sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Ainda nao foi desta

Há uma grande vantagem em ter uma profissão que traz dinheiro regularmente para casa porque, se eu andasse só nisto de ser artista, estava bem tramado. Assim, posso-me dar ao luxo de, como diria a Madonna, não comprometer a minha integridade artística, e até me divertir um bocadito quando me dão uma nega.

Hoje recebi um simpatiquíssimo email de outra editora a quem entreguei a maquete do meu livro de contos. Devo confessar que teria ficado mais espantado se o tivessem aceite, por isso até me diverti com os comentários dos dois consultores literários da editora que me foram enviados. Basicamente, ambos dizem que o texto está muito bem escrito e que tem "mérito literário" (e só isto já chegaria para me pôr de bom humor para as próximas semanas) mas que a temática... bem, deixo-vos uma citação da carta que um desses consultores escreveu a esse editor e que li com surpreendido agrado e até prefiro entender como elogiosa porque, vivendo eu um pouco desfasado da realidade, tendo a esquecer-me do impacto dos meus temas:

"Caro Editor X:
O texto que me enviou é daqueles que vejo, infelizmente, muito divulgados noutros países como os EUA, e não tanto, graças a Deus, entre nós. Não sei se a editora X está a pensar mudar o tipo de selecção a que nos habituou: sei que se o fizer perderá seguramente uma boa parte do seu público. É bem certo que, do ponto de vista estritamente literário, tenho visto bem pior pois o livro é bem escrito, e eu diria até que poderia ser lido com agrado. No entanto desaconselho vivamente a sua publicação. [...]"

Tenho de admitir que a aura de autor maldito que comentários destes me poderiam pôr em cima não me desagrada. Mas é um desperdício nesta fase! Espero que, no dia em que o livro venha a ver a luz do dia, haja antes um jornalista a escrever coisas destas para o livro vender muito e eu me poder tornar num verdadeiro autor maldito... mas milionário (que é o que interessa!).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

009 - Os Herdeiros

No dia seguinte, ao chegar da escola, dei com o piano totalmente esventrado na sala. O Jaime já tinha preparado uma platéia, dispondo os cadeirões de frente para o evento e sentara-se, em pasmo absoluto, a ver o afinador trabalhar.
Foi uma das tardes mais fascinantes de que me lembro. O senhor Pereira, que passaria a vir fazer-nos visitas mensais, para além de se dar ao trabalho de limpar todo o interior do piano, substituir martelos, feltros, molas e cordas, deu-se ao trabalho de nos explicar tudo o que fazia. E não se cansava de dizer, é um milagre, o estado disto. Mas, quando a tia Júlia lhe explicou provavelmente nunca ninguém o tocara, ficou-se a repetir, ah bem, ah bem… E assim ficámos a saber como o comprimento das cordas define a altura dos sons, para que serviam de facto os pedais (ver a maquinaria toda a sair do sítio quando se carregava neles era entusiasmante) e todo o complexo movimento mecânico que transmite, com espantosa precisão, a pressão das teclas aos martelos que batem nas cordas.
Fomos excepcionalmente libertos dos nossos deveres para observar todo o procedimento cirúrgico, com mais motivo ainda quando começou a afinação das cordas. Foi aí que percebemos que éramos meros amadores a fazer gemer o piano. O senhor Pereira suava profusamente alternando o esforço de puxar as cordas com o martelar intenso das cordas e os toques de diapasão (fascinante pedacinho de metal que, por precisar de tanta explicação, aumentou ainda mais a féria do senhor Pereira, que era pago à hora). O barulho para além de insuportável era irritantemente repetitivo. A tia Júlia até se lembrou subitamente de ir às compras e a vizinha de baixo veio bater à porta para saber o que se passava.
Mas no final, o senhor Pereira, embora suado, coberto de pó e já farto das nossas perguntas incessantes e dasastrada vontade de ajudar, brindou-nos com um pequeno concerto.
Abriu com uma escala que correu o piano de cima abaixo e que pôs o instrumento a ressoar tão harmoniosamente que o Jaime até me disse baixinho, ao ouvido: “ É como se fosse a Madalena, depois de exorcizada dos sete demónios”. E eu concordei, sem sequer me rir. Aquilo era pura e milagrosa magia. Era como se fosse outro piano.
Depois, foram as mãos do senhor Pereira que sofreram uma transformação, deixando de ser umas salsichas brutas e peludas que martelavam as teclas numa barulheira infernal para as acariciar velozmente com sons que só podiam ser uma pura manifestação de divindades celestes.
A tia Júlia nessa altura veio sentar-se ao nosso lado. E, quando o senhor Pereira acabou, tirou-me o sorriso da cara informando-me que no dia seguinte eu ia começar a aprender a tocar piano. Eu fiquei pregado no chão, esmagado pela enormidade do que me era pedido.

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

008 - Os Herdeiros

Havia um piano em casa da tia Júlia. Estava plantado na sala, verticalmente encostado a uma parede, no lugar onde se esperaria uma televisão, e devia ter começado a criar raízes aí no século XIX. Fazia tão parte da casa como o estuque trabalhado dos tectos e certamente sobrevivera a todas as mudanças de proprietários do apartamento. Era um pouco como o actual frigorífico, que é o utensílio que fica para trás, quando se vende uma casa. Aposto que, na altura de uma mudança, aquele piano, ganhava nomes como “traste monstruoso” ou “elefante desafinado”. Era um objecto esquecido e a única utilidade que ainda tinha era como suporte de molduras e bibelots. Mas dava um certo “ar” à sala, e julgo que era por isso que nem mesmo a tia Júlia, que era tão prática e pouco dada a “ares”, o deixara ficar. E também, não se conseguia deixar de ter um pouco de pena daquele objecto.
Outra característica do piano era ter um efeito magnético em momentos ociosos. Ninguém resistia, a dada altura, a abrir-lhe a tampa e carregar nas teclas. Os adultos que faziam isso, paravam imediatamente assim que a primeira nota, num volume ineperadamente alto, ecoava pelo prédio. Era um som de agonia metálica e mecânica tão insuportável que só se podia gemer em solidariedade com o pobre instrumento.
Mas as crianças, ou seja, eu e o Jaime, tinhamos um verdadeiro fascínio por aquilo e, em fantásticos duetos a quatro mãos, ou despiques à vez, aperfeicoávamos a arte de extorquir daquele objecto os mais arrepiantes, insuportáveis e massacrantes sons. O objectivo final era fazer com que a tia Júlia viesse lá de dentro ensandecida e gritasse o seu habitual “Pelos sete demónios de Madalena!!!”, que era a sua expressão máxima de exasperação e que nos deixava sempre em convulsões de riso histérico.
A brincadeira tomou tais proporções que a tia Júlia teve de tomar medidas drásticas. E fui eu quem fez o copo transbordar com a última gota de água.
Os meus mais solitários momentos de ócio eram passados naquela sala, nas tardes em que eu tinha de esperar que o Jaime acabasse os trabalhos de casa dele. A tia Júlia normalmente deixava-me com um livro e ia para a cozinha tratar dos afazeres domésticos. Mas isto passou-se numa fase anterior àquela que te descrevi, em que o tráfico clandestino de livros me andava a alimentar um vicio de leitura. Isto de que te estou a falar passou-se quando eu tinha sete anos e a única coisa que me interessava era que o Jaime se despachasse para irmos montar a pista de carros para fazermos corridas. Não havia livro no mundo capaz de merecer a minha atenção, nesses momentos. E a minha fonte de consolo era aquele piano, que, com a sua voz de pecador torturado num círculo fundo do inferno, era a única coisa capaz de expressar o que me ia na alma.
E por mais raspanetes, e mesmo promessas de tareia que a tia Júlia me fizesse, eu não conseguia ficar sentadinho nos cadeirões da sala, com um livro no colo. Pelo canto do olho, aquele mastodonte anti-melódico chamava-me sempre para uma sessão de catártica agonia sonora.
Até que um dia, vinda lá de dentro numa fúria, depois de me atirar com a praga dos sete demónios da Madalena, a tia Júlia olhou para mim seriamente e deve ter tido uma epifania. Em vez de me dar os açoites que o comum mortal adoraria descarregar em cima de mim, disse-me, numa voz gelada, que não estava para aturar os meus olhitos de bambi hipócritas:
“Muito bem! Esta foi a última vez que isto aconteceu. Agora vais-te sentar ali, ler o teu livrinho e ficar calado. E eu vou tratar imediatamente do teu castigo. Vais ver, meu menino… nem sabes o que te espera!”
E foi para o telefone pôr em acção o seu mais maquiavélico e diabólico plano, que acabaria por me moldar, irremediavelmente, a vida.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

007 - Os Herdeiros

Que acharás tu do Jaime? Tu só o viste duas vezes e ambas foram…bem…chamemos-lhes… circunstâncias invulgares.
O Jaime tem exactamente a mesma idade que eu. Isso, as viuvezes da minha mãe e da tia Júlia e a nossa vizinhaça foi o que de início fez com que passássemos tanto tempo juntos.
Mas uma coisa que acho curiosa, agora que olho para trás e vejo a mão da tia Júlia em tanta coisa, é que, embora ela cuidasse da nossa educação com igual interesse, nós nunca estudámos juntos na mesma escola. O Jaime era sempre posto em escolas particulares, liceus finos, universidade privada e eu estive sempre no ensino público.
Era só as tardes que passávamos juntos e, mesmo assim, muitas vezes, eu tinha de esperar que ele acabasse os trabalhos de casa, porque os meus faziam-se em meia-hora enquanto que os dele levavam a tarde quase toda. Mas eram depois as poucas horas ao fim do dia que valiam. Quando brincávamos juntos.
A minha mãe chegava antes do jantar para me vir buscar, vinda da universidade. Tão exausta que mal conseguia cozinhar. Mas, apesar dos meus pedidos insistentes, ela raramente cedia a ficar em casa da tia Júlia para jantar. Acho que ela queria aqueles momentos só para nós, mesmo que eu comesse a sopa de trombas, a pensar na nave de legos que eu e o jaime tinhamos começado a construir. E insistia em rever comigo os trabalhos de casa. Eram sufocantes, os trabalhos de casa. Uma idiotice. E as nossas noites passadas frente à televisão uma seca. Eu não me interessava pelas novelas e a minha mãe adormecia no sofá em menos de vinte minutos. Era nessas alturas que a ausência do jaime se assemelhava a uma dor. A minha mãe a ressonar, a sala iluminada pela aura inane da televisão, e o resto da casa às escuras. E a minha solidão.
Para além do Jaime, os meus únicos amigos eram os livros. O que não era exactamente saudável. Não preciso explicar-te em detalhe o que isto fazia à minha vida na escola. Eu era o menino que fazia sempre os trabalhos de casa, sabia tudo e tinha sempre boas notas. Odiavam-me de morte, na escola. E eu odiava aquele culto diário da estupidificação.
Quando foi que a minha mãe cedeu à tia Júlia? Não sei precisar a data. Mas começou certamente com as minhas aulas de Piano. E de norueguês.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

o "boobie break"

Voltando ao "mercador de veneza", uma das coisas que achei interessantes nesta nova adaptação cinematografica, foi o facto de, apesar de ser uma coisa toda muito british, visto a acção decorrer em Veneza, o realizador decidiu incluir uns quantos "boobie breaks" como homenagem ao audiovisual italiano.
O "boobie break", se não é uma invenção italiana, encontrou pelo menos na televisão italiana o ponto máximo de desenvolvimento. Consiste basicamente no seguinte: programa de variedades e ou cultura geral em geral, que, no momento em que começa a ficar demasiado sério, corta para intervenção de corpo de baile constituido por moçoilas avantajadas. Encontra também muita expressão na dialética entre o apresentador canastrão de fato escuro e a apresentadora boazona de vestidinho XS mas de decote XXXL. Ou seja, no momento em que as coisas ficam demasiado sérias, faz-se uns intervalo com uns melões, para nos lembrar das coisas boas da vida.
Isto é muito prático e pode ser aplicado na vida em geral como eu por vezes faço, utilizando aliás umas das grandes exportações italianas do boobie break: a Sabrina.
A coisa funciona assim:
Você está numa conferencia, no lançamento de um livro, a ver uma ópera, uma peça no Nacional ou um filme do Kiarostami. No momento em que se sentir prestes a ensandecer faça o seguinte:
1 - Lembre-se da Sabrina, recordando vividamente aquelas boinga-boingas balouçantes, constantemente em risco de saltarem para fora do bikini branco.
2 - Estremeça.
3 - Cantarole mentalmente "boys, boys, boys!"
O alívio é imediato e funciona indiscriminadamente com homos e heteros.

006 - Os Herdeiros

Mas foi só depois da morte do senhor Augusto que começámos a frequentar mais a casa da tia Júlia. É um bocado parvo dizer “frequentar”, como se fosse um café, porque na verdade é a minha outra casa.
Voltei a ler o que te escrevi sobre aquele episódio do velório do senhor Augusto e percebi que, de facto, até aquela altura, a casa da tia Júlia era um território inexplorado para mim, com sítios proibidos, assustadores mesmo. E é muito estranho pensar nesses termos sobre um sítio que se tornou um lar para mim e no qual nada me é estranho. Nem mesmo o quarto da tia Júlia, que fora muito tempo o santo dos santos, porque nos últimos anos, durante a doença dela, juntávamo-nos todos aí, como se fosse a sala, como se nada se passasse…E sabes, nessa altura, nem por um momento me lembrei que fora naquela mesma cama, onde a tia Júlia ia morrendo aos poucos, que eu vira o homem de negro sentado ao lado do senhor Augusto. Nem quando me sentei no mesmo sítio onde ele se sentara e disse ao Jaime, igualmente drenado de sentimentos, constatando o facto, as mesmas palavras que dissera ao homem de negro: ela está morta.
Outra coisa que também se torna evidente no que escrevi é que, de certo modo, vinte anos depois, continuo sem perceber bem o que se passa à minha volta. Que tenho andado a viver como se a vida fosse uma festa, quando afinal é um velório.
Perdoa-me, Joana. É difícil combater toda esta morbidez quando durante uma semana (ou uma vida) se anda encharcado em morte e em sangue (e isto literalmente!!! A propósito, a ferida já se nota pouco. A cicatriz vai ficar grande, de certeza, mas fica um pouco escondida pela barba, que estou seriamente a pensar deixar crescer, e só aqui no quarto é que tenho tirado o cachecol. É estranho olhar-me no espelho. Fico mesmo diferente de barba. Bastou uma semana sem a fazer. E sinto-me diferente, também. Sabes, acho que estou a precisar de chorar, para verdadeiramente voltar a mim…)
Enfim, perdoa-me todas estas digressões mas é difícil não me perder. Ao ler o que já escrevi percebo que isto não será útil apenas para ti. Eu preciso voltar a sítios da minha vida que são como aquele corredor da casa da tia Júlia. Eu agora sei perfeitamente onde estão os quartos, a despensa, a cozinha. Sei onde vai dar cada uma das portas. Mas não é o hábito que torna as coisas mais compreensíveis. O hábito cega-te. Eu preciso voltar a esse corredor e tentar perceber o que vi quando abri as portas, em diferentes momentos da minha vida. Tenho a certeza que será aí que vou achar a pista de que preciso agora para encontrar o Jaime. As páginas amarelas de Salzburgo são inúteis. Talvez até consiga perceber do que é que ele anda a fugir. Porque, sabes, eu tenho uma séria suspeita do que é, mas, como o Dom Quixote alternativo, eu, neste momento, preferia não acreditar em gigantes…

Ser ou nao ser gay, eis a questao

Este fim de semana viu-se lá em casa o DVD de "O mercador de Veneza". A recente adaptação da peça de Shakespeare ao cinema que causou alguma polémica por causa de uma suposta "carga homoerótica", especificamente uma beijoca entre o Jeremy Irons e o Ralph Fiennes. Não sei porquê tanto burburinho, os rapazes mal roçam as barbas! Estava á espera de mais língua. Mas enfim... De qualquer maneira tem de se levantar o polegar a esta adaptação (já que não se levanta mais nada...) porque, sem o sublinhar da relação amorosa entre aquelas duas personagens masculinas, o enredo não faz lá grande sentido.
Finalmente compreendo porque é que esta é daquelas peças do Shakespeare que quase ninguém conhece (eu inclusivé não fazia idéia do que era a história). Para começar, o enredo é complicado à brava e não se consegue tirar uma moral simples da coisa. Depois, a tal coisa de o subtexto homoerótico precisar de vir à tona para que os diálogos e motivações das personagens possam fazer sentido (santo deus, a ponto de as três personagens femininas se vestirem de rapaz e os respectivos maridos fazerem comentários alarves sobre ir para a cama com rapazitos!!! No tempo do Shakespeare em que só havia actores masculinos em palco a coisa devia ser de gritos...). E depois, a personagem complexa do judeu Shylock (aqui numa interpretação genial do Al Pacino) que, está-se mesmo a ver, numa má leitura, irá descambar sempre num tom anti-semítico.
Porque o que é curioso nesta adaptação é que, dando verdadeira expessura às personagens, se compreendem os seus motivos e, de repente, não há ninguém que seja verdadeiramente o mau da fita. São antes todos simples humanos, com falhas e imperfeições.
Curioso é ainda a actualidade da obra que, para além da mensagem sobre a intolerãncia, fala ainda sobre a questão do materialismo, ganância económica e endividamento. Quando se apanha o metro em Lisboa e se vê todos os anúncios de agencias dispostas a emprestar dinheiro para que nos possamos endividar neste natal não podemos deixar de nos perguntar: que diferença há entre três mil ducados e três mil euros? A resposta é: os três mil ducados vêm em moedas de ouro dentro de um cofre, os três mil euros são um número impresso no extracto do multibanco.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

005 - Os Herdeiros

Mesmo que haja qualquer coisa de dura verdade nesta analogia de Dom Quixote e Sancho Pança, a nossa relação nunca foi essa. O Jaime para mim é um… (deus, a nossa família é tão complicada!)… um primo, um irmão, um amigo, um amante. É o meu…amado.
Mas deixa-me explicar-te a genealogia. É muito simples até, mas, não sei porquê (e, de momento, nem quero tentar saber porquê), enredámo-nos todos numa teia enganosa porque se trocaram nomes (e até pessoas…mas já lá chegaremos…).
O meu pai era, de facto, sobrinho da tia Júlia. Foi por isso que a minha mãe sempre lhe chamou isso. E eu, de ouvir a minha mãe, chamava-lhe isso também.
O Jaime chamava-lhe avó Júlia porque ela fora casada com o senhor Augusto, verdadeiro avô dele, mas ela não fora mãe do pai do Jaime.
Ou seja, eu e o Jaime se calhar nem somos suficientemente chegados por laços de sangue para sequer nos chamarmos primos. Crescemos em casas diferentes, mas fomos criados como se fôssemos irmãos. Morávamos com duas ruas de premeio, mas acabávamos sempre por fazer uma pequena família, eu e a minha mãe, o Jaime e a avó dele. É que, a toda a volta, para onde quer que se olhasse nos ramos da árvore geneológica, só havia mortos. E desses, evitava falar-se. Principalmente do meu pai, porque a minha mãe nunca lhe perdoou o facto de ele se ter enforcado na cozinha, no dia do meu primeiro aniversário.

Colheita 2005

Fiz a minha selecção pessoal dos artistas e canções que marcaram o meu ano de 2005. (Nada como um novo tema de playlist para o iPod). Como de costume, isto das listas é sempre muito imperfeito. Não está tudo porque houve coisas que ainda não ouvi (Piano Magic, The white birch, etc..), ainda há uns restos de 2004 mas que só me chegaram aos ouvidos este ano e limitei-me a uma canção por grupo/artista (excepção aberta para os Dead Can Dance só porque sim). Conclusão: excelente ano de consumo musical.

Ambulance Ltd – “Heavy Lifting”
Andrew Bird – “Fake Palindromes”
Animal Collective – “Banshee Beat”
Annie – “Heartbeat (Royksopp Mix)”
Antony and the Johnsons – “Fistfull Of Love”
The Arcade Fire – “Rebellion (Lies)”
Billie Holiday – “Speak Low (Bent Remix)”
Bloc Party – “So here we are”
Cass McCombs – “Equinox”
Claudia Brucken – “Lipstick Vogue”
The Cloud room – “hey now now”
Dead Can Dance – “Saffron”
Dead Can Dance – “Hymn For The Fallen”
Depeche Mode – “Suffer Well”
Destroyer – “Notorious Lightning”
dEUS – “What We Talk About”
Devendra Banhart – “Cripple Crow”
Editors – “Munich”
Fiery Furnaces – “Here Comes The Summer”
Franz Ferdinand – “Come on home”
I Monster – “Heaven”
Interpol – “Public Pervert”
Kate Bush – “somewhere in between”
Khonnor – “phone calls from you”
Ladytron – “International Dateline”
LCD Soundsystem – “Tribulations”
Madeleine Peyroux – “Between The Bars”
Magnétophone – “...And May Your Last Words Be A Chance To Make Things Better”
Magnolia Electric Co. – “Hard to Love a Man”
Martha Wainwright – “The Car Song”
Mount Sims – “How We Do”
The National – “Abel”
Nine Horses – “The Banality Of Evil”
Nouvelle Vague – “Making Plans For Nigel”
Patrick Wolf – “The Libertine”
Plaza – “we came through”
Royksopp – “What Else Is There”
Rufus wainwright – “the art teacher”
Sigur Rós – “gong”
Stina Nordenstam – “From Cayman Islands with Love”
Sufjan Stevens – “Chicago”
The Veils – “The Leavers Dance”
VHS or Beta – “Night On Fire”

Em termos de concertos o ano também primou pela excelencia. Foram inesquecíveis:
Antony, Dead Can Dance, Rufus, Sigur Ros, The Young Gods

O momento alto de reciclagem foi a atinada encomenda via amazon.uk do CD do velhinho album
"Helleborine" dos Shelleyan Orphan

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

intermezzo da realidade

Para os que se interrogam, sim, resolvi começar a deixar aqui uma nova história que estou a escrever. Estão a ter acesso a ela praticamente em tempo real. Está a sair directamente do teclado para a janelita do "posting - create" e o meu "save" é o botãozito "publish post".
Porquê, perguntam os curiosos, os incautos e os óciosos?
Pela simples razão de que é um bom motivo para eu me forçar a escrever (quase) todos os dias.

004 - Os Herdeiros

A minha relação com o Jaime foi, desde sempre, moldada pela tia Júlia. É claro que eu me apercebia disso, mas só nestas últimas semanas me apercebi do frio, calculado, propósito de tudo. E é isso que principalmente me tem perturbado, porque não creio ter compreendido ainda a verdadeira extensão daquilo que, receio, seja…
(espera, deixa-me tentar explicar outra coisa primeiro)
Esta manhã, no quiosque do aeroporto, enquanto olhava para os livros (velhos hábitos nunca se perdem, de resto como ia eu passar o tempo? A roer (ainda mais) as unhas?) assaltou-me uma recordação quando vi uma edição do Dom Quixote.
A forma como a tia Júlia nos fazia ler os clássicos era verdadeiramente insidiosa. Esse era um daqueles seus planos maquiavélicos de que, depois, ela própria se ria. Acontecia eu achar, casualmente, metido na minha mochila da escola entre os livros de Física e Matemática, as Fábulas de La Fontaine, ilustradas por Gustave Doré. E em vez de passar a tarde a fazer os trabalhos da escola, devorava aquelas histórias com animais sábios e tolos.
É claro que eu sabia que for a ela quem colocara o livro ali. Mas era um segredo. Só meu e dela. E depois, inevitavelmente, vinha um interrogatório. Subtil, mas impiedoso.
Estávamos a lanchar, e ela, cortando o queijo, diria:
“Diz o povo que comer muito queijo torna as pessoas esquecidas.”
E eu:
“Isso é verdade? “
“Não para os meninos bonitos. E tu és um menino bonito, não és, António?”
E eu ria-me.
“ Um corvo é que não sou de certeza, mas a tia é uma raposa! Das mais matreiras”
E riamo-nos os dois. E o Jaime ficava a olhar para nós a perguntar:
“O que foi? O que foi?”
“Explica-lhe lá…” diria ela, e eu passaria a tarde a contar as fábulas que lera ao Jaime, começando pela da raposa que elogiara a voz do corvo para que ele abrisse o bico e deixasse cair o queijo. Ela fica a ouvir-nos. Sorridente.
E , meses ou semanas depois, acharia eu, por acaso, na mesa da sala, uma cópia do Dom Quixote, ilustrado também por Gustave Doré, aberto na página em que Sancho Pança puxa o burro teimoso monte acima e olha desconsolado para Dom Quixote e Rocinante que cairam ridiculamente de pernas para o ar, derrotados pelos moinhos. Divertidíssimo, eu pegava no livro, lia umas quantas páginas, e tinha de o “roubar”. Punha-o na mochila e lia-o em casa, de uma assentada, ao longo de umas quantas noites. Foi assim que depois vieram “A Divina Comédia” e o “Paraíso Perdido”. Gustave Doré como perverso cúmplice da tia Júlia.
Mas o que me veio à memória no aeroporto foi uma conversa que tivémos anos depois, em que ela aproveitou para me tentar explicar uma coisa através do Dom Quixote. Tinhamos começado a falar de religião (que era assunto banal naquela casa) e depois de fé, e de crença, e no final a conversa descambou mais ou menos nisto, exemplo típico da lição de moral à la tia Júlia:
“António, as pessoas acreditam no que querem acreditar. Não podemos ridicularizar a fé de outras pessoas porque aquilo em que elas acreditam é a realidade para elas. A realidade é sempre uma construção mental do individuo. Lembras-te do Dom Quixote? Do episódio dos moinhos? Dom quixote e Sancho Pança passam por uns moinhos num monte e o Dom Quixote, convencido de que estes são gigantes, ataca-os e acaba espatifado e feito num oito, com o Sancho pança espantado com tanto ridículo.
Mas agora, imagina tu o oposto. Imagina que, de facto, os moinhos eram gigantes que, ao longe, Dom Quixote julga serem moinhos (a vista dele não devia decerto ser grande coisa) porque ele não acredita em gigantes. Seriam ambos certamente atacados pelos gigantes e Dom quixote, fraco como era, não conseguiria defender-se a si nem ao seu amigo. Dom Quixote talvez se safasse, porque, afinal de contas, tinha uma armadura, mas, os gigantes seriam certamente maus e impiedosos, pelo que nesta versão inversa, Sancho Pança não escaparia com vida e seria ele a jazer no chão, inevitavelmente morto.
Agora, o que achas preferível? Alguém submeter-se ao ridículo por acreditar em algo sobrenatural ou alguém ser incapaz de salvar um amigo da morte por não acreditar naquilo que tem em frente dos olhos?”

003 - Os Herdeiros

Salzburgo, Dezembro de 2005

Querida Joana:

Acho que esta vai ser a carta mais longa da minha vida. Afinal de contas tenho de te contar a minha vida, para que percebas. Pelo menos para que tenhas uma idéia melhor do que se está a passar. Eu também ainda não percebo bem. E, francamente, cada vez tenho mais medo de perceber…
Cheguei aqui esta manhã e, mal larguei as malas no hotel, saí à procura do Jaime. Tanto quanto sei, não está em nenhum hotel. Mas também só fui a alguns mesmo no centro. A propósito, Salzburgo é uma cidade estupidamente bonita mas, como calculas, não estou com uma disposição de turista. Se estivesse com o Jaime num dos nossos passeios, seríamos verdadeiramente as irmãs Schlegel, como as mamã nos chamava. A meter o nariz em todas as igrejas, museus e bibliotecas. A tomar cafés e chás nas esplanadas. A apreciar as vistas panorâmicas… Mas está frio, um frio de rachar, estou sozinho como a merda e Salzburgo começou a deprimir-me. Ou, para ser mais exacto, a deixar-me mais triste do que preocupado. O tempo estava carregado de nuvens logo quando aterrei e só tem ficado pior. À tarde começou a chover , mas à noite é bem capaz de nevar, com o frio que está. Voltei para o meu hotel e pedi as páginas amarelas na recepção. Passei metade da tarde a ligar para hotéis. Nada.
Enfim… depois desisti e tenho estado aqui às voltas, como um animal na jaula sem saber o que fazer.
Há bocado dei por mim a ter pena de não saber rezar. E depois enfureci-me comigo mesmo por estar a ser tão estúpido e a ter uma recaída cristã. Mas é o desespero, sabes… eu sei que sabes…
Espero que não estejas muito zangada comigo mas, como espero que venhas a perceber depois de leres isto, fiz o que o meu coração mandou. (É tão antiquado, falar assim. Tão novelista e vitoriano… que importãncia tem o meu coração no meio disto tudo?) Mas também sei que, se não tivesse seguido aquele impulso, teria ficado retido em Portugal. De certeza que não me deixavam sair do país.
Espero que a polícia não te esteja a dar muitos problemas. A minha mãe tentou telefonar-me mas eu não estou em condições de falar com ela. Mandei-lhe só um sms a dizer que estou bem, que está tudo bem.
Não está nada bem. Há semanas que nada está bem. Desde que a tia Júlia morreu que tudo se tem estado a desmoronar.
A minha mãe vai-te ajudar, vais ver. Ela tem um espírito prático. Verdadeiramente germânico.
Mas nada…nada, Joana, percebes? Nada me vai fazer deixar de sentir remorsos por te deixar assim, com a casa…não, com a vida, toda coberta de sangue, toda manchada de horror.
A única explicação que há para isso é o meu amor pelo Jaime. E é isso, principalmente, que eu te vou tentar explicar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

002 - Os Herdeiros

A minha mãe apareceu então e ralhou-me, perguntando-me porque era mau, porque não ficava quieto e dormia como um bom menino e porque fora para ali, o que estava ali a fazer. Ia-me fazendo todas estas perguntas, numa voz sussurrada mas zangada, irritada, enquanto me pegava ao colo e me levava de volta para a festa que, começava eu a perceber, era um velório (se bem que na altura eu lhe chamasse simplesmente funeral, incapaz de distinguir entre as diferentes socializações e burocracias da morte)
Eu achei que precisava de me desculpar e disse:
“Estava a conversar com aquele senhor.” e apontei para o fundo do corredor, para a porta que ela fechara cuidadosamente.
“Não sejas mentiroso!”
“Eu não sou mentiroso!”
“Então não digas disparates. Aquele senhor já não pode falar.”
“Ele falou comigo.”
“Ai, tanto disparate, vamos ter de pôr pimenta nessa língua.”
Isto alegrou-me um bocadito porque pimenta era uma coisa de adultos, que nunca me tinham deixado experimentar mesmo que eu pedisse. Mas não percebi a que propósito vinha isto.
Entrou na festa ainda comigo ao colo e riu-se para a tia Júlia, a avó do Jaime.
“Veja lá este tontinho. Entrou no quarto do Senhor Augusto e disse-me que estava a falar com ele.”
A tia Júlia não se riu. Olhou para mim muito séria e só então é que eu percebi que devia ter feito uma grande asneira.
“Vem cá”, disse ela, e estendeu os braços para que eu passasse do colo da minha mãe para o colo dela. E depois sentou-se logo, que eu já era pesado. Aliás, já começava a ser estranho que me pegassem assim. Há muito tempo que eu não pedia colo e já ninguém mo queria dar. Era difícil perceber se estavam mesmo zangadas comigo, com tanto mimo.
“Então, conta lá, que conversa era essa com o Augusto?”
Eu agora já percebia melhor o que se passava. Era o funeral do senhor Augusto, o avô do Jaime. Eu só o vira uma vez. Era o senhor que ficava sentado num cadeirão, no quarto escuro. A razão porque nunca se podia fazer barulho nos fundos da casa. O motivo porque se tinha de fazer silêncio a certas horas do dia. Não era uma pessoa de quem eu gostasse muito.
Compreendi que era ele quem estava deitado na cama, com os sapatos brilhantes, mesmo que não lhe tivesse visto a cara. E por isso disse:
“Não era com ele que eu estava a falar, era com o outro senhor.”
“Então, o que é isso? Agora pões-te a inventar histórias? O que é que te deu? Estás mesmo a querer levar uma palmada nesse rabiosque!” A minha mãe estava mesmo zangada comigo. Eu tentei começar a chorar, mas não estava lá muito triste por isso só devo ter conseguido fazer uma cara ridícula. A tia Júlia olhava para mim e riu-se um bocadinho.
“E quem era esse senhor, diz lá à tia.”
“Não sei.”
“Como é que ele era?”
“Tinha uma camisa preta.”
“Cabelos brancos?”
“Sim.”
“Um fio de ouro, com uma cruz, por cima da camisa?
Esta pergunta era mais complicada. Fechei os olhos e tentei lembrar-me. Deve ter sido isso, juntamente com todo este interrogatório que impediu que me esquecesse do homem, mesmo tendo passado tanto tempo sem que a memória voltasse a trazer à tona o episódio que só agora, vinte anos depois, faz tanto sentido, explica tanto.
“Sim, o senhor tinha um colar.”
A tia Júlia sorriu um pouco. Voltou-se para a minha mãe.
“Deixa o miúdo, Marta, ele não está a mentir.”
“Mas tia, não estava lá mais ninguém!”
A tia Júlia voltou-se para mim e começou a pentear-me com a mão, que era coisa que me irritava que os adultos fizessem. Mas achei melhor ficar quieto. Eu estava nas boas graças dela e era melhor aproveitar.
“Estava sim, Marta. Mas tu não o podias ver.”
A minha mãe não disse nada. Ficou só a olhar para mim. Eu achei que já devia estar tudo bem por isso disse:
“Posso comer bolo?”
A tia Júlia fazia imensos bolos, fosse qual fosse a ocasião. Estava um em cima da mesa e eu tinha estado o tempo inteiro a olhar para ele.

terça-feira, 22 de novembro de 2005

001 - Os Herdeiros

Isto é o que tenho de começar por te contar. Aconteceu teria eu 5 ou 6 anos. Aconteceu por causa do sangue. Eu tinha sangrado, sabes, por ter batido com a cara numa cadeira. Eu e o Jaime andávamos sempre a correr. E havia uma festa. Eu julguei que era uma festa. Tinhamos vindo a casa do Jaime porque havia uma festa. Foi a explicação que achei para tanta gente em casa deles. Era uma festa de adultos. Mesmo que estivessem todos de negro e não houvesse música.
Eu e o Jaime brincávamos, que os adultos pouco nos interessavam. E, na correria, eu bati numa cadeira e comecei a sangrar do nariz. Sei que fiquei coberto de sangue e lembro-me de chorar, não por estar a sangrar, mas por ter medo que me batessem por me ter sujado.
Levaram-me da sala, limparam-me, assoaram-me tirando o sangue, o ranho e as lágrimas. E depois tentaram deitar-me no quarto do Jaime. Eu fingi dormir para que me deixassem sozinho. E quando fiquei em paz levantei-me para ver os brinquedos do Jaime. Ele tinha um comboio. E carrinhos.
E quando me cansei disso abri a porta do quarto e olhei para o corredor. Estava escuro, e era demasiado comprido, todo portas. Eu ouvia o ruido da festa, as vozes dos adultos, mas ninguém podia saber que eu estava acordado. Experimentei as outras portas. A casa de banho. Um armário. E depois um quarto.
Neste nunca tinha entrado. Pela porta entreaberta espreitei lá para dentro. Estava escuro. Na cama estava deitado um homem vestido e calçado. Fato preto, sapatos engraxados e de negro brilhante. E ao lado dele sentava-se outro, na beira da cama. Estava também vestido de negro, mas apenas de calças e camisa. Camisa negra. Foi isso que eu achei estranho. As camisas eram sempre brancas. Ele olhou para mim. E sorriu. Eu disse:
- Ele está morto.
Não foi uma pergunta. Apenas disse o que percebera nesse momento, que o homem deitado estava morto.
O homem da camisa preta assentiu. E depois disse-me qualquer coisa. E durante vinte anos não me lembrei do que ele me dissera.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

...(this must be underwater love)...

Cobri-me de lama e deitei-me
no leito do rio,
esperando por ti.
O coração uma pedra, tremendo de frio,
resistindo à corrente,
âncoramor.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

o hinberno

Estou doente há mais de uma semana. Ainda não percebi se é gripe ou constipação, mas uma dessas será. E apesar de me sentir mal à brava há um prazerzito secreto em ter uma desculpa para me enterrar na cama e simular a hibernação.
Quero férias na cama com um bom livro!!! É para isso que serve o inverno, o frio e o mau tempo!!
A chatice é a minha consciência, que me obriga a trabalhar mesmo nos dias em que tenho ficado em casa. Como é que o mundo funcionava antes dos computadores portáteis e da internet??

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

truques de luz

Em frente à janela do meu escritório há um prédio banalíssimo, mas esta tarde o sol está a bater numa das varandas e, por momentos, a luz reflectiu-se de lá para cá e fez-me levantar os olhos do écran do computador. Assenti, tal como os ramos do jacarandá, a meio da rua, concordando com a beleza.

Noites selvagens

Um amigo meu foi assaltado e agredido ontem à noite quando saiu sozinho de um bar gay em Zagreb, na Croácia. Ao que parece há por lá um gang que habitualmente espera que alguém saia sozinho desse bar para exercer um pouco de violência, coisa que o meu amigo turista desconhecia e alguém se esqueceu de o avisar...

Há cerca de um mês, outro turista, conhecido de um amigo meu aqui em Lisboa, foi para os copos no bar Portas Largas. O que se passou depois de lá ter entrado é um branco total. Alguém lhe pôs qualquer coisa na bebida e ele acordou no dia seguinte no quarto do seu hotel, mas tinham-lhe roubado tudo. Voltou ao bar para perguntar se se lembravam de o ter visto por lá e ficou a saber que não era o primeiro a quem tal acontecia...

terça-feira, 15 de novembro de 2005

aberraçoes modernas

Uma das maravilhas da tecnologia é pôr na mão do mais comum dos mortais os meios com que concretizar os seus caprichos artísticos. Este fim de semana, graças ao Garageband, criei um "maravilhoso" momento musical a partir de um poema de T.S. Eliot recitado pelo mesmo e uma música pirosérrima de Azis (a superstar (agora cometa) búlgara). A técnica do corta e cola permite estas pequenas aberrações que surpreendem. De alguma maneira isto faz sentido e soa bem. Infelizmente, devido á lei dos direitos de autor, não posso partilhar a coisa sem ser submetido a alguns processos judiciais. ...mas nada me impede de dar a ouvir aos amigos, assim como assim, esses já sabem que às vezes sou dado a estes desvarios...

a espera de Fevereiro



Os criadores do fenomenal jogo de Playstation "Ico" andam há mais de cinco anos à volta de "Shadow of the colossus".
É suposto ser lançado em Fevereiro de 2006 e há quase um ano que rodam trailers pela net que fazem os fãs de "Ico" salivar profusamente. Dizem os críticos sortudos que já meteram a mão na demo que é o mais próximo de uma experiência mística que se pode ter com uma playstation. Eu fui ver o novo site do jogo (http://www.shadowofthecolossus.com/) e também estou todo húmido... ò pessoal, despachem-se lá com isso!!!

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Momentos de grande televisao



De facto, cada vez mais a televisão é um sitio onde passam alguns programas no intervalo dos anuncios. Por ser anormalmente desprovido de tvCabo, a minha glamourosa Bang & Olufsen só apanha os 4 canaizitos da ordem e todos com chuva. Assim sendo, televisão é uma coisa que vejo por alguns minutos, antes de ligar a playstation.
Ontem, calhou-me ver um anuncio no segundo canal: Um gajo podre de bom em cuecas amarelas atravessa um apartamento modernaço e, sem ligar peva a uma miúda com o cio que se espoja num sofa, vai à varanda, coça o rabo (em grande plano), coça os frontais e cospe para o chão.
Isto sim é grande televisão! Fiquei tão atordoado com o gajo podre de bom e o grande plano das suas nádegas dentro de cuecas amarelas que levei uns bons minutos até perceber que era um anuncio anti-tabaco (uma nobre causa). Pensando bem, o anuncio não faz sentido nenhum e é a coisa mais estúpida que vi nos ultimos tempos. A frase pay-off era tão ridícula que nem me lembro dela. Mas estarei eu preocupado com isso?... O anuncio funciona perfeitamente em mim porque me cola ao écrán e podem ter a certeza que não será aos 32 anos que começarei a fumar. Viva a publicidade institucional do segundo canal!!!

PS_ depois de breve pequisa na net: os videos da campanha (afinal são 3!) estão disponíveis aqui:

http://cardiologia.browser.pt/PrimeiraPagina.aspx?ID_Conteudo=127

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Monumentos

Ando obcecado com comida. Uma das minhas alegrias mais recentes foi descobrir umas bolachinhas de água e sal a que a fábrica junta azeite, azeitonas e oregãos. São tão boas que quase apetece escrever uma carta de agradecimento a quem inventou tal receita. Coisas destas podem começar cultos, religiões, impérios, civilizações. Mereciam pelo menos um monumento.

É que se se fazem monumentos para lembrar pessoas deviamos lembrar-nos também da comida que faz a nossa cultura. No Alentejo, por exemplo, bem se podiam fazer uns monumentos ao queijo (em Nisa), ao vinho (em Borba), aos coentros, etc.... Em Belém, já era altura de se erguer algo em louvor ao Pastel de Nata ali no meio dos navegadores e dos vice-reis da ìndia!

Nisto há alturas em que percebo perfeitamente os americanos. Se eu consigo manter uma cintura minimamente apresentável é por felizmente viver num país livre de donuts:

Muda-se o ser, muda-se a confiança

Ontem à noite, lá em casa, estivemos a ver os documentários "making of" da série "Nip/tuck". Para além de ter ficado espantado com a lucidez dos actores, realizador e escritores (não admira que a série seja boa) alguém referiu a certo ponto que os Estados Unidos são um país obcecado com a mudança pessoal e que, sendo tão difícil fazer mudanças no interior, se passou a tentar compensar isso com mudanças corporais, seja simplesmente através de exercício físico ou, mais radicalmente, com cirurgias plásticas.

Isto lembrou-me um comentário que tinha lido há pouco tempo num forum sobre livros em que alguém dizia que os livros que lhe agradavam eram os livros em que as personagens mudavam, alteravam o seu comportamento (sempre para "melhor", refira-se).

E de facto, olhando para uma grande maioria da ficção que consumo, que vem também na sua maior parte do mundo anglófilo, há sempre essa convicção marcada de que as pessoas podem mudar, admitir os seus erros e seguir redimidas pelo caminho do amor, da moral ou da justiça.

É bom acreditar nisso. Até eu gosto de acreditar nisso. Mas a minha visão cínica do mundo leva sempre a melhor. Eu não acho que as pessoas de facto mudem. Acho que há apenas uma adaptação às circunstâncias que é feita sempre com o propósito egoísta de melhorar a sua própria vida (conseguindo mais amor, mais moral e mais justiça).

Neste ponto de vista, olhando para os meus dois livros publicados, percebo perfeitamente porque é que o seu sucesso é tão diferente:

_ No romance para adultos ninguém muda. As personagens são cobardes, fogem à vida porque isso implicaria tomar iniciativa e provocar mudanças internas de personalidade e de valor moral. Escolhem sempre a alternativa fácil. E mesmo que no final não pareça ser assim, o final feliz graças à mudança é uma mera ilusão.

_O livro infantil é, no fundo, exclusivamente sobre mudança, sobre construção de identidade, alteração de comportamentos que trazem harmonia ao mundo. É (literalmente) uma visão arco-íris da humanidade. É aquilo em que queremos acreditar quando ainda somos crianças.

Tendo isto em conta, percebo perfeitamente porque é que o livro infantil, em 4 meses, vendeu quase o dobro do que livro para adultos em 2 anos...

E eu, que balanço pessoal é este entre criança e adulto, cinismo e esperança? ...Até agora, vai bastante equilibrado, julgo eu...

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

o novo saramago

E de repente, passa-se numa livraria e lá está um livro novo do Saramago. Onde é que ando para estas coisas me apanharem de surpresa?!
O mais surpreendente foi o livro ter um bonequito na capa e ser fininho (ou pelo menos metade da espessura habitual).
Comecei por ficar intrigado com a a traça/borboleta da capa, com a a caveirinha à lá "Silêncio dos Inocentes". Será o primeiro thriller do nosso nobel? Depois li as primeiras páginas e fiquei com a impressão de que já tinha lido aquele livro. É Saramago igual a si mesmo. Há quem diga que todos os escritores escrevem sempre o mesmo livro... melhor assim, acho que vou ler este para matar saudades. Há uns 7 anos que não leio o senhor e fiquei cheio de inveja do meu namorado o mês passado quando ele leu a "História do cerco de Lisboa" pela primeira vez...
É que não há como a primeira vez...

A musica dos deuses

Ontem de manhã, num zapping ocasional apanhei a transmissão da missa em Fátima, a tempo de ver a Maria Bethania e a Joanna a cantarem em louvor da Virgem Maria.

Nunca deixa de me espantar a má qualidade da música que a nossa contemporâniedade reserva para exaltar as divindades. Ponho-me sempre a pensar como seria viver no tempo de Bach, em que a música não estava presente no quotidiano como está hoje (não se ouvia nos supermercados, nos taxis, nos elevadores,no barbeiro, etc...) Passavam-se os dias com sonoridades estéreis e depois, ao domingo, na igreja, Bach fornecia aos seus paroquianos um bocadito de paraíso e transcendência através da música. Seria overdose? haveria desmaios? Não sei... a única certeza é que, até hoje, o génio daquele humano (e de outros) pode ser entendido como uma prova da existência de Deus.

Mas o que aconteceu à música religiosa? Como é que se transformou num cliché estéril e insonso? Sinceramente, acho que foi o medo do êxtase.

Ontem à noite fui ao concerto dos Young Gods. É certo que o som estava demasiado alto e bastaram os Bizarra Locomotiva na primeira parte para ficar logo com os timpanos fodidos, mas, ainda assim, foi um grande concerto. A minha devoção a estes três músicos suiços passa precisamente pelo êxtase que a musica deles provoca em mim. É uma experiência divina. As catadupas de som com que bombardeiam os corpos de uma plateia convulsionada por pulos e dança fazem com que o individuo saia de si mesmo. E por momentos beijamos mesmo o sol. E ardemos. E estamo-nos nas tintas para que nos estejam a foder os tímpanos porque o que importa mesmo é o orgasmo. A entrega total a algo maior do que nós.

E é precisamente porque todo o êxtase tem um conotação sexual que o catolicismo castrou a música. E a arte em geral, convenhamos (que Bernini hoje se atreveria a fazer uma Santa Teresa daquelas?). Ou seja, tirou a chama ao génio humano, logo, escondeu a face de Deus.

PS: parabéns aos jovens deuses pelo seu aniversário. Que contem muitos (mesmo tendo em conta a imortalidade dos deuses)

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Je suis snob

Na eterna busca da playlist perfeita, adicionei ontem ao meu iPod "je suis snob" cantado pelo Boris Vian (esse mesmo!). Prestando atenção à letra facilmente concluí que sou mais de 50% snob — o que é optimo porque assim me posso identificar com algo tão viciantemente cantarolável! Só é pena eu não conseguir cantar com aquele inimitável e delicioso ar de perfeito enfado...

Carne assada

Os sinos das igrejas de Lisboa tocaram no dia 1 de Novembro pelas vítimas do terramoto de 1755. A missa das 6 encheu (a minha vizinha queixava-se ao marido que já só tinha encontrado lugar num banco lateral atrás duma coluna). Mas aposto que ninguém rezou pelas vítimas do auto-de-fé que a Inquisição fez logo de seguida, aproveitando a oportunidade para assar uns sodomitas, umas bruxas e uns judeus. Disso já ninguém (convenientemente) se lembra.

Nos nosso tempos modernos e civilizados, em que se desculpa os procedimentos da Inquisição e da Igreja Católica com o peso da história, pode parecer uma coisa bárbara, sacrificar humanos para apaziguar a ira divina. Mas a verdade é que ainda hoje os bodes expiatórios são os mesmos, a diferença é que não se assam na praça pública. Experimentem procurar no google por "blame homosexuals hurricane New Orleans": dá qualquer coisa como 268.000 resultados!

Escapa-me verdadeiramente à compreensão como é que alguém é capaz de acreditar num deus que, por se irritar com a intimidade sexual de uma minoria, mata e chateia a grande maioria. Ou deveremos acreditar que todas as vítimas de catástrofes naturais são sodomitas? E que os autos-de-fé eram uma maneira de ajudar deus no seu trabalho mal acabado?

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Querido Antony

Foi bom passar mais uma noite na tua companhia. E é bom saber que há pessoas como tu no mundo capazes de redimir a humanidade. Thank youooouooou, thank yooououuuu...

no alentejo

Este fim de semana fomos visitar uma amiga minha que comprou uma casa alentejana, daquelas com paredes de terra caiada, quintal com rafeiro, gatos, galinhas e patos e um poço onde já se suicidaram duas pessoas. Não podia ser mais típico.
Há muito que não me aproximava tanto da ruralidade e é sempre bom fazer destas visitas para ficar sem dúvidas de que, por muito que goste do campo, eu sou um rato da cidade.

segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Editora procura-se!

É oficial: não será a editora que publicou o "olhos de cão" a publicar o meu livro de contos. Isto quer dizer que neste momento o meu livro novo está solteiro, orfão e à espera de dono.

É um livro de contos alternados com imagens. O tema balança entre o amor e o sexo, entre o sentimental e o erótico. São 152 páginas de formato 15x16cm já paginadas por designer competente (eu!) e tem capa feita. É um livro para se ler, ver e pegar com as mãos.

Envia-se a editores competentes que gostem de ler e editar livros.

Contactar:
danieljskramesto@yahoo.com

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

nipa-me, tucka-me

Eu achava que depois de ter trabalhado para os enfermeiros do Grupo de Tratamento de Feridas Infectadas e ter paginado o livro de cirurgia plástica do doutor Francisco Campos já não havia imagens capazes de me fazer silvar, semicerrar os olhos e crispar os dedos dos pés. Até ontem à noite.

Comprámos os DVDs da série Nip/Tuck e vimos o primeiro episódio. Foi divertidíssimo. Dois homens adultos no sofá agarrados a almofadas, a tapar os olhos com as mãos e a guinchar que nem duas meninas. Isto na nossa sala. No écran, cirurgias descaradamente filmadas, sangue a rodos, muitas seringas a entrar na pele e, nojo dos nojos, um lipo-aspirador descontrolado a espirrar gordurita fresca numa sala de operação. Desde o filme "Re-animator" que não via algo tão gore. Adorámos!!
Além disso, os actores (ver foto), história e diálogos estão num bom nível.
Pena é o estômago não aguentar mais de um episódio por noite.


E sim, eu também snifaria esse tipo... ;-D

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Ser quem nao sou

Às vezes ainda se encontram idiotas que julgam que ser homosexual é querer ser mulher. A principio não se percebe como é que alguém pode ser tão estúpido, mas depois, enfim, rebolam-se os olhos para trás do crâneo e a coisa passa... E quando alguém me faz a pergunta: "se fosses uma mulher quem gostarias de ser?" até consigo lembrar-me de três respostas:

Alaska


Roisin Murphy


Bette Midler


Será que tenho de explicar porquê?.... :-D

Poesia Pop

"Hombres" - Fangoria

Hay hombres que se mueven,
hay hombres que se agitan,
hay hombres que no existen,
hay hombres que no gritan,
hay hombres que respiran,
hay hombres que se ahogan,
hay hombres que ocultan la verdad,
hay hombres que roban.

Hay quién apuesta fuerte y decide quererte,
sabiendo lo fácil que resulta perderte,

sabes que siempre estaré cerca de ti.

Hay hombres que te compran,
hay hombres que se venden,
hay hombres que recuerdan,
hay hombres que mienten,
hay hombres que prefieren no hablar,
hay hombres que no entienden.

Hay quién no tiene suerte y prefiere engañarte,
sabiendo lo fácil que resulta ganarte.

Sabes que nunca me iré lejos de ti.

Tienes que aprender a resistir, tienes que vivir,
esto no lo tengo
esto no lo hay,
esto no lo quiero
y esto que me das.

Hay quién apuesta fuerte y decide quererte,
sabiendo lo fácil que resulta perderte,

Sabes que siempre estaré cerca de ti.

Hay quién no tiene suerte y prefiere engañarte,
sabiendo lo fácil qué resulta ganarte.

Sabes que nunca me iré lejos de ti.

Hoy hay luna llena y un hombre camina por ella,
Hoy hay luna llena y un hombre camina por ella.

Os Duplex Longa



Na ida década de 80 houve um grupo português chamado Duplex Longa. Tinham um video giríssimo no PopOff para o tema "Forças Ocultas" que era feito simplesmente com uma câmara montada na frente de um carro a guiar pelas ruas de lisboa de dia e de noite, tudo filmado em velocidade acelerada.
Há coisa de um mês, graças a um amigo que tem praticamente todo o CD que merece ser ouvido, lá consegui fazer uma cópia do único album que eles fizeram. Como continua MP3zado no meu computador tem sido banda sonora de vários dias no emprego. A música é tão boa e ainda tão fresca que me custa e perceber porque é que isto não mereceu mais destaque na altura e porque é que nunca ninguém reeditou isto... e, o que é feito destes músicos?

Os Sigur Ros

Tenho uma relação algo dúbia com os Sigur Rós. A primeira vez que os ouvi foi através de um colega de emprego que punha aquilo a tocar para o povo. Não me desagradava de todo e até julgava que eram os Radiohead, mas irritava-me o rapaz e a sua atitude radiofónica pelo que nunca perguntei o que era aquilo.
Depois vi o filme "Anjos do Universo" e a música arrebatou-me completamente. Durante um ano ouvi-os bastante no recato do lar e chateei o pessoal da Zero até passarem o filme em Lisboa. Até que me comecei a aperceber do "culto" que lhes era dedicado. E eu não tenho paciencia para jovens sensíveis e depressivos que fazem disso um modo de vida...
Foi assim que os Sigur Rós saltaram para a prateleira das bandas cuja música me agrada mas cujos fãs não me permitem disfrutá-la em condições.
Este fim de semana comprei o disco novo (só porque tem uma embalagem simpática e eu sou um totó por coisas dessas) e fiquei surpreendido por ser melhor do que esperava. Por trás daqueles xilofones e guinchinhos à Mum, que eram um bocado dispensáveis, há um punhado de boas canções. A ver que tal me dou no concerto... eu ando tão pouco social...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

o pequeno almoço

O pequeno almoço lá em casa é a refeição mais importante do dia. Isto porque nos sentamos os dois à mesa, levamos algum tempo a comer (porque é preciso pôr o queijo no pão) e conseguimos ter uma conversa inteligente. Ou quase.
Moemos o café antes de o fazer, e, em dias bons, esprememos laranjas e fazemos torradas.
Hoje saí de casa a correr porque tinha uma reunião às 9h e, apesar de nos termos sentado, o pequeno almoço não correu como de costume. Não se consegue desabrochar para o dia sabendo que se tem de estar num sitio a uma hora inumana como as 9h.
Moral da história, estou algo desiquilibrado hoje. Faltou-me a âncora do dia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

misteriosa chama



Hoje, coincidindo com a minha leitura de "a misteriosa chama da rainha Loana" de Umberto Eco, tive um momento de intensa nostalgia. Acordei com o slogan "Spur sede, spur gosto, spur estilo, spur cola é Canada Dry!!" entranhado na cabeça e ainda não passou. Tive de ir procurar a imagem da garrafa para fins de exorcismo.
É curioso como me lembro perfeitamente da sensação tactil daqueles quadradinhos na base da garrafa...

Ainda as ferias



Ignorando os ocupadíssimos senhores em primeiro plano, eis a vista que se tem do Templo de Júpiter em Terracina, cidade onde passei uns dias felizes.

relatorio

O evento notável das férias foi o facto de eu ter finalmente dado por terminado o meu livro de contos. É certo que já seguiu para a editora ha 5 meses, mas, enquanto anda a ser ignorado por lá, entretive-me a polir-lhe as arestas. Textos revistos, imagens em arte final e paginação completa. Teoricamente poderia seguir para a gráfica amanhã.

- E porque é que não segue? - pergunta o leitor incauto.

- Ah, mas que boa pergunta.. - responde o autor, evasivo.

prazeres do inverno

Ontem coloquei o edredon de inverno na cama. É um edredon de penas norueguês que mal se sente por cima de nós. Dormir nele é como abraçar algodão doce. Há imenso tempo que não dormia tão bem...
Ás vezes bastam estas pequenas coisas para nos preencher a vida.

Agora só falta neve lá fora!

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

De volta ao normal

É bom ir de férias como se por uma semana a nossa vida fosse outra.

Esteve-se bem em Itália. Boa comida, overdose cultural e descanso físico e psíquico.

Percebi finalmente que a toda a arte é cópia da cópia. Eu já sabia isso teoricamente, mas vendo as coisas com os próprios olhos assimilam-se os factos como deve ser.
Ao ver os mosaicos romanos de Pompeia (que já eram cópias de pinturas gregas) salta aos olhos que imensos séculos de arte europeia andaram apenas a melhorar técnicas para fazer a mesma coisa.
Mas, por outro lado, porque raio se há-de teimar em ver a História como um movimento evolutivo?
Enfim, visitar um dos berços da civilização deixou-me um pouco abalado. Um dia talvez consiga extrair alguma lógica do tumulto cerebral que isto me causou.

Quanto às trivialidades da vida, é sempre bom voltar para os excelentes multibancos portugueses e para o imaculado metro de lisboa. Mas foi bom comer o melhor mozzarela do mundo, gelados e salami... E ver as ruas de Nápoles cheias de napolitanos!

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

sempre o mesmo filme

É sabido! Basta eu anunciar que vou de férias para me assoberbarem de trabalho. Porque é que o trabalho só aparece dois dias antes de se ir de férias???

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

eu e a cultura

Tenho de admitir que tenho grandes problemas com a cultura chamada "erudita" contemporânea. Principalmente com a música e as artes plásticas (ah, e o teatro e a dança também de vez em quando, mas como vou menos a esses não me afecta tanto).

Este fim de semana fui a um concerto que eu já sabia que iria ser de pling plóing irritante e incompreensível, mas como um amigo meu ia tocar, lá fui eu dar uma forcinha. As "obras musicais" apresentadas eram bastante recentes e iam dos anos 80 até uma estreia mundial, mas para mim soou-me tudo ao que estas coisas costumam soar: uma flauta que guincha, um piano martelado, um xilofone que se toca com um arco de violino, etc... silêncios incómodos seguidos de barulheira ao máximo e fuga total à menor expressão de frases melódicas ou padrões ritmicos. Curioso é como estas coisas são um cliché de si mesmo.

Sinceramente não vejo relevancia na existencia de coisas destas. Para mim, entre passar uma hora a ouvir um concerto destes ou passar uma hora à espera de uma consulta no dentista é um sacrificio quase igual. Tempo de vida desperdiçado à espera que o pior passe e se possa continuar a vida como ela é.

E quando me ponho a pensar no que o futuro recordará da música das últimas décadas (as da minha vida), não me parece que sejam estas obras desumanas de que, admitamos, ninguém, no seu perfeito juízo, pode gostar. Arte é comunicação, não alienação do espectador.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

grotesco

Hoje, no meu trono de leitura (retrete) entretive-me a ler o guia TimeOut para Roma a fim de preparar a viagem da próxima semana. Assim se aprendeu que a palavra "grotesco" tem a seguinte origem:

Durante a renascença foi descoberto o antigo palácio de Nero e diversos artistas e pintores como Rafael desciam ao que pensavam ser cavernas ou grutas (grotto) para verem os frescos romanos. Inspirado, Rafael pinta um fresco no Vaticano com motivos clássicos pagãos que é apelidado de "grotesco".

É curioso pensar que Nero incendiou Roma, mandou as culpas para os cristãos, andou a chaciná-los no campo onde viria a ser contruído o Vaticano, local onde Rafael viria a pintar o seu fresco inspirado nos frescos da casa de Nero construida no sitio que ficou livre depois do incendio de Roma, fresco esse que iria influenciar toda a arte cristã feita a partir da Renascença.

Caramba, que isto tem piada!!!


Fresco da Domus Aurea, a casinha de Nero.


fresco de Rafael no vaticano

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

sim, senhor primeiro-ministro!

Agora é oficial! O governo norueguês vai mesmo avançar com a lei do casamento que dá direitos absolutamente iguais a casais homo e hetero. Quer dizer heranças, adopção, impostos, etc e tal...
A lei das uniões de facto gay já existia há alguns anos na Noruega mas agora é perfeita igualdade. E devo confessar que me dá vontade de ir com o meu namorado norueguês ali à embaixada da Noruega casar-me só para depois poder chatear toda a gente em Portugal: na repartição de finanças, nos bancos, no centro de saúde, na seguradora, etc. Isto porque em Portugal a nossa medíocre lei das uniões de facto não reconhece uma união entre um português e um estrangeiro!!

Esta lei aparece graças ao primeiro ministro Jens Stoltenberg

que, na sua juventude, já tinha feito o trabalho de bastidores para que a lei das uniões de facto fosse aprovada. Agora que é primeiro-ministro pela segunda vez resolveu terminar a coisa como deve ser.
Estava capaz de lhe dar um beijinho. Até porque, embora seja assustador achar um primeiro ministro sexy, ele até é!

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

suspiro



O tenente Crashdown da série Galactica.
Há muito tempo que não me sentia tão adolescente...

terça-feira, 27 de setembro de 2005

santa ignorancia

Tem sido difícil ignorar a campanha para as eleições autárquicas mas acho que estou a conseguir: só hoje é que reparei que vou de férias para fora do país no dia antes, o que quer dizer que, seja como for, não vou votar!
Suponho que irracionalmente eu já sabia que não valia a pena estar a prestar atenção a este circo...

nos Açores

Acrescentei duas imagens novas ao meu site:

http://home.no.net/danielba/galeria

Esta tem lugar algures em São Miguel:



Destroyer - "your blues"

Foi editado o ano passado mas ouvi-o hoje pela primeira vez depois de aterrar que nem um OVNI na minha secretária. Estranhei à primeira mas entranhou-se logo à segunda. É o novo favorito da minha playlist e não sei nada sobre estes tais de Destroyer, mas que importa isso? Quem canta letras como "submarines don´t mind spending their time in the ocean" só pode ter génio pop nas veias. Já ganhei o dia e quase me esqueci da minha smog-burrice.

o escritor

Ontem escrevi dois parágrafos numa história há muito encravada. Vou ali mandar um foguete já volto...

como desperdiçar 36 euros

Hoje estava capaz de me dar um par de estalos. Comprei com bastante antecedencia bilhetes para ir ver o concerto de Smog e não sei porquê convenci-me que o concerto era HOJE. Afinal foi ONTEM!!!!
O meu coração chora amargamente e não se conforma com a minha estupidez.
O meu único consolo é pensar que suportei financeiramente um artista de que gosto e que os fãs inteligentes estiveram à larga.

Fui logo re-verificar as datas dos concertos para os quais já comprei bilhetes:
Antony and the johnsons
Young gods
Depeche mode

mas como ainda demora tanto tempo daqui até lá pode ser que ainda me esqueça das datas destes também...

ai...suspiro...

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Galactica vs 4400


versus



Foi um bom fim de semana passado a aquecer o sofá com o rabo. Na playstation rodaram os DVDs de duas séries encomendadas via amazon. Eis o veredicto:

1- HISTÓRIA
Mais uma vez se comprova que a força de uma narrativa não está tanto no que é contado mas no modo como é contado.
Ambas as séries têm histórias simples e previsiveis mas Galactica dá a volta por cima. Talvez benificie do facto de ser um remake. Os argumentistas e realizador pegaram na matéria bruta já existente e depuraram, expandiram e puseram tudo a funcionar como um mecanismo bem oleado.

Por seu lado 4400 é hesitante, simplista, superficial e inconsequente. Tem um excelente ponto de partida mas não sabe em que direcção seguir e por isso não vai a lado nenhum.

2- EFEITOS ESPECIAIS
Galactica dá baile a qualquer série de FC jamais feita em televisão. Não porque tenha grandes efeitos especiais (que até os tem) mas porque sabe quando não os usar. Cenas como os saltos para o hiperespaço e algumas explosões são exemplos de inteligência narrativa e têm algum do maior impacto emocional pela simples razão de que não se vêem!!! É criado uma tal expectativa e tensão à volta delas que se fossem mostradas visual e literalmente só podiam resultar em decepção. Um realizador que consegue evitar essa armadilha e fazer a ausência resultar melhor que a presença merece um aplauso em pé.

4400 por seu lado está sempre à beira do kitsch. Já se viu aquilo tudo e mais bem feito.

3- ACTORES
Há uma magia qualquer quando os actores verdadeiramente encarnam as personagens. Galactica tem a sorte de ser servida por 3 ou 4 actores estupendos que por sua vez arrastam todos os outros para a excelência. O destaque vai para Edward James Olmos (um fortíssimo capitão adama) mas principalmente para Mary McDonnell, que embora faça o seu papel de sempre (mulher à beira de um ataque de nervos de aço), é um papel que faz muito bem e que dá a toda a série uma dimensão humana quase transcendente. É ela quem carrega a série toda aos ombros.

4400, devido aos seus diálogos simplistas e inconsequentes não deixa ninguém brilhar, mas também não me parece que haja por lá ninguém com esse potencial.

Curiosamente nenhum das duas séries tem gajos giros capazes de tirar a camisola e fazer a coisa valer mesmo a pena, mas a medalha vai outra vez para galactica precisamente pelo elenco de rapazitos secundários que, por serem tão "normais" são deliciosamente apetecíveis. Nesse aspecto 4400 fica-se pelo standard plástico americano que é por demais enjoativo.

4- MÙSICA

Não falaria nisto não fosse o caso de as diferenças serem tão óbvias.
Galactica surpreende com uma banda sonora minimalista e apenas pontual de tambores tribais ou vozes étnicas. Pelos vistos alguém andou a ver ANIME (lembrou-me um pouco a banda sonora de AKIRA) e aprendeu uma lição. As batalhas espaciais com tambores tribais tornam-se incrivelmente viris e a tensão dramática que já existe por si nas outras cenas dispensa de facto música.

4400 é o exemplo de como o kitsch musical pode ajudar a matar qualquer coisa. Afogar todas as cenas tristes em óboés, flautas e pianos electricos é completamente dispensável. É efeito barato.
Há também o momento "magnólia" em que uma canção pop passa na íntegra enquanto vemos múltiplas personagens nos seus dramas pessoais. Mas nem a canção é boa nem o efeito conseguido ou justificável.

VEREDICTO FINAL:

Galactica - 5 estrelinhas e muito entusiasmo
4400 - 2 estrelinhas e grande decepção

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

bom fim de semana

Hoje o carteiro trouxe isto:



o que me deixa especialmente contente porque tem isto:



Este fim de semana ninguém me tira do sofá!

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Parabens

Parabéns especiais para o meu amigo Kenneth

que esta semana vendeu a sua série de 6 episódios sobre uma equipa gay de volleyball para as televisões sueca e dinamarquesa. A série estreia este inverno na televisão norueguesa e vai ter uma versão em filme destinada ao mercado internacional.


A série é um documentário sobre a equipa e segue a vida pessoal de alguns dos jogadores dentro e fora do campo.
Depois de uma lesão no joelho que o impediu de continuar a jogar, o Kenneth, que já foi jogador desta equipa, resolveu pegar na câmara e filmar os amigos. O resultado, pelo preview que já vi, é divertido, tocante e verdadeiramente capaz mostrar a vida social e intima de um punhado de homosexuais tirados da realidade. Quero ver! Já!

nuestros amigos Fangoria

E já que hoje sopram ventos de espanha...



http://www.arquitecturaefimera.com

nuestra amiga najwa

Não é que ela seja uma grande actriz, não é que ela cante bem ou componha grandes músicas, não é que ela seja bonita, mas... a Najwa Nimri tem qualquer coisa de je ne sais pas quoi que me faz comprar os discos e ver os filmes...



http://www.najwa.info/

requiem

Ontem à noite vi o filme "O juri" que me espantou por afinal não ser mau como eu temia.
Mas curioso mesmo foi ver um filme cheio de imagens de uma Nova Orleães que simplesmente já não existe... e onde eu já não poderei ir...

um dia a la donnie darko

- fiz um novo amigo
- real ou imaginário?
- ...imaginário...

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Os redimidos

O meu prazer auditivo das últimas semanas tem por base os novos albuns de Sufjan Stevens — "Illinois" e Devendra Banhart — "Cripple Crow" que são tipos a quem eu nunca tinha prestado grande atenção mas que por acaso se saíram agora com grandes discos.


O amigo Devendra tem músicas com refrões com "chubap-chubap" (o que significa sempre grande génio musical). E é impossível ficar mal disposto quando canta "Santa Maria da Feira" no seu portunhol mal amanhado, sussurrado sobre um sambita ingénuo com flauta de bisel e maracas. Nunca estive em Santa Maria da Feira, mas agora que já tenho banda sonora, tenho de lá ir... Depois há a canção "Cripple Crow" que dá nome ao album e me dá arrepios a mim.


Quanto ao amigo Stevens foi desencantar uns xilofones e coros infantis, que são coisa que fica quase sempre bem no rock independente (ver o album "Knock Knock" dos Smog). Cantarolável e épico.

...e também fiquei agradávelmente surpreendido quando pela vi uma foto do rapaz pela primeira vez... fã instantâneo!


Dois albuns muito tra-la-la com um toque de nostalgia naif que só fica bem no inicio do Outono.

x file

Ontem à noite sonhei que a zona da Expo se escangalhava toda num terramoto e a única coisa que ficava em pé era a pala do pavilhão de Portugal.
Acordei para ouvir as notícias da actividade sísmica nos Açores....

terça-feira, 20 de setembro de 2005

salada italiana

A pedido de várias famílias eis a receita da salada que fez sucesso na festa do sábado passado:

ingredientes:
batatinhas, tomatinhos, pesto, presunto, queijo parmesão, basilico fresco, pinhões, vinagre balsamico

1 - Cozem-se as batatinhas

2 - Salteiam-se as batatinhas com o presunto aos quadradinhos e os pinhões (não juntar gordura! A do presunto é mais que suficiente e deve ser escorrida no final)

3 - Assar os tomatinho cherry no forno

4- o queijo parmesão deve ser cortado em raspas grandes e brutas

5- misturar os ingredientes todos numa tijela

6- comer como se não houvesse amanhã

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

popular music 2

Afinal não achei o filme Popular Music — visto no domingo no festival gay e lésbico—nada de especial. Sofre do mesmo que algumas adaptações de livros ("como água para chocolate", "a casa dos espiritos") em que histórias e metáforas que resultam por escrito se perdem completamente e resultam ridículas quando transpostas para o visual de uma maneira demasiado literal.
Ainda assim, teve algumas cenas memoráveis que fizeram dar o tempo por bem entregue.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Ai Jesus...

A Anne Rice tem um livro novo:



citemos:

"Having completed the two cycles of legend to which she has devoted her career so far, Anne Rice gives us now her most ambitious and courageous book, a novel about the life of of Christ the Lord based on the gospels and on the most respected New Testament scholarship.
The book's power derives from the passion its author brings to the writing, and the way in which she summons up the voice, the presence, the words of Jesus who tells the story."

Eu tremo de medo. É de certeza o livro mais assustador que ela jamais escreveu.
Mas o que é que lhe deu na veneta??!!!

Quão longe estamos disto:



que é um livro verdadeiramente dedicado à paz na terra e amor entre os homens...

Musica popular

A minha curiosidade no Festival Gay e Lésbico vai para o filme POPULAR MUSIC de Reza Bagher (passa Sábado e Domingo)



O livro em que se baseia é uma delícia e é um best-seller internacional (excepto em Portugal onde a literatura escandinava chega sempre com 10 anos de atraso...) e o filme promete fazer-lhe justiça. Lá estarei!

os mortos ao vivo



No passado mês de Março tive o previlégio de ver os Dead Can Dance ao vivo em Berlin (bilhetes comprados com 8 meses de antecedência!). Parece o regresso dos mortos vivos (eles já não gravam albuns há 10 anos) mas eles ainda dançam como sempre dançaram. O concerto foi excelente e eles tocam 7 (muito boas) músicas novas nesta tournée.

Embora continue a fazer figas para que no final da digressão eles sigam para estúdio e gravem um disco novo, a verdade é que já estou bem servido porque alguém teve a feliz idéia de gravar CD´s com os concertos.
Da digressão europeia comprei o concerto de Madrid (o de Berlin que eu vi não foi gravado e os outros já estavam esgotados) e depois, por puro fanatismo (e porque tinha mais 2 canções do que o concerto de Madrid) comprei o best-of da digressão europeia.
A qualidade audio é excelente e a embalagem também. Por isso avisam-se os interessados que a mesma companhia que gravou a digressão europeia vai agora gravar e editar a digressão americana que começa este mês. Ide a:

http://www.dcddiscs.com/

Eu, apesar de já ter dois, estou a considerar seriamente comprar o concerto que calha na data do meu aniversário. É que nestas coisas eu sou um bocadito fetichista...

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

no DVD - O regresso

Ontem a noite foi passada a ver o filme russo "O regresso". Gostei, visualmente deslumbrante, algures entre Tarkovski e um anúncio da Peugeot.



Mas a história foi o mesmo que nada. Onde estava a catarse que prometia? No fim o filme afunda-se completa e literalmente. Às vezes a beleza não chega...

Celebridade

Hoje pediram-me um autógrafo. Nunca percebo porque o fazem mas é coisa que me assusta, enternece e afaga o ego. Principalmente quando acontece fora de época e de esquemas de marketing.
Obrigado Joãozito, foi a cereja no bolo do meu dia!

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Abracadabra

O Miguel Vale de Almeida no seu blog escreveu um comentário curioso acerca do programa Esquadrão G.
Cito:

"o mais curioso da noite foi isto: nem no programa propriamente dito, nem no stunt publicitário com a presença do Esquadrão no programa de Herman José, logo a seguir, alguma vez se referiu sequer que os rapazes são gay. Isto é, a sua gayness desapareceu depois do anúncio do programa nas últimas semanas. A sua gayness surge apenas confirmada nos sinais exteriores de... gayness - coisa que só pode acontecer se esses sinais forem os de um estereótipo*. Circularidade absoluta. O silêncio foi tal que quase suspeito que fosse combinado."

Essa do silêncio é de facto curiosa. Começa pelo nome do programa que prefere "G" a "Gay" com as letras todas.
Faz-me lembrar o You-know-who, o Voldemort dos livros do Harry Potter. Parece que não chamar as coisas pelos nomes nos protege do mal.

Isto recorda-me também um dos momentos mais divertidos da minha vida, quando fui pela primeira vez aos escritórios da minha editora para falar sobre o livro "Olhos de cão" e discutir o contrato. Em quase duas horas a conversar sobre o que eu tinha escrito nunca ninguém se atreveu a dizer as palavras "gay" ou "homossexual". Falava-se em "público específico", "tema invulgar na literatura portuguesa" mas andava-se ali à volta da coisa como se ao chamá-la pelo nome se conjurasse o diabo.

O mesmo na apresentação dos livros da Ana Zanatti. Falava-se na coragem dela escrever aquele livro mas não se explicava porque é que a coisa implicava coragem. Parece que se prefere viver num mundo de subentendidos...

Curiosamente, na contracapa do meu livro ninguém se atreveu a censurar a palavra "homossexualidade" que eu escarrapachei propositadamente na sinopse. Motivo porque alguns potenciais leitores que pegam no livro nas livrarias acabam depois por o largar apressadamente como se tivesse pegado na peste...

a batata

Ontem cheguei a casa totalmente exausto e dediquei a noite ao que sei fazer melhor que é transformar-me numa batata deitada em cima do sofá da sala. Pus no DVD o "Donnie Darko" que é um filme com três grandes virtudes:

1- Tem o Jake Gylenhaaaalocoiso:



2- Tem uma banda sonora deliciosa

3- Não precisa de cérebro para ser disfrutado porque seja como for aquilo não faz sentido nenhum mesmo que já se tenha visto 10 vezes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

novos preconceitos

Este fim de semana fui à missa e descobri que me irritam mais os cristãos alegres do que os condenadores e castrantes.

Entra uma pessoa na igreja pronta para ouvir o sermão patético e retrógado de um velhote e afinal apanha com um padre com a mania que é "moderno" (mas stuck in the 70's) e que gosta de cantarolar mal amanhados versos sobre Jesus que se forçam para caber em versões à la escuteiro de canções de Bob Dylan, Rolling Stones e Jesus Christ Superstar. (E aposto que não pagam royalties pelo uso indevido! Porque é que a SPA não inspeciona as igrejas?).

Qual cereja em cima do bolo ainda inventam uma musiquita com coreografia para nos benzermos durante a reza do Pai Nosso como se a missa fosse uma catequese no jardim escola.

Mas o que é isto???!!!

Em condições "normais" já me é difícil levar uma missa a sério, mas coisas destas são um insulto à minha inteligência. É-me mais fácil acreditar num Deus que me queira penitente e me ameaçe com o fogo do inferno do que num que supostamente gosta de me ver a dançar uma benção coreografada ao som de músicas com maus versos e melodias infantis. Deus precisará de se rir?

Esta imposta alegria em louvor a Deus é ainda mais hipócrita que a sisudez a que eu estava habituado. Mas quem raio julga Jesus que é para nos obrigar a sentir-nos felizes e alegres? E que concepção infantilóide é esta da alegria? Vivemos num mundo cão e ainda temos de agradecer e parecer felizes? Não concebo nada de mais tirânico. Estaremos em Cuba e Deus é o Fidel Castro?

Enfim, eu julgava que já tinha enterrado o meu respeito pela religião há muito tempo mas mesmo assim ainda consegue vir alguém espetar mais um prego no caixão enterrado a 70 palmos debaixo da terra.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Os heteros

Ontem fui ao jantar de despedida de solteiro de um amigo meu. Às tantas estava a dar conselhos sexuais a amigos que são pais de filhos e que começaram a vida sexual aos 15. Eu, que fui virgem até aos 23!!
Foi muito estranho ter uma data de gente que se volta para mim como se eu fosse o consultório da revista Maria, género: "pergunte-me o que sempre quis saber sobre sexo mas nunca ousou perguntar a ninguém".
Enfim, serviu de contrapeso ao chat da tarde com um amigo gay que me elucidava sobre a vida selvagem de um pinhal italiano à beira mar plantado...

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Psicose

Há 2 dias que sou perseguido pela música "Cielito lindo". Todos os músicos pedintes por que passo estão a tocá-la.
Já a ouvi nas seguintes versões:

- Acordeão (por ciganito no metro)
- Voz, guitarra e ferrinhos (por duo de velhotes na Rua do Carmo e o que cantava tinha uma voz excelente, por acaso)
- Violino, acordão e pandeireta (por ensemble romeno na esplanada da pastelaria Suiça)
- Violino e caixa de ritmos (por refugiado de leste no metro)
- Flauta de pã e caixa de ritmos (por agrupamento pseudo-asteca no Rossio)

Pergunto-me se isto será uma mensagem do além, um sinal de Deus ou um erro na Matrix.

Fiz um esforço para decifrar um significado trascendente nesta meta-coincidência mas só me ocorre uma coisa: esta canção faz-me sempre lembrar o casamento de uns amigos no México e o passeio de barco nos canais de Xochimilco onde pagámos uns pesos a um barco atafulhado de mariachis para nos cantarem umas canções. Como tinhamos de pedir as canções por nome acabámos, como bons gringos, por ouvir apenas "La cucaracha" e "Cielito lindo". Mas pronto, Mexico no seu melhor...

Ora estes meus amigos estão há 6 meses á espera que eu acabe uns quadros que me encomendaram. Será isto Deus a lembrar-me que tenho mesmo de acabar a coisa e que já devia ter vergonha na cara? Por outro lado, recuso-me a acreditar que o universo conjure tantos meios para um fim tão prosaico... enfim, a vida é um mistério (ou como diria a outra: "Life is a mistery, everyone must stand alone, etc, etc...")

PS- Juro que não ando a ler Paulo Coelho

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Nacionalismo parte 2

Ontem à noite romei com metade de Lisboa até Belém para ver o concerto da Mariza. Nunca a tinha visto ao vivo e valeu bem a pena. É certo que me atrasei e quando cheguei à zona já o concerto tinha começado, o que quer dizer que fiquei a 3km do palco, mas se calhar foi por bem. O que mais me impressionou no concerto foi o silêncio do povo. Eu estava bem longe do palco e ainda assim ouvia cada suspiro da fadista e cada roçagar de unha na corda da guitarra. Até o vendedores de pomada quase sussurravam quando apregoavam "quem quer vinho?" (Vinho???!!! Só mesmo num concerto de fado!). E depois a Torre de Belém iluminada a cor de rosa, a luz dos holofotes a coar-se pelas copas dos pinheiros, as faces cheias de portuguesissima e nostálgica saudade nos novos e velhos... Quase me faz parafrasear a própria Mariza e dizer: Portugal, tu sabes que eu sou teu...

...felizmente estas febres só me dão de vez em quando e não são sérias....

terça-feira, 6 de setembro de 2005

Esta noite sonhei com o Papa

Os sonhos são norma geral algo surrealistas, mas o que tive esta noite elevou consideravelmente a minha fasquia: sonhei que estava dentro de uma gaveta (!) juntamente com um bispo português que conversava com o Papa. Eu estava encarregado de lhes servir chá mas eles não se calavam e eu não conseguia interrompê-los. Entretanto estava uma rapariga à minha espera num carro porque precisava saber se o filme que eu lhe recomendara era realizado pelo Woody Allen ou pelo Neil Labute e só o Papa me poderia dar a resposta quando eu lhe servisse o chá.

Aposto que não há livro de interpretação de sonhos que me valha para isto...

Nacionalismo

Os idiotas da "juventude" nacionalista enviaram-me um mail a "promover" o blog deles. Só pelos títulos dos artigos achei que não valia a pena lê-los. Há coisas muito mais interessantes para aprender na net, como isto por exemplo:

http://www.pink-triangle.org/

E, num acesso de patriotismo, aqui fica a bandeira do meu país:

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

o Katrina

Por ter acontecido nos Estados Unidos, ha duas coisas que tornaram a passagem deste furacão numa desgraça maior do que foi: as armas e as câmaras de filmar.

as criancas 2

Desfolhava eu a revista Visão com o meu sobrinho de 7 anos a espreitar por cima do meu ombro quando encontramos o anúncio do programa "Esquadrão G". Ele tinha estado milagrosamente calado até esse momento em que explode:
"Olha tio! É o anúncio do esquadrão gay! Mas eu não percebo uma coisa: Eles são um número impar e isso quer dizer que há sempre um que não pode fazer amor!"
Eu tentei não me rir às gargalhadas enquanto lhe dizia:
"Pois é, é muito estranho. Cinco é um número impar. Aprendeste isso na escola?"
"Não! Na escola não se aprende nada!"
e chateado com o rumo que a conversa estava a tomar voltou-me as costas e foi pintar o Tom e o Jerry com lápis de cera.

as crianças

Passei o dia de Sábado num parque aquático com os meus sobrinhos. Há uns bons 15 anos que não escorregava numa daquelas condutas. A mais divertida é a que de facto se assemelha a um esgoto porque é completamente coberta e escura e, como se desliza numa bóia, não se fica parado a meio com aquela sensação de o-meu-rabo-está-gordo-e-parece-uma-âncora. E pode-se guinchar como meninas porque está escuro e ninguém nos vê.
Depois, é sempre bom estar com crianças para perceber que a felicidade e a tristeza são puras criações mentais.
Um dia de insustentável leveza do ser (...exceptuando aquelas partes do rabo-âncora).

O som e a visao

Hoje resolvi abrir uma excepção e adicionar um link à barrinha da direita para um site que não é gerido pela familia Skramesto.

Pelos vistos isto dos blogs é tão fácil que até o amigo Galopim finalmente se converteu. Depois do iPod, depois do CD-R, depois do blog que mais poderemos esperar deste recém convertido ao maravilhoso mundo dos bits e pixels...??? Nuno, deixo-te a dica: PodCast!!!

Entretanto visitem o excelente (e digo excelente porque 90% das vezes estou de acordo com as opiniões expressas pelos seus autores):
http://sound--vision.blogspot.com/

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

a scanner darkly



http://www.apple.com/trailers/warner_independent_pictures/a_scanner_darkly.html

Keanu Reeves em desenho animado de ficção cientifica! ...mas esta gente andará apostada em satisfazer os meus desejos mais impossíveis?!!! Será que devo esperar por um épico erótico de vampiros com o George Clooney, o Hugh Jackman e o Mark Ruffalo?!!! (nota a eventuais produtores/argumentistas de hollywood que leiam este blog: se não puderem ser vampiros também podem ser lobisomens, desde que tirem a camisa! Auuuuu!)

o navio e o comboio

Hoje ao pequeno almoço o meu namorado comentava o periodo pré-eleitoral da Noruega. Dizia ele que a Noruega lhe faz lembrar o Expresso do Oriente, só tem uma direcção e segue sempre em frente à mesma velocidade. E os políticos são como os criados, pouco importa quem sejam ou que comida sirvam, a comboio segue sempre em frente.

Da minha parte argumentei que, nesse caso, Portugal é o Titanic e os politicos são os músicos do salão. Pouco importa quem são ou que música tocam porque toda a gente sabe que o barco se vai afundar.

(...e devo confessar que ando com uma ENORME vontade de me armar em ratazana...)

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

a cambalhota

ontem revi o filme "E a tua mãe também" que tinha visto no cinema há cerca de 4 anos. É curioso como agora percebi o filme de uma maneira diferente.
Na altura irritou-me um pouco a voz off que entrava frequentemente para dar pormenores da vida e dos destinos de personagens que não tinham nada a ver com a história que estávamos a ver. Parecia-me irrelevante.
Agora é que percebi que a história principal é que é quase irrelevante e que o que o filme faz não é um retrato de 3 personagens mas que antes usa essas 3 personagens para fazer um retrato do México enquanto país e sociedade.
Para além dessa voz off e desses comentários, a câmara está sempre a olhar para o lado, para a janela. Muito mais do que para as personagens.
As personagens vivem um momento especial, uma viagem que está quase fora do tempo, das convenções sociais e do próprio espaço. O carro é como uma cápsula que os protege do exterior, e mesmo quando saem daí, o núcleo das 3 personagens está completamente fora do resto do mexico que os rodeia mesmo que interaja com ele, como por exemplo na crucial cena final em que os 3 se embebedam numa mesa longe da outra mesa dos pescadores.
E ao ver o filme desta maneira, o que a principio me tinha parecido uma comédia sexual transformou-se numa tragédia social.
Gosto tanto quando a minha percepção das coisas dá uma cambalhota...

terça-feira, 30 de agosto de 2005

ele e ela

Ontem vi o DVD da Reality Tour do David Bowie.
Foi bom relembrar o concerto que fui ver a Paris para celebrar o meu 30º aniversário (este ano já serão 32!!).
Não é à toa que eu amo aquele homem. Num concerto para milhares de pessoas ele consegue comunicar com cada alminha. E parecer feliz com o que faz.

E anteontem, noutra sessão de DVD perguntava-me: Que raio faz a Madonna num episódio de Will & Grace? É incrivel como não consegue ter graça nem ponta de naturalidade. Será que não desiste de tentar ser actriz?! E não parece estar a envelhecer bem. Demasiado botox. O Bowie au naturel tem muito melhor aspecto que ela.

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

sing, sing a song...

Na sexta feira fui ao aniversário de um amigo meu que ofereceu a todos os convidados um CD com a sua banda sonora para 2005. Uma boa idéia (não pensemos na pirataria) já que trazia umas cançõezitas jeitosas que eu não conhecia.
Foi uma boa ocasião para fazer mais uma afinação ao meu iPod que, por ter os seus 10Gb completamente atafulhados, neste momento só aceita canções verdadeiramente boas, capazes de roubar o lugar a outra que já lá esteja dentro.
Apanhando o espírito da playlist, fiz um pequeno "top eleven" com "as canções da minha vida". É um conceito foleiro, mas apeteceu-me partilhar. São algumas das canções que me dão sempre um arrepiozito de prazer e nas quais reconheço resquícios da minha verdadeira identidade. Voilá:

New Order - "Vanishing Point"

Cocteau Twins - "Cherry Coloured Funk"

The White Birch - "Donau Moves"

Lloyd Cole and the Commotions - "Forest Fire"

Red House Painters - "Rollercoaster"

Grant Lee Buffalo - "Fuzzy"

Cowboy Junkies - "Sun comes up it´s tuesday morning"

Pet Shop Boys - "Always"

Propaganda - "Dream within a dream"

Dead Can Dance - "Indoctrination"

Né Ladeiras - "Sedutora"

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

os amigos talentosos

Está patente na Casa da Morna em Alcãntara a exposição do meu amigo Francisco. Recomendo que passem por lá que vale a pena.

Da minha parte fiquei eu com pena de não ter uma parede lá em casa onde caiba esta "coisa":



Se calhar está na altura de mudar de casa....
porque no fim de semana, ao visitar o atelier do meu amigo Matthew Stradling ( www.matthewstradling.com ) fiquei completamente fascinado por isto:



que também não é pequenito...

Começo a compreender o problema do senhor Berardo. Tivesse eu o dinheiro que ele tem e também estaria à rasca para não deixar a arte à chuva.

Little sister

Chegou-me finalmente aos ouvidos o CD da Martha Wainwright, a irmãzinha do Rufus.
Eu já a tinha em grande conta desde "year of the dragon", a pérola maior do mui recomendável album "the McGarrigle hour" em que a familia McGarrigle/Wainwright se junta para cantar depois de uns copos.
Comprova-se que não só os filhos dos peixes sabem nadar, mas as irmãs também.
Seja bem vinda ao meu iPod, menina Martha!!

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

material girl

Para além de ter dado uns pénis (hihihi!) a um pedinte e ter contribuido significantemente para o enriquecimento da rede de transportes ingleses ainda gastei dinheiro em:

DVDs
Will and Grace - season 5 (20 euros mais barato que na FNAC chiado)
A casa das adagas voadoras
O Regresso
y tu mama tambien
Entrevista com o vampiro
...e mais um filme japonês cujo nome agora não me ocorre... (3 DVD a 17£ na HMV do aeroporto... e eu não resisto a pechinchas)

Livros
"time and the gods" - Lord Dunsany
"Soul of the fire" - terry goodkind
"Guilty pleasures" - Laurel K Hammilton
(3 livros por 18£ no quiosque do aeroporto....e eu não resisto a pechinchas)

ou seja, delicious trash!!!

Curiosamente 90% do meu tempo em livrarias foi passado na secção infantil. (os outros 10% na de FC e Fantasia)

O ponto alto da viagem foi o gigantesco dinossauro de Lego na secção de brinquedos do Harrod's.

A passagem (breve) por Old Compton Street só serviu para confirmar outra vez que não sou "gay profissional". Mas é sempre giro visitar a familia.

Confirmou-se ainda que o Mela em Convent garden continua a ser o melhor restaurante indiano do mundo. Enganei-me no menu e pedi "Jaquinzinhos" pensando que estava a pedir uma posta de peixe branco. Eu ODEIO jaquinzinhos. Mas quem diria que quando são fritos revestidos de cardamomo e servidos com molho de menta se tornam numa iguaria divina?... não há nada como ver os nosso preconceitos a cair por terra. Da próxima vez que lá for tenho de ver se servem mioleira ou tripas...

No final dei por mim a pensar que afinal, se calhar, um dia, até vou conseguir gostar de Londres.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

O truque do cao

A melhor coisa das viagens é o modo como de repente se vê as coisas de outra perspectiva. Depois de um fim de semana em Londres voltei cheio de saudades dos nossos multibancos e das nossas máquinas de venda de bilhetes de metro que dão troco a notas de 10. Também sou da opinião de que todos os países do mundo deviam ter a mesma moeda. É tão demodé ter de estar a fazer cambios. E controle de passaporte está definitivamente out. Afinal para que é que os ingleses estão na comunidade europeia?! Já é mais que tempo de fazer uma directiva europeia que os obrigue a conduzir no lado certo da estrada, a terem tomadas que não pareçam uma central electrica sovietica dos anos 50 e a usarem o sistema métrico e os graus centígrados.

De facto há momentos em que uma pessoa só pode ser a favor da uniformização pela simples razão de que facilita a vida a toda a gente. Mas depois, como não podia deixar de ser, vem o reverso da medalha. O momento em que o mundo se transforma na aldeia global e se percebe que as cidades se estão a tornar todas iguais. Quando um centro comercial em trás os montes tem as mesmas lojas (zara, macdonalds, body shop, benetton) que um em Londres, Berlin ou Badajoz. Quando os motoristas de autocarro de Londres se saem com as mesmas bocas foleiras dos de Lisboa. Quando se repara que o público que vai às sessões da cinemateca de Oslo parece feito de irmãos gémeos dos que vão às sessões da cinemateca de Lisboa...

Mas o que me saltou à vista em Londres foi o truque do cão, ou seja, a quantidade enorme de pedintes que usam um cão para atrair a caridade alheia. Porque comigo funciona! Depois de um treino de décadas a viver em grandes cidades o meu coração tornou-se impremeável a ciganitas descalças, ceguinhos estropiados, imigrantes esfomeados e à miséria humana em geral. Mas há qualquer coisa nos olhos de um cão que me parte o coração. (E deixo ficar a rima porque dá á frase um toque foleiro que é absolutamente genuíno). Por alguma razão chamei ao meu primeiro livro "olhos de cão".

Ao ver que em Londres, tal como em Lisboa, também há pedintes que passam o dia na rua abraçados ao seu cão tornou-se para mim evidente que a coisa é um truque. Uma construção, como a dos pedintes que exibem as suas chagas, feridas e membros decepados. E quando este pensamento me surge sinto-me indignado, ultrajado, enganado. Isto dura 3 segundos porque logo me surge outro pensamento sobre a minha caridade desumana. De como me consigo preocupar mais com um animal do que com um humano. Será isto mau? Bom não é de certeza...

Mas depois penso: O que é que de facto me comove no pedinte com cão?
Em Londres o que me fez puxar da moedinha foi um tipo que, sentado num cartão, indiferente à multidão que jorrava da saída do metro, beijava o seu rafeiro atrás das orelhas enquanto o abraçava. Naquele momento, o cão era a única coisa que importava no mundo para ele. Era o único sitio de onde lhe vinha qualquer coisa parecida com amor.
E quando percebi isso percebi que de facto estava a dar dinheiro áquilo que de facto me parece essencial no ser humano: a capacidade de amar incondicionalmente, que é uma coisa que só nos permitimos mostrar ao mundo através dos animais (porque é um amor asexuado e como tal livre de culpa, vergonha e moral). É esse o truque. E é por isso que vai continuar a enganar-me e a fazer-me procurar pela moedinha. Sempre.

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

signs of the times

Há 3 dias que lá em casa se vê os filmes da saga Alien. É extremamente divertido ver como cada filme tem em si as marcas visuais da sua década. A mais hilariante aparece em "Aliens". Na cena mais obscura, quando a menina Weaver se arma de metralhadora e lança chamas e entra no gigeriano ninho dos bichitos, houve alguém que conseguiu incluir no décor uns néons cor de rosa. É possível ser mais anos 80??!!!

as gajas

Curioso... hoje reparei que a grande maioria dos meus livros gay favoritos foram escritos por mulheres. Não sei o que isto quer dizer, mas é capaz de querer dizer alguma coisa:

"A sombra de Foulcault" - Patricia Duncker
"O jovem persa" - Mary Renault
"Salto Mortal" - Marion Zimmer Bradley
"Cry to heaven" - Anne Rice
"Entrevista com o vampiro" - Anne Rice

terça-feira, 9 de agosto de 2005

a pobreza

Nestas férias na Madeira apercebi-me de uma coisa que sempre me tinha passado um pouco ao lado: a pobreza cultural.
Com isto não estou a falar de populações privadas de cinemas, concertos, museus, etc... mas sim de pessoas que vivem quase como burros de palas nos olhos. E não o fazem por pobreza económica, opressão social, ou seja o que for, mas sim pelo que eu entendo como pura pobreza de espírito.

Passei as férias numa pequena aldeia no meio das montanhas e dei passeios pelo campo e fiz longas viagens de autocarro e uma coisa que prendeu a minha atenção foi como cada casita tinha sempre o seu quintalinho. É uma coisa simpática, mas na Madeira, a esmagadora maioria ocupa os seus quintalinhos com uma plantação de couves. Daquelas galegas, grandes, farfalhudas e que conseguem quase crescer como palmeiras.

Porquê?!

Não consigo perceber, sinceramente. Aquela ilha é abençoada por um clima e uma terra onde se pode plantar tudo o nos passar pela telha que a coisa há-de crescer feliz e sumarenta. Então porquê plantar couves? E porque é que TODA a gente o faz? E porque é que ocupam o quintal TODO com aquilo (estou a falar de 20 a 30 couves por quintal!!!)?

Vejamos:
1- A couve é das coisas mais baratas de comprar num mercado.
2- Uma família com uma dieta equilibrada não precisa de mais de duas ou três couves no quintal.
3- Um quintal familiar não produz couve suficiente para que a sua comercialização seja rentável.
4- Se toda a gente tem couves no jardim, ninguém compra couves.

Ocorreu-me que talvez houvesse um prato típico da Madeira que levasse muita couve. Mas para além do caldo verde não me ocorreu mais nada. Será que aquela gente come caldo verde ou cozido à portuguesa todos os dias?! O mal que isso não deve fazer ao ambiente familiar... Mas é que nem nos restaurantes (naqueles a que fui) se dá bom uso á couve!

Sinceramente, não percebo. Se se tem uns bons metros quadrados atrás da casa capazes de nos abastecer a dispensa com qualquer verdura, do kiwi ao pimento, da hortelã à marijuana, porquê insistir nas couves? Só pode ser pobreza. Cultural.
E é triste, porque não se vê remédio para isto e nem sequer se pode culpar o governo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

o que e que a baiana (nao) tem?

Comprei a série "Carnivale - a feira da magia" em DVD por puro impulso consumista. Afinal 12 episódios de uma hora pela módica quantia de 25 euros pareceu-me um bom negócio. E é. A série é bastante interessante e tem uma direcção de arte irrepreensível (e um genérico lindo!). E no entanto...
...no entanto fica-se com aquela sensação de que aquilo é uma espécie de Twin Peaks mal conseguido. É que o David Lynch engana-nos muito melhor e consegue-nos por a achar que por trás de coisas gratuitamente cripticas há uma qualquer verdade profunda. Aqui é mesmo só o verniz. E é transparente.
Ainda assim, infinitamente melhor que ver qualquer dos 4 canais. (eu não tenho cabo).

...ah, e o rapazito do papel principal é um querido e está sempre suado e a lavar-se num alguidar :-)

o regresso

É duro regressar. Depois de duas semanas a olhar para o verde a ouvir os passarinhos a cidade é mesmo um assalto aos sentidos.
Como eu já previa, acabei por não escrever mais do que uma dúzia de linhas. Em compensação li uns bons milhares:

"Harry Potter and the half blood prince" - J. K. Rowling
É mais do mesmo mas continua a saber bem como sempre. Aliás, este é melhor que o anterior.

"The naked civil servant" - Quentin Crisp
Não sei porque é que não li isto antes... é GENIAL!

"Salto mortal" - Marion Zimmer Bradley
Já andava para ler isto há anos mas finalmente aconteceu. 870 páginas em dois dias. Foi como comer algodão doce.

"Thursbitch" - Alan Garner
Não percebi metade mas acho que não perdi muito. Bonito.

"Eleven on top" - Janet Evanovich
Estes também são sempre a mesma coisa mas parto-me sempre a rir. Nem ao 11º volume isto perde a graça.

"Aristoteles and the secrets of life" - Margaret Doody
Estava à espera de melhor. Um policial na grécia antiga com Aristoteles a fazer de Sherlock holmes. "O nome da rosa" cumpre melhor mas ainda assim passou-se bem o tempo.