto literalmente! A propósito, a ferida já se nota pouco. A cicatriz vai ficar grande, de certeza, mas fica um pouco escondida pela barba, que estou seriamente a pensar deixar crescer, e só aqui no quarto é que tenho tirado o cachecol. É estranho olhar-me no espelho. Fico mesmo diferente de barba. Bastou uma semana sem a fazer. E sinto-me diferente, também. Sabes, acho que estou a precisar de chorar, para verdadeiramente voltar a mim, mas estou tão cansado que nem isso consigo fazer…)
Enfim, perdoa-me todas estas digressões mas é difícil não me perder. Li e reli o que já escrevi e percebo que isto não será útil apenas para ti. Eu preciso voltar a sítios da minha vida que são como aquele corredor da casa da tia Júlia que achei tão comprido e escuro aos cinco anos. Agora sei perfeitamente onde estão os quartos, a despensa, a cozinha. Sei onde vai dar cada uma das portas. Mas não é o hábito que torna as coisas mais compreensíveis. O hábito cega-te. Eu preciso voltar a esse corredor e tentar perceber o que vi quando abri as portas, em diferentes momentos da minha vida. Tenho a certeza que será aí que vou achar a pista de que preciso agora para encontrar o Jaime. As páginas amarelas de Salzburgo são inúteis. Talvez até consiga perceber do que é que ele anda a fugir (ou o que é que ele anda a combater?). Porque, sabes, eu tenho uma séria suspeita do que é, mas, como o Dom Quixote alternativo, eu, neste momento, preferia não acreditar em gigantes…
005 - Os Herdeiros (versao revista)
Mesmo que haja qualquer coisa de dura verdade nesta analogia de Dom Quixote e Sancho Pança, a nossa relação nunca foi essa. O Jaime para mim é um… (deus, a nossa família é tão complicada!)… um primo, um irmão, um amigo, um amante. É o meu…amado.
Mas deixa-me explicar-te a genealogia. Ninguém ta explicou ainda e isso é-te mais do que devido. É muito simples até, mas, não sei porquê (e, de momento, nem quero tentar saber porquê), enredámo-nos todos, voluntária ou involuntáriamente, numa teia de enganos para quem estava de fora porque se trocaram nomes (e mesmo pessoas, como sabes… mas lá chegaremos…).
O meu pai era, de facto, sobrinho da tia Júlia. É por isso que a minha mãe sempre lhe chamou tia. E eu, de ouvir a minha mãe, chamava-a assim também.
O Jaime chamava-lhe avó Júlia porque ela fora casada com o senhor Augusto, verdadeiro avô dele, mas ela não fora mãe do pai do Jaime.
Ou seja, eu e o Jaime se calhar nem somos suficientemente chegados por laços de sangue para sequer nos chamarmos primos. Crescemos em casas diferentes, mas fomos criados como se fôssemos irmãos.
Aqui está o básico, antes me de meter na dor de aprofundar o assunto. Pensa nisto como uma história e começa a lê-la imaginando-nos a crescer como se fôssemos primos ou irmãos.
Nós moramos com duas ruas de premeio, mas acabámos por fazer uma pequena família, eu e a minha mãe, o Jaime e a avó dele. É que, a toda a volta, para onde quer que se olhasse nos ramos da árvore geneológica, só havia mortos. E desses, evitava falar-se. (Principalmente do meu pai, porque a minha mãe nunca lhe perdoou o facto de ele se ter enforcado na cozinha, no dia do meu primeiro aniversário).
Embora fossemos vizinhos próximos, foi só depois da morte do senhor Augusto que começámos a frequentar mais a casa da tia Júlia. É um bocado parvo dizer “frequentar”, como se fosse um café, porque, na verdade, é a minha outra casa. Foi há tanto tempo que nem me lembro de quando a comecei a sentir isso, que as duas casas eram uma, quase como se a casa onde vivia com a minha mãe fosse o quarto e a cozinha e a casa da tia Júlia, a sala, a biblioteca e o quarto do Jaime (o meu outro quarto).
Voltei a ler o que te escrevi sobre aquele episódio do velório do senhor Augusto e percebi que, de facto, até aquela altura, a casa da tia Júlia era um território inexplorado para mim, com sítios proibidos, assustadores mesmo. E é muito estranho pensar nesses termos sobre um sítio que se tornou um lar para mim e no qual nada me é estranho. Nem mesmo o quarto da tia Júlia, que fora muito tempo o santo dos santos, porque, nos últimos anos, durante a doença dela, juntávamo-nos todos aí, como se fosse a sala, como se nada se passasse…E sabes, nessa altura, nem por um momento me lembrei que fora naquela mesma cama, onde a tia Júlia ia morrendo aos poucos, que eu vira o homem de negro sentado ao lado do senhor Augusto. Nem quando me sentei no mesmo sítio onde ele se sentara e disse ao Jaime, igualmente drenado de sentimentos, constatando o facto, as mesmas palavras que dissera ao homem de negro: ela está morta.
Mas deixa-me explicar-te a genealogia. Ninguém ta explicou ainda e isso é-te mais do que devido. É muito simples até, mas, não sei porquê (e, de momento, nem quero tentar saber porquê), enredámo-nos todos, voluntária ou involuntáriamente, numa teia de enganos para quem estava de fora porque se trocaram nomes (e mesmo pessoas, como sabes… mas lá chegaremos…).
O meu pai era, de facto, sobrinho da tia Júlia. É por isso que a minha mãe sempre lhe chamou tia. E eu, de ouvir a minha mãe, chamava-a assim também.
O Jaime chamava-lhe avó Júlia porque ela fora casada com o senhor Augusto, verdadeiro avô dele, mas ela não fora mãe do pai do Jaime.
Ou seja, eu e o Jaime se calhar nem somos suficientemente chegados por laços de sangue para sequer nos chamarmos primos. Crescemos em casas diferentes, mas fomos criados como se fôssemos irmãos.
Aqui está o básico, antes me de meter na dor de aprofundar o assunto. Pensa nisto como uma história e começa a lê-la imaginando-nos a crescer como se fôssemos primos ou irmãos.
Nós moramos com duas ruas de premeio, mas acabámos por fazer uma pequena família, eu e a minha mãe, o Jaime e a avó dele. É que, a toda a volta, para onde quer que se olhasse nos ramos da árvore geneológica, só havia mortos. E desses, evitava falar-se. (Principalmente do meu pai, porque a minha mãe nunca lhe perdoou o facto de ele se ter enforcado na cozinha, no dia do meu primeiro aniversário).
Embora fossemos vizinhos próximos, foi só depois da morte do senhor Augusto que começámos a frequentar mais a casa da tia Júlia. É um bocado parvo dizer “frequentar”, como se fosse um café, porque, na verdade, é a minha outra casa. Foi há tanto tempo que nem me lembro de quando a comecei a sentir isso, que as duas casas eram uma, quase como se a casa onde vivia com a minha mãe fosse o quarto e a cozinha e a casa da tia Júlia, a sala, a biblioteca e o quarto do Jaime (o meu outro quarto).
Voltei a ler o que te escrevi sobre aquele episódio do velório do senhor Augusto e percebi que, de facto, até aquela altura, a casa da tia Júlia era um território inexplorado para mim, com sítios proibidos, assustadores mesmo. E é muito estranho pensar nesses termos sobre um sítio que se tornou um lar para mim e no qual nada me é estranho. Nem mesmo o quarto da tia Júlia, que fora muito tempo o santo dos santos, porque, nos últimos anos, durante a doença dela, juntávamo-nos todos aí, como se fosse a sala, como se nada se passasse…E sabes, nessa altura, nem por um momento me lembrei que fora naquela mesma cama, onde a tia Júlia ia morrendo aos poucos, que eu vira o homem de negro sentado ao lado do senhor Augusto. Nem quando me sentei no mesmo sítio onde ele se sentara e disse ao Jaime, igualmente drenado de sentimentos, constatando o facto, as mesmas palavras que dissera ao homem de negro: ela está morta.
004 - Os Herdeiros (versao revista)
A minha relação com o Jaime foi, desde sempre, moldada pela tia Júlia. É claro que eu me apercebia disso, mas só nestas últimas semanas se tornou claro o frio, calculado, propósito de tudo. E é isso que me tem perturbado, porque não creio ter compreendido ainda a verdadeira extensão daquilo que, receio, seja…
(espera, deixa-me explicar outra coisa primeiro)
Esta manhã, no quiosque do aeroporto, enquanto olhava para os livros (velhos hábitos nunca se perdem, de resto como ia eu passar o tempo? A roer (ainda mais) as unhas?), houve uma recordação que me assaltou quando vi uma edição alemã do Dom Quixote (sim, comemorativa do aniversário e por isso encadernada e com ilustrações — é tão lindo achar coisas destas num quiosque de paperbacks!).
A forma como a tia Júlia nos fazia ler os clássicos era verdadeiramente insidiosa. Esse era um daqueles seus planos abertamente maquiavélicos de que, depois, ela própria se ria. Acontecia eu achar, casualmente, metido na minha mochila da escola, entre os livros de Física e Matemática, as Fábulas de La Fontaine, ilustradas por Gustave Doré. E, em vez de passar a tarde a fazer os trabalhos da escola, devorava aquelas histórias com animais sábios e tolos.
É claro que eu sabia que fora ela quem colocara o livro ali. Mas era um segredo. Só meu e dela. E depois, inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, haveria um interrogatório. Subtil, mas impiedoso.
Estaríamos a lanchar, e ela, cortando o queijo, diria:
“Diz o povo que comer muito queijo torna as pessoas esquecidas.”
E eu:
“Ai é? “
“Mas não os meninos bonitos. E tu és um menino bonito, não és, António? Diz lá…”
E eu ria-me.
“Um corvo é que não sou de certeza! Mas a tia é uma raposa! Das mais matreiras!”
E ríamo-nos os dois. E o Jaime ficava a olhar para nós, a perguntar:
“O que foi? O que foi?”
“Explica-lhe lá…” diria ela, e eu passaria a tarde a contar as fábulas que lera ao Jaime, começando pela da raposa que elogiara a voz do corvo para que ele abrisse o bico e deixasse cair um queijo. Ela ficava a ouvir-nos. Sorridente. Orgulhosa. E eu feliz, por saber que não a deixara mal. O facto de ela me deixar falar, ensinar algo ao Jamie, sabendo que eu sabia e confiando esse saber a mim, era o único elogio de que eu precisava. E isto era viciante.
Meses ou semanas depois, acharia eu, por acaso, na mesa da sala, uma cópia do Dom Quixote, ilustrado também por Gustave Doré, aberto na página em que Sancho Pança puxa o burro teimoso monte acima e olha desconsolado para o Dom Quixote e o Rocinante, que caíram ridiculamente de pernas para o ar, derrotados pelos moinhos. Divertidíssimo, eu pegava no livro, lia umas quantas páginas, e tinha de o “roubar”. Punha-o na mochila e lia-o em casa, de uma assentada, ao longo de umas quantas noites. Depois devolvia-o. Foi neste sistema que depois vieram “A Divina Comédia”. E o “Paraíso Perdido”. Gustave Doré como diabólico cúmplice da tia Júlia.
Mas o que me veio à memória no aeroporto foi uma conversa que tivémos já nem sei quando, em que ela aproveitou para me tentar explicar uma coisa através do Dom Quixote. Tinhamos começado a falar de religião (assunto banal naquela casa) e depois de fé, e de crença, e no final a conversa descambou mais ou menos nisto, exemplo típico da lição de moral à la tia Júlia:
“António, as pessoas acreditam no que querem acreditar. Não podemos ridicularizar a fé das outras pessoas porque aquilo em que elas acreditam é a realidade para elas. A realidade é sempre uma construção mental do indivíduo. Lembras-te do Dom Quixote? Do episódio dos moinhos? Dom Quixote e Sancho Pança passam por uns moinhos num monte e o Dom Quixote, convencido de que estes são gigantes, ataca-os e acaba espatifado e feito num oito, com o Sancho Pança espantado com tanta loucura e ridículo.
Mas agora, imagina tu o oposto. Imagina que, de facto, os moinhos eram gigantes que, ao longe, Dom Quixote toma por moinhos porque não acredita na existência de gigantes. Seriam ambos certamente atacados pelos gigantes e Dom Quixote, fraquito como era, não conseguiria defender-se nem a si nem ao seu amigo. Talvez se safasse, porque, afinal de contas, tinha uma armadura, mas os gigantes seriam certamente maus e impiedosos, pelo que, nesta versão inversa, Sancho Pança não escaparia com vida e seria ele a jazer no chão, mas inevitavelmente morto. E seria o Dom Quixote, sobrevivente amolgado, a lamentar a sua própria insanidade.
Agora, o que achas preferível? Alguém que se submete ao ridículo por acreditar em algo sobrenatural ou alguém incapaz de salvar um amigo da morte por não acreditar naquilo que tem em frente dos olhos?”
(espera, deixa-me explicar outra coisa primeiro)
Esta manhã, no quiosque do aeroporto, enquanto olhava para os livros (velhos hábitos nunca se perdem, de resto como ia eu passar o tempo? A roer (ainda mais) as unhas?), houve uma recordação que me assaltou quando vi uma edição alemã do Dom Quixote (sim, comemorativa do aniversário e por isso encadernada e com ilustrações — é tão lindo achar coisas destas num quiosque de paperbacks!).
A forma como a tia Júlia nos fazia ler os clássicos era verdadeiramente insidiosa. Esse era um daqueles seus planos abertamente maquiavélicos de que, depois, ela própria se ria. Acontecia eu achar, casualmente, metido na minha mochila da escola, entre os livros de Física e Matemática, as Fábulas de La Fontaine, ilustradas por Gustave Doré. E, em vez de passar a tarde a fazer os trabalhos da escola, devorava aquelas histórias com animais sábios e tolos.
É claro que eu sabia que fora ela quem colocara o livro ali. Mas era um segredo. Só meu e dela. E depois, inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, haveria um interrogatório. Subtil, mas impiedoso.
Estaríamos a lanchar, e ela, cortando o queijo, diria:
“Diz o povo que comer muito queijo torna as pessoas esquecidas.”
E eu:
“Ai é? “
“Mas não os meninos bonitos. E tu és um menino bonito, não és, António? Diz lá…”
E eu ria-me.
“Um corvo é que não sou de certeza! Mas a tia é uma raposa! Das mais matreiras!”
E ríamo-nos os dois. E o Jaime ficava a olhar para nós, a perguntar:
“O que foi? O que foi?”
“Explica-lhe lá…” diria ela, e eu passaria a tarde a contar as fábulas que lera ao Jaime, começando pela da raposa que elogiara a voz do corvo para que ele abrisse o bico e deixasse cair um queijo. Ela ficava a ouvir-nos. Sorridente. Orgulhosa. E eu feliz, por saber que não a deixara mal. O facto de ela me deixar falar, ensinar algo ao Jamie, sabendo que eu sabia e confiando esse saber a mim, era o único elogio de que eu precisava. E isto era viciante.
Meses ou semanas depois, acharia eu, por acaso, na mesa da sala, uma cópia do Dom Quixote, ilustrado também por Gustave Doré, aberto na página em que Sancho Pança puxa o burro teimoso monte acima e olha desconsolado para o Dom Quixote e o Rocinante, que caíram ridiculamente de pernas para o ar, derrotados pelos moinhos. Divertidíssimo, eu pegava no livro, lia umas quantas páginas, e tinha de o “roubar”. Punha-o na mochila e lia-o em casa, de uma assentada, ao longo de umas quantas noites. Depois devolvia-o. Foi neste sistema que depois vieram “A Divina Comédia”. E o “Paraíso Perdido”. Gustave Doré como diabólico cúmplice da tia Júlia.
Mas o que me veio à memória no aeroporto foi uma conversa que tivémos já nem sei quando, em que ela aproveitou para me tentar explicar uma coisa através do Dom Quixote. Tinhamos começado a falar de religião (assunto banal naquela casa) e depois de fé, e de crença, e no final a conversa descambou mais ou menos nisto, exemplo típico da lição de moral à la tia Júlia:
“António, as pessoas acreditam no que querem acreditar. Não podemos ridicularizar a fé das outras pessoas porque aquilo em que elas acreditam é a realidade para elas. A realidade é sempre uma construção mental do indivíduo. Lembras-te do Dom Quixote? Do episódio dos moinhos? Dom Quixote e Sancho Pança passam por uns moinhos num monte e o Dom Quixote, convencido de que estes são gigantes, ataca-os e acaba espatifado e feito num oito, com o Sancho Pança espantado com tanta loucura e ridículo.
Mas agora, imagina tu o oposto. Imagina que, de facto, os moinhos eram gigantes que, ao longe, Dom Quixote toma por moinhos porque não acredita na existência de gigantes. Seriam ambos certamente atacados pelos gigantes e Dom Quixote, fraquito como era, não conseguiria defender-se nem a si nem ao seu amigo. Talvez se safasse, porque, afinal de contas, tinha uma armadura, mas os gigantes seriam certamente maus e impiedosos, pelo que, nesta versão inversa, Sancho Pança não escaparia com vida e seria ele a jazer no chão, mas inevitavelmente morto. E seria o Dom Quixote, sobrevivente amolgado, a lamentar a sua própria insanidade.
Agora, o que achas preferível? Alguém que se submete ao ridículo por acreditar em algo sobrenatural ou alguém incapaz de salvar um amigo da morte por não acreditar naquilo que tem em frente dos olhos?”
003 - Os Herdeiros (versao revista)
Salzburgo, Dezembro de 2005
Querida Joana:
Creio que esta vai ser a carta mais longa da minha vida e suponho que acabará por a conter, para que percebas. Pelo menos para que tenhas uma idéia melhor do que se está a passar. Não que contar-te a história da minha vida te vá permitir perceber tudo o que se passou porque nem eu consigo ainda tirar grande sentido de tudo isto (e, francamente, cada vez tenho mais medo de o fazer…). Mas sinto que to devo.
Cheguei aqui hoje, ao fim da manhã e, mal larguei as malas no hotel, saí à procura do Jaime. Tanto quanto sei, não está em nenhum hotel. Mas também só fui a alguns mesmo no centro. A propósito, Salzburgo é uma cidade estupidamente bonita (apesar da pirosa, assustadora, fatigante, ubíqua, omnipresença de Mozart) mas, como calculas, não estou com uma disposição de turista. Se estivesse com o Jaime, num dos nossos passeios, seríamos verdadeiramente as irmãs Schlegel, como as mamã nos chamava, a meter o nariz em tudo o que fosse igreja, museu ou livraria. A tomar cafés e chás nas esplanadas. A apreciar vistas panorâmicas… Mas está frio, um frio de rachar, e eu estou sozinho como a merda e Salzburgo começou a deprimir-me. Ou, para ser mais exacto, a deixar-me mais triste do que preocupado. O tempo estava carregado de nuvens logo quando aterrei e só tem ficado pior. À tarde começou a chover, mas à noite é bem capaz de nevar, com o frio que está. Voltei para o meu hotel e pedi as páginas amarelas na recepção. Passei metade da tarde a ligar para hotéis. Nada.
Enfim… depois desisti e tenho estado aqui às voltas, como um animal na jaula sem saber o que fazer. O que estou eu aqui a fazer?…
Há bocado dei por mim a ter pena de não saber rezar. E depois enfureci-me comigo mesmo por estar a ser tão estúpido e a ter uma recaída cristã. Mas é o desespero, sabes?… eu sei que sabes…
Espero que não estejas zangada comigo mas, como espero que venhas a perceber depois de leres isto, fiz o que o meu coração mandou. (É tão antiquado, falar assim. Tão novelista e vitoriano… que importância tem o meu coração no meio disto tudo?) Mas também sei que, se não tivesse seguido aquele impulso, teria ficado retido em Portugal. De certeza que não me deixavam sair do país.
Espero que a polícia não te esteja a dar muitos problemas. A minha mãe tentou telefonar-me mas eu não estou ainda em condições de falar com ela. Mandei-lhe só um sms a dizer que estou bem, que está tudo bem.
Mas não está nada bem. Há semanas que nada está bem. Desde que a tia Júlia morreu que tudo se tem estado a desmoronar. Tem sido um pesadelo. Um “mareritt” — a palavra norueguesa é bem melhor, neste caso. Significa, numa tradução muito livre e misturada com o “nightmare” inglês (que afinal tem a mesma origem), um cavalgada nocturna num cavalo selvagem. É isto que verdadeiramente sinto. Que me montaram na garupa de um dos cavalos do apocalipse. Sem sela. E eu estou a fazer os possíveis para me aguentar. Para não cair e ser esmagado por cascos em fogo.
A minha mãe vai-te ajudar, vais ver. Ela tem um espírito prático. Verdadeiramente germânico.
Mas nada…nada, Joana, percebes?, nada me vai fazer deixar de sentir remorsos por te deixar assim, com a casa…não, com a vida, toda coberta de sangue, manchada de horror.
A única explicação que há para isso é o meu amor pelo Jaime. E é isso, principalmente, que eu te vou tentar explicar.
Querida Joana:
Creio que esta vai ser a carta mais longa da minha vida e suponho que acabará por a conter, para que percebas. Pelo menos para que tenhas uma idéia melhor do que se está a passar. Não que contar-te a história da minha vida te vá permitir perceber tudo o que se passou porque nem eu consigo ainda tirar grande sentido de tudo isto (e, francamente, cada vez tenho mais medo de o fazer…). Mas sinto que to devo.
Cheguei aqui hoje, ao fim da manhã e, mal larguei as malas no hotel, saí à procura do Jaime. Tanto quanto sei, não está em nenhum hotel. Mas também só fui a alguns mesmo no centro. A propósito, Salzburgo é uma cidade estupidamente bonita (apesar da pirosa, assustadora, fatigante, ubíqua, omnipresença de Mozart) mas, como calculas, não estou com uma disposição de turista. Se estivesse com o Jaime, num dos nossos passeios, seríamos verdadeiramente as irmãs Schlegel, como as mamã nos chamava, a meter o nariz em tudo o que fosse igreja, museu ou livraria. A tomar cafés e chás nas esplanadas. A apreciar vistas panorâmicas… Mas está frio, um frio de rachar, e eu estou sozinho como a merda e Salzburgo começou a deprimir-me. Ou, para ser mais exacto, a deixar-me mais triste do que preocupado. O tempo estava carregado de nuvens logo quando aterrei e só tem ficado pior. À tarde começou a chover, mas à noite é bem capaz de nevar, com o frio que está. Voltei para o meu hotel e pedi as páginas amarelas na recepção. Passei metade da tarde a ligar para hotéis. Nada.
Enfim… depois desisti e tenho estado aqui às voltas, como um animal na jaula sem saber o que fazer. O que estou eu aqui a fazer?…
Há bocado dei por mim a ter pena de não saber rezar. E depois enfureci-me comigo mesmo por estar a ser tão estúpido e a ter uma recaída cristã. Mas é o desespero, sabes?… eu sei que sabes…
Espero que não estejas zangada comigo mas, como espero que venhas a perceber depois de leres isto, fiz o que o meu coração mandou. (É tão antiquado, falar assim. Tão novelista e vitoriano… que importância tem o meu coração no meio disto tudo?) Mas também sei que, se não tivesse seguido aquele impulso, teria ficado retido em Portugal. De certeza que não me deixavam sair do país.
Espero que a polícia não te esteja a dar muitos problemas. A minha mãe tentou telefonar-me mas eu não estou ainda em condições de falar com ela. Mandei-lhe só um sms a dizer que estou bem, que está tudo bem.
Mas não está nada bem. Há semanas que nada está bem. Desde que a tia Júlia morreu que tudo se tem estado a desmoronar. Tem sido um pesadelo. Um “mareritt” — a palavra norueguesa é bem melhor, neste caso. Significa, numa tradução muito livre e misturada com o “nightmare” inglês (que afinal tem a mesma origem), um cavalgada nocturna num cavalo selvagem. É isto que verdadeiramente sinto. Que me montaram na garupa de um dos cavalos do apocalipse. Sem sela. E eu estou a fazer os possíveis para me aguentar. Para não cair e ser esmagado por cascos em fogo.
A minha mãe vai-te ajudar, vais ver. Ela tem um espírito prático. Verdadeiramente germânico.
Mas nada…nada, Joana, percebes?, nada me vai fazer deixar de sentir remorsos por te deixar assim, com a casa…não, com a vida, toda coberta de sangue, manchada de horror.
A única explicação que há para isso é o meu amor pelo Jaime. E é isso, principalmente, que eu te vou tentar explicar.
002 - Os Herdeiros (versao revista)
A minha mãe apareceu então e ralhou-me, perguntando-me porque era mau, porque não ficava quieto e dormia como um bom menino e porque fora para ali, o que estava ali a fazer. Ia-me fazendo todas estas perguntas, numa voz sussurrada mas zangada, irritada, enquanto me pegava ao colo e levava de volta para a festa que, começava eu a perceber, era um velório (se bem que eu lhe chamasse simplesmente funeral, incapaz de distinguir entre as diferentes socializações e burocracias da morte).
Achei que precisava de me desculpar e disse:
“Estava a conversar com aquele senhor.” e apontei para o fundo do corredor, para a porta que ela fechara cuidadosamente atrás de nós.
“Não sejas mentiroso!”
“Eu não sou mentiroso!”
“Então não digas disparates. Aquele senhor já não pode falar.”
“Ele falou comigo.”
“Ai, tanto disparate, vamos ter de pôr pimenta nessa língua.”
Isto alegrou-me um bocadito porque pimenta era coisa de adultos, que nunca me tinham deixado experimentar mesmo que eu pedisse. Mas não percebi a que propósito vinha isto.
Entrou na festa ainda comigo ao colo e riu-se para a tia Júlia, a avó do Jaime.
“Veja lá este tontinho. Entrou no quarto do senhor Augusto e disse-me que estava a falar com ele.”
A tia Júlia não se riu. Olhou para mim muito séria e só então é que eu percebi que devia ter feito uma grande asneira.
“Vem cá”, disse ela, e estendeu os braços para que eu passasse do colo da minha mãe para o colo dela. E depois sentou-se logo numa cadeira, que eu já era pesado. Aliás, já começava a ser estranho que me pegassem assim. Há muito tempo que eu não pedia colo e também já ninguém mo queria dar. Era difícil perceber se estavam mesmo zangadas comigo, com tanto mimo.
“Então, conta lá, que conversa era essa com o Augusto?”
Comecei a perceber melhor o que se passava. Era o funeral do senhor Augusto, o avô do Jaime. Eu só o vira uma vez. Era o senhor que costumava ficar sentado num cadeirão, no quarto, às escuras. A razão porque nunca se podia fazer barulho nos fundos da casa. O motivo porque se tinha de fazer silêncio a certas horas do dia. Não era uma pessoa de quem eu gostasse muito.
Compreendi que era ele quem estava deitado na cama, com os sapatos brilhantes, mesmo que não lhe tivesse visto a cara. E por isso disse:
“Não era com ele que eu estava a falar, era com o outro senhor.”
“Então, o que é isso? Agora pões-te a inventar histórias? O que é que te deu? Estás mesmo a querer levar uma palmada nesse rabiosque!” A minha mãe estava mesmo zangada comigo. Eu tentei começar a chorar, mas não estava lá muito triste por isso só devo ter conseguido fazer uma cara ridícula. Beiçinho, uma ameaça de choro fingido. A tia Júlia olhava para mim, séria, mas com vontade de se rir.
“E quem era esse senhor, diz lá à tia.”
“Não sei.”
“Como é que ele era?”
“Tinha uma camisa preta.”
Ela olhava-me fixamente. Aquele olhar que ela sempre teve, que não admitia mentiras.
“Cabelos brancos?”
“Sim.”
“Um fio de ouro, com uma cruz, por cima da camisa?
Esta pergunta era mais complicada. Fechei os olhos e tentei lembrar-me. Deve ter sido isso, juntamente com todo o interrogatório que impediu que me esquecesse do homem, mesmo tendo passado tanto tempo sem que a memória voltasse a trazer à tona este episódio que só agora, vinte anos depois, faz tanto sentido, explica tanto.
“Sim, o senhor tinha um colar.”
Então a tia Júlia sorriu um pouco. Voltou-se para a minha mãe.
“Deixa o miúdo, Marta, ele não está a mentir.”
“Mas tia, não estava lá mais ninguém!”
A tia Júlia voltou-se para mim e começou a pentear-me com a mão, que era coisa que me irritava que os adultos fizessem. Mas achei melhor ficar quieto. Eu estava nas boas graças dela e era melhor aproveitar.
“Estava sim, Marta. Mas tu não o podias ver.”
A minha mãe não disse nada. Ficou só a olhar para mim. Eu achei que já devia estar tudo bem por isso disse:
“Posso comer bolo?”
A tia Júlia fazia imensos bolos, fosse qual fosse a ocasião. Estava um em cima da mesa e eu tinha estado o tempo inteiro a olhar para ele.
Achei que precisava de me desculpar e disse:
“Estava a conversar com aquele senhor.” e apontei para o fundo do corredor, para a porta que ela fechara cuidadosamente atrás de nós.
“Não sejas mentiroso!”
“Eu não sou mentiroso!”
“Então não digas disparates. Aquele senhor já não pode falar.”
“Ele falou comigo.”
“Ai, tanto disparate, vamos ter de pôr pimenta nessa língua.”
Isto alegrou-me um bocadito porque pimenta era coisa de adultos, que nunca me tinham deixado experimentar mesmo que eu pedisse. Mas não percebi a que propósito vinha isto.
Entrou na festa ainda comigo ao colo e riu-se para a tia Júlia, a avó do Jaime.
“Veja lá este tontinho. Entrou no quarto do senhor Augusto e disse-me que estava a falar com ele.”
A tia Júlia não se riu. Olhou para mim muito séria e só então é que eu percebi que devia ter feito uma grande asneira.
“Vem cá”, disse ela, e estendeu os braços para que eu passasse do colo da minha mãe para o colo dela. E depois sentou-se logo numa cadeira, que eu já era pesado. Aliás, já começava a ser estranho que me pegassem assim. Há muito tempo que eu não pedia colo e também já ninguém mo queria dar. Era difícil perceber se estavam mesmo zangadas comigo, com tanto mimo.
“Então, conta lá, que conversa era essa com o Augusto?”
Comecei a perceber melhor o que se passava. Era o funeral do senhor Augusto, o avô do Jaime. Eu só o vira uma vez. Era o senhor que costumava ficar sentado num cadeirão, no quarto, às escuras. A razão porque nunca se podia fazer barulho nos fundos da casa. O motivo porque se tinha de fazer silêncio a certas horas do dia. Não era uma pessoa de quem eu gostasse muito.
Compreendi que era ele quem estava deitado na cama, com os sapatos brilhantes, mesmo que não lhe tivesse visto a cara. E por isso disse:
“Não era com ele que eu estava a falar, era com o outro senhor.”
“Então, o que é isso? Agora pões-te a inventar histórias? O que é que te deu? Estás mesmo a querer levar uma palmada nesse rabiosque!” A minha mãe estava mesmo zangada comigo. Eu tentei começar a chorar, mas não estava lá muito triste por isso só devo ter conseguido fazer uma cara ridícula. Beiçinho, uma ameaça de choro fingido. A tia Júlia olhava para mim, séria, mas com vontade de se rir.
“E quem era esse senhor, diz lá à tia.”
“Não sei.”
“Como é que ele era?”
“Tinha uma camisa preta.”
Ela olhava-me fixamente. Aquele olhar que ela sempre teve, que não admitia mentiras.
“Cabelos brancos?”
“Sim.”
“Um fio de ouro, com uma cruz, por cima da camisa?
Esta pergunta era mais complicada. Fechei os olhos e tentei lembrar-me. Deve ter sido isso, juntamente com todo o interrogatório que impediu que me esquecesse do homem, mesmo tendo passado tanto tempo sem que a memória voltasse a trazer à tona este episódio que só agora, vinte anos depois, faz tanto sentido, explica tanto.
“Sim, o senhor tinha um colar.”
Então a tia Júlia sorriu um pouco. Voltou-se para a minha mãe.
“Deixa o miúdo, Marta, ele não está a mentir.”
“Mas tia, não estava lá mais ninguém!”
A tia Júlia voltou-se para mim e começou a pentear-me com a mão, que era coisa que me irritava que os adultos fizessem. Mas achei melhor ficar quieto. Eu estava nas boas graças dela e era melhor aproveitar.
“Estava sim, Marta. Mas tu não o podias ver.”
A minha mãe não disse nada. Ficou só a olhar para mim. Eu achei que já devia estar tudo bem por isso disse:
“Posso comer bolo?”
A tia Júlia fazia imensos bolos, fosse qual fosse a ocasião. Estava um em cima da mesa e eu tinha estado o tempo inteiro a olhar para ele.
001 - Os Herdeiros (versao revista)
Isto é o que tenho de começar por te contar. Aconteceu teria eu cinco, talvez seis anos. Aconteceu por causa do sangue. Eu tinha sangrado, sabes, por ter batido com a cara numa cadeira. Eu e o Jaime andávamos sempre a correr. E havia uma festa. Eu julguei que era uma festa. Tínhamos vindo a casa do Jaime porque havia uma festa, foi a explicação que achei para tanta gente em casa deles. Uma festa de adultos, mesmo que estivessem todos de negro e não houvesse música.
Eu e o Jaime brincávamos, que os adultos pouco nos interessavam, e, na correria, eu bati numa cadeira e comecei a sangrar do nariz. Sei que fiquei coberto de sangue e lembro-me de chorar, não por estar a sangrar, mas por ter medo que me batessem por me ter sujado.
Levaram-me da sala, limparam-me, assoaram-me, tirando o sangue, o ranho e as lágrimas. Vestiram-me de lavado com roupas do Jaime e depois tentaram deitar-me no quarto dele. Eu fingi dormir para que me deixassem sozinho. E quando fiquei em paz levantei-me para ver os brinquedos. Ele tinha um comboio. E carrinhos. E quando me cansei disso abri a porta do quarto e olhei para o corredor. Estava escuro, e era demasiado comprido, todo portas. Eu ouvia o ruido da festa, as vozes dos adultos, mas ninguém podia saber que eu estava acordado. Resolvi experimentar as outras portas. A casa de banho. Um armário. E depois um quarto.
Neste nunca tinha entrado. Pela porta entreaberta espreitei lá para dentro. Estava escuro e na cama estava deitado um homem, vestido e calçado. Fato preto e sapatos engraxados, de negro brilhante. Ao lado dele sentava-se outro homem, na beira da cama. Estava também vestido de negro, mas apenas de calças e camisa. Camisa negra. Foi isso que eu achei estranho. As camisas eram sempre brancas. Branco era o cabelo dele, a contrastar com a roupa. Ele olhou para mim. E sorriu. Eu disse:
- Ele está morto.
Não foi uma pergunta. Apenas disse o que percebera nesse momento, que o homem deitado estava morto.
O homem da camisa preta assentiu. E depois disse-me qualquer coisa. E durante vinte anos não me lembrei dessas palavras.
Eu e o Jaime brincávamos, que os adultos pouco nos interessavam, e, na correria, eu bati numa cadeira e comecei a sangrar do nariz. Sei que fiquei coberto de sangue e lembro-me de chorar, não por estar a sangrar, mas por ter medo que me batessem por me ter sujado.
Levaram-me da sala, limparam-me, assoaram-me, tirando o sangue, o ranho e as lágrimas. Vestiram-me de lavado com roupas do Jaime e depois tentaram deitar-me no quarto dele. Eu fingi dormir para que me deixassem sozinho. E quando fiquei em paz levantei-me para ver os brinquedos. Ele tinha um comboio. E carrinhos. E quando me cansei disso abri a porta do quarto e olhei para o corredor. Estava escuro, e era demasiado comprido, todo portas. Eu ouvia o ruido da festa, as vozes dos adultos, mas ninguém podia saber que eu estava acordado. Resolvi experimentar as outras portas. A casa de banho. Um armário. E depois um quarto.
Neste nunca tinha entrado. Pela porta entreaberta espreitei lá para dentro. Estava escuro e na cama estava deitado um homem, vestido e calçado. Fato preto e sapatos engraxados, de negro brilhante. Ao lado dele sentava-se outro homem, na beira da cama. Estava também vestido de negro, mas apenas de calças e camisa. Camisa negra. Foi isso que eu achei estranho. As camisas eram sempre brancas. Branco era o cabelo dele, a contrastar com a roupa. Ele olhou para mim. E sorriu. Eu disse:
- Ele está morto.
Não foi uma pergunta. Apenas disse o que percebera nesse momento, que o homem deitado estava morto.
O homem da camisa preta assentiu. E depois disse-me qualquer coisa. E durante vinte anos não me lembrei dessas palavras.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
Onde esta o Antonio?
Grande Passatempo "Os Herdeiros":
- Prémio para o primeiro leitor que conseguir ver nesta foto um grupo de escuteiros a acampar na serra de Sintra.
- Menção honrosa para quem conseguir ver o Palácio da Pena.
- Prémio para o primeiro leitor que conseguir ver nesta foto um grupo de escuteiros a acampar na serra de Sintra.
- Menção honrosa para quem conseguir ver o Palácio da Pena.
Porque ainda tenho saudades da Noruega



mais fotos em:
http://home.online.no/~boethius/senja/bilder.htm
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Distraido
Há 2 meses que isto saiu e eu a viver na ignorância!

Agora vingo-me ouvindo-o até à exaustão.

Agora vingo-me ouvindo-o até à exaustão.
um pelo na engrenagem
Há dois dias que estava com problemas no rato do computador. Por mais que eu mexesse a coisa para trás e para a frente, o cursor não se movia à velocidade do costume. Parecia os ratos antigos, quando a bolinha e as roldanas ficam cheias de caca. Mas o meu rato é daqueles modernaços, com infravermelhos, que brilham no escuro e parecem o culminar dos feitos tecnológicos da humanidade. Depois de desesperar e já estar a considerar comprar um novo, descobri finalmente a causa do problema: um pequeno pêlo (fibra de camisola, não desses que já estavam a pensar!!!) estava alojado no buraquinho de onde sai o raio infra-vermelho e não deixava a coisa ler o movimento em condições.
É definitivamente a variante actual do grão na engrenagem.
Senti-me muito macho e integrado no novo século por ter conseguido, sózinho, resolver um problema tecnológico deste calibre.
PS - A despropósito disso, vi os novos mac portáteis. Quero um!
É definitivamente a variante actual do grão na engrenagem.
Senti-me muito macho e integrado no novo século por ter conseguido, sózinho, resolver um problema tecnológico deste calibre.
PS - A despropósito disso, vi os novos mac portáteis. Quero um!
terça-feira, 10 de janeiro de 2006
nas nuvens
Para quem se interroga porque é que ando a escrever menos, a resposta é: ando a pintar mais.

E pelos vistos estou cada vez mais kitsch... nem eu acredito nisto! Faz-me lembrar aqueles doces com tanto açúcar que, mal se dá uma dentada, tem-se logo dor de dente. É pecado ficar-se fascinado pelo horror que se produz?

E pelos vistos estou cada vez mais kitsch... nem eu acredito nisto! Faz-me lembrar aqueles doces com tanto açúcar que, mal se dá uma dentada, tem-se logo dor de dente. É pecado ficar-se fascinado pelo horror que se produz?
segunda-feira, 9 de janeiro de 2006
025 - Os Herdeiros
Mas o curioso é que, quanto mais nos afastávamos nas disciplinas de estudo, ele com os desportos e o árabe e eu com a música e o norueguês, mais próximos nos sentíamos. Passávamos fins de tarde e fins de semana juntos, a conversar, a construir o nosso pequeno mundo a partir do que cada um trazia, dizia, pensava. Mas éramos párias. Era difícil fazer outros amigos, na escola ou fosse onde fosse. Não conseguíamos pertencer a sítio nenhum senão juntos. E isso tornou-se cada vez mais… insuportável.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo. Até a tia Júlia, achando-nos demasiado “incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que tinhamos com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre religião. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar. Por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
Houve algumas tentativas de nos pôr a socializar com outros “jovens”, todas falhadas. Eu não tinha nada para conversar com outros alunos da Runa e o Jaime contentava-se a mandar para o colchão todos os colegas do Judo. Até a tia Júlia, achando-nos demasiado “incestuosos”, convenceu-nos uma vez a ir acampar com o padre Matos e um grupo de antigos escuteiros.
O padre Matos tinha começado a aparecer com alguma regularidade lá por casa. Ele parecia apreciar as discussões teológicas que tinhamos com ele, mesmo que eu e o Jaime o deixássemos com os cabelos em pé com algumas das nossas opiniões sobre religião. Chamava-nos “os pequenos comunistas”. E eu levava-o a sério e tentava-lhe explicar que embora os meus pontos de vista tivessem de facto uma base socialista, havia ainda assim um sentido gnóstico em mim que me levava a achar as teorias marxistas um tanto áridas. Mas ele nunca lera Marx e não percebia bem do que é que eu estava a falar. Por isso não me levava a sério.
Não que ele nos tentasse pregar a fé. Nada que se parecesse. Desde o pricípio que ele percebera que éramos um caso perdido, mas acho que ele gostava das nossas discussões precisamente para reassegurar a sua própria fé. Não há como ter alguém contra nós para nos ajudar a solidificar crenças e argumentos. E acho que ele devia também estar um pouco farto de falar com as beatas, que embora fossem as da freguesia da Sé de Lisboa, pouco se desviavam nas suas conversas dos dogmas de um catolicismo supersticioso de aldeia.
Assim aconteceu que, tendo-se ele tornado uma visita relativamente regular, a tia Júlia lhe acabasse por pedir que ele nos levasse “a arejar” num passeio de antigos escuteiros que ele mencionara.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2006
viva la net
Depois destes anos todos ainda me surpreendo com a internet.
Andando sabe Deus por que caminhos, eis que acho um curso de árabe online:
http://i-cias.com/babel/arabic/
Objectivo de vida: compreender as letras das músicas do próximo album do Michael Jackson
(que, para quem não sabe, se converteu ao Islão e vai fazer um album de baladas cantadas em árabe)
Andando sabe Deus por que caminhos, eis que acho um curso de árabe online:
http://i-cias.com/babel/arabic/
Objectivo de vida: compreender as letras das músicas do próximo album do Michael Jackson
(que, para quem não sabe, se converteu ao Islão e vai fazer um album de baladas cantadas em árabe)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
