quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

015 - Os Herdeiros

Comecei por perguntar à minha mãe, “o que faz a tia Júlia?”
“Que pergunta é essa? Ela não faz nada, quer dizer, trata da casa e de vocês e já é mais que muito.”
“Mas ela não faz mais nada? Nunca teve uma profissão?”
“Não.”
“Então e o dinheiro? Ela tem mais dinheiro do que nós.”
“António, não te quero a falar assim!” E pôs-se a olhar para mim de lado, a colher da sopa ainda na mão que lhe amparava o queixo. “A tia Júlia tem uma pensão que tira do que herdou da família e do marido”.
“Como é que sabes?”
“Como, como é que sei? Sei e pronto! Cala-te lá com isso e come a sopa. É muito feio falar de dinheiro à mesa.”
Nessa noite, já na cama, pus-me a pensar na vida da tia Júlia. Ela estava sempre em casa, ou pelo menos era essa a impressão que eu tinha, mas eu só passava lá as tardes e às vezes os serões. Mesmo o Jaime estava fora todas as manhãs, algumas tardes e, ao fim de semana, nós saíamos muitas vezes com a minha mãe. Também nas férias, fossemos nós nalguma excursão ou passeio, a tia Júlia recusava-se sempre a acompanhar-nos.
O que fazia ela? Duas vezes por semana ia lá a Dona Otília fazer as limpezas e engomar a roupa (e continua a ir), por isso, de afazeres domésticos, a tia Júlia pouco mais fazia que cozinhar e, de vez em quando, coser as meias do Jaime. Era frequente eu encontrá-la a ler, sentada num cadeirão do escritório ou da sala mas, embora ela parecesse sempre à vontade para falar de qualquer assunto, da cultura helénica à teoria quântica, passando pelas filosofias de Nietzsche, Kant e Santo Agostinho, a julgar pelo que costumava ter nas mãos, ela pouco mais lia que policiais da Agatha Christie.
Ao pensar nisso, ocorreu-me outra questão ainda mais estranha. De onde vinham os livros que apareciam lá por casa? É que não havia nenhuma grande estante ou biblioteca, nenhum tesouro de Próspero, e no entanto, naquela casa, tinham-me passado pelas mãos todas as comédias e tragédias de Shakespeare, todas as aventuras algumas vez escritas por Julio Verne, Tolkien, Enid Blyton e Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Já para não falar nos dicionários, enciclopédias e todo o género de tomos informativos ou fantásticos que apareciam de algum lado sempre que se precisava deles. O total oposto da minha casa, onde a minha mãe os ordenava com um militarismo alemão na estante que cobria uma parede inteira da sala.
Em casa da tia Júlia havia sempre livros, mais livros aliás que na biblioteca da escola, que eu achava sempre diminuta, e, no entanto, eu não me conseguia recordar de alguma vez os ter ido procurar a uma prateleira. Eles estavam em todo o lado mas não eram postos em sítio nenhum, simplesmente flutuavam por ali. E quando eu pensava na enorme quantidade deles que já tinha lido, mesmo com apenas 13 anos, não conseguia perceber onde eles se iam enfiar antes e depois de serem lidos.
Nessa noite não dormi.

Declaraçao de amor

Chegou hoje pelo correio, a tempo de se tornar no meu disco do ano, provavelmente um dos discos da minha vida.

É certo que, como um amigo meu os definiu, os The White Birch, soam como o sapo cocas a cantar canções de embalar. Mas é precisamente essa a magia da coisa. Eu não consigo imaginar nada mais bonito e reconfortante que o sapo cocas à beira da minha cama, a ajeitar-me os cobertores enquanto canta uma canção de embalar e depois a dar-me um beijinho na testa quando eu finalmente adormeço.

ou

Uma vez tive um sonho daqueles muito simbólicos: Eu andava ao longo de um muro de pedra, equilibrando-me à la humpty-dumpty enquanto andava cantava uma canção tão bonita que me fazia chorar. Mas eu chorava sangue e doía. Apesar disso, eu continuava a cantar porque a canção era a única coisa capaz de me consolar. Embora não me lembre como era a canção, era certamente muito parecida às músicas dos The White Birch.

www.thewhitebirch.no

e se fosse só a música... eis uma das letras que me arrepia todo:

Stand over me

What if I fall?
What if I fall too low to see?
If you can
Fall over me
And if you stand
And if you stand too tall to reach
If you can
Stand over me

Then in your hand
When you can catch me
In my flight
Fight over me
And if I fall
And if I crumble at your feet
Will you stand?
Stand over me

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

a nostalgia dos livros lidos

Há livros que quando se olha para eles nos dão uma pequena pontada de dor por já não os podermos ler de novo pela primeira vez. Dói-me principalmente este, que foi agora reeditado com uma capa muito mais bonita do que a da edição que eu li há uns anos.

"Little,big" de John Crowley é um daqueles meteoros literários que, por passarem ao lado de tudo e de todos, se tornam ainda mais raros. Não conheço ninguém que tenha lido isto e bem tento impingi-lo a toda a gente mas ninguém lhe pega... Admito que é difícil, eu próprio tive de o ler em pequenas doses. É uma história bizarra mas envolvente e a linguagem são floreados que transformam as descrições dos momentos mais banais em feitos de pura magia. Infelizmente, não há tradução para português, mas mesmo que houvesse duvido que conseguisse fazer jus ao original.

Não é o livro da minha vida, mas é o suplente para essa função.


Madeira morta

Lá por casa os serões têm sido ocupados a ver os DVDs da primeira série de Deadwood, uma série da HBO que é uma deliciosa cábóiada telenovelesca onde nada de especial acontece mas que nos deixa pregados ao écran. O nosso personagem favorito é o mau da fita, dono do saloon/bordel/antro-de-vício-e-pecado, que não diz uma frase sem palavrão memorável. A minha favorita: "Would you like a blowjob while we talk?"

O bom da fita é algo desinteressante, mas causou algum furor lá no sofá nos breve segundos em que apareceu sem camisa, motivo que só por si já seria suficiente para ver o resto dos episódios....mas nós gostamos mesmo é dos diálogos... (pelo seu valor...humm... lírico).


Bad guy (esquerda) meets good guy (direita)

014 - Os Herdeiros

Sabes, eu sempre senti um ciúme secreto do Jaime. Por ser ele quem vivia com a tia Júlia. E é estranho estar a dizer, escrever isto pela primeira vez. Ainda mais nestas circunstâncias tão…oh, tão irónicas!
Não duvides, por favor, do meu amor pela minha mãe. Mas há sempre um apelo especial naquilo que não se possui. Eu invejei muito tudo o que o Jaime tinha. Os brinquedos - mais e mais caros do que os meus. A escola privada - com uniformes, bons professores e festas de Natal com teatro e prendas. As aulas de tiro com arco, judo e natação. Mas acima de tudo, o facto de, ao fim do dia, ele continuar na casa da tia Júlia, de dormir lá, de ser, de facto, aquela a sua casa. E de a tia Júlia ser mais dele do que minha.
Mas, é claro, isso eram tolices infantis, e eu sei o esforço que a tia Júlia sempre fez para nos tratar como iguais, mesmo com todas as diferenças de posse. E tão difícil que isso deve ter sido para ela, sei eu agora. Bastou-me olhar para ti, Joana.
Além disso, o Jaime sempre foi o mais generoso dos irmãos. O que tinha ele que eu não tivesse? Ele sempre se fez uma parte de mim. E vice versa.
Por isso eu tinha a certeza de que, se eu não sabia que as vizinhas chamavam bruxa à tia Júlia, menos o sabia ele. E foi por isso que resolvi descobrir o que se escondia de verdade por trás daquela história. Se algo houvesse naquilo que pudesse magoar o Jaime, devia primeiro magoar-me a mim.

013 - Os Herdeiros

Demorei mais tempo do que o costume a regressar a casa, pensando no que de facto aquilo queria dizer. Nós éramos todos tão pouco religiosos e supersticiosos. Principalmente a tia Júlia que, todos os natais, insistia em nos contar a “verdadeira” história de São Nicolau, pondo especial ênfase na parte das criancinhas esquartejadas dentro da salgadeira (que, admito, era a nossa parte favorita). Desmistificar, era a palavra de ordem para tudo o que a tia Júlia dizia e fazia. Porquê então aquele título de bruxa? Não era a palavra que me perturbava… o quê, então?
Ao fundo da rua, a Sé de Lisboa estava já iluminada e eu lembro-me de ter sido essa uma das vezes em que mais fortemente uma vertigem histórica se apossou de mim. É raro pensar com tanta consciência em tudo o que já se passou no sítio onde vivemos. É uma colina de lisboa que já viu fenícios, gregos, romanos, mouros, cristãos. As nossas ruas ficam entre a praça do Rossio, onde já se queimaram bruxas, judeus e sodomitas e a prisão do limoeiro onde, mais recentemente, se torturaram, não com menos requinte, intelectuais e liberais diversos. Ou seja, tudo pessoas com quem a nossa família reúne afinidades. E no entanto, como a minha mãe sempre me disse, que tempos abençoados estes em que vivemos, apesar de tudo, em que todos os livros do mundo estão à nossa disposição.
A minha mãe, que depois vinha abraçar-me e dizer-me. “Sabes a sorte que temos? Eu, que nasci depois da guerra, e tu, que nasceste depois da ditadura? És uma criança abençoada, António. Aproveita a sorte de teres nascido agora”. (Ela ainda repete isto, de vez em quando.)
Eu, naquele momento, saco cheio de batatas e cebolas, a caminho de casa, senti-me de facto previligiado, porque a minha mente, por segundos, quase conseguia ter a noção da enormidade do que se passara ali, naquela rua, naquela colina, naquela cidade, para que eu pudesse ir assim, tão despreocupado para casa, sem medo de bruxas. Uma vertigem histórica em que desfilava uma crescente erosão de preconceitos e superstições que permitiam que eu, nesse preciso momento, soubesse que os meus valores me permitiriam olhar lucidamente para este perturbante facto, de ter uma “bruxa” na família. E essa lucidez, que eu sempre tenho prezado tanto, devia-se, deve-se, precisamente, à tia Júlia.
Percebi nesse momento, que não era de facto a palavra “bruxa” que me perturbava, mas a implicação de que havia algo na vida da tia Júlia que me era desconhecido, talvez vedado. Ou, pior ainda, algo que ela ocultava de mim julgando que eu não fosse capaz de compreender.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

012 - Os Herdeiros

Se a minha mãe começara por me despejar à tarde na casa da tia Júlia fora por puro desespero. O horário dela na faculdade era bastante preenchido e o que ganhava não era suficiente para se poder dar ao luxo de me pôr num sitio que me ocupasse os tempos livres e onde se certificassem que eu fazia os trabalhos de casa. E, quando a tia Júlia me pôs a aprender piano, a única coisa que pediu à minha mãe foi autorização. E ela, nesses termos, não se lembrou de nenhum motivo contra.
A vida social da minha mãe era quase nula. Trabalho, casa, trabalho e, os tempos livres que não passava comigo, ocupava-os também com trabalho na sua vertente mais lúdica, lendo literatura alemã. Suponho que em tempos isso fora um prazer. Agora tornara-se só parte da profissão. Até o plano dela de me ensinar alemão era constantemente adiado porque, depois de passar grande parte do dia a dar aulas, em casa preferia ficar calada. Não tinha amigos e a família resumia-se a nós dois e uns primos dela, que, embora não fossem os tais ramos mortos da árvore genealógica, continuavam a viver na Alemanha e ela já nem postais de Natal lhes mandava.
Os serões em cada da tia Júlia, cuja frequência se foi progressivamente transformando num hábito diário, eram para ela um escape à monotonia e mediocridade académica. Ficava geralmente apenas a ouvir-nos mas, de vez em quando, observava que falávamos de coisas anormalmente adultas e culturais. E depois queixava-se de que, desde que deixara de seguir as novelas, não tinha mais assunto para conversas na universidade.
Eu nunca compreendera bem as reticências que ela punha em relação à tia Júlia porque, apesar de termos começado a passar muito tempo lá, ela nunca deixava de manter uma certa frieza que nem sequer lhe vinha dos genes alemães. A princípio, suponho que, de um modo inconsciente, liguei isso ao suicídio do meu pai mas, como esse era o assunto de que nunca se falava apesar de estar no cerne do nó que unira as nossas famílias, deixei que continuasse imerso nas névoas do tabu.
Eu já devia ter uns 13 anos quando, finalmente, me tive de confrontar com uma parte da vida da tia Júlia que, embora estivesse estado sempre à minha frente, eu nunca tinha verdadeiramente visto, ou tomado consciência que existisse, mas que clarificou os motivos porque a minha mãe mantinha o seu relacionamente com a tia Júlia nuns termos tão rígidos.
Aconteceu da maneira mais prosaica, ao fim de uma tarde em que a minha mãe me pedira para ir comprar batatas e cebolas à mercearia da esquina (que fica precisamente na esquina da rua entre a da tia Júlia e a nossa). Eu esperava para pagar, enquanto uma freguesa à minha frente falava com a dona do estabelecimento. Eu não seguia a conversa porque olhava para os chocolates, mas a certo ponto uma delas começou a falar de uma mulher do bairro que, pela descrição, eu identifiquei imediatamente como sendo a tia Júlia, embora o nome não fosse mencionado. E depois, referiu-se a ela como bruxa. E não era um insulto, ou mera difamação porque (e isto foi o que mais me surpreendeu), ao dizer a palavra, a sua voz baixou para um tom de grande respeito, ou reverência mesmo.

Sair do armario

Ontem fui ver "O leão, a feiticeira e o guarda-fato" o primeiro filme da série das Crónicas de Nárnia. Felizmente li o livro na idade certa de 12 anos e talvez por isso tenha ficado com a impressão de que o livro é melhor que o filme, mas, admito que o filme, mesmo que eu já o ache um pouco infantil, ainda assim é incrivelmente bom.
Houve no entanto uma coisa que me surpreendeu: não a assombrosa qualidade de alguns efeitos especiais (já ninguém se espanta com os avanços da tecnologia) mas sim a péssima qualidade de outros. Por um lado, fazem um milhão de animais e criaturas falantes que são 100% credíveis (mesmo quando se reconhece imediatamente as vozes do Rupert Everett e da Dawn French, mas isso é problema meu que sou demasiado gay nalgumas coisas), por outro, aparecem cenas que, aparentemente já não deviam colocar qualquer problema técnico, como as personagens humanas sobre um fundo falso, mas que estão tão mal feitas que até dói. O que se passou, rapazes?! tinham os computadores todos ocupados a fazer os renderings do leão e por isso nessas cenas mais simples tiveram que recortar a película com a tesourinha das unhas?
Mas o que importa é que foi uma noite bem passada, com uma história bem contada e muitos rebuçados para os olhos.
Há muito subtexto que se pode ler naquilo, desde o leão se parecer com Jesus e o Ricardo coração de leão, até à interpretação mais esticada da necessidade de sair do armário para se entrar no mundo real.
Eu da minha parte, admito que há algumas coisas dentro do armário que deixam muitas saudades. O fauno, por exemplo ;-)

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Ainda ha boas noticias

Hoje, nos jornais internacionais apareceram as primeiras fotografias e desenhos de um novo animal recentemente descoberto nas selvas de Borneo. Um bicho que é qualquer coisa entre o gato e a raposa.
É claro que a notícia tem destaque porque é um animal grande e verdadeiramente curioso, mas só na última década e apenas nas selvas de Borneo foram descobertas 361 espécies.
Notícias como estas são muito mais interessantes e relevantes que as dos dinossauros das presidenciais portuguesas, acho eu, que são espécies que já deviam estar extintas sem remorso.

011 - Os Herdeiros

As aulas eram às terças e quintas, supostamente durante as horas em que o Jaime ainda estivesse a fazer os trabalhos dele. Mas, em breve, era ele quem ficava à nossa espera, espreitando à porta da sala para ver se ainda íamos demorar muito, intrigado com os estranhos movimentos de solfejo que eu fazia enquanto entoava penosamente o nome das notas. E como a tia Júlia acabou por pagar horas extra à Runa, que não se importava nada de extender as aulas até ao limite da minha paciência (que era grande), passou a ser o Jaime a ficar impaciente e a entreter-se atazinando a tia Júlia para lá do razoável.
O castigo dele tomou a forma de aulas de tiro com arco. Na altura ninguém se questionou porquê, parecia apenas uma boa maneira de tirar o Jaime de casa às terças e quintas à tarde. Eu roí-me de inveja. É muito mais cool ser o Robin dos Bosques do que o Chopin. Quando ele apareceu lá em casa pela primeira vez com o arco e as flechas que ia usar nas aulas ficámos uma boa hora a olhar para elas, pousadas em cima da cama, numa reverência histérica e babada. É claro que quisémos brincar aos índios e cowboys mas a tia Júlia advertiu-nos logo que aquilo não era um brinquedo e que se nos ouvisse a ulular pelos corredores era ela quem nos arrancava o escalpe. Aquilo era uma actividade séria. Um desporto. Uma das provas olímpicas.
E para enfatizar a importância daquilo, enfadou-nos com a história das olimpíadas.
A Runa, por seu lado, apercebendo-se da minha súbita falta de concentração nas aulas, voltou a trazer discos. E ouvimos a abertura de “Guilherme Tell” de Rossini enquanto ela me contava a história dessa ópera. Que eu contei ao Jaime, à tia Júlia e à minha mãe nessa noite, enquanto ouviamos o disco, que eu pedira emprestado à Runa, e comiamos a sobremesa.
Essa foi a primeira noite em que a minha mãe acedeu a ficar para jantar. Na altura, eu era demasiado novo para entender pequenas subtilezas sociais, mas agora sei que essa noite foi a primeira grande vitória da tia Júlia. Conseguira finalmente juntar-nos aos quatro e começar qualquer coisa parecida com um lar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

010 - Os Herdeiros

A tia Júlia não fazia promessas em vão. Quando cheguei da escola, no dia seguinte, uma senhora alta, com um olhar penetrante esperava por mim na sala. A tia Júlia apresentou-nos e eu fiquei ainda mais intimidado ao saber que a minha professora era norueguesa. Apesar do seu sorriso e do sotaque divertido, aquilo não prometia vir a ter piada nenhuma, e o piano, regressado à sua habitual verticalidade, parecia rir-se de mim com os seus dentes restaurados. O Jaime fora recambiado para o quarto dele e depois também a tia Júlia se retirou para que eu pudesse ter a minha primeira aula de música. Porque, embora o plano fosse ensinarem-me a tocar piano, eu primeiro tinha de aprender música. Nas primeiras aulas pouco toquei. A Runa (era o nome da professora) teve de começar por me ensinar a ler e a escrever música, com enorme paciência. Durante semanas mergulhou-me no mundo dos compassos, claves, mínimas, semínimas e colcheias. Era um conceito interessante, como se podia escrever num papel os sons que se ouviam, mas aqueles símbolos não significavam nada para mim. A minha relação com aquilo era totalmente abstacta. E quando ela se apercebeu isso, compreendeu que tinha de começar por me fazer ouvir música. Por isso, durante algumas aulas pouco mais fizémos que dedicar-nos à audição de discos que ela trazia, começando por clássicos agradáveis e didáticos como “Pedro e o Lobo” de Prokofiev e “The young persons guide to the orchestra” de Britten, que ela ia comentando. Mas por fim chegou o momento que me marcaria a fogo. Quando eu, arrepiadinho até aos ossos pela abertura da “Carmina Burana” de Carl Orff, tive de lhe perguntar para confirmar:
“Mas isto está escrito? É possível ler ISTO de um papel?”
Ela deu uma gargalhada, mas depois, percebendo o que eu queria dizer, assentiu seriamente com a cabeça. E foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que me pôs na disposição de aprender tudo o que ela tivesse para me ensinar.
O Fortuna, velut luna…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Ainda nao foi desta

Há uma grande vantagem em ter uma profissão que traz dinheiro regularmente para casa porque, se eu andasse só nisto de ser artista, estava bem tramado. Assim, posso-me dar ao luxo de, como diria a Madonna, não comprometer a minha integridade artística, e até me divertir um bocadito quando me dão uma nega.

Hoje recebi um simpatiquíssimo email de outra editora a quem entreguei a maquete do meu livro de contos. Devo confessar que teria ficado mais espantado se o tivessem aceite, por isso até me diverti com os comentários dos dois consultores literários da editora que me foram enviados. Basicamente, ambos dizem que o texto está muito bem escrito e que tem "mérito literário" (e só isto já chegaria para me pôr de bom humor para as próximas semanas) mas que a temática... bem, deixo-vos uma citação da carta que um desses consultores escreveu a esse editor e que li com surpreendido agrado e até prefiro entender como elogiosa porque, vivendo eu um pouco desfasado da realidade, tendo a esquecer-me do impacto dos meus temas:

"Caro Editor X:
O texto que me enviou é daqueles que vejo, infelizmente, muito divulgados noutros países como os EUA, e não tanto, graças a Deus, entre nós. Não sei se a editora X está a pensar mudar o tipo de selecção a que nos habituou: sei que se o fizer perderá seguramente uma boa parte do seu público. É bem certo que, do ponto de vista estritamente literário, tenho visto bem pior pois o livro é bem escrito, e eu diria até que poderia ser lido com agrado. No entanto desaconselho vivamente a sua publicação. [...]"

Tenho de admitir que a aura de autor maldito que comentários destes me poderiam pôr em cima não me desagrada. Mas é um desperdício nesta fase! Espero que, no dia em que o livro venha a ver a luz do dia, haja antes um jornalista a escrever coisas destas para o livro vender muito e eu me poder tornar num verdadeiro autor maldito... mas milionário (que é o que interessa!).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

009 - Os Herdeiros

No dia seguinte, ao chegar da escola, dei com o piano totalmente esventrado na sala. O Jaime já tinha preparado uma platéia, dispondo os cadeirões de frente para o evento e sentara-se, em pasmo absoluto, a ver o afinador trabalhar.
Foi uma das tardes mais fascinantes de que me lembro. O senhor Pereira, que passaria a vir fazer-nos visitas mensais, para além de se dar ao trabalho de limpar todo o interior do piano, substituir martelos, feltros, molas e cordas, deu-se ao trabalho de nos explicar tudo o que fazia. E não se cansava de dizer, é um milagre, o estado disto. Mas, quando a tia Júlia lhe explicou provavelmente nunca ninguém o tocara, ficou-se a repetir, ah bem, ah bem… E assim ficámos a saber como o comprimento das cordas define a altura dos sons, para que serviam de facto os pedais (ver a maquinaria toda a sair do sítio quando se carregava neles era entusiasmante) e todo o complexo movimento mecânico que transmite, com espantosa precisão, a pressão das teclas aos martelos que batem nas cordas.
Fomos excepcionalmente libertos dos nossos deveres para observar todo o procedimento cirúrgico, com mais motivo ainda quando começou a afinação das cordas. Foi aí que percebemos que éramos meros amadores a fazer gemer o piano. O senhor Pereira suava profusamente alternando o esforço de puxar as cordas com o martelar intenso das cordas e os toques de diapasão (fascinante pedacinho de metal que, por precisar de tanta explicação, aumentou ainda mais a féria do senhor Pereira, que era pago à hora). O barulho para além de insuportável era irritantemente repetitivo. A tia Júlia até se lembrou subitamente de ir às compras e a vizinha de baixo veio bater à porta para saber o que se passava.
Mas no final, o senhor Pereira, embora suado, coberto de pó e já farto das nossas perguntas incessantes e dasastrada vontade de ajudar, brindou-nos com um pequeno concerto.
Abriu com uma escala que correu o piano de cima abaixo e que pôs o instrumento a ressoar tão harmoniosamente que o Jaime até me disse baixinho, ao ouvido: “ É como se fosse a Madalena, depois de exorcizada dos sete demónios”. E eu concordei, sem sequer me rir. Aquilo era pura e milagrosa magia. Era como se fosse outro piano.
Depois, foram as mãos do senhor Pereira que sofreram uma transformação, deixando de ser umas salsichas brutas e peludas que martelavam as teclas numa barulheira infernal para as acariciar velozmente com sons que só podiam ser uma pura manifestação de divindades celestes.
A tia Júlia nessa altura veio sentar-se ao nosso lado. E, quando o senhor Pereira acabou, tirou-me o sorriso da cara informando-me que no dia seguinte eu ia começar a aprender a tocar piano. Eu fiquei pregado no chão, esmagado pela enormidade do que me era pedido.

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

008 - Os Herdeiros

Havia um piano em casa da tia Júlia. Estava plantado na sala, verticalmente encostado a uma parede, no lugar onde se esperaria uma televisão, e devia ter começado a criar raízes aí no século XIX. Fazia tão parte da casa como o estuque trabalhado dos tectos e certamente sobrevivera a todas as mudanças de proprietários do apartamento. Era um pouco como o actual frigorífico, que é o utensílio que fica para trás, quando se vende uma casa. Aposto que, na altura de uma mudança, aquele piano, ganhava nomes como “traste monstruoso” ou “elefante desafinado”. Era um objecto esquecido e a única utilidade que ainda tinha era como suporte de molduras e bibelots. Mas dava um certo “ar” à sala, e julgo que era por isso que nem mesmo a tia Júlia, que era tão prática e pouco dada a “ares”, o deixara ficar. E também, não se conseguia deixar de ter um pouco de pena daquele objecto.
Outra característica do piano era ter um efeito magnético em momentos ociosos. Ninguém resistia, a dada altura, a abrir-lhe a tampa e carregar nas teclas. Os adultos que faziam isso, paravam imediatamente assim que a primeira nota, num volume ineperadamente alto, ecoava pelo prédio. Era um som de agonia metálica e mecânica tão insuportável que só se podia gemer em solidariedade com o pobre instrumento.
Mas as crianças, ou seja, eu e o Jaime, tinhamos um verdadeiro fascínio por aquilo e, em fantásticos duetos a quatro mãos, ou despiques à vez, aperfeicoávamos a arte de extorquir daquele objecto os mais arrepiantes, insuportáveis e massacrantes sons. O objectivo final era fazer com que a tia Júlia viesse lá de dentro ensandecida e gritasse o seu habitual “Pelos sete demónios de Madalena!!!”, que era a sua expressão máxima de exasperação e que nos deixava sempre em convulsões de riso histérico.
A brincadeira tomou tais proporções que a tia Júlia teve de tomar medidas drásticas. E fui eu quem fez o copo transbordar com a última gota de água.
Os meus mais solitários momentos de ócio eram passados naquela sala, nas tardes em que eu tinha de esperar que o Jaime acabasse os trabalhos de casa dele. A tia Júlia normalmente deixava-me com um livro e ia para a cozinha tratar dos afazeres domésticos. Mas isto passou-se numa fase anterior àquela que te descrevi, em que o tráfico clandestino de livros me andava a alimentar um vicio de leitura. Isto de que te estou a falar passou-se quando eu tinha sete anos e a única coisa que me interessava era que o Jaime se despachasse para irmos montar a pista de carros para fazermos corridas. Não havia livro no mundo capaz de merecer a minha atenção, nesses momentos. E a minha fonte de consolo era aquele piano, que, com a sua voz de pecador torturado num círculo fundo do inferno, era a única coisa capaz de expressar o que me ia na alma.
E por mais raspanetes, e mesmo promessas de tareia que a tia Júlia me fizesse, eu não conseguia ficar sentadinho nos cadeirões da sala, com um livro no colo. Pelo canto do olho, aquele mastodonte anti-melódico chamava-me sempre para uma sessão de catártica agonia sonora.
Até que um dia, vinda lá de dentro numa fúria, depois de me atirar com a praga dos sete demónios da Madalena, a tia Júlia olhou para mim seriamente e deve ter tido uma epifania. Em vez de me dar os açoites que o comum mortal adoraria descarregar em cima de mim, disse-me, numa voz gelada, que não estava para aturar os meus olhitos de bambi hipócritas:
“Muito bem! Esta foi a última vez que isto aconteceu. Agora vais-te sentar ali, ler o teu livrinho e ficar calado. E eu vou tratar imediatamente do teu castigo. Vais ver, meu menino… nem sabes o que te espera!”
E foi para o telefone pôr em acção o seu mais maquiavélico e diabólico plano, que acabaria por me moldar, irremediavelmente, a vida.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

007 - Os Herdeiros

Que acharás tu do Jaime? Tu só o viste duas vezes e ambas foram…bem…chamemos-lhes… circunstâncias invulgares.
O Jaime tem exactamente a mesma idade que eu. Isso, as viuvezes da minha mãe e da tia Júlia e a nossa vizinhaça foi o que de início fez com que passássemos tanto tempo juntos.
Mas uma coisa que acho curiosa, agora que olho para trás e vejo a mão da tia Júlia em tanta coisa, é que, embora ela cuidasse da nossa educação com igual interesse, nós nunca estudámos juntos na mesma escola. O Jaime era sempre posto em escolas particulares, liceus finos, universidade privada e eu estive sempre no ensino público.
Era só as tardes que passávamos juntos e, mesmo assim, muitas vezes, eu tinha de esperar que ele acabasse os trabalhos de casa, porque os meus faziam-se em meia-hora enquanto que os dele levavam a tarde quase toda. Mas eram depois as poucas horas ao fim do dia que valiam. Quando brincávamos juntos.
A minha mãe chegava antes do jantar para me vir buscar, vinda da universidade. Tão exausta que mal conseguia cozinhar. Mas, apesar dos meus pedidos insistentes, ela raramente cedia a ficar em casa da tia Júlia para jantar. Acho que ela queria aqueles momentos só para nós, mesmo que eu comesse a sopa de trombas, a pensar na nave de legos que eu e o jaime tinhamos começado a construir. E insistia em rever comigo os trabalhos de casa. Eram sufocantes, os trabalhos de casa. Uma idiotice. E as nossas noites passadas frente à televisão uma seca. Eu não me interessava pelas novelas e a minha mãe adormecia no sofá em menos de vinte minutos. Era nessas alturas que a ausência do jaime se assemelhava a uma dor. A minha mãe a ressonar, a sala iluminada pela aura inane da televisão, e o resto da casa às escuras. E a minha solidão.
Para além do Jaime, os meus únicos amigos eram os livros. O que não era exactamente saudável. Não preciso explicar-te em detalhe o que isto fazia à minha vida na escola. Eu era o menino que fazia sempre os trabalhos de casa, sabia tudo e tinha sempre boas notas. Odiavam-me de morte, na escola. E eu odiava aquele culto diário da estupidificação.
Quando foi que a minha mãe cedeu à tia Júlia? Não sei precisar a data. Mas começou certamente com as minhas aulas de Piano. E de norueguês.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

o "boobie break"

Voltando ao "mercador de veneza", uma das coisas que achei interessantes nesta nova adaptação cinematografica, foi o facto de, apesar de ser uma coisa toda muito british, visto a acção decorrer em Veneza, o realizador decidiu incluir uns quantos "boobie breaks" como homenagem ao audiovisual italiano.
O "boobie break", se não é uma invenção italiana, encontrou pelo menos na televisão italiana o ponto máximo de desenvolvimento. Consiste basicamente no seguinte: programa de variedades e ou cultura geral em geral, que, no momento em que começa a ficar demasiado sério, corta para intervenção de corpo de baile constituido por moçoilas avantajadas. Encontra também muita expressão na dialética entre o apresentador canastrão de fato escuro e a apresentadora boazona de vestidinho XS mas de decote XXXL. Ou seja, no momento em que as coisas ficam demasiado sérias, faz-se uns intervalo com uns melões, para nos lembrar das coisas boas da vida.
Isto é muito prático e pode ser aplicado na vida em geral como eu por vezes faço, utilizando aliás umas das grandes exportações italianas do boobie break: a Sabrina.
A coisa funciona assim:
Você está numa conferencia, no lançamento de um livro, a ver uma ópera, uma peça no Nacional ou um filme do Kiarostami. No momento em que se sentir prestes a ensandecer faça o seguinte:
1 - Lembre-se da Sabrina, recordando vividamente aquelas boinga-boingas balouçantes, constantemente em risco de saltarem para fora do bikini branco.
2 - Estremeça.
3 - Cantarole mentalmente "boys, boys, boys!"
O alívio é imediato e funciona indiscriminadamente com homos e heteros.

006 - Os Herdeiros

Mas foi só depois da morte do senhor Augusto que começámos a frequentar mais a casa da tia Júlia. É um bocado parvo dizer “frequentar”, como se fosse um café, porque na verdade é a minha outra casa.
Voltei a ler o que te escrevi sobre aquele episódio do velório do senhor Augusto e percebi que, de facto, até aquela altura, a casa da tia Júlia era um território inexplorado para mim, com sítios proibidos, assustadores mesmo. E é muito estranho pensar nesses termos sobre um sítio que se tornou um lar para mim e no qual nada me é estranho. Nem mesmo o quarto da tia Júlia, que fora muito tempo o santo dos santos, porque nos últimos anos, durante a doença dela, juntávamo-nos todos aí, como se fosse a sala, como se nada se passasse…E sabes, nessa altura, nem por um momento me lembrei que fora naquela mesma cama, onde a tia Júlia ia morrendo aos poucos, que eu vira o homem de negro sentado ao lado do senhor Augusto. Nem quando me sentei no mesmo sítio onde ele se sentara e disse ao Jaime, igualmente drenado de sentimentos, constatando o facto, as mesmas palavras que dissera ao homem de negro: ela está morta.
Outra coisa que também se torna evidente no que escrevi é que, de certo modo, vinte anos depois, continuo sem perceber bem o que se passa à minha volta. Que tenho andado a viver como se a vida fosse uma festa, quando afinal é um velório.
Perdoa-me, Joana. É difícil combater toda esta morbidez quando durante uma semana (ou uma vida) se anda encharcado em morte e em sangue (e isto literalmente!!! A propósito, a ferida já se nota pouco. A cicatriz vai ficar grande, de certeza, mas fica um pouco escondida pela barba, que estou seriamente a pensar deixar crescer, e só aqui no quarto é que tenho tirado o cachecol. É estranho olhar-me no espelho. Fico mesmo diferente de barba. Bastou uma semana sem a fazer. E sinto-me diferente, também. Sabes, acho que estou a precisar de chorar, para verdadeiramente voltar a mim…)
Enfim, perdoa-me todas estas digressões mas é difícil não me perder. Ao ler o que já escrevi percebo que isto não será útil apenas para ti. Eu preciso voltar a sítios da minha vida que são como aquele corredor da casa da tia Júlia. Eu agora sei perfeitamente onde estão os quartos, a despensa, a cozinha. Sei onde vai dar cada uma das portas. Mas não é o hábito que torna as coisas mais compreensíveis. O hábito cega-te. Eu preciso voltar a esse corredor e tentar perceber o que vi quando abri as portas, em diferentes momentos da minha vida. Tenho a certeza que será aí que vou achar a pista de que preciso agora para encontrar o Jaime. As páginas amarelas de Salzburgo são inúteis. Talvez até consiga perceber do que é que ele anda a fugir. Porque, sabes, eu tenho uma séria suspeita do que é, mas, como o Dom Quixote alternativo, eu, neste momento, preferia não acreditar em gigantes…

Ser ou nao ser gay, eis a questao

Este fim de semana viu-se lá em casa o DVD de "O mercador de Veneza". A recente adaptação da peça de Shakespeare ao cinema que causou alguma polémica por causa de uma suposta "carga homoerótica", especificamente uma beijoca entre o Jeremy Irons e o Ralph Fiennes. Não sei porquê tanto burburinho, os rapazes mal roçam as barbas! Estava á espera de mais língua. Mas enfim... De qualquer maneira tem de se levantar o polegar a esta adaptação (já que não se levanta mais nada...) porque, sem o sublinhar da relação amorosa entre aquelas duas personagens masculinas, o enredo não faz lá grande sentido.
Finalmente compreendo porque é que esta é daquelas peças do Shakespeare que quase ninguém conhece (eu inclusivé não fazia idéia do que era a história). Para começar, o enredo é complicado à brava e não se consegue tirar uma moral simples da coisa. Depois, a tal coisa de o subtexto homoerótico precisar de vir à tona para que os diálogos e motivações das personagens possam fazer sentido (santo deus, a ponto de as três personagens femininas se vestirem de rapaz e os respectivos maridos fazerem comentários alarves sobre ir para a cama com rapazitos!!! No tempo do Shakespeare em que só havia actores masculinos em palco a coisa devia ser de gritos...). E depois, a personagem complexa do judeu Shylock (aqui numa interpretação genial do Al Pacino) que, está-se mesmo a ver, numa má leitura, irá descambar sempre num tom anti-semítico.
Porque o que é curioso nesta adaptação é que, dando verdadeira expessura às personagens, se compreendem os seus motivos e, de repente, não há ninguém que seja verdadeiramente o mau da fita. São antes todos simples humanos, com falhas e imperfeições.
Curioso é ainda a actualidade da obra que, para além da mensagem sobre a intolerãncia, fala ainda sobre a questão do materialismo, ganância económica e endividamento. Quando se apanha o metro em Lisboa e se vê todos os anúncios de agencias dispostas a emprestar dinheiro para que nos possamos endividar neste natal não podemos deixar de nos perguntar: que diferença há entre três mil ducados e três mil euros? A resposta é: os três mil ducados vêm em moedas de ouro dentro de um cofre, os três mil euros são um número impresso no extracto do multibanco.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

005 - Os Herdeiros

Mesmo que haja qualquer coisa de dura verdade nesta analogia de Dom Quixote e Sancho Pança, a nossa relação nunca foi essa. O Jaime para mim é um… (deus, a nossa família é tão complicada!)… um primo, um irmão, um amigo, um amante. É o meu…amado.
Mas deixa-me explicar-te a genealogia. É muito simples até, mas, não sei porquê (e, de momento, nem quero tentar saber porquê), enredámo-nos todos numa teia enganosa porque se trocaram nomes (e até pessoas…mas já lá chegaremos…).
O meu pai era, de facto, sobrinho da tia Júlia. Foi por isso que a minha mãe sempre lhe chamou isso. E eu, de ouvir a minha mãe, chamava-lhe isso também.
O Jaime chamava-lhe avó Júlia porque ela fora casada com o senhor Augusto, verdadeiro avô dele, mas ela não fora mãe do pai do Jaime.
Ou seja, eu e o Jaime se calhar nem somos suficientemente chegados por laços de sangue para sequer nos chamarmos primos. Crescemos em casas diferentes, mas fomos criados como se fôssemos irmãos. Morávamos com duas ruas de premeio, mas acabávamos sempre por fazer uma pequena família, eu e a minha mãe, o Jaime e a avó dele. É que, a toda a volta, para onde quer que se olhasse nos ramos da árvore geneológica, só havia mortos. E desses, evitava falar-se. Principalmente do meu pai, porque a minha mãe nunca lhe perdoou o facto de ele se ter enforcado na cozinha, no dia do meu primeiro aniversário.

Colheita 2005

Fiz a minha selecção pessoal dos artistas e canções que marcaram o meu ano de 2005. (Nada como um novo tema de playlist para o iPod). Como de costume, isto das listas é sempre muito imperfeito. Não está tudo porque houve coisas que ainda não ouvi (Piano Magic, The white birch, etc..), ainda há uns restos de 2004 mas que só me chegaram aos ouvidos este ano e limitei-me a uma canção por grupo/artista (excepção aberta para os Dead Can Dance só porque sim). Conclusão: excelente ano de consumo musical.

Ambulance Ltd – “Heavy Lifting”
Andrew Bird – “Fake Palindromes”
Animal Collective – “Banshee Beat”
Annie – “Heartbeat (Royksopp Mix)”
Antony and the Johnsons – “Fistfull Of Love”
The Arcade Fire – “Rebellion (Lies)”
Billie Holiday – “Speak Low (Bent Remix)”
Bloc Party – “So here we are”
Cass McCombs – “Equinox”
Claudia Brucken – “Lipstick Vogue”
The Cloud room – “hey now now”
Dead Can Dance – “Saffron”
Dead Can Dance – “Hymn For The Fallen”
Depeche Mode – “Suffer Well”
Destroyer – “Notorious Lightning”
dEUS – “What We Talk About”
Devendra Banhart – “Cripple Crow”
Editors – “Munich”
Fiery Furnaces – “Here Comes The Summer”
Franz Ferdinand – “Come on home”
I Monster – “Heaven”
Interpol – “Public Pervert”
Kate Bush – “somewhere in between”
Khonnor – “phone calls from you”
Ladytron – “International Dateline”
LCD Soundsystem – “Tribulations”
Madeleine Peyroux – “Between The Bars”
Magnétophone – “...And May Your Last Words Be A Chance To Make Things Better”
Magnolia Electric Co. – “Hard to Love a Man”
Martha Wainwright – “The Car Song”
Mount Sims – “How We Do”
The National – “Abel”
Nine Horses – “The Banality Of Evil”
Nouvelle Vague – “Making Plans For Nigel”
Patrick Wolf – “The Libertine”
Plaza – “we came through”
Royksopp – “What Else Is There”
Rufus wainwright – “the art teacher”
Sigur Rós – “gong”
Stina Nordenstam – “From Cayman Islands with Love”
Sufjan Stevens – “Chicago”
The Veils – “The Leavers Dance”
VHS or Beta – “Night On Fire”

Em termos de concertos o ano também primou pela excelencia. Foram inesquecíveis:
Antony, Dead Can Dance, Rufus, Sigur Ros, The Young Gods

O momento alto de reciclagem foi a atinada encomenda via amazon.uk do CD do velhinho album
"Helleborine" dos Shelleyan Orphan